SMARIO

Capa 

Sumrio 

Folha de Rosto 

Folha de Crditos 

Dedicatria 

PRLOGO 

CAPTULO 1 

CAPTULO 2 

CAPTULO 3 

CAPTULO 4 

CAPTULO 5 

CAPTULO 6 

CAPTULO 7 

CAPTULO 8 

CAPTULO 9 

CAPTULO 10 

CAPTULO 11 

CAPTULO 12 

CAPTULO 13 

EPLOGO 

AGRADECIMENTOS 

ENTREVISTA COM A AUTORA



Traduo
 Ana Lcia Rodrigues



Ttulo original: Yesterdays Sun
 Copyright  Amanda Valentine 2012
 Copyright  2014 Editora Novo Conceito
 Todos os direitos reservados.

Nenhuma parte desta publicao poder ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer meio, eletrnico ou mecnico, incluindo fotocpia, ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmisso de informao sem autorizao por escrito da Editora.

Esta  uma obra de fico. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos so produto da imaginao do autor. Qualquer semelhana com nomes, datas e acontecimentos reais  mera coincidncia.

Verso digital - 2014

Produo editorial:
 Equipe Novo Conceito

Este livro segue as regras da Nova Ortografia da Lngua Portuguesa.

Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
 (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Brooke, Amanda
 A escolha do corao / Amanda Brooke ; traduo Ana Lcia Rodrigues. -- 1. ed. -- Ribeiro Preto, SP : Novo Conceito Editora, 2014.

Ttulo original: Yesterdays sun.
 ISBN 978-85-8163-458-6

1. Fico inglesa I. Ttulo.

14-00990 | CDD-823

ndices para catlogo sistemtico:
 1. Fico : Literatura inglesa 823


Rua Dr. Hugo Fortes, 1885 - Parque Industrial Lagoinha

14095-260 - Ribeiro Preto - SP

www.grupoeditorialnovoconceito.com.br



Para Jessica e Nathan,

Por fazerem de mim o que sou:

uma me.






PRLOGO

Um dos ponteiros do relgio passou por cima do outro, marcando aquele breve e irreversvel instante em que um dia termina e outro comea. Holly estava deitada na cama, acariciando a barriga alta e acalmando seu beb ainda no nascido do tremor de medo que atravessou seu corpo, to irrefrevel quanto os ponteiros do relgio.

Ela estava deitada de costas e teve que fazer um esforo considervel para se virar de lado. Precisou manobrar seu volume cuidadosamente enquanto abafava os incontveis gemidos, pois temia acordar Tom, que estava virado para o outro lado, roncando baixinho. Holly se aconchegou a ele at sentir os cachos desalinhados roarem em seu nariz. Ela inspirou profundamente, deliciando-se com o cheiro quente e doce.

- Amo voc - murmurou Holly.

O som da voz dela foi quase inaudvel, mas a verdade era que Holly j se tornara uma especialista em manter as coisas s para si. Passara muitas noites insones, deitada ao lado dele, lutando contra a nsia de quebrar o silncio e contar a Tom que o dia em que ela teria que deix-lo se aproximava cada vez mais.

- Hoje  o dia - disse Holly a ele. - Voc vai se tornar pai. E que pai incrvel vai ser. Mas no ser fcil. Vai pensar que no  capaz de lidar com a situao, mas isso no  verdade. Vai ficar furioso comigo por deixar vocs dois, mas acabar entendendo. Um dia, voc olhar para a nossa filha e saber o que eu sei. Saber que ela valeu o sacrifcio.

Tom se mexeu, inquieto, ainda adormecido, e Holly prendeu a respirao. No queria acord-lo... ainda no. Mas precisava se desculpar em voz alta, mesmo no querendo que ele escutasse. Aquele era um dos ltimos itens em sua lista de coisas a fazer. Isso e dar  luz,  claro.

Holly passara os ltimos meses se preparando para a chegada da filha e, to importante quanto isso, se preparando para partir da vida do beb e do marido. Tom amava Holly por sua obsesso em fazer planos, algo que beirava a neurose, mas at ele ficaria chocado ao descobrir como ela se preparara bem para este dia. E de que outra forma Holly poderia morrer em paz?

- Eu te amo - repetiu Holly. Uma lgrima solitria rolou por seu rosto, e ela sentiu que o que sabia pesava mais do que o beb que carregava. - Sinto muito por no ter lhe contado, por no ter podido lhe contar. Mas  que, por mais apavorante que tudo isso seja para mim, teria sido insuportvel para voc. Tive que tomar algumas decises duras e aprendi do modo mais difcil que as melhores decises nunca so as mais bvias. Tambm aprendi outra coisa. Que o amor permanece, s vezes das formas mais impressionantes. Eu prometo que estarei ao seu lado nas horas mais difceis.

Holly deixou escapar um soluo e, dessa vez, foi alto o bastante para despertar Tom. Ele se virou sonolento na direo dela.

- Voc est bem? - murmurou Tom, ainda tonto de sono, mas logo acordou de vez, assustado. - Est na hora?

- Na hora? No, ainda no - assegurou Holly, sem conseguir disfarar um sorriso triste. O tempo havia sido um inimigo desde o momento em que eles haviam se mudado para a antiga casa da guarda, que agora chamavam de lar. Isso fora apenas 18 meses atrs, e os pensamentos de Holly voltaram ao momento crucial, quando o tempo comeou a se esgotar.






CAPTULO 1

Holly fechou a porta da frente e se apoiou contra ela, deixando escapar um enorme suspiro de alvio. A equipe que fizera a mudana fora milagrosa e transformara a concha vazia onde haviam chegado naquela manh em algo que Holly agora podia chamar de lar. A casa j fora uma imponente casa da guarda, localizada na entrada da majestosa Hardmonton Hall. Mas agora a manso no passava de runas, e a casa da guarda, localizada bem prximo  cidadezinha de Fincross, fora completamente esquecida. Apesar das paredes de pedra cinza e da pintura em mal estado, Holly se apaixonara pela casa. Ela suportara o teste do tempo muito melhor do que o prdio principal e parecia o lugar ideal para construir um lar e se acomodar, talvez para sempre.

Ainda encostada na porta, Holly deu uma olhada furtiva para seu reflexo de corpo inteiro no espelho que fora deixado encostado na parede, esperando para ser pendurado. A casa, ou melhor, o lar dela, podia ter melhorado de aparncia ao longo do dia, mas ela mesma estava parecendo um lixo. Seus cabelos longos e louros costumavam ser seu grande trunfo para compensar o resto de uma aparncia que Holly considerava bastante comum, mas os cabelos agora estavam presos em um rabo de cavalo malfeito. A pouca maquiagem que ela aplicara no incio do dia j no passava de uma lembrana, e agora eram visveis as rugas minsculas no canto dos olhos azuis amendoados.

Holly torcia para que estivesse parecendo apenas cansada, no velha. Afinal, tinha 29 anos e sentia que sua vida estava s comeando. Estava casada havia apenas dois anos, aquela era a primeira casa de que ela e Tom eram realmente proprietrios e a primeira chance que tinham de fincar razes.

Holly ignorou seu reflexo no espelho e olhou ao redor, para o novo cenrio. O hall de entrada seguia por um corredor at o centro da casa e tinha uma porta  esquerda que levava a uma pequena sala de visitas, onde eles montariam o escritrio de Tom. A porta  direita levava a um cmodo maior, que seria a sala de estar. Ali, atravs da porta entreaberta, era possvel ver as bem conhecidas peas de moblia em seu novo ambiente. A moblia tipicamente urbana fazia um forte contraste com as paredes revestidas de papel florido e com o piso de madeira, mas Holly tinha um gosto bastante inusitado e apreciava a mistura de estilos.

- J chequei a lista, e acho que est tudo feito - disse Tom, aparecendo na porta mais distante, no fim do corredor, que levava  cozinha.

Tom parecia ainda mais desarrumado do que Holly, com seus jeans e camiseta muito desbotados. Aquele visual no destacava em nada o corpo alto, magro e musculoso que Holly sabia estar escondido ali embaixo. A diferena entre eles dois era que o visual desleixado era normal para Tom. Ele estava sempre interessado demais no mundo ao redor para prestar ateno em si mesmo. Aquilo provavelmente era o que fazia dele um jornalista to bom. Tom era caloroso e prximo, jamais bajulador ou intimidador, e as pessoas costumavam se abrir facilmente com ele.

Holly resistira ao impulso de arrum-lo, principalmente porque adorava o contraste entre seu prprio estilo e o do marido. Holly era uma artista e, quando no estava enfiada at os joelhos em gesso e tinta, gostava de se vestir com capricho em combinaes contrastantes de roupas vintage e contemporneas, um estilo que tambm se via refletido em seu trabalho. O outro motivo por que ela aceitava o estilo desarrumado de Tom era puramente egosta. Ele passava tempo demais fora de casa, trabalhando, e Holly no queria que o marido impressionasse demais outras mulheres.

- Que lista? - perguntou Holly, desconfiada. - Ainda h toneladas de trabalho a fazer. Vamos levar semanas para conseguir tirar tudo das caixas e arrumar devidamente. E depois ainda teremos que pensar em redecorar.

- No a lista de mudana de casa - corrigiu-a Tom. - A LISTA. - Ele vinha caminhando lentamente na direo de Holly, com a mo esquerda aberta diante do rosto, checando um pedao de papel imaginrio na palma da mo. Tom parou diante dela.

- Voc tem noo de que est olhando para uma mo vazia?

Tom ignorou-a.

- Encontrar um namorado. Feito! Encontrar uma galeria de arte para exibir seu trabalho. Feito! Casar-se. Feito! Conseguir uma clientela seleta para comprar seu j mencionado trabalho artstico. Feito! Juntar dinheiro suficiente para poder deixar o emprego. Feito! - A cada vez que dizia Feito!, Tom usava o indicador da outra mo como uma caneta para fazer uma marca imaginria ao lado de cada conquista.

- E, por fim? - perguntou Holly, j sabendo a resposta.

Tom se aproximou mais.

- Mudar-se para o campo e viver feliz para sempre.

- Feito - sussurrou Holly segundos antes de Tom beij-la.

Depois de um espao de tempo indecente, Tom se afastou para recuperar o flego.

- E acredito, Senhora Corrigan, que tenha completado sua lista uns seis meses antes do prazo previsto.

- Acredito que esteja certo, Senhor Corrigan - respondeu Holly com ar presunoso.

Talvez presuno fosse a palavra errada. Eternamente grata era melhor. Holly trabalhara duro em seu plano de vida de cinco anos, mas, na verdade, seu sucesso ao encontrar o marido perfeito e uma carreira que vinha desabrochando fora mais obra da sorte do que de planejamento. Na verdade, ela devia aquilo tudo a um contador bbado.

Quando Holly tinha 25 anos, formou-se na escola de arte com um monte de elogios, mas nenhuma ideia de como iria se sustentar somente com seu talento. A partir de ento, viu-se fazendo malabarismos em inmeros empregos de meio-perodo para dar conta das despesas. Esses empregos foram se acumulando conforme ela atravessava os anos de faculdade e, quando se formou, continuou com eles, at que passaram a consumir tanto de sua rotina que a arte se tornou um luxo que ela no podia mais se permitir, pois sequer conseguia encontrar tempo ou energia para trabalhar em suas prprias obras.

Sua epifania aconteceu em uma noite, na forma de um homem de meia-idade que entrou cambaleando, j bbado, no bar em que Holly trabalhava na poca. O homem - que viria a ser o heri dela -, depois de vrias tentativas, conseguiu se sentar diante do balco do bar e logo fez Holly refm de seu interminvel monlogo sobre a vida maravilhosa que levava e a recente promoo que recebera em uma importante firma de contabilidade. Foi s quando o bbado contou a Holly sobre como a promoo era parte do seu plano de cinco anos que ela, uma fantica por listas, comeou a prestar ateno. De repente, Holly percebeu quanto a sua prpria vida era sem objetivos. Ento ela se perguntou por que no poderia ter sucesso se aquele bbado intil havia conseguido. Naquela noite, Holly foi para casa e no conseguiu dormir at ter colocado no papel os objetivos que queria alcanar nos prximos cinco anos.

Um ano depois, j estava em um novo rumo. Havia trocado sua coleo de empregos de meio expediente por um trabalho de perodo integral em uma emissora de TV, na produo, onde finalmente estava fazendo bom uso de seu talento. Isso tambm significava que Holly tinha tempo livre suficiente para desenvolver seus trabalhos artsticos e at para receber ocasionais encomendas atravs do contato com uma galeria de arte local.

O prximo item da lista era a vida amorosa. A princpio, Holly no esperava que algo acontecesse at o terceiro ano, mas Tom chegou antes do tempo. Ele fora  emissora de TV para fazer uma entrevista de emprego, e sara de l algumas horas mais tarde, no apenas com um novo emprego, mas tambm com uma namorada.

Holly o vira vagando entre os adereos de palco, obviamente perdido. Tom sara da entrevista inebriado por ter sido contratado como correspondente especial de assuntos relacionados ao meio ambiente, mas o que comeara como uma expedio para bisbilhotar o estdio rapidamente se transformou em uma jornada sem fim por um labirinto.

Tom Corrigan no era exatamente o que Holly havia imaginado como marido. Na verdade, os dois no poderiam ser mais diferentes. Para comear, havia o bvio contraste entre a aparncia de ambos. A figura alta, bela e morena de Tom parecia evidenciar ainda mais a compleio plida e mida de Holly. E tambm havia outras diferenas fundamentais. Ela era organizada, ele no. Ela antecipava e se preparava para o fracasso, enquanto Tom via cada contratempo como uma oportunidade. Holly admitia quando precisava de ajuda; Tom, o homem que acabara de ser contratado para viajar por todo o pas, no era capaz de admitir que no conseguia encontrar o caminho para sair do estdio de TV. Depois de esbarrar com Holly naquele passeio decisivo pelo estdio, ele nem pensou em mencionar que estava perdido, e se ofereceu para ficar por ali e ajud-la at que ela terminasse o trabalho do dia. Ento, ele a acompanharia at a sada e a levaria para jantar.

- Posso ver as engrenagens girando em sua mente - avisou Tom, arrancando-a de seu devaneio. - J est comeando o novo plano de cinco anos?

- Estou bem satisfeita trabalhando nas minhas listas atuais, obrigada - retrucou Holly. - Tirar tudo das caixas, redecorar, montar meu novo ateli, isso sem mencionar a nova encomenda para a Senhora Bronson.

- Plenamente feliz? - perguntou Tom, entre surpreso e debochado.

Holly sorriu.

- Muito feliz. Possivelmente muito, muito feliz.

- Muito possivelmente? - disse ele, erguendo uma sobrancelha com uma expresso travessa nos olhos.

- Pode desistir! - Holly encarou-o com severidade. - Vamos ficar parados aqui no corredor o dia todo discutindo sobre o meu nvel de felicidade ou vamos fazer algum uso dos outros cmodos?

- Que boa ideia... Que tal eu pegar o champanhe e me encontrar com voc no quarto em precisamente dois minutos?

- Acho que temos um plano... - respondeu Holly, mas Tom j estava indo para a cozinha.

NA MANH SEGUINTE, Tom e Holly relutavam em sair da cama com a mesma intensidade com que haviam desejado se jogar nela na noite anterior. Tom estava de licena do trabalho por duas semanas, portanto no havia despertador exigindo a ateno de ambos, nenhuma rotina predeterminada a cumprir, nada a fazer a no ser terminar de esvaziar as caixas da mudana e explorar os arredores. Eles s precisavam sair da cama.

A cama ficava de frente para uma enorme janela, que mostrava um amplo jardim, vizinho a um amplo pomar e, mais alm, a ampla rea rural inglesa. Era uma linda manh de primavera, e o sol estava fazendo o melhor possvel para tirar os novos moradores do seu sono profundo. Os insistentes raios de sol brincavam de fazer desenhos nas cortinas brancas de linho, desciam pelas paredes de um azul plido, escorregavam pelo piso de madeira polida e se aproximavam furtivamente do rosto adormecido de Holly, provocando-a para que acordasse.

Os primeiros pensamentos dela rapidamente tomaram a forma de uma lista de todas as coisas que precisavam ser feitas, providncias urgentes que disputavam sua ateno. Holly silenciou esses pensamentos, dobrou e guardou mentalmente a nova lista. Essas tarefas podiam esperar. Queria saborear ao menos um dia com o marido na casa nova, sem nenhuma expectativa a atender seno as de ambos. O tempo para aproveitar a casa com Tom seria escasso nos prximos meses.

Logo depois que negociaram a compra da casa da guarda - que haviam escolhido especificamente porque ficava a uma pequena distncia de Londres -, Tom recebeu o convite para um novo cargo. Era uma oferta irrecusvel, principalmente porque a emissora de TV estava passando por um doloroso processo de reorganizao, e Tom era um dos poucos sortudos. Ao menos ele conseguiria manter o emprego, embora passasse a ter mais responsabilidades diante das cmeras, cobrindo poltica e meio ambiente. E ele tambm sabia que viajaria com mais frequncia. A clusula que previa viagens longas e constantes em seu contrato foi posta em prtica mais cedo do que Tom esperava, e a primeira misso dele era passar um perodo de seis semanas na Blgica - mais do que Tom ou Holly haviam imaginado.

- Est acordada? - perguntou Tom.

- Ah - respondeu Holly, virando-se para ele, de modo que os dois ficaram com os narizes colados.

- Nossa, que hlito matinal! - implicou Tom.

- Olha quem fala, voc est cheirando como um homem...

- Obrigado.

- Eu no terminei - corrigiu-o Holly. - Voc est cheirando como um homem que passou a noite lambendo o tapete de um desses pubs bem velhos, onde os sapatos grudam no cho. Na verdade, at posso ver parte do tapete colado em sua lngua.

- Ento voc no quer um beijo?

- Tem certeza de que consegue suportar meu hlito matinal? - desafiou ela, deixando o ar escapar de propsito depois de cada palavra.

- Estou disposto a arriscar se voc no se incomodar com uma boca cheia de tapete de pub velho. - Tom estendeu a lngua e lambeu a ponta do nariz de Holly.

- J tive coisas piores na boca.

- Isso agora  um desafio. - Ele sorriu.

- No apenas voc tem uma lngua que cheira a esgoto como sua mente  o prprio esgoto.

Tom aproximou o corpo, deixando sua mo escorregar pelas costas de Holly enquanto encaixava as pernas entre as dela. Foi um movimento conhecido e bem ensaiado que o colocou sobre ela e deixou-a ofegante.

- Posso dizer coisas sujas se voc quiser... - ofereceu Tom.

Holly passou os braos ao redor do pescoo do marido e deixou os dedos descerem pelas costas dele. Escondida na sombra do corpo de Tom, ela podia sentir a luz da manh que brincava nas costas dele.

- Muito sujas?

- Bem... - disse Tom. Ele disse a palavra em um longo e provocante sussurro, ento sorriu. Ou foi uma careta? - No estou falando de um plano de cinco anos.

- Espero que no - retrucou Holly. Ela estava observando fixamente as curvas da boca do marido, a umidade dos lbios dele, a lngua que via de relance. Holly pressionou mais o corpo contra o dele, encorajando-o.

- Ah, no - falou Tom, ignorando o desejo flagrante da esposa. - No estou nem falando de sete anos. - Ele beijou o nariz dela. - Nem de dez.

Holly enfiou os dedos nas ondas fartas dos cabelos dele. Ela esticou o corpo para beij-lo, mas Tom afastou a cabea. Ainda no havia acabado de provoc-la.

- Eu devo estar falando de uns vinte anos... Maldio, no, sou pervertido o bastante para chegar a quarenta anos.

- Voc tem uma mente doentia, Tom Corrigan - afirmou Holly. O corpo dela vibrava em antecipao, e ela se contorceu sob o peso do marido. Tambm podia provoc-lo.

- Quero um plano que nos acompanhe at estarmos velhos e senis, nesta casa, cercados pela nossa famlia, nossos filhos, os filhos de nossos filhos e, talvez at, os filhos dos filhos dos nossos filhos.

Por uma frao de segundo, o corpo de Holly ficou rgido. Ento ela fechou os olhos com fora e tornou a abri-los, na tentativa de afastar um lampejo de medo em seu olhar. Holly forou um sorriso, na esperana de que Tom no houvesse percebido sua reao, na esperana de conseguir recapturar a magia do momento, mas, sem dvida, o balo de paixo que antes estava cheio de ar agora se esvaziara.

- O que foi? - perguntou Tom, com uma expresso confusa que deixou o corao de Holly apertado. - A ideia de termos filhos a assusta tanto assim?

- No - mentiu Holly.

- Assusta, sim - insistiu Tom. Ele deslizou o corpo para a cama, ao lado da esposa, e se apoiou nos braos. O momento de paixo sem dvida havia se perdido.

- Quero filhos - insistiu Holly. - O que me incomoda  a parte de ser me.

- Voc quer me dar filhos. Isso  diferente de voc mesma quer-los - corrigiu-a Tom, e seu tom de voz era uma mistura de preocupao e frustrao. - E voc pode ser e ser uma boa me. Sabe que essa no  uma caracterstica hereditria.

Tom estava,  claro, referindo-se  infncia de Holly. Ela era o fruto de um lar despedaado - desfeito muito antes do amargo divrcio que se seguiu. A me de Holly fora embora de casa quando a filha tinha apenas oito anos, mas em vez de se sentir abandonada, a menina na verdade se sentiu aliviada. A me tivera at ento um comportamento perverso em relao  filha e dera apenas crueldade no lugar de amor, desprezo em vez de proteo. Depois do divrcio, Holly vira pouco a me, e, quando chegou  adolescncia, a me j havia sucumbido a uma morte prematura graas ao abuso de lcool.

O pai, por sua vez, era um homem distante e completamente desinteressado da filha, e de certo modo isso o tornava to cruel quanto a me. Ele deixara Holly de lado, e ela se criara sozinha. Por isso, depois que Holly se mudou para o alojamento da universidade, aos 18 anos, ela nunca mais voltou ao lar de sua infncia. Nem mesmo para o funeral do pai.

- Sei que no  hereditrio, mas as pessoas aprendem pelo exemplo. Voc no tem ideia do quanto  sortudo pela famlia que tem. Sua famlia  to... to... - Holly no conseguiu encontrar as palavras. Tom sabia tudo sobre a infncia dela, mas jamais poderia entender realmente o que era crescer sem a segurana de uma famlia amorosa. -  to linear - disse ela, por fim.

- Linear? - Tom riu da escolha da palavra. - O que isso significa?

- Voc tem uma me e um pai que o amam e o apoiam, e eles tiveram pais que os amaram e os apoiaram. Seus avs provavelmente tiveram pais fantsticos tambm, e assim deve ter sido, gerao aps gerao.

Os pais de Tom eram maravilhosos aos olhos de Holly e s vezes ela ainda se pegava surpresa por eles a terem aceitado na famlia e por a amarem como se fosse um deles. Ser parte de uma clssica famlia fora um aprendizado emocionante e intenso para Holly. Quando, recentemente, a av de Tom, Edith, faleceu, Holly testemunhou em primeira mo como a famlia se apoiou mutuamente em busca de foras para suportar o momento. Ela viu como o amor de todos por Edith de algum modo ergueu uma ponte sobre o vazio que a morte dela deixara em suas vidas.

- No somos assim to perfeitos - retrucou Tom. - Temos ovelhas negras na famlia.

- Ah, vocs so perfeitos, sim. Comparados com a minha famlia, so. - Holly tocou com carinho a lateral do rosto de Tom. - E se eu for o elo fraco que acabar rompendo a corrente perfeita que  a sua famlia? E se eu no conseguir aprender a ser o tipo de me que sua famlia vem construindo ao longo de geraes?

- No ouse pensar em si prpria como uma pessoa fraca! Sim, seus pais foram fracos, e isso teve efeito sobre voc. Mas foi o efeito oposto. Voc  a pessoa mais forte que eu conheo. Seus pais foram pssimos, mas isso s significa que voc far de tudo para ser a melhor me possvel. Precisa acreditar nisso, Holly.

O corpo de Tom havia ficado tenso, e Holly podia sentir a raiva crescendo dentro dele. E ela sabia que essa raiva era dirigida tanto aos pais dela quanto a ele mesmo, por no ser capaz de cur-la, de destruir os demnios de seu passado.

- Sei que preciso acreditar em mim mesma - cedeu Holly, embora no acreditasse realmente que conseguiria fazer isso. Mas Tom no descansaria enquanto ela no tivesse seu prximo plano organizado. No que ele precisasse de um plano para seguir adiante. Tom era um esprito livre que preferia resolver as coisas conforme elas surgiam em sua vida. Mas ele estava com 32 anos e desesperado para ser pai ou ao menos para saber que um dia seria.

As lgrimas se acumulavam nos olhos de Holly, transformando a luz do sol em torno da cabea de Tom em um halo enevoado. A nica coisa que ela conseguia ver claramente eram os olhos verdes e suaves dele.

- Ei, voc est chorando! - disse Tom, parecendo chocado.

Holly piscou, em uma tentativa de afastar as lgrimas.

- No estou, no - mentiu ela, desafiadora.

- Ah, esqueci... Voc nunca chora.

- Choro, sim. No estou fazendo isso agora, mas choro.

- Quando?

Holly parou para pensar, lutando para encontrar um exemplo recente que provasse a Tom que ele estava errado.

- Quando vimos aquele filme, aquele em que o cachorro morria.

Tom franziu o cenho, como se estivesse tentando se lembrar. Ento disfarou uma gargalhada.

- Isso deve ter sido h uns dois anos, acho que nem ramos casados ainda.

- Mas eu chorei. Est provado.

- Est certo, est provado - concedeu Tom. - Mas no quero for-la a fazer nada que voc no queira. Tive esperanas de que quando Lisa tivesse o beb dela, e depois Penny, voc quisesse seguir o mesmo caminho. Mas vejo que no vai ser assim to simples. Se voc ainda no est pronta para comear a falar de bebs, eu compreendo.

Lisa e Penny eram o mais prximo que Holly podia chamar de amigas, em Londres, e elas haviam tido bebs com um intervalo de um ano de uma para a outra. Holly sabia que Tom ficara desapontado quando ela no se tornara milagrosamente interessada diante da viso de um recm-nascido. Mal sabia ele que o entusiasmo dela para se mudar para o campo fora em parte alimentado pelo desejo de colocar a maior distncia possvel entre sua vida e as interminveis conversas sobre bebs.

- Assim que eu colocar a casa em ordem, vamos comear o prximo plano de cinco anos. Um plano conjunto dessa vez. E fazer um beb com certeza estar na lista - disse Holly.

- Um beb? No singular? - perguntou Tom. O corpo dele voltara a relaxar, e ele a estava provocando novamente. - J olhou para este corpo?  a mquina mais competente de fazer bebs que j se viu. Voc no ser capaz de olhar para mim sem ficar grvida.

- Espere um pouquinho, garanho. - Holly sorriu, relaxando tambm. - Acho que essa sua mquina de fazer bebs se beneficiaria muito de um pouco mais de prtica.

- Seu desejo  uma ordem - retrucou Tom.

J estava na hora do almoo quando eles finalmente conseguiram se levantar para explorar o restante da casa.

OS DIAS PARECIAM PASSAR em um borro, e a partida de Tom parecia estar cada vez mais perto, aproximando-se dolorosamente rpido. Eles arrumaram todas as caixas da mudana, limparam tudo o que precisava ser limpo e renovaram o mximo de coisas que podiam com o oramento que tinham. As economias que restaram j haviam sido separadas para pagar a reforma da casinha anexa, que seria transformada em um ateli para Holly.

Os pais de Tom j haviam feito uma visita - eles levaram presentes e at ajudaram com trabalho braal para transformar a antiga casa da guarda em um lar. Como era tpico de Diane e Jack, eles haviam ficado tempo o bastante para ajudar, mas no estenderam a visita. Sabiam, sem que fosse necessrio lhes dizer, que Holly e Tom tinham apenas duas semanas para aproveitar um ao outro antes que ele viajasse.

Antes de partir, Diane se certificara de que a cozinha estava organizada e que a despensa estava cheia com o que era essencial. Ela tambm se entusiasmou com a ideia de ajudar a nora em um de seus novos projetos. Holly queria aprender a cozinhar. O pai dela lhe ensinara o bsico, para garantir que ela o mantivesse bem alimentado, mas o bsico se limitava a abrir latas de feijo em conserva, colocar refeies prontas no micro-ondas, fazer macarro instantneo, esse tipo de coisa. Agora que estavam vivendo longe das entregas de fast-food e no havia mais um restaurante em cada esquina, Holly estava pronta para ampliar seus talentos. A partida para o campo era mais do que uma mudana de endereo. Holly queria que fosse tambm uma mudana de hbitos.

- A casa  linda, Holly. Jack e eu estamos to felizes por vocs dois! - dissera Diane, enquanto arrumava com a nora uma quantidade impressionante de utenslios de cozinha. - E mame tambm ficaria. Saber que o legado dela ajudou voc e Tom a comearem uma nova vida alivia um pouco a dor da perda.

- Lamento tanto que Vov Edith no esteja aqui para ver como seu dinheiro foi bem utilizado.  muito importante para mim e para Tom que vocs estejam satisfeitos com o modo como usamos a herana que ela deixou.

-  um investimento no futuro de vocs.  aqui que tudo comea para voc e Tom. Aqui iro construir uma famlia.

Diane deu um abrao em Holly e no percebeu o lampejo de dvida que nublou a expresso da nora. Holly s desejava ter o mesmo tipo de autoconfiana que toda a famlia Corrigan parecia ter.

Trs dias antes da data marcada para a viagem de Tom, a lista de pendncias de Holly estava toda checada e a casa estava oficialmente arrumada. Os operrios j haviam comeado a trabalhar no anexo e, enquanto Holly ficava satisfeita por sentar e deixar a obra por conta deles, Tom obviamente sentiu-se de algum modo ameaado em sua masculinidade e encarou seu prprio desafio fsico limpando o jardim, que estava bastante necessitado.

Holly resolveu deixar os homens com suas atividades e ficou dentro de casa, trabalhando nos esboos de sua nova encomenda. A Sra. Bronson era a jovem esposa de um homem muito rico e muito mais velho do que ela. Para celebrar o nascimento do primeiro filho de ambos - que veio se somar aos vrios filhos que o marido tivera em muitos outros casamentos e relacionamentos amorosos -, a Sra. Bronson queria marcar a ocasio com uma escultura. Teria que ser uma pea marcante, que se tornaria uma presena permanente, em destaque no hall de entrada da manso do casal.

Naturalmente, o tema da escultura era me e filho. E, exatamente por causa do tema, Holly relutara em pegar o trabalho, que levaria pelo menos seis meses para ser terminado. Mas o pagamento era bom demais para ser recusado.

Naquela manh, ela arrumara os blocos de esboo  sua frente, no ateli improvisado em casa, cheia de boas intenes, mas com uma bvia falta de inspirao. Dinheiro apenas no era incentivo bastante para fazer sua criatividade fluir. Ela simplesmente no conseguia alcanar a mesma profundidade de sentimento que costumava ter quando esquematizava um projeto. No sabia nada sobre o vnculo milagroso entre me e filho de que todos falavam sem parar.

Holly no conseguia se lembrar de um nico instante de sua infncia em que houvesse sentido esse tipo de vnculo. Quando criana, ela passara a maior parte do tempo se sentindo solitria ou amedrontada. Holly fora concebida quando a me era adolescente. Um casamento precipitado e uma filha indesejada haviam sido um choque terrvel para a garota, que no estava preparada e no tinha a menor vontade de abrir mo de sua liberdade.

Com uma criana pequena para cuidar, a vida social da me de Holly fora muito prejudicada, por isso ela costumava levar para dentro de casa o estilo de vida pelo qual tanto ansiava. Holly tinha lembranas vvidas de uma casa sempre cheia de gente - ou se recuperando da ltima festa, ou esperando pela prxima. A me era sempre o centro das atenes, danando descala pela casa, houvesse msica ou no. Ela sempre parecia mais feliz quando estava danando, e todos eram atrados em sua direo - inclusive Holly, como uma mariposa atrada pela luz -, ansiosos por compartilhar daquela empolgao. Holly se lembrava de uma vez em que a me a pegara no colo e girara com ela pela sala, fazendo com que a filha gargalhasse de prazer... Mas Holly nunca teve certeza de fato de isso realmente ter acontecido ou no. Ela desconfiava que fosse apenas uma falsa lembrana, um sonho que ela ansiara muito ver transformado em realidade. As lembranas em que Holly realmente podia confiar eram da me parando de danar e apontando um dedo acusador na direo da filha antes de proclamar para todos ouvirem que aquela era a criatura que arruinara sua vida. A expresso no rosto da me era do mais puro dio, e era essa a imagem que vinha  mente de Holly toda vez que ela pensava na maternidade.

At conhecer Tom, Holly no tivera oportunidade de conhecer pais amorosos e responsveis. Quando era pequena, vivia isolada das outras crianas, cujos pais j a tinham rotulado de criana-problema, por causa de sua vida familiar. Quando adolescente, ela fora naturalmente atrada para outros jovens rfos que haviam sido expulsos do ninho cedo demais.

A arte de Holly fora sua tbua de salvao de vrios modos. Fora uma forma de escapismo, uma parte da vida de Holly que ela conseguia controlar e na qual obtinha sucesso. Alm disso, pensando em retrospecto, fora tambm uma forma efetiva de terapia. Ela colocara muito da raiva que sentia em seus primeiros trabalhos, e foi s aps conhecer Tom que Holly descobriu que tambm poderia expressar emoes positivas em sua arte. O amor entre um homem e uma mulher ela agora entendia; o amor entre uma me e um filho, ainda no. Em relao a isso, Holly estava diante de uma folha em branco.

Ela passara duas horas esboando imagens, mas ainda no chegara a nenhuma ideia que fosse suficientemente original ou instigante. Rascunhara algumas imagens bvias de uma me abraando o filho, da me amamentando a criana ou ainda da me beijando o filho. Angustiada com a necessidade de conseguir uma nova perspectiva, Holly chegara a rascunhar uma imagem do momento do nascimento. Provavelmente aquele no era o tipo de escultura que a Sra. Bronson gostaria que recepcionasse seus convidados na entrada de casa.

Holly teria uma reunio com a cliente em menos de uma semana, e estava comeando a se questionar se deveria ou no desistir de vez do trabalho. Se fosse adiante e acabasse produzindo uma pea abaixo do seu padro, isso poderia prejudicar sua reputao, que ainda estava em estgio embrionrio. Por outro lado, voltar atrs em um acordo tambm prejudicaria sua carreira.

Ela deixou o bloco de esboos de lado e foi para a cozinha. O cmodo era grande, com espao suficiente para uma mesa de jantar no centro. Talvez tivesse sido o anexo que fizera Holly se sentir atrada pela propriedade, mas fora a cozinha a responsvel por ela e Tom comprarem o lugar. Os mveis de madeira eram pintados de branco, as paredes eram verdes, e o cho de terracota se estendia alm da porta dos fundos, at um pequeno terrao que levava a um jardim imenso - embora um tanto indomado - e ao campo aberto mais alm.

Holly espiou pela janela da cozinha, procurando por Tom. Ela no conseguiu v-lo em meio ao emaranhado de rvores e arbustos, mas sabia onde ele estava pelos sons de galhos se quebrando e de alguns xingamentos ocasionais. Ela ignorou a vontade de sair para investigar o que ele estava fazendo e comeou a picar legumes - cultivados por produtores da regio,  claro - para fazer uma grande panela de sopa que alimentasse Tom e os operrios.

- O que voc pensa que est fazendo?

Holly deu um pulo, por pouco no cortando o dedo, em vez de um pedao de cenoura. Logo dois braos envolveram sua cintura. Tom a vira do jardim e entrara sorrateiramente em casa.

- Sabia que no deve assustar uma mulher armada e perigosa? - avisou Holly, brandindo a faca de cozinha.

- Voc  sempre perigosa.  capaz de fazer picadinho de mim, com ou sem faca. - Tom se inclinou e beijou a nuca da esposa.

- No fique a me enrolando. Quero aquele jardim novo em folha antes que voc desaparea de novo.

- Olhe aquilo, mulher! - disse Tom, com ar de puro deslumbramento, apontando para o jardim. - J consegue ver a transformao?

Holly deu uma olhada na direo em que ele apontava e protegeu os olhos com a mo, para dar um efeito mais dramtico.

- No, nada - Ela riu.

- Eu fiz praticamente uma montanha com todas as folhas e galhos que limpei. At dei um trato no seu arbusto...

- Um homem de reconhecido talento literrio baixando o nvel da conversa com insinuaes bobas... - comentou Holly. - E o jardim est me parecendo uma baguna.

- Bem, ele vai parecer melhor quando todo o entulho for levado embora - retrucou Tom, emburrado. - S preciso que algum use seu charme feminino para convencer os operrios a me ajudarem a recolher o lixo.

- Bem, estou ocupada, caso voc no tenha percebido. V usar seu prprio charme feminino com eles. Tenho certeza de que ficaro impressionados.

Holly deixou Tom implorar um pouco mais antes de ceder. Ela estava secretamente feliz por ter uma desculpa para checar a obra. O anexo ficava mais para trs, na lateral da casa, e parecia ter sido usado como oficina em algum momento no passado. Era uma construo de apenas um andar com cerca do dobro do tamanho de uma garagem para dois carros. Graas a Billy, o contramestre, eles haviam conseguido adiantar bastante a obra na semana anterior e j haviam tirado duas caambas grandes de entulho l de dentro. Por sorte, o telhado no precisaria ser todo trocado, mas estavam instalando claraboias para aumentar a claridade. As paredes internas haviam sido derrubadas, e nas paredes externas novas janelas seriam instaladas. Cada vez que Holly aparecia por l para checar o progresso da obra, o ateli parecia estar ficando mais iluminado.

O lugar estava em um frenesi de atividade, e Holly encontrou Billy empilhando entulho em um carrinho de mo. O contramestre devia estar prximo da idade de se aposentar, mas no mostrava sinais disso enquanto erguia enormes blocos de cimento com facilidade. Ele tinha um rosto redondo que disfarava as rugas e ainda tinha bastante cabelo - que devia ser grisalho, embora Holly no pudesse ter certeza, j que o homem parecia ter uma camada permanente de p nos cabelos, que os tornava quase brancos.

- Como est indo a obra, Billy? - gritou Holly acima do barulho das ferramentas.

- O eletricista vir amanh, ento acredito que na prxima semana vamos passar massa nas paredes e dar os ltimos retoques.

- Voc  um contramestre incrvel, de verdade!

Billy abriu um sorriso.

- Fico feliz em ser til. Pode contar comigo sempre que precisar - falou ele. - No sou como aquele seu marido. J disse antes e vou voltar a dizer: ele no deveria deix-la aqui sozinha, indefesa.

- Sim, Billy, voc j disse isso, vrias vezes. E, como eu tambm j lhe disse, posso cuidar muito bem de mim mesma - repreendeu-o Holly. quela altura ela j estava acostumada s opinies antiquadas de Billy e, em vez de tom-las como ofensa, at gostava de ser tratada como o sexo frgil, principalmente se isso fazia com que ela o tivesse na palma da mo.

- Se precisar de alguma coisa,  s pedir - disse ele, com uma piscadela gentil.

- Bem, h uma coisa... - comeou a dizer. - Mas  aquele meu marido quem precisa de ajuda.

- Estvamos observando enquanto ele limpava aquela selva de vocs - falou Billy. - Nos divertimos muito com isso durante toda a manh, com certeza.

- Alguma chance de uns dois rapazes darem uma mo para levar o entulho embora? Tenho uma panela de sopa no fogo e, para acompanhar, uma tonelada de po crocante esperando por vocs - disse Holly, batendo as pestanas para aumentar o charme.

- Seu desejo  uma ordem - concordou Billy. - Mas, j que est aqui, talvez queira dar uma olhada em algo que descobrimos enquanto limpvamos o lugar.

Billy pegou uma caixa de madeira que estava em um canto, junto a uma pilha de material de construo. Tinha o tamanho de uma caixa de sapatos e, embora fosse difcil ter certeza, pois estava coberta por camadas de p, parecia ser feita de carvalho, com dobradias de lato e um fecho simples. Havia entalhes nas laterais da caixa, mas eles tambm estavam cobertos de poeira, e era impossvel distinguir os detalhes.

- Voc a abriu? - perguntou Holly, sentindo uma empolgao crescente. A caixa no parecia conter um punhado de joias, mas era enfeitada o bastante para sugerir que guardava algo de valor.

Billy levantou o fecho e abriu a tampa. A empolgao de Holly sumiu em uma nuvem de poeira antiga quando ela espiou o conjunto de objetos mecnicos que havia l dentro. A caixa era dividida em duas partes e continha uma esfera de vidro em um dos lados e vrias engrenagens e suportes do outro.

- O que  isso? - perguntou ela.

- No tenho a menor ideia - respondeu Billy. - Considere um presente meu para voc. - Ele deu outra piscadela.

- Obrigada, Billy, voc sabe mesmo mimar uma garota.

Holly levou a caixa para dentro da casa e deixou-a de lado para terminar de preparar o almoo.

A sopa foi um sucesso, a julgar pela velocidade com que foi devorada pelos operrios, e logo depois os homens foram ajudar Tom a limpar o jardim. Holly no estava com pressa para voltar aos seus esboos, e ento decidiu se ocupar da misteriosa caixa de madeira. Ela abriu alguns jornais velhos sobre a mesa e comeou a limpar delicadamente a caixa e seu contedo com gua e sabo, usando uma escova de dentes velha. Tecnicamente falando, a escova de dentes no estava velha naquela manh, quando Tom a usara, mas agora estava.

A caixa no dava nenhuma pista de seu propsito, a no ser por alguns belos entalhes de sol, lua, estrelas e o que pareciam faces de um relgio. A esfera foi o item mais fcil de limpar. Tinha cerca de cinco centmetros de dimetro, e, depois de tirar o p, Holly viu que era feita de vidro transparente. Tinha uma superfcie absolutamente lisa, mas no centro havia um pequeno prisma prateado que refletia a luz. O prisma cintilava suavemente sob a luz quente do sol. Holly deixou a esfera de lado e concentrou seus esforos nas engrenagens. Livre do p e da sujeira, o metal cintilou, e foi ento que ela percebeu as inscries feitas na extremidade de cada uma das engrenagens maiores. Elas estavam desbotadas e ilegveis em alguns pontos, mas Holly conseguiu decifrar algumas palavras. Reflexo, Chave, e ela desconfiava que a outra era Tempo.

- Descobriu outra coisa que fazer para evitar a temida Senhora Bronson? - perguntou-lhe Tom. Ele estava coberto de arranhes por causa do trabalho pesado, mas, quando Holly espiou pela janela, teve que admitir que o jardim estava comeando a tomar forma.

- Billy descobriu isso no anexo. Eu estava limpando, mas ainda no tenho a menor ideia do que seja - Holly mostrou ao marido a inscrio na engrenagem.

- No tempo, o reflexo  a chave para a viagem - leu Tom.

O queixo de Holly quase caiu.

- Como diabos voc conseguiu ler isso? Algumas palavras esto completamente apagadas.

Tom deu um sorrisinho de superioridade.

- Como eu j disse vrias vezes, tenho talentos ocultos.

-  uma frase conhecida? Nunca a escutei antes... O que significa? - quis saber Holly.

- No tenho a mais remota ideia. - Tom deu de ombros.

- Tom...? - falou Holly, agora desconfiada.

- Sabe aquela coluna de pedra no meio do jardim que no parece ter nenhuma serventia? Pois bem, encontrei o que parece ser a parte de cima dela escondida sob o mato crescido. Se encaixa perfeitamente. E essa parte que encontrei tem a mesma inscrio.

- Mostre-me - insistiu Holly, deixando o conjunto de engrenagens de metal recm-polidas cintilando sobre a mesa da cozinha.

A placa de pedra estava virada para baixo na terra, meio escondida por anos de folhas cadas. Era de um cinza profundo, com reflexos de quartzo cintilando aqui e ali. Apesar de trabalhar com uma ampla gama de materiais em suas esculturas, Holly no conseguiu reconhecer o tipo de pedra. A placa era perfeitamente redonda e, como Tom havia descrito, tinha uma inscrio, que naquele momento estava de cabea para baixo, circundando a parte externa. Tambm havia um buraco grande no centro da placa que, ao que parecia, se encaixava perfeitamente no topo da coluna.

- Considerando que ela estava enterrada debaixo desse monte de folhas velhas,  impressionante que esteja to limpa - disse Tom, balanando a cabea, impressionado.

Holly passou os dedos pela superfcie fria e lisa. E logo sentiu um formigamento, como se a pedra emitisse uma corrente eltrica suave. Ela afastou a mo.

- Veja se sente alguma coisa esquisita quando passa a mo nela - disse Holly, sem saber se havia imaginado a sensao.

Tom olhou para ela, confuso, e passou a mo na superfcie da placa.

-  a sensao de encostar em uma pedra - assegurou ele. - O que esperava que eu sentisse?

Holly, hesitante, tocou novamente a pedra e, dessa vez, no sentiu nenhum formigamento. Ela balanou a cabea, afastando a ideia.

- Nada,  bobagem minha. Ser que conseguimos mover essa placa?

- Para fazer o qu com ela? Voc acha mesmo que vamos conseguir encaix-la na coluna?

- Sim,  claro. - Holly j podia ver o crculo de pedra perfeitamente equilibrado sobre o topo da coluna, ocupando um lugar central no jardim. A placa precisava retornar ao seu lugar de direito, e Holly no descansaria at que a movessem para l.

- Tem certeza de que no quer pedir aos operrios?

- Voc  um homem ou um rato? - Ela estava parada com as mos nos quadris, desafiando-o.

- Sou um homem,  claro. Mas no ajuda nada que a minha nica parceira no crime seja uma mulher fracota.

- Vamos logo com isso - avisou Holly.

Ela colocou as mos novamente sobre a pedra, quase esperando que o poder latente que sentira pudesse ajud-los na tarefa de ergu-la. Tom se juntou  esposa, e os dois enfiaram as mos na terra para encontrar um ponto de apoio. Enquanto erguiam a placa, o rosto de Tom foi ficando de um belo matiz violeta, e ele gemia e grunhia. Holly juntou-se a ele em cada gemido e podia sentir as veias do pescoo latejando com o esforo. Depois do que pareceu uma eternidade carregando o peso, os dois pousaram a pedra no cho para descansar.

- Nada mal - arfou Tom.

- Sim - ofegou Holly. - Ns conseguimos mover uns... quinze centmetros. - Ela olhou para a coluna, que ainda estava a uns bons seis metros de distncia. - Nesse passo, vamos levar trs dias e duas hrnias para chegar l.

Tom e Holly ouviram um rudo de desaprovao atrs deles. Ela se virou e viu Billy balanando a cabea.

- Senhor C, estou desapontado com o senhor. Deveria pensar melhor antes de tratar sua esposa como um operrio qualquer - falou o homem, antes de se virar para os companheiros que o haviam seguido at o jardim. - Sem ofensa, rapazes.

Holly estava prestes a dizer a Billy que, at onde sabia, levantar peso era um risco ocupacional. Mas pensou melhor.

- Meu cavaleiro de armadura brilhante - disse.

Tom gemeu enquanto tentava esticar as costas.

- Meu tambm - falou ele, e piscou para Billy.

O contramestre e sua equipe ergueram a placa de pedra como se ela no pesasse nada e em dois minutos a colocaram sobre a coluna.

- Esperem! - gritou Holly. Ela havia percebido que a inscrio ainda estava de cabea para baixo.

Com um pouco mais de esforo, a placa foi virada e recolocada no topo da coluna. E se encaixou perfeitamente. Todos se reuniram  volta da mesa recm-montada para examin-la.

-  um relgio - disse um dos companheiros de Billy.

- E ele est me dizendo que  hora de voltar ao trabalho - retrucou Billy, oportunamente.

Os operrios sumiram da vista to rpido quanto haviam aparecido, deixando Holly e Tom sozinhos com seu quebra-cabea. O rapaz estava certo sobre a estrutura se parecer com um relgio. O topo tinha um mostrador entalhado com algarismos romanos, do mesmo jeito que um relgio tradicional. Havia tambm um buraco de cerca de cinco centmetros de profundidade no centro do mostrador, onde o topo da coluna no alcanava a superfcie. S ento Holly percebeu que havia fendas e ranhuras na parte superior da coluna e imaginou que ali provavelmente se encaixava o mecanismo do relgio... O mecanismo que, sem dvida, estava na caixa aparentemente intil que Billy descobrira. Alm da inscrio que se estendia por toda a borda externa, havia tambm vrios smbolos, similares aos da caixa, lindamente entalhados na superfcie da pedra.

-  um relgio de sol - disse Holly.

- Vai ficar uma beleza no jardim.

- Tudo o que preciso fazer agora  descobrir como encaixar todas aquelas engrenagens e faz-lo funcionar - disse Holly, ansiosa para retornar  cozinha e pegar a caixa de madeira com seu contedo.

- Bem, eu fiz todo o trabalho pesado, portanto deixarei o resto para voc. Ainda tenho muito que limpar aqui no jardim. A menos que voc queira me ajudar - ofereceu Tom.

- No ouviu o que Billy disse? No sou uma trabalhadora braal qualquer - retrucou Holly, sorrindo.

Ela passou o resto da tarde encaixando as peas do quebra-cabea. Quando terminou, todas as engrenagens estavam em seu lugar no centro do mostrador. Mais acima havia quatro garras, apontando na direo do cu, parecendo ansiosas para agarrar a esfera de vidro. Holly encaixou a esfera entre as garras, e ela ficou no lugar, embora as garras estivessem abertas demais para segur-la com firmeza. O reflexo do sol atingiu o prisma dentro da rbita, emitindo uma luz forte demais. Holly chamou Tom e os dois recuaram um pouco para admirar a nova pea central do jardim.

- Achei que um relgio de sol usasse sombra, no reflexos do sol - falou Tom, estreitando os olhos na direo da luz intensa refletida pela esfera. Ele tentou empurr-la mais fundo no mecanismo para ver se as garras se fechariam ao se redor, mas o mostrador rangeu e se recusou a se mover. - Parece que voc no encaixou isso direito.

Holly empurrou Tom.

- O que foi?

- Voc no deve forar as garras assim.

- Como sabe? - perguntou Tom.

- Simplesmente sei - retrucou Holly, franzindo o cenho. No sabia nada sobre relgios de sol, mas aquele a deixava inquieta. Ela retirou a esfera e a colocou de volta na caixa.

- Vou colocar isso em algum lugar seguro. No acho uma boa ideia ficar refletindo a luz do sol pelo jardim dessa maneira, quando ainda temos tantos galhos secos por aqui.

- Se isso foi uma indireta, ento vou voltar ao trabalho. O tempo voa.

As palavras de Tom causaram um arrepio em Holly. Ela teve uma sbita sensao de mau pressgio que no soube explicar.






CAPTULO 2

A casa parecia vazia. Tom partira para a Blgica de manh bem cedo. Holly ficou agarrada a ele at o txi chegar. O marido precisou soltar os dedos dela da lapela de seu palet enquanto lhe dava um ltimo beijo - um beijo que teria que durar pelas prximas seis longas semanas.

- No vai demorar. Estarei de volta antes que voc se d conta. Alm do mais, so apenas duas horas de distncia de avio. Se precisar de mim, posso voltar em um pulo.

- Eu deveria ir com voc. De quem foi essa ideia estpida de eu ficar em casa?

- Sua - respondeu Tom, o mais gentilmente possvel.

Ele estava certo, fora mesmo ideia dela. Holly precisava aceitar que estava em um momento decisivo de sua carreira, e ela sabia disso. Sair da cidade no momento em que seu trabalho estava comeando a receber boas avaliaes fora um enorme risco. Sair do pas naquele momento seria quase um suicdio profissional.

Ela voltou para a cama, onde se deixou afogar na autopiedade enquanto sentia a distncia entre eles aumentar a cada minuto. Holly sabia que estava sendo mimada; afinal, j ficara sozinha antes. Podia cuidar muito bem de si mesma, mas no era essa a questo. Seu sonho fora se mudar para o campo com Tom, no sozinha. Enquanto ela permanecia deitada na cama, o canto alegre de um passarinho que acompanhava o alvorecer parecia debochar do seu desalento. Ao menos o clima parecia um pouco mais solidrio, j que nuvens de tempestade se acumulavam no cu. Holly puxou as cobertas por cima da cabea e se esforou para voltar a dormir. Ao menos era domingo e no haveria operrios para trabalhar na obra.

Os passarinhos j haviam se recomposto de sua histeria matinal e se contentavam com os piados ocasionais do meio da manh quando Holly vestiu o agasalho de moletom, prendeu os cabelos para trs e se arrastou at a cozinha para preparar um caf bem forte. Ento viu a xcara de caf de Tom, meio vazia e abandonada sobre a mesa da cozinha, e precisou morder o lbio para abafar um soluo que pareceu surgir do nada.

- Sua idiota pattica - disse a si mesma. - A escultura da Senhora Bronson no se criar sozinha.

Holly respirou fundo e colocou os ombros para trs, tentando encontrar motivao para comear o dia. Quando deixou o ar escapar, seu corpo murchou como um balo furado. Ela tentou novamente e, antes que sua determinao falhasse uma segunda vez, pegou a caneca de caf de Tom, lavou-a com carinho e a guardou fora da vista.

Armada com sua prpria caneca de caf, Holly foi arrastando os ps at o escritrio, onde sentiu o corao afundar um pouco mais no peito. Embora aquele lugar houvesse se tornado um domnio temporrio dela enquanto no era concluda a reforma do ateli, sempre havia pensado naquele escritrio como o lugar de Tom. Que, no entanto, no estava ali para reivindic-lo.

O escritrio ficava na frente da casa, tinha uma lareira aberta, uma janela saliente, e as paredes haviam sido forradas com um papel de parede florido, em tons pastel - o essencial para garantir a sensao de aconchego e prazer de um chal no campo. Com o humor que tinha naquele momento, Holly s conseguia ver um cmodo nada convidativo, vazio e frio de partir o corao. As linhas modernas, simples, da moblia que ela e Tom haviam trazido da cidade no pareciam mais um contraste interessante e peculiar, e sim o embate violento entre dois mundos absolutamente diferentes. Holly estava comeando a desconfiar de que jamais se acostumaria  vida no campo.

A decorao a distraa demais; portanto, depois de uma tentativa desanimada de dar incio ao trabalho, Holly se levantou e foi para a sala de estar, mais espaosa. Ali havia janelas que davam tanto para a frente quanto para os fundos da casa, mas, mesmo com muito mais luz natural para trabalhar, ela no conseguiu se concentrar.

Ela acabou voltando para a cozinha, o nico cmodo que no tinha a inteno de modificar. A nica moblia que haviam acrescentado foi uma mesa grande de madeira que pertencera  Vov Edith. A mesa tinha histria, uma boa histria.

Ali, por fim, Holly conseguiu fazer com que seus pensamentos se voltassem para o trabalho. O encontro com a Sra. Bronson seria dali a apenas trs dias. Holly j tinha algumas ideias que achava que combinariam com o gosto da cliente, mas ainda no fora capaz de encontrar nada a que pessoalmente tivesse vontade de se dedicar. Precisava acreditar na pea se pretendia trazer o projeto  vida. Holly aceitara o trabalho por razes puramente financeiras e no se sentia nada orgulhosa disso. Mas o resultado final no seria apenas uma consequncia do dinheiro que ganharia: a conscincia dela no permitiria. Holly no estava preparada para produzir algo que no quisesse assinar.

Ela pegou os dois nicos esboos que conseguira produzir at ali. Um era de uma me com o filho, os braos de um cruzados ao redor do outro em um crculo inquebrvel. O conceito no chegava a ser original, mas Holly pretendia fazer a pea mesclando uma pedra negra com outra branca, o que estava se tornando uma marca pela qual vinha sendo reconhecida. O segundo esboo mostrava a imagem sinuosa de uma me girando o filho no ar. Esse desenho tinha mais energia do que o primeiro e era o preferido de Holly at ali. No entanto, ainda faltava alguma coisa... Ela desconfiava de que o que faltava era uma conexo emocional entre as duas figuras, algo que ela mesma desconhecia, e isso ficava evidente nos esboos.

Holly foi arrancada de suas divagaes por uma batida na porta. Ela desceu o corredor e checou rapidamente a aparncia no espelho, que agora estava devidamente pendurado na parede perto da porta. Holly considerou seriamente a possibilidade de correr de volta para a cozinha para se esconder, em vez de assustar o visitante com seu rosto inchado e cabelos desalinhados. Se ainda morasse em Londres, aquilo teria sido fcil, mas ali, naquela cidadezinha rural, sentia-se obrigada a receber a visita. Relutante, Holly abriu a porta.

- Ol, voc deve ser Holly. Espero no estar atrapalhando. - Uma mulher de cabelos grisalhos, com olhos castanhos profundos, abrigava-se sob um enorme guarda-chuva de bolinhas brancas e azuis. A chuva atacava com vontade o guarda-chuva, mas, apesar de sua aparncia frgil, a senhora o segurava com firmeza.

- De jeito nenhum - mentiu Holly, esfregando as bochechas inconscientemente para trazer alguma cor ao rosto. Ela abriu a boca para continuar a falar, mas acabou se perdendo em um debate ntimo, perguntando-se se devia ou no convidar a mulher para entrar.

Seria uma senhora solitria, em busca de companhia? Uma bisbilhoteira em busca de fofoca para espalhar pela cidade? Ou uma vendedora bem disfarada, querendo lhe empurrar alguma mercadoria?  claro que a mulher poderia ser exatamente o que parecia: uma pessoa simptica que aparecera para dar-lhe boas-vindas  comunidade. No importava a resposta; o certo era que, se deixasse a senhora entrar, Holly sabia que podia esquecer o trabalho  tarde, mas tambm sabia que, se no fizesse a coisa certa nesse momento, seria relegada ao ostracismo na cidade. Ela fora avisada por alguns moradores da cidade de que, se aborrecesse a pessoa errada, a hostilidade decorrente poderia se estender por geraes. Esses moradores em particular nunca haviam posto o p para fora da cidade, e Holly sabia que estavam sendo alarmistas, mas, de qualquer modo, ela no queria correr nenhum risco.

- Talvez esta no seja uma boa hora para aparecer - comentou a mulher, compreensiva. - Sou Jocelyn e moro logo abaixo, na cidade. Resolvi dar uma passada rpida por aqui para me apresentar, mas, por favor, pode me dizer para ir embora se preferir. Na verdade, tenho a couraa de um rinoceronte, no ficarei ofendida.

- No, por favor! Onde esto as minhas boas maneiras? Entre!

Holly pegou o guarda-chuva e a capa de Jocelyn e guiou a visitante em direo  cozinha. Ela afastou rapidamente seus esboos da mesa e abriu espao para que Jocelyn se sentasse. A mulher olhou ao redor da cozinha e um sorriso gentil curvou seus lbios.

- Aceitaria uma bebida quente? - ofereceu Holly.

- No; sinceramente, no quero incomod-la.

- No  incmodo algum; ia mesmo tomar uma xcara.

A discusso educada no se estendeu, e Holly colocou uma chaleira com gua para ferver. Ento, passou a procurar nos armrios da cozinha xcaras de ch adequadas e alguns biscoitos para oferecer  convidada.

- Ouvi dizer que voc  uma artista de sucesso e agora entendo por qu. Esses desenhos so impressionantes - disse Jocelyn, tamborilando com o dedo um dos esboos que Holly havia afastado.

- Obrigada.  o que me mantm longe da confuso. - Holly encontrara poucas pessoas da cidade at ento. Durante as duas ltimas semanas, ela e Tom estavam envolvidos demais na companhia um do outro para se preocuparem em se apresentar aos vizinhos, contentando-se apenas com ols educados. No entanto, no deveria ficar surpresa ao saber que a rede de fofocas da cidade j os havia avaliado.

- Billy vem me contando tudo sobre seu novo ateli. Ele est muito orgulhoso do trabalho.

- Ah, entendo... - Holly na verdade no entendia e estava tentando ligar os pontos. Jocelyn devia conhecer Billy muito bem, mas ela parecia ter pelo menos uns 80 anos, enquanto Billy estava na casa dos 60. - Voc no  a esposa de Billy, ? - Holly sentiu o rosto ruborizar diante de sua prpria falta de tato.

- Santo Deus, no! - Jocelyn riu. - Ele  um bom amigo, e eu o adoro, mas s consigo aguent-lo em doses homeopticas.

Holly riu.

- Acho que entendo o que quer dizer. Ele realmente parece uma pessoa de hbitos e ideias arraigados. Billy deu uma bronca em Tom por viajar e me deixar aqui. - Presumindo que Jocelyn no soubesse que Tom havia viajado a trabalho, Holly explicou melhor. - Tom foi para a Blgica esta manh e ficar fora por seis semanas.

- Sim, eu sei, foi por isso que apareci, na verdade - admitiu Jocelyn, com um sorriso constrangido. - Billy achou que voc talvez precisasse de um ombro para chorar e, se no fosse eu, seria ele.

Holly se perguntou se alguma coisa da vida dela com Tom permanecia privada. Sem dvida, ela levaria algum tempo para se acostumar  vida em uma cidade pequena. Talvez houvesse algum tipo de comit na cidade a quem ela precisaria submeter seu prximo plano de cinco anos, pensou consigo mesma.

- Ora, obrigada por ser to atenciosa! - respondeu Holly com sinceridade. Os pais de Tom haviam prometido estar sempre em contato, mas eles moravam a duas cidades de distncia. Os poucos amigos dela estavam todos em Londres, e Holly comeava a perceber que o vazio que sentiu quando Tom partira tinha muito a ver com seu isolamento, alm da ausncia de pessoas na casa.

- Sem problemas - falou Jocelyn, dando um gole no ch e hesitando um pouco antes de continuar. - A verdade  que eu gostaria de dar uma espiada na casa. J faz muito tempo desde que estive aqui pela ltima vez.

-  mesmo? - perguntou Holly. - Voc conheceu algum que morou aqui antes?

- Eu morei aqui.

-  mesmo? - Holly repetiu a pergunta, dessa vez carregada de espanto. - Quando? Como era a casa? Por que se mudou? - As perguntas saam como uma enxurrada.

- Ah, isso deve ter sido pelo menos 25 anos atrs - explicou Jocelyn. - A ltima vez que estive nesta cozinha, os armrios eram todos de frmica, e as cores eram laranja e marrom.

- Os anos 1970 no que tinham de melhor - observou Holly.

- Voc pode imaginar. Mas me mudei daqui nos anos 1980. Meu marido no tinha muito jeito para decorao.

- E por que se mudou? Quem foram os proprietrios seguintes? - Holly estava ansiosa para saber toda a histria da casa que agora chamava de lar.

- Essa  uma longa histria - suspirou Jocelyn. - Eu deixei a casa porque deixei meu marido. Ele ainda morou aqui por mais alguns anos, e ento a casa foi vendida.

- Sinto muito. No tive a inteno de me meter em sua vida. - Mais perguntas surgiram na mente de Holly, mas ela teve o bom senso de mant-las para si.

- No tem problema. Guardo algumas lembranas muito boas desta casa e outras... - Jocelyn fez uma pausa e franziu o rosto, como se estivesse se preparando para fazer uma confisso. - Bem, outras no to boas. Espero que voc seja feliz aqui. Na verdade, tenho certeza de que ser.

Jocelyn estava mais disposta a contar a Holly sobre a cidade do que sobre sua prpria vida na casa da guarda. Ela se ofereceu para apresentar Holly  vida na cidade quando quisesse, ou quando sentisse que precisava de companhia. Jocelyn contou a Holly sobre as noites de jogos de perguntas e respostas em um dos pubs locais, sobre a noite de karaok em outro, para no mencionar todos os eventos beneficentes e noites de bingo no centro comunitrio.

- E h tambm,  claro, minha casa de ch, que fica em frente  igreja. S vou insistir em uma coisa: que voc passe por l esta semana para que eu possa lhe oferecer um ch da tarde.

Holly assentiu continuamente, sem encontrar resposta melhor. Jocelyn estava se mostrando o remdio perfeito para um corao solitrio.

- Eu vou - prometeu ela, por fim.

- No seja to educada comigo! Tenho certeza de que acha que no passo de uma intrometida incorrigvel - confessou Jocelyn. - Mas a verdade  que sei por experincia prpria como  fcil acabar isolada em uma cidade pequena. Voc parece ser uma jovem independente e determinada, mas s vezes isso pode ser um pouco negativo. Para mim, foi.

- O que quer dizer? - perguntou Holly, torcendo para que Jocelyn revelasse um pouco mais de sua histria.

- Voc me lembra um pouco eu mesma. Talvez seja por causa da ligao com a casa. Espero que seja apenas isso. Nasci e fui criada nesta cidade, mas tinha o sonho de construir uma carreira para mim, exatamente como voc, de abrir meu caminho no mundo.

- E o que aconteceu?

- Eu no tinha talento nenhum com que pudesse contar, ao contrrio de voc. Adiei o casamento o mximo possvel, mas no fim cedi  tradio. No sou de uma poca ou de um lugar em que era comum as mulheres terem a prpria carreira ou a prpria vida, para ser mais exata.

- Ento voc se tornou dona de casa? Nesta casa?

- Sim. A princpio foi bom de verdade. Meu filho nasceu, e meu marido tinha um bom trabalho. Ele era dono de seu prprio negcio de carpintaria.

- E o anexo  casa era sua oficina - adivinhou Holly. - E o que deu errado? Desculpe... a pergunta  pessoal demais?

-  uma longa histria. Uma longa, longa histria, e no vou aborrec-la com ela agora. J tomei demais seu tempo - retrucou Holly, tomando o resto do ch.

Holly sentiu-se um pouco desapontada. Seu interesse pelo passado da mulher havia sido despertado. Queria saber os detalhes e no se incomodaria nem um pouco se isso levasse o resto do dia.

Jocelyn se levantou e colocou os pratos e as xcaras na bandeja.

- No, por favor, no posso deixar que faa isso. Voc  minha convidada - reclamou Holly.

- Faa a vontade de uma velha senhora - disse Jocelyn, com um sorriso maldisfarado. - Gosto de limpar as coisas que uso. Alm do mais, quero olhar pela janela para ver melhor o jardim.

- Voc pode visitar a casa inteira se quiser - disse Holly, rindo.

- Isso seria um abuso, e eu realmente preciso ir.

- Ainda est chovendo - alertou Holly. - Tem certeza de que quer ir embora mesmo assim?

- Um pouco de chuva no vai me fazer mal. Alm do mais,  bom para o jardim. - Jocelyn se virou e olhou pela janela. Seu corpo pareceu encurvar-se quase imperceptivelmente.

- Tom comeou a trabalhar nele, mas acho que passou um bom tempo sem que ele fosse tocado - explicou Holly, sentindo necessidade de se desculpar pelo estado do jardim.

- Vejo que ressuscitou o relgio lunar. - Jocelyn encarava a mesa de pedra com intensidade.

- Relgio lunar? Est querendo dizer o relgio de sol?

Antes que Holly tivesse a chance de perguntar mais alguma coisa a Jocelyn, o telefone tocou. Era Tom. Ele chegara em segurana a suas acomodaes na Blgica.

- Vou deix-la a ss para atender - Jocelyn sinalizou com os lbios, sem levantar a voz.

Holly sentiu-se dividida entre ser uma anfitri atenciosa e falar com Tom. Pelo breve tempo em que Jocelyn estivera ali, Holly conseguira esquecer quo sozinha estava se sentindo, mas subitamente aquele sentimento voltou a apertar seu peito com fora. Ela pousou a mo sobre o ombro de Jocelyn.

- Obrigada - sussurrou.

Com uma srie de gestos determinados, Jocelyn insistiu para que Holly ficasse na cozinha e foi embora.

- Acabo de fazer uma nova amiga - contou Holly a Tom. - Ela quase conseguiu tornar o dia de hoje suportvel.

HOLLY SE PERMITIU um bom copo de vinho e um banho de espuma relaxante antes de dormir, uma combinao que ela esperava que pudesse garantir uma noite de sono tranquila. Embora no fosse nada fora do comum Tom passar algumas noites fora a trabalho, a viagem para a Blgica seria o tempo mais longo que passariam separados desde que haviam se casado. Para tornar a solido compartilhada menos cruel, Tom prometera reservar algum tempo toda manh e toda noite para falar com Holly ao telefone. Por isso, ainda com o copo de vinho na mo, deitada na cama e cercada por travesseiros macios, ela deixou que o marido sussurrasse doces bobagens ao seu ouvido.

Quando eles j no podiam mais adiar a hora de se despedir, Holly disse boa-noite com relutncia e desligou o telefone. Ela apagou as luzes, mas no conseguiu desligar a mente com a mesma facilidade. O plano cuidadoso para garantir uma noite tranquila acabou se perdendo em um emaranhado de pensamentos. A separao de Tom, a casa nova, a cidade, o trabalho para o qual no conseguia encontrar inspirao; tudo isso ficou girando na mente dela at bem depois da meia-noite. E, para surpresa de Holly, no foram os pensamentos sobre Tom - ou mais especificamente sobre a ausncia dele - que mais povoaram sua mente. Era Jocelyn.

Holly se afeioara imediatamente a Jocelyn. Quando a senhora chegara  sua porta, sem ser convidada, aquilo era a ltima coisa que Holly desejava no momento. Mas, no fim, ficara triste ao v-la partir. Ainda havia tanto que queria saber sobre os antigos ocupantes da casa da guarda, e Jocelyn a intrigava. Holly tinha uma forte intuio de que seriam boas amigas. A ideia a confortou e de certo modo apaziguou sua curiosidade.

Por mais que tentasse clarear a mente, o esforo acabava fazendo que Holly se concentrasse ainda mais nos pensamentos que estava tentando ignorar. As horas continuavam a passar enquanto ela virava de um lado para o outro na cama, at finalmente ser obrigada a admitir a derrota, esticar bem os braos e abrir os olhos. O brilho do relgio digital indicava que eram 2h07. A luz da lua se insinuava pela persiana da janela, enchendo o quarto com o humor muito lunar da natureza. O corao de Holly bateu com mais fora quando as palavras de Jocelyn ecoaram em sua mente. Vejo que ressuscitou o relgio lunar, dissera a senhora, bem no momento em que Holly se distraa com o telefonema de Tom. Seria aquilo que vinha inquietando a sua mente durante a madrugada? Se fosse, s havia um modo de afastar os demnios que mantinham o sono fora do seu alcance.

Holly cambaleou para fora da cama e abriu as persianas. Uma lua cheia perfeita se erguera acima do mar borbulhante de nuvens. A tempestade que assolara o dia era agora uma lembrana distante que se perdia na noite. Holly afastou os olhos da lua e abaixou-os para o jardim, que parecia uma pintura em uma centena de tons de cinza. E no foi o boto branco, que parecia piscar para ela do pomar, nem o narciso, que eventualmente parecia erguer uma cabea de um branco fantasmagrico contra a noite, que chamou sua ateno, mas o relgio lunar. Estava posicionado bem no centro do jardim, de modo a capturar todo o efeito do luar. O relgio praticamente cintilava.

Embora no soubesse explicar o motivo, Holly se sentiu atrada para o mostrador que brilhava, como se a convidasse. Depois que a ideia de olhar mais de perto surgiu em sua mente, ela no podia mais ignor-la. Holly quase riu da prpria tolice enquanto vestia uma camiseta, uma cala de moletom e se encaminhava para a escada. Ela calou um par de tnis e, antes de sair pela porta da cozinha, teve outra ideia igualmente irresistvel: pegou a caixa de madeira que continha a ltima pea do quebra-cabea que era o relgio lunar e levou-a consigo para o jardim.

A primavera ainda no afastara definitivamente o ar frio do inverno, e Holly tremia na brisa gelada da noite de abril. O solo estava mido e a grama, to alta que a cala de moletom que ela usava logo ficou ensopada at os joelhos.

Holly sentiu um n de ansiedade apertar seu estmago conforme se aproximava do mostrador. O jardim, que parecera negligenciado e lastimvel de dia, parecia ainda mais ameaador  noite, com o vento espalhando as folhas mortas por toda a parte, produzindo um som semelhante aos ecos de uma vida extinta.

Ela quase podia acreditar que estava sendo controlada por um titereiro, como uma marionete, quando colocou a caixa no topo do mostrador e abriu-a. Holly ergueu a esfera de vidro transparente para que captasse a luz da lua, e a esfera pareceu cintilar empolgada enquanto fragmentos de luz escapavam como faris do prisma guardado em seu mago.

Holly apoiou com muito cuidado a esfera no centro do mostrador, entre as garras de metal, e ficou observando como se estivesse hipnotizada a esfera absorver os fragmentos de luar at comear a cintilar como se tivesse vida prpria, tornando-se uma lua em miniatura, presa entre as garras do mostrador. O corao de Holly saltou quando o mecanismo tambm pareceu ganhar vida e, com um baque ancestral, o mostrador prendeu a esfera com firmeza entre suas garras. Em uma frao de segundo, finas faixas de luz saram da esfera cintilante - raios de luz comearam a girar como ponteiros enlouquecidos de um relgio fora de controle. Nesse momento, Holly levou a mo ao mostrador para segurar a esfera e uma corrente eltrica subiu pelo brao dela.

Holly retirou a mo instintivamente enquanto uma chuva de raios de luz cintilava ao redor dela. Suas pernas, frouxas por causa do choque eltrico, cederam, e ela caiu, batendo a cabea na lateral do mostrador. Holly caiu no cho com um baque surdo, e as estrelas se juntaram  dana alegre que ela mal conseguia distinguir por trs das plpebras fechadas. Ela podia ouvir o tiquetaquear constante do relgio se perdendo na distncia, o som sendo substitudo pelas batidas aceleradas do seu corao.

Ofegante e muito trmula, Holly tentou se acalmar respirando fundo vrias vezes. Ela inclinou o corpo para a frente e apoiou as mos no cho para se firmar e se recompor. A grama entre seus dedos parecia macia e viosa, como se ela estivesse ajoelhada em um gramado bem aparado, e no na confuso de mato alto que estava esperando.

Holly sentiu um medo irracional de no estar mais em seu prprio jardim, mas ainda no estava enxergando direito e s contava com as mos para se orientar e explorar o que havia  sua volta. Ela imaginou que a fora do espetculo de luzes do relgio lunar a derrubara mais longe do que havia percebido, mas ento tocou a superfcie da coluna sob o relgio. Era dura, fria, mas reconfortante por ser familiar. Holly usou o topo do mostrador como apoio e se levantou, ainda cambaleante.

Embora manchas brancas ainda atrapalhassem sua viso, ela conseguiu distinguir o vulto de outros pontos familiares do jardim. O pomar, o ateli, a casa. Ento Holly olhou de relance para o relgio lunar e seu corao quase parou de bater. A esfera e o mecanismo de metal haviam desaparecido, assim como a caixa de madeira que fora deixada sobre ele. Holly girou o corpo ao redor, procurando no cho, para o caso de terem cado ali perto, mas tudo o que viu foi um gramado perfeitamente aparado. Seu corao teria batido ainda mais rpido se isso fosse possvel. O que estava acontecendo?, perguntou-se.

Tremendo incontrolavelmente, Holly percebeu que no era apenas o choque que lhe provocava arrepios. A temperatura cara alguns graus, e a camiseta que usava era fina demais. Ela tentou acalmar o corpo trmulo concentrando-se em sua respirao, que saa em nuvens de vapor gelado que giravam no ar diante de seus olhos. A calma teve vida curta quando ela se virou para a casa, buscando o conforto do seu lar. Mais cedo, quando Holly caminhara atravs do jardim, o caminho fora revelado apenas pela suave luz da lua. No havia luzes artificiais vindo da casa, porque ela no acendera luz alguma. Agora, a janela da cozinha estava toda iluminada.

Holly s podia deduzir que a batida na cabea afetara seus sentidos e talvez sua memria estivesse lhe pregando peas. Ela respirou fundo e se permitiu um momento para ter noo do que estava ao seu redor. No ajudou.

Alguma coisa estava errada naquela imagem. Correo: muitas coisas estavam erradas naquela imagem, mas ela no estava conseguindo processar os pensamentos direito. Conforme se aproximava da casa, sua mente no conseguia mais negar a nica coisa que sua sanidade se recusava a reconhecer. Havia um jardim de inverno bem na frente da casa, correndo por toda a largura da sala de estar at a porta dos fundos. O jardim de inverno estava s escuras, mas uma luz suave cintilava na sala de estar, mais alm.

Com passos cambaleantes e uma sensao de perda da realidade, Holly se arrastou na direo da porta que levava  cozinha. Mas, em vez de entrar direto no que supostamente era a sua casa, ela espiou pela janela da cozinha como se fosse um ladro. Para seu alvio, no havia ningum ali, mas, assim que se deu conta dos detalhes, Holly sentiu um arrepio de terror se juntar  confuso crescente e  ansiedade que a dominavam. A cozinha ainda era a cozinha dela - os mesmos armrios, o mesmo fogo, a mesma geladeira, at a mesma mesa -, mas com certeza no era a cozinha que ela deixara para trs ao sair de casa. Holly comeou a se perguntar qual teria sido a gravidade da batida em sua cabea para que conseguisse explicar a enorme variedade de coisas para bebs que estavam empilhadas em todas as superfcies.

Ela s conseguiu se convencer a seguir em frente ao repetir para si mesma que estava experimentando algum tipo de alucinao. Queria apenas entrar na casa, refugiar-se em sua cama e bloquear de vez o universo alternativo que sua mente parecia haver criado ao seu redor, em um espetculo de horror particular. Ela caminhou na direo da porta dos fundos e tentou abri-la, mas no conseguiu girar a maaneta. Embora sentisse o metal frio e slido, a mo de Holly parecia no conseguir aplicar a presso necessria para abri-la, e Holly se perguntou se isso no seria uma consequncia do choque que tomara ao encostar no relgio lunar. Ela envolveu a maaneta com mais fora - provavelmente a que seria necessria para abrir os portes de um castelo - e finalmente conseguiu abrir a porta e adentrar o seu pesadelo.

A cozinha tinha um cheiro diferente, uma mistura de comida caseira e leite quente, em oposio ao aroma de macarro instantneo e vinho ranoso que esperava encontrar. Holly no se sentia forte ou confiante o bastante para ir muito alm na cozinha, por isso descansou o corpo contra um armrio prximo. Ela esperou e ouviu, torcendo para que ao menos um de seus sentidos ainda estivesse funcionando racionalmente. No queria ouvir nada alm do silncio costumeiro de uma casa vazia, mas no demorou muito para que sua audio se juntasse  brincadeira que a estava levando aos limites da sanidade. Holly ouviu vozes a distncia, vindas de outros cmodos, mas se aproximando. Quem quer que estivesse na casa, havia acabado de entrar no corredor. Ela relanceou o olhar entre a porta dos fundos, que era seu nico meio de fuga, e a porta que levava ao corredor e que poderia ser aberta a qualquer momento.

Holly decidiu permanecer firme onde estava. Aquela era a casa dela, tinha todo o direito de estar ali. Ento por que se sentia uma estranha em seu prprio lar? Ela conseguia distinguir duas vozes, uma masculina e outra feminina. Eram baixas e abafadas, e Holly no conseguia compreender o que diziam por causa das batidas aceleradas do seu prprio corao. Ela agora ouviu o rangido familiar quando a porta da frente se abriu.

Com um breve momento para relaxar diante da ameaa de uma confrontao iminente, Holly tentou dar-se conta da realidade. O que estava acontecendo com ela? Isso seria realmente uma alucinao? A batida na cabea teria criado a iluso? Teria ficado desmaiada por mais tempo do que imaginava? Ser que passara dias inconsciente no jardim, enquanto um bando de intrusos se apossara de sua casa? Por mais implausvel que aquilo soasse, Holly quase preferia acreditar nessa hiptese a admitir um problema com seu estado mental.

Ela atravessou a cozinha e estava a ponto de se arriscar a espiar o corredor quando a porta se escancarou  sua frente. Holly ofegou e recuou cambaleante enquanto uma figura surgia diante dela.

- Tom! - gritou Holly. - Graas a Deus voc est aqui.

Ela esticou os braos na direo do marido, mas logo congelou. O homem  sua frente parecia-se com Tom, mas havia tantas coisas diferentes nele que Holly ficou perplexa. Os cabelos estavam muito curtos, muito mais curtos do que ela j vira desde que o conhecera. Mas no foi isso o que mais a surpreendeu. Ele no parecia desleixado, como era seu normal. Tom estava arrumado, elegante. Mas ainda no foi isso o que fez o corao de Holly congelar. Foram os olhos dele. Os lindos olhos verdes de Tom olhavam na direo de Holly e passavam direto por ela. Os olhos dele estavam inexpressivos, pareciam mortos.

Tom se afastou de Holly sem sequer registrar a presena da esposa. Ele pegou um par de luvas de couro femininas que estavam sobre um caderno, na mesa da cozinha.

- Eu as encontrei - disse ele, antes de se virar e sair da cozinha.

Quando a porta se fechou e Holly foi deixada sozinha mais uma vez, ela se sentiu tonta. Finalmente, lembrou-se de respirar. Foi preciso cada gota de calma que lhe restava para cambalear na direo da porta onde Tom desaparecera. Para abrir apenas uma fresta, ela precisou de um esforo muito maior do que acharia necessrio. Tom estava parado na porta da frente, de costas para ela. A me dele, Diane tambm estava ali, parada no batente da porta, com a mo apoiada no brao de Tom, conversando com ele. Uma terceira pessoa estava parcialmente refletida no espelho, e Holly imaginou que fosse seu sogro, Jack.

Ela precisou refrear o desejo ardente de correr para os braos de Tom e exigir que ele fizesse tudo voltar a ficar bem. Ento Holly se lembrou do modo como ele olhara atravs dela, e o medo a fez ficar exatamente onde estava.

- Voc sabe onde estamos se precisar de alguma coisa - dizia Diane a Tom.

- Eu sei, mame. Vamos ficar bem.

- Sei que todos concordamos que este  o momento certo para deixar voc tomar conta de si mesmo, mas, se precisar de mim...

- Eu sei - insistiu Tom. - Sei onde encontr-los.

- Deixe o garoto sozinho, Di - disse Jack. Um brao foi passado ao redor da cintura de Diane, enquanto Jack tentava levar a esposa embora.

- Ela  uma coisinha to pequenina, to frgil. Caso se sinta inseguro em relao ao que fazer, escrevi tudo no bloco que est sobre a mesa. E pode me ligar a qualquer momento. Ligue se precisar.

- Farei isso, mas voc sabe que est tudo organizado. Holly tinha arrumado at a ltima fralda, deixou tudo planejado para a chegada de Libby. Isso me faz pensar que ela sabia que jamais voltaria do hospital para casa. - A voz de Tom falhou por causa da emoo, e ele abafou um soluo. - Sei que no tenho como substituir Holly, mame, mas prometo que vou tomar conta do nosso beb. Pagamos um preo muito alto para t-la.

- Pobre Holly. Est tudo errado. Ela teria sido uma me to boa. Por que ela... - Diane no terminou a frase, simplesmente deixou as lgrimas rolarem pelo rosto.

- Voc pode dizer a palavra, mame. No  algo que d para eu esquecer - falou Tom. - Ela morreu. Holly morreu.

Holly agarrou a maaneta da porta. Fosse por medo ou determinao, seu tato pareceu ter-se recuperado, e a maaneta ficou mais firme sob seus dedos, embora no pudesse dizer o mesmo de sua sanidade. Ela mal conseguia respirar... Era como se o choque houvesse arrancado todo o ar de seu corpo. Estava fraca. Holly sentiu vontade de sair correndo, mas no conseguia afastar os olhos da cena de terror que estava se desenrolando diante de seus olhos, como um acidente de carro acontecendo em cmera lenta.

- No quero mais falar sobre isso - insistia Jack agora. - Combinamos que voltaramos para casa hoje. Concordamos que seria melhor assim.

- Mas faz menos de um ms. O mundo de Tom foi virado de ponta-cabea! - argumentou Diane.

- Papai est certo - disse Tom, endireitando o corpo para demonstrar que estava firme em sua deciso. - Se no fizermos isso agora, ficar cada vez mais difcil.

- E, se voc continuar a chorar, no vai conseguir ver o caminho at o carro - avisou Jack.

- Ao menos me deixe ajud-los com as malas - insistiu Tom, saindo pela porta.

- E Libby? - perguntou Diane em soluos.

- Ela est segura na sala de estar, e vou colocar o peso na porta, para que no se feche.

Assim que os trs saram da vista, um rudo veio da sala de estar. Era um som to estranho  casa que Holly soltou a maaneta rapidamente, como se ela, assim como o relgio lunar, estivesse carregada de eletricidade.

Holly ainda sentia vontade de virar as costas e sair correndo, mas alguma coisa no som daquele beb chorando pareceu envolver seu corao. Ela nunca reagira daquele modo ao choro de uma criana. Em vez de se afastar, Holly atravessou o corredor e entrou na sala de estar.

O beb estava em um moiss no canto da sala. Seus olhos estavam arregalados e alertas. Eram de um verde radiante, idnticos aos de Tom. Quando o beb viu Holly, no apenas parou de chorar como tambm todo o seu corpo pareceu relaxar e ele se acalmou. Era a coisa mais linda que Holly j vira na vida. Tinha tufos de cabelos louros e um punhado de cachinhos caindo sobre sua testa. As bochechas eram perfeitamente redondas, e os lbios rosados tinham um formato de corao que era uma graa. Holly no conseguiu resistir e acariciou delicadamente o rosto angelical. O beb reagiu se inclinando em direo  mo dela, a boquinha procurando alimento.

- O que uma pequena maravilha como voc est fazendo em um pesadelo como este? - sussurrou Holly.

Quando o beb se remexeu no cesto e deixou escapar sons indistintos, Holly estendeu a mo instintivamente para peg-lo. Ela parou apenas por um instante enquanto a vontade de pegar a criana a consumia. Nunca em sua vida sentira qualquer desejo de pegar um beb no colo e, na verdade, no conseguia se lembrar de nenhum momento em que realmente houvesse segurado uma criana. Holly deslizou a mo por debaixo do corpo do beb, sentindo o tecido quente e macio da manta que o envolvia. Seus dedos hesitantes no encontraram resistncia, e ela no conseguiu sentir peso algum quando tentou erguer o beb do cesto. Holly franziu o cenho, frustrada; o desejo de pegar a criana no colo era irresistvel. No importava quanto tentasse, o beb continuava firme no cesto. Holly recomeou a chorar, dessa vez bem mais alto do que antes.

- Estou indo - disse Tom, ainda fora da sala, e Holly o ouviu cruzar apressado o corredor e entrar na cozinha.

Ela se afastou do cesto do beb e olhou ao redor com uma sensao crescente de pnico. A pilha de cartes de condolncias no console da lareira no escapou de seu olhar, mas Holly estava mais interessada em encontrar um lugar para se esconder. Ela passou rapidamente ao lado das grandes janelas que davam para o ptio e levavam ao jardim de inverno, e se escondeu nas sombras bem no momento em que Tom entrou com a mamadeira na mo.

Ele pegou a criana e sentou-se no sof mais prximo para aliment-la. Estava praticamente encarando Holly, e, embora ela soubesse que no estava completamente escondida, no havia sinal de que o marido estivesse percebendo sua presena.

- Enfim, ss - disse Tom, com um suspiro, enquanto o beb sugava avidamente o leite.

A sala estava no mais absoluto silncio a no ser pelo som do beb mamando e da respirao acelerada de Holly. Ela achou que devia estar respirando to alto que Tom com certeza a estava ouvindo, mas ele no deu nenhum sinal disso. Holly sentia que estava sendo arrastada para o estranho conforto do embotamento induzido pelo choque. Seu crebro parara de tentar encontrar sentido no que estava acontecendo. Em vez disso, ela escolheu se concentrar nos eventuais barulhinhos de prazer que Libby deixava escapar e que a acalmavam.

- Sei que voc est a, Holly - disse Tom.

Holly sentiu arrepios percorrerem-lhe os braos e a espinha. Como se estivesse em transe, ela saiu das sombras e entrou novamente na sala.

- Estou aqui, Tom - falou.

Ele estava olhando na direo da janela que dava para o ptio, bem  esquerda de Holly, e seus olhos tinham mais uma vez aquela expresso distante. Para onde quer que estivesse olhando, sem dvida era um lugar muito alm dos limites da sala.

- Espero que possa me ver, meu amor. Espero que possa me ouvir, porque acho que no conseguiria seguir em frente se pensasse que voc me abandonou completamente. - A voz de Tom saa em um sussurro, e ele fechara os olhos com fora, para impedir que as lgrimas escorressem por seu rosto.

Holly se adiantou e se ajoelhou na frente do marido, segurando-lhe os braos e querendo que ele abrisse os olhos e a visse.

- Estou aqui, Tom! Por favor, por favor, olhe para mim! - disse ela, entre soluos.

Tom abriu os olhos, e Holly estremeceu mais uma vez quando o olhar dele atravessou-a novamente, cortando-a como uma faca. Ela se afastou dele, horrorizada pela primeira vez em todo o tempo que conviveram juntos.

- Di, Holly, di muito. A cada dia, quando acordo, lembro que nunca mais vou voltar a v-la, e meu estmago se revira. No consigo acreditar no que aconteceu. No vou acreditar nunca. Voc estava bem. Estava em boa forma, saudvel. Uma grvida saudvel. Em um minuto estava aqui, ao meu lado, e logo no estava mais. Cada pedao do meu corpo anseia por voc e di demais.

Ele fez uma pausa e balanou a cabea, como se para clarear as ideias.

- Mame diz o tempo todo que devo desabafar, permitir-me chorar, mas no posso. Estou to apavorado, Holly. Juro que se me permitir chorar acho que no serei mais capaz de parar - continuou ele em arquejos, afogando-se nas lgrimas no derramadas.

Libby comeou a se agitar no colo dele, e Tom tirou a mamadeira, ainda pela metade, da boca da filha. A expresso no rosto dele se suavizou um pouco quando olhou para a menina. Tom sorriu para ela antes de ergu-la no ombro e comear a dar palmadinhas em suas costas. O sorriso logo desapareceu, e a dor voltou a encobrir o olhar dele.

- No estou preparado para que me deixe, Hol. No estou preparado para aceitar que nunca mais voc entrar nesta sala. Todas as suas coisas esto exatamente como voc as deixou, est tudo aqui, pronto para receb-la quando voltar para casa. Volte para casa, Holly, por favor, volte para casa.

Um soluo escapou, e Tom mordeu o lbio para se controlar.

- No quero mais me sentir assim, di demais! Se no fosse por Libby, acho que no conseguiria continuar sem voc - disse ele. Libby deu um arroto enorme em resposta, forando Tom a sorrir. Ele a embalou novamente nos braos e voltou a levar a mamadeira  boca da filha.

- Obrigado pelo voto de confiana, Libby - sussurrou Tom, e o amor do marido pela filha aqueceu o corao de Holly e afastou o embotamento que a dominara. - Eu a amo muito, sua me tambm a ama muito e ela est olhando por voc.

Holly no conseguiu resistir e acariciou o topo da cabea de Libby. Quando se inclinou para a frente, sentiu o hlito quente do marido no rosto. Todo o seu corpo se arrepiou, e ela percebeu que aquele era um sonho mais real do que qualquer outro que j tivera.

- Prometa que nunca vai me deixar - sussurrou Tom.

- Eu prometo - respondeu Holly, desejando que Tom pudesse ouvi-la, mas ele no esboou nenhuma reao.

Holly descansou a cabea no colo do marido e fechou os olhos.

- Isto no  real, Tom, no est acontecendo. Tudo vai ficar bem.

O silncio dominou a sala, e o tempo continuou a passar. Holly ficou onde estava at o beb terminar a mamadeira, ento se afastou com relutncia quando Tom fez meno de se levantar. Holly tambm se levantou e encarou o marido enquanto ele ajeitava a filha nos ombros e pegava o moiss.

- Hora de dormir para ns, eu acho - disse Tom, tentando parecer animado.

Quando ele se virou e comeou a se encaminhar na direo da porta, Holly colocou a mo em seu ombro, porque no queria que o marido se fosse.

- Fique comigo - implorou ela, sentindo o pnico retornar.

Tom parou por um instante.

- Fique comigo - sussurrou ele, mas saiu da sala.

Holly sentia-se perto do limite de sua sanidade e estava paralisada pelo medo. Sua respirao foi ficando mais acelerada, e ela comeou a se sentir tonta. Estava prestes a hiperventilar. Holly ouviu os passos de Tom subindo as escadas e depois o ranger das tbuas no andar de cima. Pela segunda vez naquela noite, o som do beb chorando provocou um espasmo no corpo dela.

A combinao da necessidade de ar fresco com um desejo urgente de fugir foi o suficiente para lhe dar foras para sair da casa. Ela passou cambaleante pela cozinha e lutou mais uma vez com a maaneta da porta at conseguir sair da casa e atravessar o jardim. Ainda estava frio demais para o final de abril, e o vento redemoinhava ao redor dela.

Os olhos de Holly iam de um lado a outro do jardim, enquanto ela imaginava que demnios se escondiam nas sombras, prontos para afastar os ltimos traos de sanidade que lhe restavam. Como em resposta ao seu desafio, a ateno de Holly foi atrada para o pomar. As rvores, que deveriam estar prestes a florir, erguiam-se nuas sobre folhas secas, fragmentos de um vero que havia muito se fora. Holly continuou a cambalear at alcanar o relgio lunar.

- No estou morta, no estou morta! - gritou ela. Ento caiu de joelhos e encolheu o corpo no formato de uma bola. - Estou aqui, Tom. Por que no consegue me ver? - perguntou, desesperada.

Holly no tinha certeza de quanto tempo ficou naquela posio, ao lado do relgio lunar. Exausta e com frio, apavorada e confusa, ela no sabia o que fazer. S quando a luz da cozinha foi apagada e o jardim mergulhou mais uma vez em vrias nuances de cinza, Holly ergueu a cabea e olhou na direo da casa.

Alguns segundos mais tarde, uma luz apareceu na janela do quarto dela. Era o brilho suave da luz do abajur, em sua mesinha de cabeceira. A persiana do quarto estava aberta. Holly tentou se lembrar se a deixara aberta ou fechada. Mas o que isso importava? Tudo havia mudado, e ela se sentia presa em um mundo ao qual no pertencia mais. Mas Tom estava nesse mundo. E, se ela no pertencia ao mundo dele, a qual pertencia?

Holly ficou de p e, sob o olhar atento da lua cheia, sentiu uma urgncia de voltar para a casa e correr para os braos de Tom. Estava prestes a dar um passo  frente quando a inconfundvel silhueta do marido apareceu na janela do quarto. Ele estava andando de um lado para o outro e, embora o absurdo daquela situao a enfurecesse, ela sabia que o marido tinha o beb nos braos. De repente, ele congelou onde estava. Holly no conseguia ver o rosto de Tom, mas soube sem sombra de dvida que ele estava olhando para ela.

Ao sentir o olhar de Tom sobre si, Holly teve a impresso de que mundo se fechava ao redor. Ela sentiu uma enorme presso no peito enquanto o tiquetaquear do relgio parecia cada vez mais prximo, at parar com um baque. Por causa do vento que girava ao redor dela, ou talvez por mera exausto, Holly cambaleou e estendeu a mo para o relgio lunar para se apoiar. No instante em que tocou o mostrador, uma chuva de raios de luar pareceu danar ao seu redor. O jardim se tornou um borro, e o ar ficou mais pesado e alguns graus mais quente.

Holly precisou segurar o mostrador com ambas as mos para se equilibrar. Ela fechou os olhos em um esforo para afastar as ondas de tontura que ameaavam domin-la. Sua mo tocou em algo no mostrador. Holly piscou para afastar os pontos de luz deixados pelos raios de luar. Demorou algum tempo at ela conseguir pegar o que tocara. Holly segurou a caixa de madeira nas mos, sentindo um alvio imenso afastar o terror que a assombrava. O mecanismo que ativava o relgio e a esfera tambm haviam reaparecido. A esfera tremulava inofensivamente entre as garras de metal. Tudo estava como deveria ser.

O vento era mais suave agora, e, quando olhou na direo do pomar, Holly viu botes brancos de flores cintilando contra a noite e confirmando que estavam na primavera. Sob os ps dela, a relva estava alta como sempre fora. Holly voltou rapidamente a cabea na direo da casa. A janela de seu quarto estava s escuras, assim como o resto da casa, que, por sinal, no tinha um jardim de inverno. A persiana do quarto estava erguida, mas no havia ningum ali olhando para ela.

Holly arrancou a esfera do mostrador e jogou-a rapidamente na caixa como se esta fosse queimar seus dedos. Com a caixa nas mos, ela saiu em disparada pela relva e no parou at estar de volta  cozinha, onde logo acendeu a luz. Uma rpida checada confirmou que no havia nada para bebs e nenhum bloco de notas sobre a mesa.

Os tentculos do pesadelo vvido de Holly estavam lentamente libertando sua mente e seu corao. Ela entrou hesitante no corredor e verificou as duas salas de visitas antes de subir as escadas. Seu quarto estava vazio, e sua cama permanecia a confuso de lenis revirados que ela deixara para trs. No mostrador do relgio digital ela viu que eram 3h21.

Holly despiu-se das roupas que usava. A cala de moletom ainda estava encharcada pela umidade da relva. Ela se arrastou para o conforto de sua cama e se enrolou no edredom. Incapaz de sequer comear a tentar entender o que acontecera na ltima hora, Holly fechou os olhos e desligou a mente. O sono, antes arisco, agora chegou-lhe rapidamente, como uma bno.






CAPTULO 3

O brilho sinistro da lua cheia j havia se rendido  luz forte do sol de primavera quando Holly foi trazida abruptamente de volta  conscincia por algum que batia com fora na porta da frente. Ela pulou da cama, ignorou as roupas que usara na noite anterior e vestiu um penhoar. Todo o seu corpo doa enquanto ela descia as escadas.

- Desculpe, Billy, devo ter dormido demais - desculpou-se, enquanto esfregava os olhos para afastar os ltimos vestgios de sono.

- Ora, ora, Senhora Corrigan - repreendeu Billy. - No pode atender a porta nesses trajes quando h tantos operrios por aqui ou vai acabar fazendo com que meus homens deixem cair os martelos nos dedos dos ps.

- Isto no passa de um robe velho, Billy, e acho que  mais provvel que eu assuste os rapazes do que qualquer outra coisa - retrucou ela. Sabia que devia estar com pssima aparncia e ficou secretamente grata a Billy pela galanteria enquanto tentava pr os cabelos em ordem, ajeitando-os para trs.

O sorriso travesso abandonou o rosto de Billy, e seu tom brincalho foi substitudo por uma expresso preocupada.

- Ei, o que aconteceu com seu rosto? - perguntou ele.

Holly inclinou o corpo para trs e deu uma olhada em seu reflexo no espelho do corredor. O lado direito de seu rosto estava machucado.

- No  nada - respondeu ela em tom robtico, quando a lembrana de sua aventura sob a luz da lua voltou-lhe  mente pela primeira vez desde que acordara.

- Se aquele seu marido estiver lhe batendo, teremos uma conversa sria quando ele voltar - rosnou Billy.

- No seja tolo - disse Holly com um sorriso que no chegava aos seus olhos. - Sou apenas uma mulherzinha frgil que no pode ser deixada por sua prpria conta. Tropecei no jardim, s isso.

- Bem, parece que foi uma boa ideia eu mandar Jocelyn dar uma passada por aqui. Sabia que precisava de algum que tomasse conta de voc.

Holly no estava com humor para as provocaes tpicas de Billy, mas, se no agisse normalmente, quem sabe que outras pessoas ele mandaria para conferir como ela estava.

- Sou perfeitamente capaz de tomar conta de mim mesma, mas foi mesmo uma boa ideia. Jocelyn  adorvel - respondeu Holly, com um sorriso mais caloroso dessa vez.

- Voc precisa sair mais, visitar pessoas.

- Se eu prometer que vou fazer isso, vai parar de me perturbar e voltar ao seu trabalho?

Billy fez uma mesura.

- Ao seu dispor. Devemos terminar o trabalho interno no final da semana, portanto, se quiser comear a pensar naqueles penduricalhos que queria acrescentar, esta  uma boa hora. Depois disso, se precisar de mais alguma coisa,  s pedir.

- Isso  uma proposta, Billy? - perguntou Holly, com um sorrisinho zombeteiro.

Billy ficou ruborizado.

- Bem... Na verdade, eu estava pensando, bem... O que estou querendo dizer  que o jardim poderia ser tratado como merece. No queremos que aconteam mais acidentes, no  mesmo? - gaguejou ele.

Holly estremeceu ao se lembrar da sensao de estar ajoelhada no gramado macio.

- Obrigada, Billy, mas no sei se j quero liberar Tom desse trabalho em particular.

Ela deu um jeito de encerrar a conversa com o contramestre, prometendo preparar uma boa xcara de ch para ele e sua equipe. Com Billy a caminho da obra no ateli, Holly conferiu mais uma vez seu reflexo no espelho. Ela queria desesperadamente acreditar que os acontecimentos da noite anterior no haviam passado de um pesadelo esquisito e nada agradvel, mas era difcil ignorar aquela evidncia fsica.

Enquanto tomava banho e se vestia, a mente de Holly continuava concentrada em tentar encontrar uma explicao racional para o que acontecera na noite passada. No havia dvida de que ela deixara a casa durante a noite. A porta da cozinha aberta e as roupas de moletom molhadas comprovavam que ela fora at o jardim. A caixa de madeira abandonada sobre a mesa da cozinha confirmava que estivera brincando com o relgio lunar. Mas em que momento a realidade acabara e a imaginao assumira o comando?

Tudo tinha uma explicao racional at o momento em que ela batera com a cabea. Uma concusso leve talvez explicasse a viso bizarra do futuro... Na verdade, aquela era a nica explicao que Holly estava disposta a considerar.

Recusando-se a perder mais tempo pensando sobre a alucinao, ela se preparou para um dia cheio de trabalho. Holly desceu as escadas e preparou o prometido bule de ch para os operrios, e tambm uma xcara de caf forte para si mesma. Ela separou seu material de trabalho sobre a mesa da cozinha, determinada a passar o dia concentrada na encomenda da Sra. Bronson. A necessidade de ser organizada e disciplinada s vezes entrava em conflito com a sua criatividade, mas nesse dia Holly precisava de algo em que focar a mente. Sem distraes.

Tom telefonou. Algumas distraes eram uma exceo  regra, e Holly precisava do conforto de simplesmente ouvir a voz dele.

- Bom dia, minha luz, minha vida - cantarolou Tom.

- Bom dia, minha bssola, minha ncora - respondeu Holly, surpresa ao perceber o prprio alvio por Tom estar ouvindo-a, tendo conscincia de sua existncia. Ela lembrou do homem que vira na noite anterior, desolado e perdido, mas afastou rapidamente essa imagem da cabea.

- Eu no estou atrapalhando voc, estou? - perguntou ele.

- No, de jeito nenhum. Voc no acreditaria no quanto estou sentindo sua falta.

- Ento ainda no h nenhum substituto instalado a? - perguntou Tom.

Holly sorriu, saboreando a normalidade da conversa. A tenso que estivera carregando durante toda a manh esvaiu-se de seu corpo.

- A casa estava cheia hoje cedo - provocou ela -, mas dei um jeito de expulsar o time de rgbi da minha cama.

- Apenas um time de rgbi? Sua disposio deve estar diminuindo...

- E voc? J tem uma fila de sem-vergonhas para mant-lo ocupado?

- Bem, fiz um amplo teste de seleo na noite passada, mas nenhuma se compara a voc.

- Sinto saudade - sussurrou Holly, incapaz de continuar com a brincadeira.

- Tambm sinto saudade de voc.

- Acho que no vou conseguir ficar separada de voc por tanto tempo. Ao diabo com a Senhora Bronson, eu deveria ir para a, para ficarmos juntos.

Houve um longo silncio. Holly sentiu que Tom concordava com ela, mas nenhum dos dois quis romper o acordo que haviam feito.

- No, ignore o que eu disse - acrescentou Holly rapidamente, antes que Tom pudesse responder. - Tive uma noite ruim, s isso. E s se passou um dia. Vou ficar bem, sinceramente. Preciso de alguns dias para me acostumar e, alm do mais, tenho essa maldita encomenda para atender. Jogar a toalha no  uma opo. S tenho hoje e amanh para preparar os desenhos. Vou me atirar no trabalho e sei que ficarei bem. Ignore-me. Vou ficar bem. Estou falando srio.

- Holly?

- Sim?

- Voc est falando sem parar.

Ela suspirou.

- Desculpe.

- Ento voc no teve uma noite boa?

- Esse  um eufemismo. Foi pior... - Holly fez uma pausa, sem saber muito bem quanto poderia contar a Tom sem deix-lo preocupado. - No fique assustado, mas tive um pequeno acidente, e no, isso no quer dizer que fiz xixi na cama. - Ela esperava que a leveza em sua voz soasse sincera.

- Que tipo de acidente? Voc est bem? - A voz de Tom era ansiosa.

Holly fez um rpido exerccio de edio mental. Tom no era uma pessoa excessivamente preocupada, mas sem dvida a mandaria fazer uma tomografia de crnio se ela mencionasse as alucinaes.

- Estava no jardim e escorreguei. Foi s um arranho no rosto, nada demais.

- Voc bateu a cabea? Desmaiou? Ficou inconsciente?

- Tambm assisto a seriados mdicos, voc sabe. No, eu no perdi a conscincia. No tive uma concusso, doutor, pode ficar descansado - disse Holly, em um tom de confiana que no sentia. - Embora eu talvez tenha rachado o relgio lunar com a minha cabea.

- O que quer dizer com relgio lunar? No est falando do relgio de sol? Tem certeza de que a batida no afetou seus sentidos?

- Estou bem - repetiu Holly, com certa brusquido. Tom estava mais perto da verdade do que poderia saber. - Foi Jocelyn que chamou o relgio de lunar, e ela deve saber, afinal j morou aqui.

Holly j contara tudo a Tom sobre a visitante inesperada e voltar a mencionar Jocelyn era uma boa maneira de mudar de assunto. Holly no mentiu sobre a queda, mas tambm no contou ao marido toda a verdade.

- Mas ela no ficou muito bem impressionada com o resto do jardim, e, para falar a verdade, me senti constrangida. Portanto, quando voc vai passar tempo o bastante em casa para colocar nosso jardim em ordem? - perguntou ela.

Foi a vez de Tom se desviar do assunto, o que tranquilizou a conscincia de Holly. Ele disse a ela que ainda havia muita instabilidade na emissora de TV e lembrou a esposa que todos l estavam lutando para manter o emprego. Tentar escolher para onde ia ou quando simplesmente no era opo no momento.

Eles conversaram um pouco mais, at que nenhum dos dois pde adiar mais o trabalho que os aguardava. Holly desligou o telefone e pegou relutante o bloco de esboos. Seu plano era fazer novos desenhos baseados nos dois que j tinha aprovado.

Quando abriu o bloco e viu o primeiro esboo, a me segurando o beb, seus olhos imediatamente foram atrados para a imagem da criana. Seu esboo tinha apenas sugestes sutis de forma, mas, mesmo assim, quando traou o rosto do beb com o dedo, lembrou-se da menininha de sua alucinao. Libby. Sentindo uma forte onda de emoo domin-la, Holly relembrou o momento em que olhara nos olhos de Libby e sentira uma conexo imediata. Seria assim o to falado instinto maternal, ela se perguntou, ou estaria apenas desesperada para justificar a f que Tom depositava nela?

O olhar de Holly se voltou para a figura da me. Observando com novos olhos, ela percebeu que a pose estava toda errada. A figura que esboara estava segurando o beb de um modo hesitante, quase como a uma caixa cheia de aranhas prontas para subirem por seu brao. Holly riscou o desenho antes mesmo que se desse conta do que fazia. Ento, virou-se para o segundo esboo, o que considerara mais promissor em termos de conceito. Continuava a gostar da forma espiralada da me girando com o beb no colo, mas mais uma vez a pose parecia completamente errada - a me poderia muito bem estar girando a prpria bolsa. Ela tambm riscou esse esboo.

Em um instante de pnico, Holly percebeu que a presso se instalara e que teria que trabalhar com vontade nos prximos dois dias para ter sua proposta pronta a tempo.

A VIAGEM PARA LONDRES foi uma mudana dramtica na vida rural a que Holly vinha se acostumando pouco a pouco. Ela deixou a serenidade da cidadezinha para pegar o trem de manh cedo, que vinha de uma cidade prxima. Lutou em vo por um assento, mas acabou perdendo-o para um viajante mais experiente.

A reunio com a Sra. Bronson aconteceria na galeria onde Holly costumava exibir e vender suas esculturas. Era um lugar pequeno, mas ideal para o trabalho dela, em parte por sua localizao privilegiada e clientela seleta, e em parte porque ela se dava bem com o proprietrio, Sam Peterson. Sam a apoiara muito no incio de sua carreira, assim que Holly chegara a Londres, e tivera um papel importante no sucesso dela como artista.

Holly conhecera Sam em um dos muitos empregos de meio expediente que tivera depois da Escola de Belas-Artes. Ela trabalhara em uma agncia que cuidava de animais: levava cachorros para passear, tomava conta de coelhos em casa e, no caso de Sam, alimentava seu gato enquanto ele estava fora em uma de suas muitas frias em parasos tropicais com seu companheiro, James. Sam se entusiasmara com os trabalhos artsticos de Holly e no apenas a encorajara a seguir produzindo como no fim se oferecera para expor a obra dela em sua galeria.

Era uma viagem curta de metr at a galeria e depois uma rpida caminhada entre a multido que transitava pelas ruas da cidade, mas Holly comeava a se sentir energizada pela agitao. Ela estava usando um elegante vestido-tnica, no estilo anos 1950, com um casaco combinando. A roupa era azul-plido e destacava seus longos cabelos louros, que estavam afastados do rosto por uma faixa combinando. J fazia algum tempo desde a ltima vez que Holly usara outra roupa que no jeans e camiseta, e estar arrumada a fazia se sentir parte da multido novamente.

Ela precisava de toda a energia que conseguisse reunir, porque estava quase em jejum. Havia trabalhado sem parar no projeto, desenhando at altas horas da noite, sem nada para lhe fazer companhia alm da lua minguante, que espreitava pela janela da cozinha expectante, estreitando os olhos, concentrada, sobre os ombros de Holly.

Embora ela houvesse tentado manter a maior parte dos detalhes de sua alucinao longe dos seus pensamentos, no conseguiu apagar completamente a imagem de Libby. Holly usou isso a seu favor e deu nova vida aos esboos que estava criando. E finalmente conseguiu sentir a conexo com a obra que estava tentando produzir. O lado ruim disso  que tambm desenvolvera uma forte ligao com Libby. A criana poderia ter sido s um produto da sua imaginao, mas fora o primeiro beb que no deixara Holly apavorada, a primeira criana que ela sentira vontade de pegar no colo. Libby se esgueirara para dentro do seu corao, e agora era uma parte to importante que Holly quase desejava que fosse real.

O TILINTAR DO SINO de metal sobre a porta anunciou a chegada de Holly  galeria. O espao que a recebeu era moderno e claro. Paredes brancas refletiam a luz natural que entrava pela vitrine da galeria, enquanto spots de luz estrategicamente posicionados destacavam a seleo de peas de arte de cores vivas e contrastantes, de modo a atrair os possveis compradores.

A recepcionista acenou para Holly e pegou o telefone, sem dvida para avisar Sam da chegada dela. Enquanto esperava, Holly aproveitou a oportunidade para fazer um rpido inventrio dos seus trabalhos em exposio e avaliar a concorrncia. Ela vendera algumas esculturas pequenas - algumas eram figuras humanas, outras mais conceituais, mas todas tinham a marca distintiva do estilo de Holly: a mistura de cores e texturas contrastantes. O trabalho dela parecia estar se tornando mais comercial, e era o dinheiro que recebia por ele que pagava os luxos de Holly e Tom. Ela sentiu uma pontada de decepo ao ver que apenas poucas peas de sua autoria estavam sendo exibidas na parte dianteira da galeria, que oferecia mais destaque.

- Procurando alguma coisa? - perguntou uma voz suave atrs de Holly. Ela se virou e encarou as feies distintas de um homem de meia-idade, com uma bvia obsesso por tweed.

- Ol, Sam! - Ela abriu um sorriso e o cumprimentou com dois beijinhos no rosto. - Estava procurando algumas peas da promissora artista Holly Corrigan, mas infelizmente no consegui encontrar o tipo de coleo que estava esperando ver. Voc as est mantendo em algum quarto escuro, no  mesmo?

- Ah, Holly, Holly, Holly. Que criaturas desconfiadas so vocs, moradores do interior... - repreendeu-a Sam. - Ento achou que, assim que trocasse seus escarpins por galochas, eu colocaria seu trabalho de lado, no ?

- Bem... - Holly fez uma careta, sentindo-se culpada por ter sequer sugerido que Sam no estava fazendo o melhor por ela.

- Uma de suas peas est bem ali - disse Sam em tom srio, apontando para a vitrine. Holly no tinha certeza se a postura dele lembrava a de um professor rigoroso ou a de um comissrio de bordo.

- H outra ali  direita e mais duas  esquerda, ali e ali.

Sem dvida a opo era comissrio de bordo, pensou Holly, reprimindo um sorriso.

- E o resto?

- VEN-DI-DO, vendido!

- Todas? - perguntou Holly em um arquejo.

- Todas elas - confirmou Sam. - A recesso est oficialmente terminada. Voc est sendo informada disso aqui, em primeira mo.

Holly agarrou os braos dele e fez uma dancinha comemorativa no meio da galeria.

- Bom trabalho, Sam!

- Bom trabalho, Holly! - corrigiu-a. Sam parou e examinou o rosto dela. - Estou vendo um olho roxo por baixo da sua maquiagem? Aquele seu marido anda batendo em voc?

- Por que todo mundo pergunta isso?! - disse Holly, irritada. -  claro que no. Ca no jardim, s isso.

- Ah... - retrucou Sam. - Bem, voc pode me contar sobre sua nova vida no campo mais tarde. Primeiro, precisamos lidar com sua cliente favorita - sussurrou ele.

- Oh, Deus, ela j chegou? - Holly comeou a suar frio ao pensar no que estava prestes a encarar. - Bronson Jnior tambm veio?

- Graas aos cus, no - respondeu Sam, que compartilhava do alvio de Holly.

Ela obviamente estava se referindo ao beb da Sra. Bronson ou - como Holly costumava pensar - ao mais recente acessrio de moda da mulher. Holly talvez no fosse uma especialista em questes de maternidade, mas, cada vez que via a Sra. Bronson com o filho, lembrava-se de uma criana brincando com seu novo bichinho de estimao. Holly no ficaria surpresa se a cliente aparecesse com a pobre criana espiando de dentro de uma das enormes bolsas que costumava carregar.

- Rumo ao sucesso - disse-lhe Sam, guiando-a na direo das escadas, at seu escritrio particular.

A REUNIO COM A SRA. BRONSON correu melhor do que o esperado. Holly tinha dois projetos completos para mostrar  cliente, mas apenas um deles falava ao seu corao, e ela teve sorte por ser exatamente este que a Sra. Bronson escolheu. Era uma forma em espiral, retratando no apenas uma me aninhando um beb nos braos, mas tambm uma srie de figuras abaixo deles, simbolizando as geraes passadas serpenteando atravs da base de pedra negra na direo das duas figuras em branco. Holly ainda precisava completar uma verso em tamanho menor, antes que a Sra. Bronson desse a aprovao final, mas a pior parte da criao havia acabado. Holly havia conseguido criar o conceito e estava bastante satisfeita com ele, levando em considerao as circunstncias e a luta que fora para conseguir chegar quele resultado.

O sino que ficava acima da porta silenciou, e tanto Holly quanto Sam deixaram escapar um suspiro de alvio quando a Sra. Bronson desapareceu na distncia.

- Bem, foi tudo bem... - comentou Holly, ainda cautelosa.

- No fique to surpresa, o projeto  lindo. Bom trabalho! Sei que no deve ter sido fcil. - Sam a conhecia melhor do que a maioria das pessoas e sabia tudo sobre sua infncia difcil. - Cheguei a me perguntar se era mesmo uma boa ideia voc aceitar a encomenda, mas voc conseguiu. Acho que no teria conseguido blefar to bem como fez. Lembre-me de nunca jogar pquer com voc.

- O que quer dizer com blefar? - quis saber Holly, embora soubesse exatamente a que ele se referia.

- Holly, querida, sabe que eu adoro voc, mas, bem... voc no  exatamente do tipo maternal, certo? Para conseguir criar uma pea de arte dessa proporo  preciso um mnimo conhecimento de toda essa bobagem de me e filho... E acho que voc  exatamente como eu nesse assunto: totalmente sem noo.

- Nova casa, nova vida. Quem disse que no sou do tipo maternal? - retrucou Holly. Ela podia sentir o rosto ficando muito vermelho. Uma semana antes teria sido a primeira a concordar com Sam, eles j haviam tido conversas semelhantes. Mas agora, com o rosto de Libby surgindo como uma marca dgua sobre tudo o que via, Holly no queria ouvir aquilo.

Sam riu e a puxou para um abrao.

- Talvez esteja certa e espero que esteja mesmo. S me prometa uma coisa...

- O qu? - perguntou Holly, desconfiada, enquanto se desvencilhava do abrao.

- Pelo amor de Deus, no traga a criana quando vier me visitar. O que  feito no campo deve ficar no campo.

- Prometo! - Holly riu. - Agora chega desse assunto, vamos falar de negcios. Como vou reabastecer seu estoque?

Embora adorasse a ideia de seu trabalho estar se tornando requisitado, Holly no estava preparada para simplesmente comear a produzir esculturas aleatoriamente para atender  demanda. Aceitar a encomenda da Sra. Bronson j fora difcil o bastante. No entanto, Sam sabia ser persuasivo, e ela repassou algumas ideias com ele e prometeu comear a trabalhar nelas assim que tivesse tempo, quando seu ateli estivesse pronto, provavelmente na semana seguinte. Na verdade, uma grande carga de trabalho seria uma distrao bem-vinda durante a ausncia de Tom.

SAM FEZ DE TUDO para persuadir Holly a se demorar mais, mas ela ainda tinha uma misso a cumprir. Holly precisava fazer mais uma coisa antes de voltar para casa. Ela se despediu e saiu da galeria, atravessando Londres em direo  British Library, onde tinha a esperana de conseguir alguma inspirao para o tipo de pedra que usaria na escultura da Sra. Bronson. Ao menos aquela era a desculpa que estava dando a si mesma.

A biblioteca era enorme, e Holly teria se sentido perdida se j no houvesse passado horas incontveis, seno dias, ali, pesquisando os tesouros obsessivamente organizados. Ela no demorou nada procurando nos livros de referncia o que precisava para decidir sobre a pedra a usar, e levou menos tempo ainda para decidir o tipo de pedra que usaria. Holly fechou o ltimo livro que estivera folheando e colocou-o sobre a pilha j acumulada na mesa de leitura que ocupava. Ela tamborilou distraidamente com os dedos sobre a pilha de livros. No havia se enganado. J sabia que escolheria mrmore negro para a base da escultura, isso era bvio. E a parte superior seria feita de argila.

Um homem em uma mesa prxima pigarreou e encarou Holly. No mesmo instante, ela parou de tamborilar. No havia percebido que o barulho estava alto.

- Desculpe - falou, apenas mexendo os lbios.

Holly devolveu os livros que pegara e pediu ajuda  bibliotecria assistente para encontrar algum registro sobre Hardmonton Hall. No era exatamente a propriedade que mais lhe interessava, mas sim as origens do relgio lunar. O desejo dela de saber mais sobre o relgio no tinha nada a ver com a alucinao que sofrera, disse a si mesma, estava apenas fazendo uma pesquisa a respeito de uma pea muito interessante, ou mesmo misteriosa, que ocupava o centro do seu jardim. Holly demorou algum tempo, com a ocasional orientao de uma assistente muito paciente e prestativa, para conseguir encontrar todos os dois livros que havia sobre o tema. Ela voltou a se sentar na mesa de leitura e abriu o primeiro, que falava sobre arquitetura inglesa, especialmente sobre as manses do perodo Tudor, e Hardmonton Hall estava listada no ndice. Holly folheou o livro at chegar  parte que lhe interessava. Havia apenas umas poucas pginas falando da propriedade, a maior parte com ilustraes e plantas dos prdios e do terreno. Foi em uma das plantas dos jardins ornamentados que ficavam nos fundos da propriedade que Holly encontrou evidncias do relgio lunar. Ele estava, ou estivera, localizado no que parecia ser um largo crculo de pedra. O crculo estava dividido em quatro segmentos com um crculo interno onde se assentaria o relgio lunar. Dessa pea central saam quatro caminhos de pedra, separados por canteiros de algum tipo de flor.

O segundo livro era de abordagem mais geral, e Holly tinha pouca esperana de que ele fosse ajud-la a desvendar algo mais sobre a histria do relgio. Era um livro sobre grandes expedies arqueolgicas no sculo 19, e, embora no fizesse referncia  propriedade em si, havia uma meno a um dos antigos lordes Hardmonton. Holly folheou o volume e encontrou o captulo que estava procurando. Ela franziu o cenho enquanto examinava pgina aps pgina do texto. Charles Hardmonton fora um explorador de renome, envolvido em expedies por todo o mundo. Mas, por mais interessante que fosse aquela histria em particular, Holly sentia uma frustrao crescente em seu ntimo.

A impacincia crescia enquanto ela acompanhava as aventuras de lorde Hardmonton de um lado a outro do mundo, j se preparando para a decepo conforme virava cada pgina. Em um rompante de aborrecimento, ela pulou direto para o ltimo pargrafo. A carreira de lorde Hardmonton como explorador chegara a um fim abrupto quando ele cara em desgraa com seus patrocinadores durante a ltima expedio registrada ao Mxico central, em busca do templo de Coyolxauhqui, a deusa asteca da lua.

Holly estreitou os olhos, concentrada, e releu o nome. Poderia haver alguma conexo com o relgio lunar? Ela folheou o livro mais para o princpio, examinando o texto em busca de alguma outra referncia, mas seus esforos no foram recompensados.

Apesar de no ser o tipo de pessoa que aceitava facilmente uma derrota, Holly sabia que havia chegado a um beco sem sada. Ela fechou o livro com tanta fora que tudo o que estava em cima da mesa balanou. Ento, se levantou com tanta rapidez que a cadeira fez um barulho alto no cho de cermica.

- Psiu! - sibilou o homem que estava na mesa de leitura ao lado. Era o mesmo homem que pigarreara para ela mais cedo. Holly o encarou furiosa.

- Psiu para voc! - sibilou ela de volta, e passou pela mesa dele pisando firme. - Teria feito melhor ficando em casa, pesquisando no Google. Ao menos a companhia seria mais agradvel.

Holly se deteve de repente, enquanto suas palavras ecoavam pelo salo, e deu meia-volta. Ignorando o olhar presunoso do seu vizinho de mesa de leitura, ela voltou e abriu novamente o livro, encontrou a referncia  deusa asteca e copiou seu nome. Buscar aquela informao no Google no era m ideia.

Apenas quando estava novamente sob o sol quente de maio foi que Holly tornou a relaxar, e seus pensamentos voltaram aos sucessos do dia. Tinha bastante trabalho para mant-la longe de confuso e estava ansiosa para voltar  cidadezinha onde morava. Quando entrou na estao de trem, Holly reparou na vitrine de uma loja de lembranas cheia de ursinhos de pelcia, o que a fez lembrar dos comentrios sarcsticos de Sam sobre sua falta de esprito maternal. Sem querer, Sam dera o empurro de que Holly precisava e, sem hesitar um momento sequer, ela entrou na loja e comprou o urso de pelcia mais alegre e mais cor-de-rosa para sua filha ainda no nascida.

HOLLY NO COMERA nada desde o caf da manh, e seu estmago estava roncando quando ela chegou a Fincross no fim da tarde. Por isso, no foi difcil decidir pegar um atalho e visitar a casa de ch de Jocelyn. Assim, Holly estaria cumprindo a promessa feita  simptica senhora; ademais, estava disposta a celebrar as conquistas do dia e no poderia fazer isso sozinha.

A casa de ch parecia um carto-postal, com cortinas de algodo xadrez, toalhas de mesa de renda, o aroma de doces recm-sados do forno e de ch e caf frescos para abrir o apetite dos fregueses. Estava mais cheia do que Holly esperava, mas ela conseguiu pegar a mesa de um jovem casal que estava indo embora.

- Que surpresa adorvel! - Jocelyn a recepcionou feliz, saindo de trs do balco para dar um abrao apertado em Holly. - Est com fome? O que posso lhe servir?

- Estou faminta - confessou Holly. - O que voc recomenda?

- Ah, voc precisa experimentar o meu ch com pezinhos de minuto e creme. Os pezinhos acabaram de sair do forno, esto deliciosos e quentinhos. Ou, se estiver realmente faminta, pode tentar um sanduche aberto, h vrias opes para escolher. Ou que tal ambos? Voc parece carente de um pouco de mimo - falou ela, encarando propositalmente o rosto machucado de Holly.

Envergonhada, Holly levou a mo ao rosto.

- Foi um pequeno acidente - explicou ela rapidamente, antes de convencer Jocelyn de que o ch com pezinhos de minuto seria mais que o bastante. Quando o ch chegou, ficou claro que ela fora agraciada com acompanhamentos extras. Jocelyn sentou-se  sua frente.

- Vou apenas descansar as minhas pernas por cinco minutos. Lisa conseguir se virar sozinha por algum tempo.

-  uma linda casa de ch. Voc fez um bom trabalho aqui.

- O mrito no  apenas meu. Minha irm Beatrice era a responsvel pela loja no comeo. Quando deixei Harry, ela foi boa o bastante para me dar um emprego, para no mencionar o emprstimo do apartamento no andar de cima. Acabamos nos tornando scias, e, quando ela morreu, h seis anos, que Deus guarde sua alma, sua filha, Lisa, assumiu sua parte. Amo este lugar; ele me deu minha vida de volta, e quero continuar a trabalhar aqui at o dia em que eu morrer.

- Seu filho tambm est envolvido no negcio da famlia?

- Paul? Oh, no - Jocelyn riu, achando a ideia obviamente absurda. - Ele est no exrcito. Acho que no combinaria muito com um avental.

- Voc deve ter muito orgulho dele.

- Ah, tenho mesmo. Paul se saiu muito bem por conta prpria, e as coisas poderiam ter sido muito diferentes. - Os olhos de Jocelyn pareceram escurecer, como se uma sombra do passado houvesse cado sobre ela.

- Diferente de que maneira?

Jocelyn gesticulou, como se estivesse afastando a sombra.

- Ah, no  nada. As coisas no foram fceis para ele, s isso. O pai de Paul era muito rigoroso. Tirar o meu filho da influncia dele foi uma das melhores coisas que eu poderia ter feito por ele.

- Lamento que voc no tenha tido uma vida melhor na nossa casa.

- Bem, no se preocupe comigo, isso foi h muito tempo. Suas vidas sero mais felizes l, tenho certeza.

- Voc acha? - perguntou Holly, ainda impressionada com a viso que tivera do futuro.

- Sei que sim - confirmou Jocelyn, com um sorriso que fez Holly se sentir segura, sentir que seu futuro estava seguro. - E como Billy est indo com as obras no seu ateli?

- Voc precisa perguntar? Achei que ele vinha mantendo toda a cidade informada do seu progresso.

- Billy pode ser mesmo um terrvel fofoqueiro - concordou Jocelyn -, mas ele sabe muito bem que no pode fazer isso perto de mim. Eu lhe daria um puxo de orelha se o pegasse. No me entenda mal. No  a fofoca que mais me incomoda, mas o fato de ele nunca entender nada, principalmente porque Billy est sempre to ocupado falando que no consegue escutar direito.

Jocelyn e Holly compartilharam mais algumas piadas  custa de Billy, antes que Jocelyn precisasse retornar ao trabalho, com o afluxo de clientes aumentando por causa da hora do ch. Holly tentou pagar pelo que consumira, mas Jocelyn se recusou terminantemente a aceitar. E ela no era uma mulher com quem se pudesse discutir.

- Obrigada, Jocelyn, voc foi um blsamo! Precisa me deixar retribuir o favor e vir  minha casa um dia desses.

- Ora, no se sinta obrigada a fazer isso. No quero tomar seu tempo agora que vai trabalhar na sua escultura - disse Jocelyn, embora seus olhos implorassem para que Holly no retirasse a oferta.

- Eu insisto.

Jocelyn sorriu, animada.

- Tenho um final de semana de folga a cada quinze dias e no estou com nada planejado para o prximo. Que tal eu passar por l na semana que vem, no domingo, para fazermos um brunch?

- Est combinado - concordou Holly. - Finalmente tenho algo por que esperar, alm da volta de Tom para casa.

NO DEMOROU MUITO para que a curiosidade se tornasse mais forte que Holly. J na manh seguinte, via-se seu bloco de notas e seus lpis cuidadosamente arrumados sobre a mesa da cozinha, mas ela no estava  vista. Holly levara sua xcara de caf fumegante para o escritrio de Tom e estava impaciente esperando que o computador dele ligasse. Ela no tinha exatamente fobia de tecnologia, mas no via nenhuma atrao em particular no mundo virtual que a Internet oferecia. Holly preferia interagir com um mundo que podia experimentar com todos seus sentidos, mas a necessidade exigia, e ela esperava que a rede mundial de computadores lhe desse aquilo que a biblioteca falhara em prover.

Holly digitou cuidadosamente o nome da deusa da lua no mecanismo de busca e quase imediatamente foi presenteada com pginas e mais pginas de links, alguns deles levando a lugar nenhum e outros davam apenas informaes mnimas. Foi s quando acrescentou o nome de Charles Hardmonton  busca que acertou no alvo. Ela encontrou um site de pesquisa que no apenas lhe oferecia mais detalhes sobre a ltima expedio de lorde Hardmonton como tambm contava tudo sobre como ele cara em desgraa - informao que teria soado caluniosa na poca dele e que no seria encontrada em nenhum livro de pesquisa.

A ltima expedio registrada de lorde Hardmonton realmente fora ao templo de Coyolxauhqui, no Mxico central. Ele fora um explorador de princpios, e isso o levara a uma disputa com seus companheiros de aventuras e, mais importante ainda, com seus patrocinadores, na Inglaterra. Quando descobriram o templo da deusa da lua, lorde Hardmonton quisera preservar o stio arqueolgico, mas os financiadores da expedio o pressionaram para arrancar tudo o que pudesse do templo e despachar para a Inglaterra. Sob ameaa de uma ao judicial por quebra de contrato, lorde Hardmonton relutantemente desempenhou seu papel naquilo que foi a pilhagem completa do templo.

Holly no pde deixar de admirar aquele explorador do sculo 19, mas as aventuras dele ainda no ofereciam nenhuma informao sobre o relgio lunar. Ela suspirou e desceu o cursor pela pgina. Depois que lorde Hardmonton voltara  Inglaterra, surgiu uma disputa. Fora feito um extenso inventrio de tudo o que fora embarcado do Mxico, mas uma das relquias desapareceu no meio do caminho. Apesar de sua nobre reputao, as suspeitas recaram sobre Charles Hardmonton. O item que faltava jamais fora recuperado, e Hardmonton nunca mais conseguiu reunir o apoio financeiro necessrio para nenhuma nova expedio. Ele se tornou um homem recluso e viveu o resto de sua vida em Hardmonton Hall.

Sem encontrar a informao que buscava, Holly deu um gole no caf enquanto continuava a olhar para a tela. A ligao entre a relquia desaparecida do templo e o relgio lunar era muito tnue, mas ela ainda no estava pronta para desistir. Pesquisou outra combinao de palavras, dessa vez acrescentando inventrio  busca. Para surpresa de Holly, um dos primeiros links levava a uma fotocpia do inventrio original. O item que faltava estava destacado e era descrito como pedra da lua; havia ainda algumas notas de rodap que forneciam maiores detalhes sobre o tesouro. Era uma grande pedra cerimonial feita de um quartzo cinza no especificado. A pedra era a pea central do templo, e rumores diziam ser a lendria pedra da lua, usada para venerar a deusa da lua, Coyolxauhqui. O texto tambm sugeria que, em vez de ser usada para sacrifcios, aquela pedra teria sido utilizada para invocar vises.

Em sua pressa para desligar o computador, Holly derramou o caf sobre o teclado. No queria ler mais nada. Ela olhou para a sujeira que fizera com o caf, que agora pingava do teclado e escorria em direo aos papis de Tom. Com um bom motivo para encerrar sua pesquisa, Holly pulou da cadeira e correu para a cozinha, em busca de um pano de prato. Ela pegou o que estava perto da pia, mas, antes de voltar ao escritrio, olhou de relance pela janela e sentiu o corpo congelar. Estava observando o relgio lunar.

At aquele momento a mente de Holly se recusara a confrontar a ideia de que o relgio desempenhara algum papel em sua alucinao - isto , alm de ser a superfcie onde batera a cabea. Agora havia descoberto no apenas uma referncia  antiga existncia do relgio lunar, mas tambm - caso sua mente permitisse - uma explicao para a viso que ela tivera do futuro.

O caf derramado foi esquecido enquanto Holly fazia o possvel para se convencer de que estava tirando concluses precipitadas - concluses irracionais - sobre o que acontecera. Afinal, aquela viso no passara de uma alucinao, s precisava continuar a repetir isso para si mesma.

MAIO PARECIA VOAR enquanto Holly se estabelecia em uma rotina tranquila, mas cheia de trabalho. Billy terminara o ateli em tempo recorde, portanto ela passava as manhs ali, trabalhando em uma verso em escala reduzida da escultura da Sra. Bronson. Suas tardes eram destinadas s tarefas da casa e as noites divididas igualmente entre esboar novas peas de arte para satisfazer s exigncias de Sam e os telefonemas de Tom, isso sem mencionar as escapadas eventuais  cidade.

O brunch - a tradicional fuso de caf da manh e almoo - com Jocelyn fora um sucesso, e Holly descobriu muito mais sobre a histria da cidade. No entanto, quando a vida pregressa de Jocelyn na casa da guarda era mencionada, o assunto era discretamente desviado. Os outros moradores da cidade tampouco pareciam dispostos a discutir o passado de Jocelyn, portanto a curiosidade de Holly permanecia insatisfeita, apesar de suas tentativas.

Holly tambm desviou de assuntos que no lhe interessavam discutir e manteve as conversas com Jocelyn distantes do relgio lunar. Desde que descobrira a histria da pedra da lua, ela esteve cada vez mais determinada a acreditar que a viso no passara de uma alucinao. Sua convico aumentava  medida que o machucado desaparecia de seu rosto.

Ao afastar os ltimos vestgios do pesadelo que a assombrara, Holly apagou a imagem dos olhos inertes de Tom olhando atravs dela, apagou tambm a viso da casa da guarda com um jardim de inverno nos fundos, e tirou da mente o caos de uma casa que recebia um recm-nascido, mas no uma nova me. A nica imagem preciosa que perdurou foi o rosto angelical de Libby, e os dedos de Holly formigavam quando ela se lembrava da maciez daquelas bochechas.

No era surpresa que a ideia de maternidade consumisse os pensamentos de Holly, especialmente porque agora ela trabalhava com afinco na escultura da Sra. Bronson.  noite, quando fechava os olhos, Holly pensava em Libby e revivia aquele momento em que os coraes das duas haviam se conectado. Aos poucos, ela comeou a compartilhar do entusiasmo de Tom para terem um filho e sentiu o desejo de ser me crescer em seu ntimo - mas ainda como uma chama frgil, que precisava ser alimentada. E, quando a viso do beb no era suficiente para manter essa chama acesa, Holly usava a raiva que sentia da me para instigar o desejo de mudar.

- Estive pensando sobre o futuro - disse Holly a Tom uma noite enquanto se aconchegava na cama, sob as cobertas. Ela tinha sobre os joelhos o ursinho de pelcia cor-de-rosa que comprara e sentiu uma onda de empolgao ao imaginar as orelhas do bicho sendo puxadas por dedinhos minsculos de beb.

- Muito bem, j decidiu o que vai comer no caf da manh? - implicou Tom.

- Estava pensando um pouco mais adiante. Que tal sobre os prximos cinco anos? - Holly prendeu a respirao, esperando atiar o entusiasmo de Tom.

- Ah - disse ele.

- Nossa, eu estava esperando um pouco mais de empolgao da sua parte - retrucou Holly, sentindo-se desanimar um pouco. - Queria dizer que estou pronta para comearmos a planejar a vinda do nosso beb, e essa  a resposta que eu recebo?

Houve um longo momento de silncio, e um medo irracional dominou o corao de Holly.

- Voc encontrou outra pessoa - disse ela, ofegante e apreensiva.

- No seja louca.  claro que no! - respondeu Tom com a voz chocada. - Nem pense em uma coisa dessas. Olhe, me desculpe, sei que esse  um grande passo para voc e adoro a ideia de voc querer ser me. Adoro saber que voc est pronta para comear uma famlia e que quer ter uma casa cheia de filhos. Amo voc!

- Espere um minuto - interrompeu Holly. - Vamos planejar um beb de cada vez, est certo?

- Eu sei, eu sei.  um plano de cinco anos e bl-bl-bl...

- Ento qual  o problema? Por que voc no est dando pulos de alegria? - perguntou Holly, fazendo biquinho como uma criana petulante, embora Tom no pudesse v-la.

- A emissora me chamou para uma conversa assim que eu voltar para Londres.

- Por qu? - Holly no estava gostando do tom da voz dele. Ela sabia que o marido ainda se preocupava com o emprego, mas ele j estava fazendo tudo o que haviam lhe pedido... Provavelmente no havia mais nada que ele pudesse fazer.

- A reorganizao da empresa no conseguiu deter a crise. Vai haver uma fuso e mais mudanas.

- Mas eles no podem fazer isso! J fizeram uma baguna com a sua vida. O trabalho como jornalista  o mais flexvel possvel, eles no podem mudar mais do que j fizeram! Podem? - Holly sentia as lgrimas ardendo em seus olhos. Ansiara tanto por esse momento em que contaria ao marido que estava preparada para ser me. As coisas no estavam saindo como ela planejara, e o momento de euforia to aguardado foi desaparecendo at morrer.

Em um primeiro momento, ela havia planejado manter a deciso para si at que Tom voltasse para casa, em duas semanas, mas ento erguera os olhos para a lua cheia naquela noite, e a vontade que sentira de voltar ao jardim e colocar novamente a esfera de vidro entre as garras de metal a enervava. Precisava reivindicar para si o futuro que o relgio lunar estava tentando lhe tomar.

- A fuso vai implicar mudanas mais radicais, os cortes sero maiores do que qualquer um pode esperar - falou Tom.

- Voc vai perder o emprego? - perguntou Holly, o pnico transparecendo em sua voz. O dinheiro que recebia por suas obras no era o bastante para sustentar o casal, ou mesmo um beb.

- Realmente, no sei. Desculpe-me, Hol, acho incrvel voc querer comear a fazer planos para uma famlia, mais do que isso, acho absolutamente monumental, sei quanto deve ter lhe custado chegar a esse ponto e me sinto pssimo por no ter reagido melhor.

- Ei, no se sinta pssimo. No  sua culpa e, quem sabe, podem vir boas-novas dessa reunio na emissora - Holly costumava ser a mais pessimista dos dois, mas percebeu que naquele momento precisava desempenhar o papel inverso. Tom parecia muito ansioso. - Talvez eles estejam na corda bamba, mas tenham acabado de perceber que precisam de algum como voc para colocar a situao de volta nos trilhos. Posso perceber isso.

- Tenho a sensao de que h duas possibilidades: ou vou perder o emprego, ou eles vo usar essa possibilidade para me coagir a aceitar um trabalho de pesadelo. Mas, bem... ainda no sabemos, e, mesmo se for uma proposta ruim, no preciso aceit-la. Posso tentar trabalhar como freelancer se o pior acontecer.

- Suponho que... - comentou Holly, melanclica - esse no seja exatamente o futuro seguro que imaginamos, certo? - Sem conseguir sustentar o otimismo, agora ela lutava contra a sensao de runa iminente. - Hol, no vamos ter certeza de nada por umas duas semanas. Vamos deixar para nos preocupar quando acontecer.

- Voc est certo - falou ela em uma voz montona, que no escondia seu desapontamento. - Talvez durante essa entrevista voc possa pedir  emissora para preparar nosso plano de cinco anos para ns.

Holly sabia que no era culpa de Tom, mas no conseguia evitar a sensao de que ele acabava de jogar um balde de gua fria sobre aquela chama frgil que eram seus planos de maternidade. Ela se sentiu subitamente mais sozinha do que nunca com Tom do outro lado da linha, a distncia parecendo abrir um abismo entre eles. Sua nica companhia era o urso de pelcia cor-de-rosa sentado em seu colo, perscrutando-a. Ela brincou com a etiqueta presa na lateral da cabea dele e s ento percebeu o aviso escrito ali: o brinquedo no era recomendado para crianas menores de dois anos. Talvez esse fosse um sinal de que realmente no se encaixava no papel de me, no fim das contas. No conseguia nem mesmo comprar um ursinho de pelcia para o beb.

- Saberemos em duas semanas - repetiu Tom.

Holly mordeu o lbio inferior com fora. E no ousou responder, com medo de que as palavras sassem em um soluo.

- Teremos filhos um dia, eu prometo - acrescentou Tom.

- Voc pode ficar no telefone comigo at eu dormir? - perguntou Holly.

- Vou ficar com voc para sempre.






CAPTULO 4

- Parece que voc est precisando se animar - disse Jocelyn a Holly. Jocelyn tinha acabado de chegar para o que se tornara o tradicional brunch de domingo das duas, e logo percebeu que havia alguma coisa aborrecendo Holly.

- Estou bem - disse Holly, tentando tranquilizar a amiga com um sorriso desanimado. Elas estavam sentadas  mesa da cozinha, e Holly ergueu a xcara de ch para esconder os lbios trmulos e levemente machucados. Desde o telefonema de Tom, ela vinha mordendo os lbios e tentando represar as lgrimas que no admitia extravasar.

- Voc no est nada bem. Meus olhos podem ser velhos, mas no so cegos - repreendeu Jocelyn. Ela pegou a sacola que trouxera e retirou uma caixa de cupcakes. - Mas no h nada que no possa ser consertado com um cupcake. Qual voc prefere, limo ou nozes?

- Parece que Tom vai perder o emprego. - Holly deixou escapar em um soluo.

- Ah, Holly, sinto muito. - Jocelyn pousou a caixa na mesa e se levantou. A careta que fez denunciava o esforo que aquele movimento custara ao seu velho corpo. - Estas malditas juntas doloridas... - resmungou ela enquanto dava a volta na mesa e puxava Holly para um abrao.

- Voc est bem? - perguntou Holly. Agora foi sua vez de se preocupar com a amiga. Estava to acostumada a ver Jocelyn forte como um touro que era fcil esquecer que ela era uma octogenria.

- Nada que um novo par de quadris no possa consertar - disse Jocelyn, sorrindo. - Lembro de quando costumava ir e voltar daqui  cidade duas ou trs vezes por dia... Agora j fico exausta de andar de um canto a outro do cmodo.

- Voc deveria ter-me falado. Estou com o carro a. Poderia ter ido busc-la na cidade.

- No nasci velha e me recuso a me acostumar. O dia em que no puder mais ir e voltar por minha prpria conta, esse ser meu ltimo dia. Muito bem, mas volte a se sentar que vou pegar pratos para esses cupcakes.

Jocelyn voltou a se afundar na cadeira com um suspiro de alvio.

- E o emprego de Tom, quando voc vai ter certeza?

- Ele volta na quinta-feira, e foi chamado para uma reunio na emissora de TV. Ele no sabe o que esto planejando, mas no est esperando boas notcias. Mesmo se conseguir manter o emprego, vo querer que acumule mais trabalho. - Agora foi a vez de Holly se afundar na cadeira com um suspiro profundo, em seu caso, de puro desapontamento.

- Tom parece ser um rapaz talentoso, e, pelo que vi na TV,  muito bonito tambm. Imagino que ele poderia conseguir qualquer emprego que quisesse. Eu mesma lhe daria um emprego - admitiu Jocelyn, com uma piscada de olho.

- Sim, posso imaginar! - Holly riu. - Tom, na verdade, odeia fazer as gravaes, por mais confortvel que parea diante das cmeras. Ele prefere mil vezes fazer o trabalho de campo e deixar outra pessoa levar o crdito diante das cmeras. Mas no  apenas a segurana do emprego que est me preocupando - confessou.

- Quer conversar sobre isso? - perguntou Jocelyn.

- Estvamos pensando em aumentar a famlia. Voc no tem ideia de como era difcil para mim sequer pensar na ideia de ser me, e, agora, quando acho que estou pronta, est dando tudo errado. Acho que  o meu destino. - Holly ficou surpresa por se sentir to  vontade para conversar com Jocelyn, que conhecia havia menos de dois meses. Eram poucas as pessoas na vida de Holly com quem ela teria uma conversa dessas, e Jocelyn parecia estar preenchendo uma lacuna que existia nela desde a infncia.

- Ainda h muito tempo. Voc ser me um dia, e ser uma boa me, sinto isso em meus ossos. E, pode acreditar, eles falam muito comigo!

- Voc no pensou em ter mais filhos? - perguntou Holly inocentemente. Ela ainda tinha vontade de saber mais sobre o passado de Jocelyn.

A velha senhora olhou pensativa para a amiga.

- Eu me casei tarde, tive meu filho tarde. Estava com 41 anos quando Paul nasceu, mas, mesmo se fosse mais jovem, acho que outro beb no seria uma boa ideia. No fui abenoada com um marido igual a Tom. Como marido, Harry era um tormento, e as coisas ficaram piores depois que tive Paul. Acho que, na verdade, ele sentia cimes do meu amor pelo nosso filho, por isso seu comportamento ficou muito pior depois que o beb nasceu.

- Ento acho que voc no viu a maternidade como uma bno na sua vida, no ? - arriscou Holly.

- Ah, ao contrrio! - retrucou Jocelyn, balanando a cabea. - Paul foi a melhor coisa que me aconteceu na vida. Harry era um especialista em tortura psicolgica. Ele me isolou dos meus amigos e da minha famlia e aos poucos foi me exaurindo. Se no fosse por Paul, poderia ter sido muito pior.

- O que quer dizer?

Jocelyn estava olhando por sobre o ombro de Holly, na direo da janela e para alm do jardim. Havia uma expresso de medo em seu rosto, como se o fantasma do marido pudesse aparecer a qualquer momento na janela.

- Paul salvou a minha vida. Quero dizer que foi por causa dele que finalmente abandonei Harry. Eu no teria reunido coragem para sair daquela casa, mas consegui fazer isso pelo meu filho, embora tenha precisado passar por duras lies antes de perceber isso. - A voz de Jocelyn agora no passava de um sussurro, e as rugas ao redor de seus olhos pareciam ainda mais profundas. Todo o corpo dela estremeceu, apesar do calor do sol matinal que entrava pela janela.

- Voc est bem? - perguntou Holly.

- Estou bem. Acho que algum acaba de passar por cima do meu tmulo. - Mais uma vez, Jocelyn dirigiu um olhar furtivo na direo da janela. - Desculpe, Holly, mas que  muito difcil recordar essa parte da minha vida.

- No, sou eu que lhe devo desculpas. Acho que no havia percebido quanto foi terrvel para voc o tempo que passou aqui. Sinto muito - falou Holly.

- No se lamente, tenha esperana. No desista ainda de seus sonhos, Holly.

Por uma frao de segundo, Holly no pensou em seus sonhos, e sim em seus pesadelos.

- Talvez eu deva ter mais cuidado com o que desejo - falou. - Agora chega de conversa triste, afinal algum precisa comer esses cupcakes.


- Chocolate belga? Voc passa seis semanas na Blgica e o melhor que consegue trazer so chocolates belgas? - resmungou Holly, sonolenta. Ela fora acordada abruptamente por Tom, que pulara na cama como um cachorrinho animado, anunciando que estava em casa. Eram 2h30 da manh.

- Mas veja a embalagem! - respondeu Tom bem alto, para garantir que Holly acordasse completamente.

Ela piscou os olhos, ainda tentando ajust-los  luz forte do quarto, que Tom acendera propositalmente. Seu corao saltava no peito, em parte pelo susto de ser acordada no meio da madrugada, em parte de alegria pelo retorno de Tom. Holly observou a enorme caixa vermelha de chocolates.

- No est nem embrulhada para presente! - reclamou ela.

Tom abriu os botes de cima de sua camisa e enfiou a caixa de bombons l dentro.

- E agora? - Ele estava ajoelhado na cama, com uma perna em cada lado de Holly, prendendo-a contra o colcho. Tom se abaixou e beijou a ponta do nariz dela.- Voc est fedendo - provocou ela. - Seria como descascar um dente de alho.

- Descasque, ento, Senhora Corrigan.

Ela o beijou, suavemente a princpio, e logo com uma voracidade que despontou das profundezas. Na mente de Holly, ela havia afastado as sombras do passado e, mais importante ainda, as sombras do futuro. Tudo o que precisava estava no presente. Tudo o que precisava era Tom.

A caixa de chocolates desapareceu em um mar de lenis e de roupas ansiosamente arrancadas.

- Senti saudades - sussurrou ela enquanto descansava nos braos dele. Holly enfiou os dedos nos cabelos desalinhados e puxou a cabea do marido para trs para poder olhar nos olhos dele. Eram os mesmos olhos que vira durante seu pesadelo ao luar, s que estes cintilavam verdes e no guardavam nenhum trao do sofrimento daquele outro Tom, que a mente perturbada dela havia criado. Por mais que tentasse, Holly no conseguia afastar aquela imagem que acabava de voltar  sua mente. O temor pelo futuro que ela tentara ignorar despertou com fora, e Holly foi dominada pela dvida. E se o relgio lunar houvesse conjurado uma viso? E se realmente houvesse mostrado a ela o futuro?

Tom franziu o cenho ao perceber a expresso de tristeza nos olhos da esposa.

- Voc deve estar me odiando por ter feito isso com voc - falou ele. - Ter arrastado voc para o campo para logo deix-la sozinha. Sou um pssimo marido.

- Voc  o melhor marido que eu poderia querer. Sou abenoada por ser to amada, nunca se esquea disso. - Holly apertou Tom em seus braos com fora e afugentou as lgrimas e as dvidas. Completamente desperta e concentrada no presente, ela afastou o marido novamente de modo que pudesse encar-lo. - Espere um pouco, por que est aqui? Voc no deveria passar esta noite em Londres, para poder ir  emissora amanh? O que aconteceu?

Tom suspirou e fechou os olhos. Ento, inclinou o corpo para a frente e descansou a cabea junto  de Holly, como se o peso do mundo estivesse sendo demais para ele.

- As notcias so ruins, no ? - ela quis saber, com o corao aos pulos.

Tom ergueu a cabea e tentou sorrir. O que ele tinha a dizer no seria fcil, Holly j sabia.

- Ainda tenho um emprego, ou ao menos terei - disse ele, mas Holly sentiu que estava apenas preparando o terreno para o golpe maior.

- Diga - pediu ela com delicadeza.

- Peter Richards est se aposentando no fim do ano e querem que eu seja parte da nova equipe de apresentadores.

- Um novo ncora? Eles querem que voc seja um ncora? - Holly estava quase caindo na gargalhada. Em parte de alvio, em parte por pensar em Tom atrs de uma mesa, em um terno elegante, lendo as notcias. - E isso  ruim?

Tom fez uma careta.

- Consegue me imaginar usando um terno engomadinho todo dia? Ah, estou vendo por esse sorriso safado no seu rosto que j est imaginando. Mas no, no so exatamente ms notcias.

Holly parou de sorrir quando percebeu que havia mais alguma coisa que Tom estava tentando lhe dizer.

- Bem, isso vai acontecer no fim do ano. Quais so os planos deles para voc nesse meio-tempo?

- A fuso tem o objetivo de unir foras com outras duas produtoras, e estou sendo emprestado. Isso significa mais matrias especiais, que vo envolver muitas viagens. A primeira misso  investigar as areias betuminosas do Canad, e tenho que partir em duas semanas. O impacto ambiental da extrao de petrleo, esse tipo de coisa.

- Voc vai para o Canad? - Holly sabia que era uma pergunta idiota, e Tom teve a delicadeza de morder a lngua antes de dar uma resposta engraadinha.

- Por quanto tempo? - continuou ela.

- Pelo menos um ms.

- E depois disso? - Holly sentia o corao apertado no peito.

- Mais viagens. Sinto muito, Holly.

Os olhos de Tom estavam midos, e o corao de Holly ficou ainda mais apertado. No queria ver Tom sofrendo, de novo no. Ela se inclinou e beijou os olhos dele.

- Beije-me - disse a ele, com firmeza.

- Mesmo cheirando a alho? - perguntou Tom com um sorriso dbil.

- Isso me deixa ainda mais faminta.

- Ento pode me comer. - O sorriso agora chegou aos olhos dele.

Holly riu, e o som da risada diminuiu o desapontamento. Eles tinham um ao outro - sempre teriam -, disse a si mesma. Ento se dedicou a saborear cada beijo, cada carcia, e, quando fizeram amor, Holly se agarrou a Tom como se no pretendesse solt-lo nunca mais.

Mais tarde, quando j estavam exaustos e no tinham mais nada para saciar o apetite alm de uma caixa de chocolates agora muito amassados, Tom e Holly se arrastaram para fora da cama e desceram at a cozinha para atacar a geladeira.

- E ento, quando vou ver seu ateli novo? - perguntou Tom.

- Assim que voc estiver vestido e decente. Esta  uma cidade respeitvel, e no posso deixar que voc saia por a de cueca. Vai assustar os vizinhos.

- No estamos sendo espionados - retrucou Tom -, e, de qualquer modo, se sua amiga Jocelyn aparecesse por aqui, ela provavelmente ganharia o dia.

- Jocelyn no vai aparecer. Hoje no. Todos sabem que devem ficar afastados por um ou dois dias. At mesmo Billy.

- Ah, sim, Billy. No me importaria de falar com ele.

- Por acaso seria para pedir que ele termine aquela sua tentativa lamentvel de arrumar o jardim?

- O novo trabalho vai me pagar melhor. Se no posso estar aqui para fazer eu mesmo o servio, o mnimo que posso fazer  gastar meu dinheiro suado em um belo jardim para a minha esposa. E talvez assim eu tenha tempo para me dedicar a outro projeto que tenho em mente - respondeu Tom, fazendo mistrio.

Holly se lembrou do momento em que se vira sob a lua cheia, de p sobre um gramado bem cuidado e olhando na direo da casa.

- Que tipo de projeto? - perguntou ela, sentindo o agora j conhecido arrepio percorrendo-lhe a espinha. Tinha a imagem do jardim de inverno na mente, e rezou para que Tom no fizesse essa sugesto.

- Ser um assunto entre mim e Billy.

Holly deu de ombros. No queria ouvir nada que fosse tornar sua alucinao mais concreta.

- Faa como quiser, ento - disse ela ao marido.

Tom encarou Holly boquiaberto, chocado e um tanto desapontado por ela ter concordado to rapidamente. No estava acostumado a vencer com tanta facilidade.

- Farei - falou ele, amuado e petulante como um menino.

Holly sentiu-se culpada por acabar to de repente com a brincadeira de Tom e procurou distra-lo.

- Bem, se quiser ter uma noo do talento de Billy, venha dar uma olhada no ateli. At deixo que voc v de cueca. Vamos viver perigosamente.

O tempo estava quente e havia no ar um cheiro mido de terra molhada. Junho estava desabrochando, e os narcisos da primavera davam lugar s flores de vero.

- Os dentes-de-leo esto indo muito bem - comentou Holly, quando escapuliram da casa descalos em direo ao ateli. Ela vestia apenas uma regata e a calcinha, e fez o possvel para se esconder atrs de Tom.

- Opa, as urtigas tambm... - disse ele, conduzindo-os ao longo de um caminho estreito e de relva alta, que delimitava a casa e o ateli.

A porta do ateli ficava de frente para a estrada e era o nico lugar onde corriam o risco de serem vistos.

- Bom dia, Senhora Davis! - gritou Tom, casualmente.

Holly engasgou e se agachou atrs de Tom. Ento espiou por cima do ombro do marido e lhe deu um safano.

- Voc no conhece nenhuma Senhora Davis - disse ela. - Agora abra a porta antes que algum realmente nos veja.

Ultimamente Holly passava a maior parte das manhs no ateli, e o lugar espaoso e bem iluminado era uma segunda casa para ela. Tom, por outro lado, vira o ateli pela ltima vez quando ainda era apenas um canteiro de obras. Holly o encarou atentamente, para saborear a reao do marido. Os olhos dele se arregalaram de espanto quando viu as paredes brancas e a luz do sol danando alegremente pelo piso. Para quebrar a monotonia do branco, Holly dispusera uma variedade de seus prprios trabalhos e uma ecltica seleo de fotos e outras imagens que a inspiravam. Algumas fotografias haviam sido penduradas nas paredes e outras estavam suspensas por fios no teto, criando pequenos aglomerados de cor espalhados pelo entorno do ateli.

Tom atravessou o lugar como se estivesse andando por um bosque encantado.

-  incrvel - disse ele, por fim. - Nunca imaginei que ficaria assim! - Ele tocou uma moldura que parecia flutuar em pleno ar. Era uma fotografia dele e de Holly rindo. A foto vizinha fora tirada no dia do casamento deles, e outra foto era de Vov Edith. - Ela ficaria to orgulhosa de voc - comentou Tom.

A ateno dele foi atrada pelos projetos em andamento. Havia bancadas de trabalho alinhadas ocupando um lado inteiro do ateli e, sobre elas, algumas peas ainda no terminadas. A rea principal de trabalho, que aproveitava ao mximo a luz natural, era o centro do ateli, e ali um lenol cobria a escultura na qual Holly estava trabalhando. Havia um cavalete prximo, mostrando alguns dos esboos que ela fizera.

- Ento essa deve ser a escultura para a temida Senhora Bronson - comentou Tom.

-  uma verso reduzida dela, e ainda no estou completamente satisfeita com o resultado. Ainda tenho um ms para que ela aprove o projeto final, e a terei at o Natal para completar a pea. Ento estarei livre da mulher.

- Posso dar uma olhada? - perguntou Tom. Ele sabia muito bem que Holly detestava que ficasse espiando enquanto ela trabalhava e, muitas vezes, ela se recusava a lhe mostrar o trabalho em andamento at que estivesse certa da aparncia final da pea. Ela no queria arriscar ser influenciada pelas opinies de outras pessoas, pois sempre que isso acontecia o trabalho parecia perder o rumo. Holly decidiu arriscar e tirou o lenol para revelar a escultura. Tinha cerca de um metro de altura e estava assentada sobre uma caixa de madeira que a mantinha no nvel dos olhos, facilitando o trabalho.

A parte inferior da escultura era feita de gesso pintado de preto, para representar o mrmore que seria usado na pea final. Acima das figuras negras serpenteantes que formavam a base, emergia a figura branca da me - ou, ao menos, era isso o que se tornaria aquele emaranhado de tela de galinheiro. Holly fizera mais progressos com a imagem do beb nos braos da me. O rosto da criana era liso e branco, os lbios, no formato de corao, perfeitamente desenhados, e as bochechas, rechonchudas. Holly no se inspirara nas fotografias do filho da Sra. Bronson, que estavam largadas em algum lugar sobre as bancadas, mas no beb que encontrara em sua viso.

Tom acariciou o rosto da criana delicadamente.

- Ela  linda - falou ele.

Holly sorriu, mas uma culpa traioeira espreitava seu corao. Sentia-se constrangida ao observar Tom encantado com os lindos contornos do rosto do beb, principalmente porque j tivera a viso dele segurando e alimentando aquela mesma criana.

- Mal posso esperar para termos um filho - disse Tom, como se lesse a mente da esposa. Ele olhou para Holly e viu a sombra de dvida nos olhos dela. - Agora que eu sei o que est acontecendo neste ateli, podemos comear a falar sobre aquele seu plano de cinco anos.

Holly no queria ter essa conversa naquele momento. Sua resoluo de ter um beb e provar que a viso estava errada, que Sam estava errado, havia se desvanecido. Morrera quando Tom colocara em dvida sua permanncia no emprego e o futuro de ambos. Holly ficou parada diante do marido, muda, sem saber o que dizer.

- Voc mudou de ideia, no foi? - disse Tom, quase como uma acusao.

- No sei. Est tudo to incerto agora, talvez devssemos adiar um pouco os planos.

O corpo de Tom ficou tenso, e havia raiva em sua voz quando disse:

- Pelo amor de Deus, Holly, ser que o momento perfeito um dia vai chegar?

Holly no ficou surpresa com a frustrao de Tom, mas a raiva do marido a chocou.

- Qual  o problema? - perguntou ela. Holly conhecia o marido muito bem e sabia que aquela reao no era apenas por causa da indeciso dela sobre ter filhos.

Tom suspirou, e a raiva deixou seu corpo com o silvo de um balo se esvaziando.

- Estou aceitando o trabalho como ncora porque assim posso dar a voc e a qualquer criana que viermos a ter uma vida estvel e segura. Se eu tivesse coragem, diria a eles para fazerem o que bem entendessem com o emprego e passaria a trabalhar como freelancer. Mas no fao isso porque quero o melhor para ns... como uma famlia.

- Ora, por que no passa a trabalhar como freelancer? Estou certa de que voc teria bastante trabalho, daramos um jeito. Meu trabalho na galeria est vendendo bem. Tom, podemos fazer isso se voc realmente odeia tanto a ideia de ser ncora de telejornal.

-  um bom emprego. A cavalo dado no se olham os dentes. E, se isso me permitir passar mais tempo em casa quando finalmente formarmos uma famlia, ento  o que quero fazer. Mas quero que voc tambm queira. Sim, vai ser complicado por um ano, mas depois disso sabemos o que vai acontecer e podemos nos planejar.

Holly riu, mas sua gargalhada tinha um toque de histeria.

- Podemos? Realmente sabemos o que vai acontecer? E se no pudermos ter tudo o que queremos, Tom? E se tudo tiver um preo? - Holly tinha conscincia de que estava se equilibrando  beira de um precipcio e de que bastaria um empurrozinho de Tom para que ela lhe contasse tudo sobre a viso que tivera.

Ele ergueu as mos em desespero.

- Eu a amo, Holly. Amo voc com todo o meu corao, com o ar que respiro, com cada osso do meu corpo. No poderia am-la mais e jamais vou am-la menos. Mas s vezes voc me deixa louco. Porque no consigo convenc-la de que no vai repetir os erros de sua me. O que poderia haver de assustador em criar um beb? Olhe para a escultura em que est trabalhando. Se voc consegue fazer isso com tela de galinheiro e gesso, imagine o que conseguir fazer com amor. O que temos a perder?

Holly sabia exatamente o que poderia perder, mas precisava se agarrar  realidade. O Tom que estava parado diante dela era real, e o beb que poderiam fazer juntos tambm seria real.

- Ela  linda, no ? - comentou Holly, enquanto olhava atentamente para a imagem esculpida do beb. Nesse momento, as brasas de seu instinto maternal que haviam quase se apagado irromperam em chamas. - Acho que estou pronta para colocar aquele nosso plano de cinco anos no papel. Cinco anos para mim, para voc e para quem mais vier.

Tom se aproximou da esposa e inclinou o corpo para beijar-lhe a testa, o nariz... E ficou pairando sobre seus lbios, esperando que ela tomasse a iniciativa.

- No me diga que quer praticar mais - perguntou Holly em um sussurro. Mais do que nunca, ela precisava que Tom a abraasse, e ergueu o corpo para beij-lo. Eles caram sobre o lenol que jazia no cho, e as carcias gentis logo ganharam um ritmo urgente que afastou os medos de Holly em relao ao futuro, substituindo-os por esperana e expectativa.

JOCELYN ESTAVA DETERMINADA a adiar o costumeiro brunch de domingo com Holly enquanto Tom estivesse l, mas Holly insistiu. Dali a poucos dias Tom estaria embarcando para o Canad, mas Holly queria muito apresentar o marido  amiga. Sentia-se como se fosse apresentar um novo namorado aos pais... no que ela j houvesse experimentado essa sensao antes ou mesmo considerado a hiptese, para ser franca.

- A que horas ela vai chegar? - perguntou Tom, nervoso, quando saiu para o terrao banhado pela luz doce do vero.

Holly estava arrumando talheres e guardanapos na mesa do jardim.

- Ah, Jocelyn costuma chegar aqui por volta das onze horas. Vai depender do tempo que ela precisar para desenferrujar as juntas e andar at aqui.

- Voc deveria ter dito! Vou pegar o carro e busc-la na cidade - falou Tom, j se virando para entrar novamente na casa.

Holly agarrou o brao do marido e puxou-o de volta.

- Ah, no, voc no vai busc-la. Jocelyn ficaria furiosa se comeasse a trat-la como uma invlida. Ela acredita que a mente pode mais do que o corpo e nem sequer pensaria em diminuir seu ritmo de vida. Acredite em mim, eu j tentei.

- Santo Deus, terei que lidar com outra dama de ferro. Se eu soubesse, teria convidado Billy tambm, para ficarmos em p de igualdade.

- Voc j vem se encontrando demais com Billy - acusou Holly.

- Bem, voc o ver um pouco mais quando eu estiver fora - retrucou Tom. Ele parecia pronto para voltar para dentro de casa, mas Holly ainda estava segurando a manga de sua blusa.

- Conte - exigiu ela. Holly ignorou o fluxo de adrenalina que correu por suas veias. Sabia o que estava por vir, mas agora tinha um novo talism para afastar qualquer dvida sobre seu futuro. Ela e Tom haviam colocado no papel um novo plano de cinco anos, como ela prometera. Holly o escrevera com Tom sentado ao seu lado  mesa da cozinha, com vista para a lua cheia e com plena conscincia de que o relgio lunar rivalizava por sua ateno. O plano registrava que o resto daquele ano seria colocado de lado por causa das viagens de Tom; no ano seguinte eles planejariam o beb nmero um; no terceiro ano, Tom deveria comear a escrever o livro que vinha adiando desde sempre; e, no quinto ano, talvez - apenas talvez -, eles se preparariam para o beb nmero dois. Cinco anos completamente planejados e Holly estaria l, no futuro, com Tom. Estava escrito em preto e branco, e morrer no parto no estava no plano. Isso simplesmente no era uma possibilidade.

- Bem, olhe na direo da mesa do terrao - explicou Tom enquanto guiava Holly mais para longe da casa, para que a esposa pudesse visualizar seus planos. - Vamos dizer, mais para l, pouco antes da porta da cozinha, passando direto pelos fundos da casa, em frente  sala de estar e ento mais adiante, visualize isso. - Tom agora apontava animado para uma linha imaginria que comeava no atual terrao e atravessava o jardim. - Imagine, se puder, uma linda estrutura de metal e vidro, perfeitamente ajustada para absorver o calor do sol e ter a quantidade certa de sombra no fim do dia para que se possa tomar um drinque eventual em nosso novo...

- Jardim de inverno. - Holly terminou a frase em um tom inexpressivo. Ela no precisava visualizar o jardim de inverno, j o vira em primeira mo.

- Ento, o que acha?

Holly queria dizer a Tom para rasgar aquele projeto, mas, ao olhar para a expresso de filhote abandonado nos olhos do marido, no conseguiu negar. Isso no significava, no entanto, que a viso que tivera se tornaria realidade, e Holly estava prestes a se certificar disso.

- Acho uma ideia adorvel, mas tenho uma sugesto a fazer antes que termine seu projeto.

- Sugira; voc  a artista da famlia, afinal - concedeu Tom.

- No sei onde voc est planejando colocar a porta, mas eu adoraria que fossem portas francesas, colocadas na frente do jardim de inverno. S para o caso de voc estar pensando em coloc-las no lado prximo  cozinha... - Holly prendeu a respirao. No apenas fora ali que vira as portas em sua viso, como tambm era o lugar mais lgico para coloc-las. Mas ela estava disposta a sacrificar o lado prtico para provar que aquele futuro de sua viso sempre estaria restrito  sua imaginao. Se sua mente podia lhe pregar peas, ela poderia fazer o mesmo.

- Mas assim teramos que dar a volta por trs para chegar ao ptio, que ficaria em frente  cozinha - argumentou Tom.

- Voc acabou de dizer que sou eu a criativa aqui. Confie em mim, vai funcionar melhor. Vai criar um fluxo contnuo a partir da sala de estar, atravs do jardim de inverno, para o jardim mais alm.

A explicao pareceu to boa que a prpria Holly quase acreditou em si mesma e Tom no teve oportunidade de questionar porque, nesse exato momento, a campainha soou. Jocelyn havia chegado.

- NO CONSIGO IMAGINAR outra famlia vivendo aqui - comentou Tom. Ele usara seu talento jornalstico para extrair quase tanta informao de Jocelyn quanto Holly conseguira. Isso em menos de uma hora.

- Mal posso imaginar voc vivendo aqui, Tom - acrescentou Holly, incapaz de resistir  vontade de implicar com o marido.

Com o sol batendo no rosto, Tom apertou os olhos para encarar a esposa com o que pretendia ser um olhar magoado.

- A distncia faz o amor ficar ainda maior.

- Bem, as viagens parecem estar levando voc to longe no mundo que est praticamente se encontrando do outro lado. A que distncia precisa ir para provar  sua esposa que a ama, de qualquer modo? - retrucou Holly.

- Ah, at o ponto mais distante. - Tom sorriu, antes de perceber que Jocelyn estava sentada calmamente, observando-os. Ele pigarreou, envergonhado.

- No se incomode comigo - encorajou-o Jocelyn -, j faz algum tempo desde a ltima vez que vi tanto amor nesta casa.

- Afinal, o que aconteceu com o cretino do seu marido? - perguntou Tom. Holly ficou boquiaberta. No conseguia acreditar no quanto ele estava se adiantando, mas, antes que pudesse encar-lo com severidade, para sua surpresa, Jocelyn respondeu:

- Ele se matou - disse ela, candidamente.

O silncio que se passou entre eles deixou o ar gelado, apesar do sol forte.

- Sinto muito, Jocelyn - falou Tom, por fim, para preencher o espao que abrira uma indesejada conexo com o passado.

Jocelyn olhou para Holly e pareceu ler a mente da amiga.

- No, no foi nesta casa - assegurou ela. - Quando fui embora com Paul, Harry no tinha mais motivos para viver. Se querem uma resposta sincera, seria ele ou eu. Pelo bem de Paul, fico feliz por ele ter partido, mas tambm carrego essa culpa comigo.

- Culpa? Do que poderia se sentir culpada? Voc me contou o bastante para eu saber que ele era um homem terrvel. Harry fez as escolhas dele, e voc, as suas. Jamais se sinta culpada - disse Holly com firmeza.

- Voc tem uma esposa e tanto - disse Jocelyn a Tom. - Jamais a deixe escapar.

- No tenho essa inteno - retrucou Tom.

Holly no pde evitar pensar na facilidade com que as coisas mudam. A vida  to tnue, e nada pode ser tomado como certo. Nervosa, ela olhou de relance para o relgio lunar que agora estava meio escondido pela relva, ainda mais alta no vero, e pelas ervas daninhas. Jocelyn seguiu seu olhar.

- Ele veio de Hardmonton Hall... O relgio, quero dizer - disse ela se dirigindo a Holly. - Houve um enorme incndio que destruiu a manso nos anos 1970, e o relgio foi uma das poucas coisas que restaram.

- Li sobre isso. Na verdade, a famlia morreu no incndio - acrescentou Tom.

- Lorde e lady Hardmonton morreram, sim, mas o filho mais novo deles estava fora no momento do fogo. Ele jamais retornou, e o pouco que restou da manso foi vendido.

- E  a que chegamos ao relgio lunar - concluiu Tom.

- Agora entendo por que voc ganha a vida fazendo perguntas. - Jocelyn riu. - Sim, quando Harry viu o relgio, no sossegou at conseguir compr-lo. No porque tenha gostado da pea, mas porque sabia que eu no gostara. A essa altura j estvamos casados havia um bom tempo. Acho que Paul devia ter uns dez anos de idade e a vida no era boa... no mesmo. - Ela se virou para Tom, antes de continuar, pronta para provoc-lo. -  difcil acreditar, mas o jardim era lindo naquela poca. Era uma parte da minha vida sobre a qual eu ainda tinha algum controle, uma vlvula de escape, mas Harry fazia o possvel para estragar isso tambm. Ele instalou o relgio lunar bem no meio do meu lindo jardim, apenas para macul-lo.

Todos se levantaram sem aviso e caminharam at o relgio. Tom fez o melhor que podia para abaixar a relva alta e facilitar a caminhada de Jocelyn.

- Vou deix-lo bonito novamente - prometeu ele em tom de desculpas. - Assim que parar com todas essas viagens, vou restaur-lo  sua antiga glria.  uma promessa.

- Muito bem, certifique-se de cumpri-la - respondeu Jocelyn.

Holly ficou parada diante do mostrador, mas sentia-se relutante em toc-lo. Havia evitado chegar perto do relgio desde que sofrera a queda, e nesse instante, ao ver a pedra to de perto, ao observar o quartzo cintilando ameaadoramente sob a luz do sol, quase pde sentir o choque eltrico que recebeu e que subiu por seu brao quando encostara ali da ltima vez.

Foi Jocelyn que estendeu a mo, hesitante, e tocou o mostrador.

- Voc encontrou o mecanismo - sussurrou ela. Holly pensou ter percebido um leve tremor na voz da amiga.

- Sim, mas ele no parece estar funcionando. Tentamos colocar a esfera de vidro entre as garras, mas no se encaixou direito - explicou Tom.

Jocelyn relaxou visivelmente.

- No funciona, nunca funcionou - disse ela a Tom. - Mesmo assim,  um bom lugar para os passarinhos pousarem.

- At agora no vi nenhum pssaro pousado a - comentou Holly, quase para si mesma. Havia acabado de perceber que realmente nunca vira um passarinho sequer chegar perto do relgio.

- O que mais voc sabe sobre o relgio lunar? - perguntou Tom  esposa, erguendo a sobrancelha em uma expresso desconfiada.

Holly sentiu o rosto ruborizar de culpa.

- O que quer dizer? - balbuciou ela.

Tom virou-se para Jocelyn.

- Minha esposa andou fazendo suas prprias pesquisas. Venho esperando pacientemente que ela me revele a histria obscura do relgio lunar, mas at agora Holly vem mantendo a informao para si. E nem mesmo se desculpou por derramar caf em todo o meu computador.

Ele se virou outra vez para Holly, que estava com a boca aberta, mas no conseguia encontrar palavras para esquivar-se dessa conversa, que a deixava cada vez mais desconfortvel.

- Voc desligou apenas o monitor, no o computador - explicou Tom.

- Estava apenas tentando descobrir de onde veio o relgio lunar - confessou ela. - Desculpe-me pelo caf.

- O que descobriu? - perguntou Jocelyn, novamente hesitante.

- Que existiu um lorde Hardmonton no sculo 19 que foi explorador - explicou Holly. - Ele descobriu algo chamado pedra da lua, no Mxico, e esse artefato desapareceu em sua viagem de volta  Inglaterra. Talvez ele tenha ficado com a pedra e feito o relgio lunar com ela.

Os olhos de Jocelyn permaneceram com a mesma expresso. Se a amiga sabia mais sobre o relgio lunar, pensou Holly, estava disfarando bem.

- No apenas isso - acrescentou Tom, ansioso por compartilhar suas prprias descobertas -; havia uma lenda que dizia que a pedra tinha o poder de invocar vises. Parece haver vestgios de que os astecas realmente acreditavam que eram vises do futuro, embora, se me perguntar, acho que tem mais a ver com as drogas alucingenas que tomavam. Ainda assim, a informao me faz olhar para o relgio de maneira diferente.

Tom passou os dedos pelas palavras entalhadas na borda externa do mostrador.

- Eu tinha lido isso errado - disse ele s duas mulheres, que pareciam haver se transformado em pedra. Ambas estavam plidas como o quartzo cinza do relgio lunar. - O reflexo  a chave para a viagem no tempo.

Os trs ficaram em silncio, e a nica coisa que Holly ouvia era o martelar do prprio corao no peito.

- Tudo isso no passa de bobagem - desdenhou Jocelyn, quebrando a magia.

- Acho que voc deve estar certa - concordou Tom. - Afinal, se o relgio funcionasse para invocar vises do futuro, por que lorde Hardmonton no descobriu que suas novas instalaes eltricas iriam provocar o incndio que reduziria a manso a cinzas?

O corpo de Holly vibrou com uma descarga eltrica toda sua, que lhe subiu pela espinha e a fez ver estrelas. Ela teve certeza de que iria desmaiar, por isso, apesar de sua determinao, acabou apoiando a mo sobre o mostrador, para se equilibrar. A pedra estava fria, e Holly sentiu um formigamento quase imperceptvel entre a palma da mo e a pedra. Quando sua viso clareou, ela desviou o olhar na direo de Jocelyn, que tambm olhava fixamente para o mostrador e no retribuiu seu olhar.

- Eu me pergunto se esse negcio poderia me dizer se minha esposa vai queimar nosso jantar esta noite... - brincou Tom.

- Po e gua  tudo o que voc merece at colocar este jardim em ordem, meu jovem - repreendeu-o Jocelyn. - Esse mato est espetando as minhas pernas.

Foi s quando a gargalhada deles encheu o jardim que Holly sentiu o relgio lunar afrouxar o domnio que tinha sobre ela.

- Hora de outra xcara de ch - disse Holly a Tom, que guiou as duas mulheres com cuidado at a segurana do ptio.

TOM PARECIA MAIS RELAXADO conforme se aproximava o momento de viajar novamente. O encontro com Jocelyn havia diminudo sua culpa e tranquilizado qualquer medo que pudesse ter sobre deixar Holly sozinha na nova casa.

- Desta vez a diferena de fuso horrio ser maior - avisou  esposa quando comeou a arrumar as roupas na mala, preparando-se para partir bem cedo no dia seguinte. Estavam no quarto, e a janela aberta deixava entrar a brisa suave de vero e o cheiro doce da madressilva que abrira caminho pelo jardim descuidado, espalhando-se pela parte de trs da casa. - Acho que s vamos conseguir nos falar uma vez ao dia.

- Sem exceo - avisou-o Holly. Ela estava debruada sobre a mala aberta, retirando as roupas colocadas de qualquer jeito, dobrando-as cuidadosamente e voltando a arrum-las na mala.

- Falando em telefonemas... - Tom comeou a dizer.

- Falando em telefonemas, voc vai finalmente me contar sobre a longa conversa que teve com a emissora de TV esta manh?

- J lhe disse, no foi nada ruim. Ainda o mesmo plano. Vou passar um ms no Canad, ento voltarei para casa por pouco tempo e viajarei de novo. Parece que a prxima matria ser no Haiti, e talvez eu fique ainda mais tempo longe, uns dois meses, acho.

- Isso eu j sabia. O que disseram de novo? - perguntou Holly, desconfiada. Tom j lhe adiantara as ms notcias sobre seu prximo trabalho alguns dias antes. E, embora ela no estivesse nada feliz com as viagens dele, nem com o lugar para onde iria, o futuro deles dependia daquilo. Estava escrito no plano de cinco anos que haviam feito, portanto estava tudo bem, e Holly acabara aceitando.

- Eles comentaram sobre quanto esto felizes com meu trabalho diante das cmeras - continuou Tom, um pouco tmido.

- Mas...? - quis saber Holly.

- Querem trabalhar a minha imagem.

No era segredo para ningum que Tom preferia estar escrevendo em uma mesa em vez de apresentar um telejornal atrs de uma.. E parte dessa relutncia tinha a ver com ter que se submeter a certos padres no que se referia  imagem. Era inevitvel que em algum momento a emissora quisesse mudar a aparncia dele.

- Bem, eu j havia imaginado... - Holly riu.

Tom arquejou, fingindo horror.

- Obrigada pelo voto de confiana! Vamos, diga logo. Diga que tenho o rosto perfeito para o rdio.

- Voc tem um rosto perfeito - disse Holly. - Seus cabelos, por outro lado...

- Eu sei - falou Tom, afastando constrangido um cacho de cabelo que lhe caiu sobre a testa.

Holly subitamente desatou a rir.

- Eles querem cortar seu cabelo, no querem?

- No tem graa nenhuma - respondeu Tom, muito srio, mas logo comeou a rir tambm. - A emissora quer que eu tenha uma nova imagem antes de comear a gravar minhas entradas no Canad.

Holly afastou a mala do caminho e engatinhou sobre a cama at onde estava Tom. Ela passou os braos ao redor do marido e comeou a acariciar os cachos negros.

- Ento acho que vou ter que beijar cada um deles para me despedir - sussurrou ela.

Quando Tom se juntou a Holly na cama, mal percebeu que por uma frao de segundo o corpo da esposa enrijeceu. Ela tinha acabado de se lembrar do Tom de corao partido de sua viso. O cabelo dele era bem curto. Holly estava cansada da pea que o relgio lunar parecia estar pregando em sua mente e, naquele instante, soube que precisava deixar aquele pesadelo de lado de uma vez por todas.






CAPTULO 5

No dia em que Tom partiu para o Canad, Holly mal conseguiu esperar pelo anoitecer. A noite estava quente e mida, e ela abriu caminho com dificuldade pela relva alta e ficou parada, desafiadora, diante do relgio lunar. Acima dela, a lua minguante resplandecia e buscava seu reflexo na esfera de vidro que Holly segurava firmemente nas mos. Ela no queria mais tempo para pensar sobre o que estava fazendo, por isso encaixou a esfera apressadamente no mostrador, tomando cuidado para no deixar seus dedos tocarem o mecanismo de metal ou a prpria pedra.

A esfera oscilou e ento ficou to parada quanto a noite que se fechava ao redor de Holly, alimentando sua apreenso crescente. Ela tentou ouvir o intrigante tiquetaquear do relgio - o som que acompanhara a violenta exploso de raios de luar que acontecera na ltima vez em que o usara -, mas o nico som que ouviu foi o roar das folhas altas da relva, embaladas pela brisa suave. A esfera cintilou inocentemente quando refletiu os raios de luar, mas no tinha nenhum poder prprio, nada que existisse alm da imaginao de Holly.

A distncia, ouviu o canto de uma coruja que imaginou estar rindo dela. Holly no culpava a coruja. Ela ergueu a cabea para o cu para deixar escapar um enorme suspiro de alvio, mas o sorriso em seu rosto desapareceu quando Holly encarou o cu. Na noite de sua viso, a lua estava cheia, no tinha a face parcialmente escondida atrs da sombra da Terra. As imagens da lua gravadas na superfcie do relgio eram todas de crculos perfeitos. Com relutncia, ela percebeu nesse momento que, se o relgio lunar realmente tinha algum poder, ele era ativado pela luz da lua cheia. Com cuidado, usando o polegar e o indicador, Holly tirou a esfera do abrao frgil do mostrador e guardou-a novamente na caixa.

Sentia-se derrotada e desanimada. Precisaria esperar trs semanas inteiras at a prxima lua cheia, no final de julho, e era como se a vida dela estivesse sendo colocada no limbo. J havia sido bastante difcil lidar com a devastao emocional de se ver longe de Tom mais uma vez, mas viver com as dvidas torturantes e a crescente possibilidade de realmente ter tido uma viso do futuro prximo - em que j estaria morta! - era demais para aguentar.

Naquela noite, Holly ficou rolando na cama, sem conseguir dormir, tentando encontrar algum sentido para tudo o que vira - ou pensara ter visto - durante a alucinao, e tambm para as conexes que fizera com essa viso. Talvez a batida na cabea, quando cara no jardim, houvesse causado algum problema mais duradouro. Talvez ela no tivesse visto um jardim de inverno em sua viso original. Talvez no tivesse visto Tom com os cabelos curtos. E se sua mente simplesmente alterou a memria que guardava da viso depois que Tom lhe contara sobre seus planos? Isso no faria mais sentido? Holly sabia que essa hiptese no explicava os paralelos entre a sua prpria experincia e a lenda da pedra da lua, mas a ligao entre o relgio lunar e a pedra da lua ainda era tnue. O reflexo  a chave, era o que dizia a inscrio, mas o que isso significava? A lua refletia a luz do sol na escurido da noite. O relgio lunar captava aquela luz e a refletia onde? No futuro?

Holly se perguntou se deveria falar com Jocelyn a respeito do relgio. Ser que imaginara o desconforto da amiga quando estiveram parados ao redor do relgio lunar? Jocelyn teria mais segredos a revelar? Ela no poderia compartilhar suas ideias at encontrar mais algumas peas do quebra-cabea e no faria isso at a lua cheia. Holly sacudiu a cabea para se soltar do emaranhado de teorias que dera um n em seus pensamentos.

No foi surpresa que durante cada noite que se seguiu Holly parecesse dormir cada vez menos, enquanto a lua encolhia em um sorriso cada vez mais insinuante, antes de comear a abrir sua boca larga, pronta para engolir a frgil esperana de Holly de que tudo poderia ser explicado por uma simples pancada na cabea.

ENQUANTO O RELGIO LUNAR ocupava os pensamentos dela durante a noite, era a escultura da Sra. Bronson que ocupava seus dias. A imagem do beb estava irretocvel, suas curvas suaves e delicadas guardavam tantas semelhanas com Libby que o corao de Holly ficava apertado cada vez que olhava para ela - o que fazia com frequncia. A imagem da me tambm estava quase concluda, e ela segurava o beb nos braos de um modo que fazia os prprios braos de Holly ansiarem por sentir o peso da criana. A me envolvia a figura mida como se o beb fosse a mais delicada das flores, mas tambm havia alguma coisa naquele abrao materno que sugeria uma fora frrea.

Holly recuou para examinar o prottipo. Suas mos estavam cobertas de p depois de tanto buscar e corrigir imperfeies, para deixar as linhas mais suaves e as curvas mais refinadas. Estava quase terminada, mas ainda assim Holly franziu o cenho ao examin-la. Ela deu a volta lentamente na escultura, examinando cada centmetro da forma espiralada e dos pontos de transio onde a pedra negra se encontrava com a branca. O prottipo no tinha a elegncia que teria a verso final, mas, a no ser por isso, tudo parecia estar como deveria. Sem se dar por satisfeita, Holly afastou-se mais alguns passos at estar praticamente na porta do ateli, checando o trabalho a uma boa distncia. Havia alguma coisa na pose que ela estava achando errada, embora fosse precisamente o que desenhara em seus esboos iniciais.

Os olhos de Holly se desviaram na direo do cinzel, mas ela se deteve antes de peg-lo. Em vez disso, deixou escapar um suspiro profundo.

- Est bom o bastante para a Sra. Bronson - disse a si mesma com um toque de irritao.

Era meio de julho e, embora o prazo para terminar o prottipo fosse final de julho, a Sra. Bronson no estava conseguindo esperar e vinha perturbando Holly havia dias. Holly sabia que precisava confiar e aceitar que aquilo era o melhor que conseguiria produzir. Ela se encostou na porta do ateli, com uma expresso resignada. Infelizmente, nesse exato momento, a porta se abriu para fora e o corpo de Holly caiu no vazio.

- Cuidado! - gritou Billy, agarrando Holly antes que ela chegasse ao cho.

Suspensa a menos de meio metro do cho e confiando nos braos de Billy para impedir que ela casse, Holly levantou os olhos e encontrou o olhar do contramestre, que se debruava sobre ela. Ele deu um sorriso simptico e balanou a cabea.

- No se pode confiar em vocs mulheres quando esto sozinhas - falou Billy, deixando escapar um suspiro.

- Posso cuidar muito bem de mim mesma - retrucou Holly, aborrecida.

- Mulheres... - comentou ele, com um brilho travesso nos olhos.

- Voc j pode me soltar, Billy - sugeriu Holly.

- Voc manda - falou ele, soltando-a.

Holly aterrissou no cho com as articulaes estalando.

- Obrigada, Billy! - disse ela, esfregando os cotovelos enquanto se esforava para levantar. - A propsito, o que est fazendo aqui?

- Apresentando-me para o dever, madame - Billy fez uma continncia. Como Holly o encarou sem entender, ele continuou. - Seu marido me contratou para construir um jardim de inverno.

- Ah... - Holly franziu o cenho. -  tudo o que eu precisava mesmo...

- Ah, espere at v-lo pronto. Vai ficar espetacular - falou Billy, efusivo.

- Ah, posso imaginar perfeitamente - disse Holly em um suspiro, imitando o entusiasmo de Billy e acrescentando um toque de sarcasmo que apenas ela tinha como apreciar.

- Bem, imaginar  s o que pode fazer. Concordei com o projeto de Tom, mas no vou mostr-lo. Voc j fez confuso o bastante mudando a posio das portas. Tom quer que o produto final seja surpresa.

- Isso pode ser mais difcil do que voc pensa - retrucou Holly.

- Suponho que no haja nenhuma chance de voc ficar longe do jardim nas prximas duas semanas, no ?

- Nenhuma - confirmou Holly. - Vou lhe dizer o que vou fazer - acrescentou ela, quando viu os ombros de Billy se curvarem em desapontamento. - Vou desviar os olhos sempre que passar pela obra e prometo no ir espiar.

- Negcio fechado. Vamos comear a trabalhar depois do fim de semana.

- timo. At a prxima semana, ento - despediu-se Holly.

Billy olhou mais alm, para a escultura, e obviamente estava prestes a dar sua opinio de especialista.

- Vejo voc na segunda-feira - disse Holly, antes que ele tivesse chance de falar.

- Poderia ficar bom se... - comeou ele.

- V embora, Billy - disse Holly com um pouco mais de firmeza, mas abafando uma gargalhada.

Com o contramestre fora do caminho, ela pegou o telefone e ligou para a Sra. Bronson. Se conseguisse que a cliente fosse ao ateli na semana seguinte, ento estaria adiantada em seu cronograma e teria tempo para trabalhar em algumas outras peas para a galeria, como prometera a Sam. Isso, claro, presumindo que a Sra. Bronson gostasse do prottipo em escala reduzida. Holly continuou a examinar a escultura enquanto agendava o encontro com a Sra. Bronson pelo telefone. E voltou a franzir a testa, incomodada.

S esperava que fossem suas prprias inseguranas que estivessem fazendo que olhasse para a pea com ligeiro desagrado. O tema me e filho seria sempre um desafio, mas Holly no tinha imaginado o tamanho desse desafio.

Ela suspirou, afastando os fantasmas do futuro. Com sorte, a Sra. Bronson teria um gosto descomplicado e veria a escultura como Holly pretendera: um retrato simples e idealista da relao entre me e filho.

A SEPARAO ENTRE HOLLY E TOM agora era maior no apenas em termos de distncia. Os efeitos emocionais eram mais amplos do que o Oceano Atlntico que se estendia entre eles. Ela estava preparada para as dificuldades que os diferentes fusos horrios causariam em seu relacionamento de longa distncia, mas no contara com o caos que Tom deixara para que encarasse sozinha, graas ao relgio lunar.

Holly percebeu que fora inocente ao achar que poderia lidar sozinha com a situao bizarra em que se encontrava. Seus pais negligentes a deixaram  deriva, mas, quando Tom surgiu em sua vida, ele se tornou sua ncora. O plano original de cinco anos determinara o curso da vida de Holly, mas fora Tom, e apenas ele, que deu a ela a estabilidade por que tanto ansiara. Os prximos cinco anos deveriam ser de calmaria, e, para Tom, ter um beb e uma esposa era fundamental para que aquele plano desse certo.

Com a lua cheia a apenas alguns dias de surgir no cu, Holly precisava mais do que nunca do marido. Ela se perguntou como ele reagiria se lhe contasse sobre a alucinao que tivera e como ela estava - mesmo que vagamente - inclinada a aceitar que aquilo fora uma viso do futuro. Ele provavelmente reservaria lugar no prximo voo para casa. Tom lhe daria apoio,  claro, mas jamais entenderia seus medos. No fora ele que caminhara por uma casa em que o ar estava pesado de luto. Tom no sentira o corao partir diante da viso da pessoa que ele amava desmoronando, e no vira Libby, com os olhos verdes mais lindos e perfeitos, encarando-o de volta, sem ser capaz de tom-la nos braos naquele momento, ou jamais, caso a viso fosse to proftica quanto ela comeava a suspeitar. Por isso, quando Holly pegava o telefone e fazia a costumeira ligao internacional para Tom, ela deixava que o som da voz do marido acalmasse seus medos e no dava nenhuma pista de sua ansiedade crescente.

- Como Billy est indo com meu projeto? - perguntou Tom, ansioso.

Era meio da tarde em Fincross, e o sol estava alto, quebrando recordes de temperatura no ano. Teria sido um lindo dia para sentar no jardim, se Holly tivesse permisso para sair no que agora se tornara um canteiro de obras. O terrao, onde Holly, Tom e Jocelyn haviam desfrutado o brunch de domingo, fora desmantelado, e seus alicerces haviam sido estendidos at o jardim de inverno.

- Estou sob ordens estritas de Billy de no espiar por nenhuma janela ou ir at o jardim, portanto como vou saber o que est acontecendo l?

- Mas tudo est saindo como o planejado?

- Billy ainda est reclamando sobre a posio das portas e no para de encher meus ouvidos. Tive que recrutar Jocelyn e usar a influncia dela para impedir que ele mudasse o projeto sem eu saber.

- Bem, ele no deixa de ter razo. Ainda no estou convencido de que aquele seja o melhor lugar para as portas.

- Eu j lhe disse que sou eu a criativa da famlia. Sei o que  melhor - tranquilizou-o Holly.

- Por falar em criatividade, voc j encontrou com a temida Sra. Bronson?

- Ela foi embora no faz muito tempo - disse Holly a Tom, enquanto se sentava diante da mesa da cozinha e pegava um sanduche.

- E? - quis saber ele.

- Ela adorou o prottipo, graas a Deus. - Holly se recostou na cadeira para aproveitar a sensao de alvio que se apossou dela. No conseguia parar de sorrir.

- No fico nada surpreso. Parecia incrvel quando eu vi, mesmo ainda no estando terminada. Voc pode me mandar uma foto, por favor?

Ela se recusara a mostrar a pea pronta a Tom at que a Sra. Bronson houvesse aprovado o projeto. Sabia que o marido adoraria, mas a Sra. Bronson era a cliente, e era ela quem precisava gostar.

- Vou mandar - prometeu Holly.

- Ento, ela no pediu nenhuma alterao?

- Bem, no sa dessa histria assim to inclume. A senhora Bronson fez questo de ressaltar que seu querido filho tem um rosto mais longo e um furinho no queixo. Tive vontade de lhe dizer que ela deveria se sentir grata por eu ter baseado a escultura em um beb bem mais bonito, mas o cliente tem sempre razo.

- Portanto,  claro que a escultura final ser mais parecida com o filho dela - acrescentou Tom.

-  claro - disse Holly, com um sorriso travesso.

- Mesmo?

- Como voc pode duvidar de mim? Se ela quer as feies feias de seu beb imortalizadas, por que eu faria diferente?

- Talvez porque  o seu trabalho que estar sendo imortalizado?

- Bem, nunca pensei na situao dessa maneira... Talvez eu deva repensar.

- Como se j no tivesse feito isso. - Tom riu. - Bem, espero que no abandone nossos bebs se eles forem feios.

O sorriso de Holly se apagou por um momento, e ela ficou feliz por Tom estar do outro lado do telefone, e no  sua frente.

- Nossos bebs sero lindos - disse Holly, antes que o silncio ficasse muito eloquente. Ela fechou os olhos, e um rosto familiar surgiu em sua mente.

- Sero, se forem parecidos com voc.

- Desde que tenham os seus olhos - falou ela. Ainda de olhos fechados, Holly viu Libby encarando-a e teve que apertar bem as plpebras para afastar o fantasma daquela imagem.

- Meus olhos, mas seu nariz. E sua boca. E seus cabelos. Lindos bebs que vo crescer para serem to lindos quanto a me deles - continuou Tom com absoluta certeza. - Bem, as garotas sero assim. Pode me chamar de antiquado, mas no tenho tanta certeza sobre meninos com longos cabelos louros.

Holly riu, e o som afastou a tenso que vinha crescendo dentro dela. Era por isso que precisava de Tom em sua vida, para tornar tudo normal, simples e seguro.

- Voc j planejou tudo, no foi? Provavelmente at j escolheu os nomes - acusou-o.

- Eu?  voc quem gosta de todos esses planos! Embora, j que mencionou o assunto, eu tenha andado mesmo brincando com algumas ideias de nomes - admitiu Tom.

- No me diga que escolheu um punhado de nomes esquisitos agora que est prestes a se tornar uma celebridade.

- No me lembre disso... Tenho uma reunio marcada com o cabeleireiro para logo. No consigo acreditar que a emissora est me fazendo passar por isso. Mas no, sem nomes ridculos. Estava cogitando a ideia de chamar um de nossos meninos de Jack, em homenagem ao meu pai.

- Muito bem - retrucou Holly, ctica. - E vou ignorar novamente a referncia a termos hordas de filhos.

- E eu gostaria muito, muito mesmo que batizssemos nossa primeira menina com o nome da vov.

- Edith? - Holly fez uma careta.

- No, eu no seria to cruel. O segundo nome da vov era Elizabeth. Poderamos cham-la de Beth, Eliza, ou at mesmo Lizzy, um diminutivo.

- Ou Libby - acrescentou Holly, a tenso retornando ao seu corpo com a sutileza de um soco no peito.

- Ei,  perfeito. Nossa pequena Libby. J posso at imagin-la.

- Eu tambm - sussurrou Holly.

Eles se despediram e, quando desligou o telefone, Holly desejou desesperadamente que a vida pudesse voltar a ser simples como antes. Ela queria acreditar mais uma vez que o amanh era uma pgina em branco, pronta para ser preenchida, e que enquanto permanecesse em branco o amor deles poderia criar um novo mundo adiante. Com alguma sorte, a lua estaria prestes a provar que o relgio lunar no passava de um enfeite de jardim e, mais importante que isso, que o futuro de Holly estava escrito apenas em seu plano de cinco anos, em vez de ter sido capturado pelos reflexos de um relgio lunar.

- VOC EST DIFERENTE - comentou Holly com o marido enquanto examinava a foto que ele mandara para o telefone dela. Na segurana de seu quarto, cercada por um mar de travesseiros e enrolada no edredom, ela se protegia do medo da lua cheia que j subia no cu.

- Diferente de um jeito bom ou ruim? - quis saber Tom. O pequeno eco em sua voz parecia mais ntido nessa hora da noite e enfatizava a distncia entre eles.

- Apenas diferente - repetiu Holly. A qualidade da foto no era das melhores, e obviamente fora o prprio Tom quem a tirara, com o brao esticado diante de si e a decorao neutra do quarto de hotel ao fundo.

Ele parecia mais magro e suas feies, mais angulosas, sem o costumeiro halo de cachos. Embora Holly se lembrasse vagamente da imagem de Tom com cabelo curto de sua viso, fora o vazio nos olhos dele que mais chamara sua ateno durante a alucinao. Nas guas tranquilas da realidade, ela estava com a cabea desanuviada e era capaz de ter uma opinio mais crtica sobre o novo corte de cabelo.

Holly no duvidava que Tom fosse parecer to bonito como sempre com os cabelos arrumados e um terno combinando, mas ao v-lo com os cabelos curtos, ela sentiu um inesperado aperto no peito. Estava acostumada com um Tom desalinhado, que era o seu Tom... e que estava indo embora em mais de um sentido.

- Vou me acostumar - acrescentou ela, hesitante.

- Voc no gostou - gemeu Tom do outro lado da linha. - E pensar que foi voc quem sempre me encheu a pacincia para cortar os cabelos.

- No passado, eu sugeri que voc o mantivesse aparado e arrumado. E me lembro, sim, de ter arrastado voc para o banheiro em certa ocasio para lav-lo. E admito tambm que uma vez, apenas uma vez, cortei uns dois cachos cheios de ns enquanto voc dormia.

- Voc praticamente me escalpelou!

- Voc est parecendo elegante, agradvel. Os telespectadores vo adorar.

- Agora voc s est querendo ser gentil. Fale mais - encorajou-a.

Holly acalmou Tom, que, assim como Sanso, sentia-se emasculado pelo simples ato de cortar os cabelos. Quando puxou as cobertas ao seu redor, o olhar dela foi atrado na direo da janela do quarto. Ela havia acendido todas as luzes ali dentro para neutralizar os raios de luar que tentavam invadir sua paz.

Holly contara os dias at a lua cheia, mas agora considerava confiar apenas em sua razo para descartar a ideia de que houvesse um poder latente no luar. Realmente queria test-lo?

Enquanto ainda conversava com Tom, Holly saiu relutante da cama e se esgueirou at a janela. Ela afastou as cortinas e tentou abrir a persiana. A face enigmtica da lua iluminou-a, e Holly deixou escapar um suspiro de resignao.

- Est cansada? Quer que eu desligue? - perguntou Tom, interpretando o suspiro como um bocejo reprimido.

- Ainda no - respondeu Holly, sentindo um espasmo de medo e ansiedade lhe apertar o peito.

Mas ela no conseguiria manter Tom ao telefone a noite toda. Por isso, fingiu que ele a estava induzindo a um sono tranquilo e deu um ltimo boa-noite com um gosto amargo de culpa na boca.

As paredes pareceram se fechar ao redor de Holly quando ela colocou o fone no gancho. O ar parecia ter sido sugado para fora do quarto, e Holly sucumbiu  necessidade urgente de sair em disparada da casa, levando um casaco e calando os tnis no caminho. Parando apenas para pegar a caixa de madeira na cozinha, ela seguiu em frente. S quando suas mos tocaram a pedra fria do mostrador foi que ela percebeu que no estava correndo da casa e sim para o relgio.

A CHUVA DE VERO que cara durante o dia deixara a noite de julho pesada e mida, e, enquanto Holly tentava recuperar o flego diante do relgio lunar, o suor j escorria por sua nuca. Ela enrolara o cobertor ao redor da cintura e esperava no precisar dele.

Algumas nuvens brancas estavam espalhadas no cu, e a maior delas escondia a face perfeitamente redonda da lua. Holly pousou a esfera com cuidado entre as garras de metal do mostrador e apertou os olhos com fora, esperando por um espetculo ofuscante de luz e torcendo muito para que ele no acontecesse.

Depois de um ou dois segundos esperando ansiosa, Holly abriu um dos olhos e olhou ao seu redor. Logo percebeu o sussurro reconfortante da relva alta a seus ps. A distncia, os galhos das rvores no pomar se curvavam ao peso das frutas que cresciam. Holly, que estava prendendo a respirao, deixou escapar um suspiro de alvio.

- Est vendo, Holly, nenhuma mgica, nenhum vodu. - Ela estendeu a mo para pegar novamente a esfera e nesse momento uma rajada de vento atingiu o jardim, agitando a relva ao redor dela. A nuvem que estivera escondendo a face da lua se afastou e os raios de luar se projetaram avidamente na direo do mostrador.

A ponta do dedo de Holly mal entrara em contato com a esfera quando esta cintilou e reviveu. Finas linhas de luz apareceram na superfcie do relgio. Sentindo o dedo tremer, ela afastou a mo no momento em que uma exploso de raios de luar danava pelo jardim. Holly fechou bem os olhos e segurou com fora na borda do mostrador, para se equilibrar, enquanto a realidade lhe escapava pelos dedos e ela se via sugada para dentro de um abismo.

Ela podia sentir o relgio quase zumbir com a eletricidade, mas se manteve agarrada  pedra como se disso dependesse sua vida. Um relgio tiquetaqueou em seus ouvidos at se perder lentamente na distncia.

No foi apenas o choque eltrico que recebeu do mostrador que tirou o flego de Holly, nem o espetculo ofuscante dos raios de luar que danavam ao redor dela, mas sim a sbita queda de temperatura, quando a brisa morna de vero se transformou em um vento cortante de inverno.

Holly vestiu o agasalho que trouxera consigo e sentiu o suor em sua nuca ficar gelado. Ela piscou vrias vezes para tentar afastar as manchas deixadas pela luz em sua vista e enxergar os arredores, mas no precisava da viso perfeita para confirmar as mudanas. A relva alta j no roava em suas pernas, e era como se seus ps estivessem enfiados em baldes de gelo. Enquanto lutava para clarear a viso, Holly percebeu por que sentia tanto frio. Estava parada sobre meio metro de neve, e as manchas que via no eram efeito das luzes fortes em seus olhos, eram flocos de neve girando ao seu redor.

Holly sentiu-se congelar em poucos segundos e soube que no poderia de forma nenhuma ficar onde estava, por mais que quisesse. No tinha escolha a no ser buscar abrigo na casa e encarar fossem quais fossem os horrores que a aguardavam. Alm do manto branco de neve, a luz da janela da cozinha era como um farol na direo dela. As nicas outras luzes na casa vinham da sala de estar, como um brilho quente parcialmente escondido pelo jardim de inverno. Holly estava determinada demais a alcanar a segurana da casa e o calor que esta prometia para se preocupar com o que estava acontecendo ou prestar ateno nos detalhes ao seu redor. Foi s quando alcanou a lateral da casa que ela finalmente parou por um instante para organizar os pensamentos.

No havia dvida alguma de que, fosse o que fosse que ela estivesse vivenciando, era a mesma coisa que lhe acontecera antes. Holly no queria usar o termo viagem no tempo, mas o que estava acontecendo no poderia ser explicado por algo to simples como uma alucinao. Dessa vez no houvera nenhuma batida na cabea ou trauma fsico. Ela sabia onde estava, s no sabia exatamente em que momento do tempo. Com certeza no era em uma agradvel noite de vero.

O olhar dela se desviou na direo do jardim de inverno, e a primeira coisa que percebeu foi que as portas francesas, que ficavam na lateral da estrutura em sua ltima visita, j no estavam l. Do ponto onde estava, ela no conseguia ver a frente do jardim de inverno, mas no precisava. Holly sabia que era l que estariam as portas... afinal, era onde ficariam na estrutura que Billy estava terminando de construir. A mente dela ainda se esforava para encontrar uma explicao racional para tudo isso. Se essa era uma viso do futuro, ento ela conseguira mud-lo de algum modo. Da mesma forma, se fosse uma viso criada por sua prpria imaginao, ento obviamente as portas teriam mudado de lugar. Ou seja, a posio das portas no provava nada.

Holly deu uma ltima olhada na direo do relgio lunar enquanto se preparava para entrar na casa, como se o estivesse desafiando a lhe dar alguma pista de seus poderes. O relgio se recusou a encar-la de volta, havia se recolhido sob o manto de neve. Holly estava prestes a se virar quando algo lhe chamou a ateno e ela precisou de alguns segundos para descobrir o que era. Um par de pegadas marcava a grossa camada de neve que separava a casa do relgio, mostrando o caminho que ela tinha seguido na direo da porta dos fundos. Holly espiou entre os flocos de neve para olhar as pegadas mais de perto, em especial as que estavam mais distantes, perto do relgio. Embora estivesse nevando bastante, a quantidade de neve que caa no deveria ser o bastante para cobrir as pegadas dela to rapidamente; as marcas diante de seus olhos estavam sendo apagadas devagar. As pegadas que estavam mais perto da casa foram as ltimas a desaparecer, e Holly observou incrdula enquanto a neve cobria os buracos em forma de p com absoluta preciso. Em um instante, a camada de neve sobre o gramado parecia intocada, como se Holly nunca houvesse caminhado sobre ela.

Holly se virou rapidamente e abaixou a maaneta da porta dos fundos, mas sua mo escapuliu. Ela se lembrou do esforo que fora necessrio para abrir a porta da ltima vez e agarrou a maaneta com urgncia renovada. Precisava se afastar o mais rpido possvel da tempestade de neve que estava invadindo no apenas os arredores, mas tambm seu crebro.

A cozinha estava aquecida, segura e, felizmente, vazia. Holly fechou os olhos e se apoiou contra a porta. Podia sentir os flocos de neve derretendo em seus cabelos e escorrendo por seu rosto. Era como se fossem lgrimas, mas Holly no se arriscaria a chorar naquele momento. Precisava estar forte para enfrentar o que a esperava.

Ela estremeceu e tentou afastar a tenso que ameaava paralis-la. Quando abriu os olhos, a cozinha estava exatamente como ela temia: um caos de pratos sujos e coisas de beb. A mesa da cozinha estava uma baguna e havia um jornal meio aberto ameaando cair pela beirada. Holly pegou o jornal e procurou a data de publicao. Era janeiro de 2012, dali a 18 meses. Ela soube ento que no podia mais negar que viajara no tempo, mas seu objetivo principal nesse momento era simplesmente continuar firme para atravessar o mais rpido possvel esse pesadelo e chegar ao outro lado.

Ela estava prestes a recolocar o jornal no lugar quando percebeu uma mancha circular de queimadura na mesa. Holly esfregou os dedos na madeira, mas a marca parecia ser um ferimento de guerra permanente - o qual ela jamais vira. Embora o tiquetaquear do relgio que marcara sua chegada houvesse desaparecido, Holly ainda sentia o tempo correr. Precisava de respostas, e sua nica esperana de entender o que estava acontecendo - ou, para ser mais precisa, o que poderia acontecer no futuro - era seguir em frente, explorando os arredores.

Ela deixou a cozinha e parou do lado de fora da sala de estar. A porta estava entreaberta, e, embora no houvesse muito rudo, a sombra danando pelas paredes pertencia a Tom, disso Holly tinha certeza. O corao dela martelava contra o peito, mas Holly sabia que precisava entrar na sala. No importava se essa situao tivesse sido provocada pelo relgio ou pela mente dela, a verdade era que estava ali por uma razo e precisava encarar o futuro.

Holly atravessou a porta da sala de estar e ficou parada o mais prximo da parede que era fisicamente possvel. Tom estava olhando em outra direo, ajoelhado sobre um trocador. Libby estava deitada no trocador, as perninhas chutando furiosamente o ar, e Tom lutava para vesti-la com um macaco rosa. Holly ficou grata por estar to colada  parede, porque, quando Libby se virou e sorriu diretamente para ela, suas pernas ficaram bambas e a parede foi um apoio bem-vindo.

Tom acompanhou o olhar da filha e se virou na direo de Holly, mas apenas franziu o cenho, curioso. Holly sentiu o corao pesado por ele no perceber a presena dela mais uma vez.

- Para o qu est olhando, sua monstrinha? - brincou Tom, fazendo ccegas na barriga de Libby. A menina arquejou e riu com prazer.

Bastou o sorriso de Libby para aquecer Holly por dentro, e ela desejou se ajoelhar ao lado de Tom e se juntar  brincadeira. Sabia, no fundo do corao, que Libby era realmente sua filha e sentiu uma vontade desesperadora de segurar o beb no colo. Constatar que o impulso de segurar Libby era mais forte do que o de fugir desse pesadelo deixou Holly intrigada.

- Agora fique aqui enquanto vou preparar sua mamadeira - disse Tom a Libby, depois de vesti-la.

Quando ele se levantou e se virou na direo dela, Holly ficou aliviada por ver relances de seu antigo Tom, no o homem assombrado pelo sofrimento que vira da ltima vez. Os cabelos dele ainda estavam curtos e bem penteados, embora suas roupas - jeans e camiseta - estivessem mais surradas e amassadas que da ltima vez. Mas foram os olhos dele que mais tranquilizaram Holly: eram verdes e brilhantes, talvez um pouco vermelhos, mas no vazios ou desesperados.

Incapaz de lidar com a sensao de ser completamente ignorada pelo marido, Holly fechou os olhos quando ele passou por ela. Com Tom fora da sala, Holly se abaixou no cho, perto de Libby, para olhar melhor a menina. Libby havia crescido desde a primeira vez em que Holly a vira, mas os olhinhos continuavam muito verdes e as bochechas, gorduchas. Holly no sabia o bastante sobre bebs sequer para arriscar a idade de Libby agora. Haviam se passado trs meses desde a ltima viso provocada pelo relgio lunar, e Holly no duvidava que a menina estivesse trs meses mais velha. Mas no saberia dizer se Libby teria quatro ou nove meses. Pelo canto dos olhos, ela percebeu um urso de pelcia cor-de-rosa. Era o mesmo que comprara em sua ida a Londres para se encontrar com Sam e a Sra. Bronson.

Holly franziu o cenho.

- Voc no deveria estar brincando com isso. Posso no saber muita coisa, mas sei que com certeza voc no tem dois anos de idade - disse ela a Libby. A menina arquejou e se agitou, empolgada, ao ouvir a voz de Holly. Ela acariciou-lhe a bochecha, e Libby esticou o bracinho e agarrou o dedo de Holly com um sorriso.

Holly levantou a mo pequenina e beijou-a delicadamente.

- Ol, linda - disse Holly. Ainda segurando seu dedo com firmeza, Libby comeou a chutar as perninhas para o alto novamente, e Holly copiou a brincadeira de Tom e fez ccegas na barriga da menina.

Holly soltou o dedo e passou as mos sob o corpo de Libby. No sabia como Tom reagiria ao ver a filha sendo carregada pelo ar por uma mulher invisvel, mas Holly no se importava, precisava desesperadamente segurar Libby no colo. O corpo da menina, no entanto, parecia colado ao cho. Assim como na ltima viso, por mais que se esforasse. Holly no conseguia erguer a filha nos braos. Ela sentiu lgrimas de frustrao arderem em seus olhos.

- Desculpe, desculpe... Gostaria de saber o motivo, mas simplesmente no consigo segur-la no colo - sussurrou Holly.

O sorriso no rosto de Libby se apagou e foi substitudo por um cenho franzido quando ela ergueu os olhos para a me. Holly forou um sorriso e esticou a lngua para fora. Libby gorgolejou satisfeita em resposta, e seu sorriso voltou.

Holly acariciou os cabelos louros e macios da filha, mas logo ouviu Tom voltando da cozinha.

- Amo voc, Libby - sussurrou Holly, dando um beijo na testa da menina. As palavras saram antes que Holly tivesse tempo para pensar no que estava dizendo, mas pareciam certas. Fosse Libby fruto da sua imaginao ou no, ela sabia que estava experimentando o mais puro amor materno pela primeira vez na vida.

Quando Tom voltou, Holly se colocou em um canto da sala e observou enquanto o marido pegava Libby.

- Hora de se despedir e ir para a cama, minha fofinha - falou ele. E virou-se para sair da sala, levando a mamadeira em uma das mos e Libby apoiada em seu ombro. Sendo carregada em direo  porta, Libby estendeu a mo na direo de Holly, tentando agarrar a me antes que ela desaparecesse de vista.

- Boa noite, durma bem, meu anjo - disse Holly em um sussurro.

Sozinha novamente, Holly se sentiu perdida e assustada de novo e se perguntou o que deveria fazer. Ela olhou ao redor da sala, que era muito semelhante quela com a qual estava acostumada. Havia algumas coisas a mais que poderiam ser atribudas  chegada de Libby, e tambm novas almofadas espalhadas e um tapete que era exatamente da cor que Holly vinha procurando em diversas lojas. Tambm havia uma pilha de cartes abandonada sobre a prateleira, perto do gato de porcelana que Tom havia comprado para ela em Covent Garden, no primeiro encontro oficial dos dois.

Holly tentou mas no conseguiu retornar o sorriso do gato, quando sua ateno se voltou para a pilha de cartes. Ela pegou o que estava por cima com quase a mesma dificuldade que tivera para pegar Libby, mas acabou conseguindo. Quando percebeu, com um estremecimento, que era um carto de condolncias, deixou-o cair. Uma nuvem de poeira a envolveu como um manto.

Ela se afastou rapidamente e foi na direo da lareira, onde correu o dedo sobre o topo do console, como se fosse uma enfermeira-chefe inspecionando a limpeza de uma enfermaria. O console tambm estava coberto por uma camada de poeira. Tom obviamente tinha mais coisas com que se preocupar alm das tarefas domsticas, mas Holly no conseguia deixar de pensar que no era bom para Libby ficar em um cmodo to empoeirado. Incapaz de se conter, ela puxou a manga do agasalho para limpar a poeira da melhor forma possvel. Quando recuou para admirar o servio, viu com horror uma nova camada de poeira se assentar em segundos.

Holly sentiu que no pertencia quele lugar, mas estava determinada a no fugir apavorada. Talvez sua vida dependesse disso. Havia poucas coisas na sala que poderiam lhe oferecer alguma pista, e ela decidiu continuar sua explorao no escritrio. Holly se esgueirou para fora da sala de estar e apurou os ouvidos, tentando ouvir Tom. Ele estava no andar de cima, dando mamadeira a Libby, e Holly resistiu  vontade de subir e assistir ao ritual dos dois antes de dormir. Em vez disso, passou pela escada e entrou no escritrio, que estava envolto em sombras, iluminado apenas pelo luar que atravessava a janela. Holly se arriscou e acendeu um abajur, surpresa ao perceber a facilidade com que mexeu no interruptor. Talvez sua presena estivesse se fortalecendo, assim como sua determinao em descobrir sentido em tudo aquilo.

A escrivaninha de Tom parecia mais ocupada do que ela jamais vira. Holly espiou as folhas soltas de trabalho e viu vrias anotaes de pesquisa e roteiros que combinavam com a nova posio de ncora que ele j teria assumido, caso ela estivesse realmente 18 meses no futuro. Havia anotaes a lpis nas margens de algumas folhas na letra de Tom - embora a agudeza das notas e a dureza dos comentrios no lembrassem em nada o estilo dele. Havia uma raiva tangvel naquelas notas.

Holly finalmente achou o que procurava na prateleira de uma estante de livros. Era uma caixa, com uma nica palavra escrita a mo na lombada. Dizia apenas Holly e, diferentemente das anotaes nos roteiros, Tom sem dvida se empenhara em escrever cada letra com perfeio. Dentro da caixa estavam documentos oficiais e cartas, tudo relacionado  morte de Holly, mas havia apenas um documento que apontaria a ela o seu destino.

As mos de Holly tremiam quando ela desdobrou o atestado de bito. O documento dizia que a causa da morte fora um aneurisma em 29 de setembro de 2011, acompanhado de complicaes no parto. Holly respirou fundo e se concentrou na sensao do sangue fluindo em suas veias e no corao batendo acelerado no peito. Definitivamente, estava viva.

- No se pode acreditar em tudo o que se l - disse a si mesma, forando um sorriso e ignorando o peso que aquela descoberta colocava em seus ombros.

Ao ouvir passos suaves descendo as escadas, Holly rapidamente colocou os documentos no lugar e apagou o abajur. Ela saiu para o corredor no exato instante em que Tom entrava na cozinha. Ele voltou em segundos com um copo em uma das mos e uma garrafa de usque na outra. Holly o seguiu at a sala de estar, embora com certa relutncia. Algo na expresso do marido causara nela um mau pressentimento.

Tom se sentou pesadamente no sof e encarou a garrafa em sua mo. Ele parecia esvaziado, assemelhava-se menos com o homem que havia deixado a sala com Libby nos braos e mais com o fantasma da viso anterior de Holly. Ela o observou da porta, incomodada com a sensao de desolao que se espalhava por toda a sala e vinha em sua direo. Sentiu a necessidade de manter uma rota clara de fuga, para o caso de precisar us-la. Tom se serviu de uma dose generosa de usque e girou o lquido dourado no copo, o olhar perdido em suas profundezas.

Ele arquejou de repente, como se estivesse reprimindo um soluo. Holly se assustou e esbarrou na porta, que fechou um pouco. Tom olhou diretamente em sua direo e, por um segundo, Holly sentiu o olhar do marido sobre ela, mas a conexo no durou muito tempo. O rosto de Tom se ergueu imperceptivelmente, como se em expectativa, mas logo uma onda de dor varreu qualquer sombra de esperana.

Ele balanou a cabea e voltou novamente sua ateno para o copo.

- Ol, Holly - sussurrou ele. - Sei que est me vendo. Sei que est balanando a cabea e me dizendo para me aprumar. Ento por que no entra por essa porta agora? Por que no entra e me diz para arrumar toda essa baguna?

- Arrume essa baguna, Tom - ordenou Holly. Embora falasse em um sussurro, ela desejou que o marido a ouvisse.

Tom no deu o menor sinal de que a tivesse ouvido, mas ainda assim respondeu:

- No consigo. No consigo nem limpar o p, porque fico imaginando suas digitais em cada superfcie, em tudo o que voc deve ter tocado, e no posso suportar tirar isso da minha vida... Do mesmo modo como voc foi arrancada da minha vida.

Holly teve que sufocar a tristeza que as palavras dele lhe causavam e sentiu-se dividida entre a vontade de correr at Tom e a de correr para longe dele. Mas no fez nenhuma das duas coisas; ficou parada onde estava, enquanto ele continuava a falar com seu fantasma.

- Eu deveria ter sido ator. Sei fazer as pessoas acreditarem que estou bem. Voltei ao trabalho e, desde que haja algum por perto para me ver atuar, pareo timo. Sou bom com essa fantasia de estoico. Mas aquele no sou eu de verdade, Holly. S voc conseguiria enxergar o meu eu de verdade nessa atuao. Ah, Holly, Deus, como eu amo o som do seu nome! Voc no acreditaria na quantidade de pessoas que simplesmente evitam diz-lo. Devem achar que vou me debulhar em lgrimas se disserem seu nome na minha frente. Eu, me debulhar em lgrimas? Isso  uma piada.

Tom riu, mas o som parecia oco. Holly tinha se aproximado mais enquanto ele falava, enquanto ele tentava alcan-la. Ela se sentou com cuidado ao lado dele e colocou a mo em seu ombro, movendo os dedos em uma carcia delicada na nuca de Tom. O pescoo estava rgido de tenso e, quando Holly tentou aliviar um pouco a dor, ele se inclinou alguns milmetros na direo da mo dela e seu corpo relaxou.

Ele fechou os olhos.

- Ainda no vou chorar - disse Tom, quase em um soluo. Ento um breve sorriso surgiu em seus lbios trmulos. - Voc conhece essa sensao, no , Hol? - O sorriso estremeceu e o desespero logo voltou s feies dele. - No vou permitir. No posso permitir. - Tom se inclinou para a frente, como se estivesse tentando se enrolar sobre si mesmo, como uma bola. A cabea estava apoiada contra o copo em sua mo, e ele rolou o copo contra a testa, como se tentasse esfriar os pensamentos. - No - sussurrou ele entredentes. - No! - repetiu, as palavras saindo como soluos furiosos. - No vou chorar.

Holly passou os braos ao redor de Tom e o apertou com fora, desejando que ele sentisse sua proximidade. Todo o corpo dele estremeceu e as primeiras lgrimas escorreram, silenciosa e suavemente pela rachadura da represa que ele havia construdo contra a tristeza. Ento o choro veio em uma torrente, eram lgrimas que nem mesmo Tom poderia conter.

O corpo dele estava retorcido de dor. O copo balanou, e a bebida respingou no cho.

- No consigo nem beber at esquecer! - gritou ele, deixando o copo de lado, perto da garrafa no cho.

- Voc vai ficar bem, Tom - disse Holly, enquanto o embalava nos braos. Ela tambm sentia um enorme aperto no peito. Sentia a presso de uma vida inteira de lgrimas crescendo em seu ntimo, e cada soluo de Tom era como um martelo arrebentando sua prpria fortaleza emocional. - Deixe a dor ir embora, no a reprima. Deixe ir - falou Holly, dando a Tom o conselho que ela mesma se recusava a seguir.

- Eu amo voc, Holly - balbuciou Tom. - Nunca lhe disse o bastante o quanto eu a amo. Gostaria de poder voltar no tempo e lhe dizer o quanto a amo s mais uma vez, s mais uma. Ainda a amo, Holly. Sempre vou am-la.

Tendo os soluos se abrandado e o sofrimento de Tom aliviado por um instante, o tiquetaquear de um relgio ecoou pela sala. Holly ainda o abraava, embalando-o suavemente, como se ele fosse um beb que ela no podia segurar nos braos. Seu peito estava pesado, e seu corpo parecia drenado de toda fora. Ento o corpo de Tom ficou rgido quando outro som cortou o ar. Libby estava chorando. Ela acordara com os soluos do pai.

Holly sentiu o corao bater com mais fora ao ouvir o choro da filha, mas o aperto em seu peito tambm era consequncia do relgio puxando-a de volta no tempo. O choro de seu precioso beb ecoou nos ouvidos de Holly at que restasse somente o sussurro suave da brisa em uma noite de vero.






CAPTULO 6

Nos dias que se seguiram  lua cheia, Holly ficou surpresa ao ver como vinha conseguindo se sair bem. Depois de sua ltima viso, estava de tal modo dominada pela onda de emoes desorientadoras que parecia entorpecida pelo choque. No conseguia sequer comear a ver sentido em sua viagem impossvel e implausvel ao futuro, por isso nem tentou. As conversas com Tom ao telefone eram to doces e despreocupadas quanto sempre haviam sido e, ao menos uma vez na vida, Holly no sentia culpa. Estava em profunda negao, e, se mentia para algum, era para si mesma. Sentia-se tima e no precisava procurar sentido no que lhe acontecera; tinha seu plano de cinco anos, e um dia completaria a lista que fizera, ento olharia para trs e riria daquele instante de insanidade.

Na maior parte do tempo, Holly era deixada por sua prpria conta. Billy j havia terminado a parte principal da obra do jardim de inverno e passou para outros trabalhos enquanto o reboco das paredes secava. Sam Peterson entrara em contato, desesperado para que Holly completasse logo as obras que lhe prometera para a galeria. Ela lhe assegurou que logo o abasteceria com um novo estoque. Na verdade, Holly ansiava mesmo por passar mais tempo no ateli, empenhando sua mente no trabalho - especialmente trabalhos que no tivessem nada a ver com maternidade. A encomenda da Sra. Bronson permaneceu intocada.

Foi apenas no domingo depois da lua cheia que o abenoado isolamento de Holly chegou ao fim. Jocelyn era aguardada para o costumeiro brunch. Holly sequer considerou a hiptese de desmarcar e optou por se esforar em preparar uma manh perfeita. Ela decidiu assar um bolo para Jocelyn. O que poderia ser mais normal do que assar um bolo?, pensou, com um sorriso fixo que estava comeando a fazer os msculos de sua face arderem. Holly desconfiava que se acostumara a usar aquela mscara at dormindo.

Meia hora antes do combinado para a chegada de Jocelyn, o bolo estava no forno, e Holly preparava uma calda de caramelo. Ela fizera o mesmo bolo antes, sob o olhar vigilante da me de Tom... Mas, para ser sincera, fora Diane quem fizera a maior parte do trabalho. Parecera bastante simples na poca, mas, assim que Holly desviou os olhos do fogo, a calda comeou a borbulhar e, depois disso, tudo desandou.

Quando Jocelyn chegou, Holly estava encolhida em um canto da cozinha, com os joelhos colados no peito e a cabea abaixada. Ela havia passado dias fugindo do futuro e agora no conseguia nem lidar com o presente, por isso recuou para dentro de si.

Lembranas de sua infncia inundaram sua mente, levando-a a um tempo em que ficar encolhida de medo em um canto era normal. s vezes fazia isso para tentar bloquear as discusses regadas a lcool entre os pais, mas tambm havia outros motivos. Holly aprendera rapidamente a se refugiar no quarto quando as festas de sua me estavam a pleno vapor; mas s vezes essas festas duravam dias e ela precisava deixar a segurana do prprio quarto e se esgueirar pelo andar inferior em busca de algo para comer. Na maioria das vezes ela tinha sorte, mas, se a me a visse de relance, a atmosfera da festa congelava no mesmo instante e a mulher avanava bbada na direo da filha. Para os convidados, ela parecia uma me extremosa, que estava levando a filha para um canto a fim de verificar se estava tudo bem. Mas as mos supostamente amorosas que ela pousava nos braos de Holly afundavam com fora na carne e o olhar preocupado no escondia a reprovao. Em um rosnado quase inaudvel, a me a agredia com palavras violentas, enquanto Holly implorava para que ela a soltasse. Mas a me no soltava no at Holly estar chorando como um beb. S ento ela largava a filha encolhida no canto mais prximo. A me ento se afastava, rindo, dizendo s pessoas ao seu redor que a filha viera com defeito, que estava com um vazamento, e perguntava se poderia pedir uma troca. A sala explodia em gargalhadas, e Holly encolhia mais o corpo, como uma bola, tentando abafar as lgrimas. Ela ficava ali at que algum tivesse pena dela - normalmente um estranho, nunca o pai ou a me - e a tomasse pela mo, dando-lhe a mais curta rota de fuga da multido. Holly ento disparava para o seu quarto, onde enfiava a cabea sob os travesseiros, em uma tentativa de bloquear o barulho, principalmente o das risadas.

No foram gargalhadas que ela ouviu agora, mas o som familiar de uma voz amiga, quando uma mo foi estendida para ajud-la a se levantar.

- Holly? Voc est bem? O que aconteceu aqui? - perguntou Jocelyn, preocupada.

Holly levantou os olhos, desamparada. Quando encontrou o olhar da velha senhora e a sensao de segurana que ele lhe passava, conseguiu trazer os pensamentos de volta para o presente. Holly at deu um sorriso quando olhou para a mo estendida, sabendo que se aceitasse o gesto era mais provvel que Jocelyn acabasse sendo puxada para baixo em vez de ajud-la a se levantar.

Holly ficou de p sem ajuda e respirou fundo.

- Queimei o bolo - contou ela. Ela estava com os punhos cerrados com fora e suas unhas deixavam marcas na palma das mos. Para Holly, a dor era bem-vinda, porque impedia seu crebro de pensar demais. As lgrimas queimavam seus olhos, mas ela se recusava a deix-las cair.

Jocelyn franziu o cenho, mas deu tempo para que Holly se acalmasse virando-se para a porta da cozinha e abrindo-a para deixar sair o cheiro da calda de caramelo e do bolo incinerados.

- Foi bom eu ter trazido alguns bolinhos da casa de ch- falou Jocelyn, depois que um pouco da fumaa cida havia se dissipado. Ela retirou uma caixa de bolinhos de sua sacola antes de se voltar novamente para Holly. - O que aconteceu? - repetiu a pergunta, esperando por uma resposta adequada dessa vez.

Holly ergueu um pano de prato que estava sobre a mesa da cozinha e revelou uma marca circular de queimado na madeira.

- Ah, entendo - comentou Jocelyn, com cautela. Ela sabia que mesmo aquele desastre no era o bastante para justificar o estado quase catatnico de Holly, mas no disse mais nada. Em vez disso, preferiu ganhar tempo e se ocupar arrumando parte da baguna em que ficara a cozinha depois do desastre culinrio de Holly. Com a facilidade de uma dona de casa experiente, Jocelyn conseguiu dar um jeito no caos e preparou um bule de ch bem forte em questo de minutos.

Com as mos trmulas, Holly levou a xcara de ch aos lbios e deu um gole na bebida quente. Ela olhou para Jocelyn por cima da borda da xcara e se perguntou no apenas por onde deveria comear, mas se teria coragem para fazer isso. Como iria explicar o motivo de uma marca de queimado na madeira da mesa t-la enchido de tamanho terror?

- Preciso que Tom volte para casa - sussurrou Holly.

- Est com saudades de Tom? Ah, querida, logo ele estar de volta. Deve vir para casa logo, no ? Ou alguma coisa mudou?  por isso que voc est chateada?

Holly negou com a cabea. At ali, se recusara a buscar sentido em suas vises. A cada vez que algo em sua vida atual criava uma conexo com suas vises ela procurava outra explicao. O jardim de inverno, o corte de cabelo de Tom, as portas mudando de posio, at mesmo o urso de pelcia rosa; ela explicara tudo isso como coincidncias, ou como peas que sua mente lhe pregava. Mas a marca na mesa era diferente. Aquela marca de queimado era o prego que faltava em seu caixo. Entre o caos do caramelo queimado e a atitude impensada de transferir a panela quente do fogo para a mesa, Holly no mudara o seu futuro, ela o confirmara.

Ainda tentando afastar esses pensamentos, Holly continuava a se agarrar a uma necessidade.

- S precisava que Tom estivesse comigo agora - disse a Jocelyn.

- A viagem dele no vai durar para sempre, e voc mesma vive dizendo o quanto isso vai ajudar na carreira dele. No fim, valer a pena, quando ele conseguir um bom emprego em Londres. Ento, vocs tero o resto de suas vidas para recuperar o tempo perdido. E, quando voc tiver a casa cheia de crianas, de vez em quando vai lembrar do passado e sentir saudades da paz e da quietude que tem agora - acrescentou Jocelyn com uma risada jovial, que tinha a inteno de deixar o humor de Holly mais leve, mas que s conseguiu faz-la afundar ainda mais em desespero.

Holly colocou a xcara de volta no pires, mas suas mos tremiam tanto que a asa escapou de seus dedos e o que sobrara do ch se espalhou pela mesa.

- Por que sou to atrapalhada? - choramingou, levantando-se para pegar um pano de prato antes que a bebida derramada alcanasse o lado de Jocelyn na mesa.

Quando se virou de volta, Jocelyn j estava ao seu lado. Ela pegou o pano da mo de Holly, deixou-o sobre a mesa e abraou a amiga.

- Conte-me o que h de errado - pediu Jocelyn.

- No posso - sussurrou Holly. - Estou to assustada, Jocelyn! Nunca me senti to assustada em toda a minha vida.

Jocelyn abraou Holly com mais fora quando sentiu o corpo da amiga tremer de medo. E comeou a esfregar as costas dela.

- Est tudo bem, estou aqui. O que quer que esteja acontecendo, vai ficar tudo bem, eu prometo.

Holly levantou os olhos para Jocelyn. Como sua vida teria sido diferente se tivesse uma me como ela. Mas ao menos a amiga estava com ela agora, e Holly no teria que lidar sozinha com seu pesadelo, no mais.

- Estou ficando louca, mas sei que, se disser em voz alta, s tornarei tudo real, e no quero que seja real - explicou Holly, lutando para reprimir as lgrimas.

- Querida, conte-me o que est acontecendo. No pode ficar guardando tudo para si mesma. Eu prometo que no vou julg-la.

Holly prendeu a respirao em um esforo para controlar o corpo trmulo e deixou escapar um soluo reprimido. Ela olhou dentro dos olhos de Jocelyn, e a segurana que encontrou na expresso da amiga lhe deu fora para falar o impronuncivel.

- Eu vou morrer - sussurrou Holly - Vou morrer, mas no quero morrer. No quero deixar Tom destroado. No quero deixar Libby sem me.

Ela finalmente respirou fundo, mas assim que parou percebeu que o corpo de Jocelyn ficara tenso. A amiga soltou-a e recuou um passo para tambm encarar Holly nos olhos.

- Como voc sabe de tudo isso? - perguntou ela, hesitante.

- Foi o que eu vi. No sei como. - Holly soluou. - No sei como funciona, mas tem alguma coisa a ver com o relgio lunar. Ele no est quebrado. Est funcionando, e acho que mostrou o meu futuro. Mostrou que vou morrer no parto, em 29 de setembro do ano que vem.

- Voc precisa de um copo dgua para curar esses soluos - disse Jocelyn, virando-se para a pia da cozinha.

- Voc ouviu o que eu disse? Ou estou ficando completamente louca, ou o relgio lunar me fez viajar no tempo e me mostrou que vou morrer - sussurrou Holly, horrorizada com a ideia de estar fazendo papel de doida.  claro que Jocelyn pensaria que ela estava louca, o que mais deveria pensar?

A mo de Jocelyn tremeu quando ela passou um copo cheio de gua fria para Holly, que estava perturbada demais para perceber. Ela pegou o copo, mas, em vez de beber a gua, levou o vidro  testa para esfri-la. No conseguia encarar Jocelyn nos olhos.

- Ajudaria se eu lhe dissesse que eu tambm morria?

O copo escorregou entre os dedos de Holly, mas ela o salvou bem a tempo de evitar mais danos  mesa. Holly voltou a se sentar, pois suas pernas pareciam estar prestes a ceder.

- No estou entendendo - disse ela, quase gaguejando. Uma fagulha de esperana se acendia em seu corao.

- Eu tambm usei o relgio, Holly. - Jocelyn se sentou na cadeira ao lado da amiga e tomou as mos dela entre as suas. - Sinto tanto, tanto. Eu deveria ter dito alguma coisa quando vi que tinha ressuscitado o relgio, mas tive a esperana de que voc no descobrisse com ele funcionava, que no precisasse us-lo.

- Voc viu sua prpria morte e mudou isso? - Holly apertou as mos de Jocelyn, agarrando-se  esperana que agora parecia cintilar. J era quase suficiente saber que no estava ficando louca, que tudo aquilo no era apenas um desvario de sua mente. E mais: Jocelyn no estava apenas dizendo que o relgio lunar tinha o poder de mostrar o futuro, mas tambm que o futuro poderia ser modificado.

Jocelyn assentiu, e Holly experimentou uma sensao de controle que no sentia havia dias.

- Conte-me, conte-me o que aconteceu. - Ela mordeu o lbio e esperou pela explicao.

Jocelyn soltou a mo de Holly e afundou o corpo visivelmente na cadeira. Ela permaneceu calada por um bom tempo, e Holly no teve certeza de que iria realmente falar. Quando comeou, foi em um sussurro trmulo, quase inaudvel.

- Eu j lhe contei sobre Harry, sobre como ele era e por que o abandonei. Bem, isso  apenas meia-verdade. Harry era uma pessoa m, mas foi atravs do relgio lunar que vi como as coisas poderiam ficar piores, muito piores... - A cabea de Jocelyn estava abaixada, e ela encarava as prprias mos, como se estivesse se lembrando do tempo em que morava na casa da guarda. - Foi ento que o deixei, entende? Para evitar os problemas que viriam.

Holly continuou sentada, como hipnotizada, enquanto Jocelyn erguia os olhos na direo da janela da cozinha. Podiam estar no auge do vero, mas o dia parecia frio e fnebre do lado de fora. De onde estava, Jocelyn no conseguia ver o relgio lunar, mas obviamente sentia a presena dele.

- Isso foi h muito tempo, e tentei me convencer de que fora apenas um sonho esquisito e complicado - disse Jocelyn. - Era muito mais fcil do que viver com a culpa. - Jocelyn olhou de relance para Holly e deu um sorrisinho dbil antes de voltar os olhos novamente para a janela.

- O que aconteceu? - perguntou Holly.

- Fiquei horrorizada quando Harry cravou o relgio no meio do jardim, o que era exatamente a inteno dele. O jardim era meu refgio, a nica parte da minha vida que eu podia controlar, e ele tambm queria destruir isso.

- Por que voc ficou com ele?

- Eu era uma dona de casa sem amor e sem nenhum talento especial, e Harry passara muitos anos destruindo a minha autoconfiana. Simplesmente eu no acreditava que conseguiria me virar sozinha e, mais importante, que conseguiria sustentar Paul.

- E o relgio lhe mostrou que voc seria capaz? - perguntou Holly.

- No, o relgio lunar me mostrou o que aconteceria se eu no fosse. - Jocelyn fez uma pausa, ainda tremendo de medo. - Para encurtar a histria, vi um futuro em que eu no era mais capaz de aguentar a tortura fsica e mental de Harry. Tirava minha prpria vida, Holly. Foi o ato mximo de egosmo, principalmente porque, sem ter a mim para ridicularizar e humilhar, Paul se tornou o prximo alvo de Harry.

Apesar do horror pelo que Jocelyn lhe revelava - uma histria que havia acontecido nessa mesma casa -, Holly sentiu o corao mais leve.

- Ento  possvel mudar o futuro que o relgio lunar lhe mostra? - Holly sabia que estava se repetindo, mas vira um lampejo de esperana e precisava se agarrar a ele.

- No  fcil. Tudo tem um preo.

Holly balanou a cabea, desprezando o aviso de Jocelyn.

- Eu faria qualquer coisa para mudar o que vi. Em minha viso, entrei nesta casa e tive que assistir a Tom sofrendo demais, sofrendo por mim. A pior parte foi ficar parada l, bem na frente dele, sem que Tom pudesse me ver. A lembrana dele olhando atravs de mim me provoca arrepios na espinha.

- Ah, lembre-se de que o reflexo  a chave.  assim que o relgio lunar funciona. A luz do sol  refletida sobre a superfcie da lua, e  essa luz emprestada que  refletida no futuro atravs do relgio lunar. Mas voc  um reflexo, no est ali realmente.

- Ento  por isso que Tom no pode me ver. Mas ainda no entendo... Porque Libby pode me ver, estou certa disso.

- Libby? Ela  o beb que voc teve?

- Ah, Jocelyn, ela  linda. Voc precisava v-la. Na verdade, j viu, ela  o beb em que baseei minha escultura - acrescentou Holly, com orgulho.

Jocelyn sorriu.

- Ento, sim, ela  linda. Holly, gostaria de poder lhe explicar por que sua filha consegue ver voc, mas no sei tudo. At mesmo Charles Hardmonton nunca entendeu exatamente como funcionava o relgio.

- Ele era o explorador sobre o qual eu li a respeito, no ? Ento ele realmente usou a pedra da lua para fazer o relgio lunar.

Jocelyn assentiu.

- Sei que sua presena  mais forte quando est diretamente sob a luz da lua, mas acho que s vezes no importa o quanto o reflexo seja forte, as pessoas se recusam a ver o que est bem diante delas. Um adulto, principalmente, no consegue aceitar o que no deveria estar ali, mas uma criana talvez consiga.

- Paul podia v-la?

Jocelyn negou, balanando a cabea.

- Ele era mais velho e estava muito, muito furioso.

- Porque voc o havia abandonado?

Foi a vez de Jocelyn abafar um soluo.

- Ele tinha razo de me odiar, ainda tem.

- Por que ele ainda teria razo para odi-la? Voc o salvou, no  verdade?

-  complicado. H muito mais coisas que voc precisa saber sobre o relgio lunar e suas regras. - As lgrimas escorriam livremente pelo rosto de Jocelyn.

Em uma inverso de papis, agora era Holly que tentava acalmar Jocelyn. Ela foi at o armrio da cozinha e pegou um pedao de papel-toalha.

- Muito bem - falou Holly -, sou toda ouvidos. Diga-me tudo o que preciso fazer para mudar as coisas.

- H tanta coisa... Por onde devo comear? - disse Jocelyn, quase para si mesma. Ela estava olhando para o papel em suas mos, que torcia sem parar com os dedos trmulos. - H o dirio,  claro. Ele me foi dado pouco depois de Harry comprar o relgio e explica tudo o que se sabe sobre como ele funciona. No olho para esse dirio h quase trinta anos, nunca mais quis v-lo. Quando deixei esta casa, no quis mais ver o relgio ou qualquer coisa que tivesse a ver com ele.

Agora foi a vez de Holly segurar a mo trmula de Jocelyn.

- Preciso saber. Tenho um plano de cinco anos a cumprir, lembra? Como posso me tornar me se no vou viver o bastante para segurar o meu beb no colo?

Holly deu um tom jovial  voz, com a inteno de acalmar o choro de Jocelyn, mas apenas intensificou os soluos dela. Jocelyn levantou os olhos para encarar Holly com uma expresso desesperada e balanou a cabea, em desalento.

- Sinto muito, Holly, sinto muito. Eu deveria ter destrudo o relgio, ou ao menos o mecanismo. No deveramos interferir em nossos futuros,  um fardo pesado demais para carregar.

- No chore, por favor. - Holly procurou acalmar Jocelyn, determinada a no deixar que o medo da amiga invadisse seus prprios pensamentos.

- Temos uma  outra, agora podemos dividir esse fardo.

- Quero fazer isso. Ah, Holly, quero ajud-la e vou fazer isso - prometeu Jocelyn, ainda chorando muito.

Holly se levantou e foi correndo at Jocelyn, que parecia estar se despedaando diante de seus olhos. Ela passou os braos ao redor da amiga, com medo de que ela pudesse estar  beira de um colapso ou de algo pior.

- Est tudo bem, Jocelyn. Eu compreendo, voc no precisa dizer mais nada. Pelos meus clculos, devo conceber Libby no final de dezembro, portanto ainda tenho alguns meses para clarear minhas ideias e decidir, com a sua ajuda, o que preciso fazer.

Holly falava com uma generosidade que no sentia. Na verdade, queria todas as respostas e as queria nesse instante, mas no poderia deixar Jocelyn ainda mais nervosa, sofrendo tanto, ao menos no nesse dia. As palavras dela pareceram atingir o objetivo. Lentamente, os soluos angustiados de Jocelyn comearam a ceder e o corpo dela relaxou um pouco.

- Presumo que no tenha contado a Tom - Jocelyn fungou.

- No pude contar a ele porque no sabia o que estava realmente acontecendo e no queria preocup-lo. Ainda acho que no posso contar nada a Tom, ao menos enquanto ele estiver viajando tanto a trabalho. No at eu saber tudo o que preciso saber.

- Ao menos logo ele estar em casa - falou Jocelyn. - Aproveite o tempo que tiver com Tom aqui e, enquanto isso, vou procurar o dirio. Est em uma das caixas que mantenho na casa da minha irm... No tenho espao no meu apartamento. Lisa est morando l agora e ela pode me ajudar a encontrar.

- E ento?

- Ento eu prometo que vamos conversar. Mas da prxima vez no vou chorar como manteiga derretida. Desculpe-me, Holly, estou me sentindo uma boba, decepcionei voc. Achei que eu fosse mais forte.

- Voc no me decepcionou, e  a mulher mais forte que conheo. - Holly sorriu. - E, agora que tenho voc, essa coisa toda j no est me assombrando tanto.

- Fico feliz por isso. Mas, por favor, prometa que no far nada para mudar o futuro at conversarmos sobre isso.

- Prometo. - Holly sorriu. - Bem, no farei nada mais srio. Mas h uma coisa que eu gostaria de resolver. - Holly pegou uma sacola ao lado da mesa e retirou de dentro um urso de pelcia rosa. - Voc pode doar isso para o prximo bazar? E certifique-se de que no v para nenhuma criana com menos de dois anos. Detestaria que fosse parar em mos erradas.

- TEMOS MESMO QUE SAIR? - reclamou Tom. - No que me diz respeito, j posso ver o bastante do mundo daqui mesmo.

Tom e Holly estavam de p no meio do novo jardim de inverno. As paredes ainda estavam apenas emassadas, com delicados redemoinhos de rosa e creme aqui e ali. Holly sentiu os dedos dos ps tocando o concreto duro e frio e sorriu feliz. A voz de Tom ecoou pelo jardim de inverno, sobrepondo-se ao distante canto matinal dos pssaros. O lugar tinha um cheiro gostoso de poeira e brisa do vero. Holly estava pronta para saborear cada detalhe e prestava muita ateno no marido, parado atrs dela, com os braos nus envolvendo-lhe a cintura.

- Voc est cheirando a suor - disse ela.

- Fruto de uma boa causa - retrucou Tom, beijando a nuca de Holly.

- Por acaso estou reclamando? - sussurrou ela. - E, sim, temos que sair. Voc j provou que superou perfeitamente o jet lag.

- Hummm... perfeitamente.

- Sim, foi perfeito - concordou Holly. - Mas j moramos na cidade h quase seis meses e voc no conhece quase ningum.

- Como eu lhe disse, posso ver tudo o que preciso daqui mesmo, e tambm posso ver quem eu quero ver.

- Preciso passar no consultrio do mdico para marcar uma consulta - disse Holly, ignorando as mos que passeavam por seu corpo e que, nesse instante, estavam sob a camiseta que ela roubara dele. Os dedos de Tom traaram cada curva da barriga dela antes de encontrarem o caminho em direo aos seios.

- Por qu? No h nada de errado com voc, no ?

- No, apenas acho que ns dois deveramos fazer um check-up antes de providenciar um beb.

- Se voc quiser que eu lhe faa um exame completo, sempre posso cuidar disso - ofereceu Tom.

- Um exame mdico, se no se importa. Eles devem fazer isso, no acha?

- Holly, sou o retrato da sade, e voc tambm. No precisamos que um mdico nos diga isso. Alm do mais, j estou fazendo todos os tipos de exames mdicos como preparao para a viagem ao Haiti. Acho que no aguento mais ser espetado e apalpado - reclamou ele, amuado.

- Se vou planejar uma famlia, gostaria de planejar tudo direito - retrucou Holly com firmeza.

Desde que conversara com Jocelyn, ela finalmente encontrara foras e esperanas para pensar sobre o futuro e, em particular, sobre o que precisava fazer para se salvar. Na verdade, acabara no pensando em muitas outras coisas. A resposta bvia seria evitar ficar grvida em dezembro, o que parecia ser uma soluo bem simples - mas e se o aneurisma que a mataria acontecesse em outro momento? Alm do mais, havia Libby. Se o instante da concepo fosse adiado, ento ela estaria apagando Libby do futuro deles. Talvez tivessem outros filhos, mas nenhum seria a filha pela qual ela j estava se apaixonando. O primeiro plano de ataque de Holly era procurar reduzir os riscos de complicaes ps-parto.

- No poderamos simplesmente ligar para voc marcar uma consulta? - implorou Tom. - Tenho a forte impresso de que h um telefone no quarto.

- Bom dia! - disse Billy alegremente do lado de fora do jardim de inverno.

Holly puxou a camiseta para baixo at ficar a uma altura respeitvel de trs centmetros abaixo de seu traseiro, e Tom foi abrir a porta do jardim de inverno para cumprimentar Billy. Eles se abraaram como dois irmos h muito tempo separados.

- Desculpem a invaso, mas ouvi dizer que Tom estava em casa e eu estava passando por aqui - explicou Billy, desculpando-se com Holly.

- Juro que acho que Billy sente tanta saudade quanto eu quando voc est fora, Tom - disse Holly.

- Voc sabe que  bem-vindo aqui a qualquer hora, Billy - disse Tom ao contramestre. - Fez um excelente trabalho no jardim de inverno, eu adorei.

- Ahn, obrigado, eu sabia que iria gostar. Agora s precisamos pintar as paredes e instalar o piso e ficar perfeito. Mas  uma pena essas portas - resmungou Billy, dirigindo um olhar reprovador a Holly.

- Mulheres... - resmungou tambm Tom, com um muxoxo. Holly tomou emprestado o olhar reprovador de Tom, transformou-o em uma expresso ameaadora e virou-se para o marido, que sorriu envergonhado.

Billy pigarreou para chamar a ateno de Holly.

- Espero que no esteja pretendendo sair vestida assim, Senhora Corrigan - disse ele.

Holly estreitou os olhos para ele, mas ignorou o comentrio.

- Ento, o que podemos fazer por voc, Billy? - perguntou ela.

- Bem, agora que vocs tm as portas erradas e nenhuma outra escolha a no ser passar por cima dos arbustos, estava pensando que talvez Tom quisesse conversar sobre a expanso da reforma.

- Algum vai me dizer do que esto falando? - perguntou Holly.

- Ahn... Voc no acha que  melhor ir se arrumar? Temos que ir at a cidade, lembra? - retrucou Tom.

Holly encarou os dois homens, desconfiada.

- Homens! - foi a vez de ela resmungar, j virando-se para sair. - Mas, o que quer que esteja planejando para o jardim, no toque no relgio lunar.

- Ela sempre interfere em seus planos? - disse Billy em voz alta quando Holly j saa pelas novas portas do ptio e voltava para a sala de estar.

- Posso ouvir voc balanando a cabea, Tom Corrigan - gritou Holly, deixando os homens com seus planos secretos. Afinal, ela tambm tinha seus prprios planos secretos. Holly tinha mais de uma razo para ir at a cidade. Estava com a esperana de que, quela altura, Jocelyn j houvesse encontrado o dirio de que falara.

A CASA DE CH DE JOCELYN estava cheia, e alguns olhares curiosos acompanharam Tom e Holly enquanto eles passavam pelos clientes at chegarem  ltima mesa disponvel.

- Bom dia, Senhora Johnson - cumprimentou Holly, enquanto se inclinava sobre uma das clientes para passar por um espao estreito entre duas mesas. A Sra. Johnson era uma mulher bastante grande, e o pequeno espao que no era ocupado por ela estava cheio com toda sua parafernlia, incluindo um pesado cardig de l, um guarda-chuva e vrias sacolas de compras. - Como esto as coisas na fazenda? - grunhiu Holly, enquanto se espremia para conseguir passar.

- Ah, os carneiros esto indo bem, querida. Eu no poderia querer mais nada alm disso, depois de um inverno to duro.

- No esquea que me prometeu aquela receita de pernil de carneiro - acrescentou Holly, finalmente conseguindo passar e j estando prxima da mesa que queria alcanar. Tom vinha logo atrs dela, mas tropeou em uma sacola e praticamente caiu por cima da Sra. Johnson.

- Esse deve ser ele, ento - disse a Sra. Johnson, olhando desconfiada para Tom, que estava praticamente nariz a nariz com a mulher.

- Prazer em conhec-la. - Tom sorriu, envergonhado.

A Sra. Johnson apertou a bochecha de Tom e sacudiu a cabea dele de um lado para o outro.

- Ele  um amor de cordeirinho - disse ela a Holly. - Um prato cheio.

- Tire suas mos, ele  meu. - Holly riu e puxou Tom de volta a um lugar seguro.

Depois de mais alguns bons-dias e apresentaes, Holly e Tom finalmente conseguiram chegar  mesa. Lisa estava ocupada trabalhando atrs do balco, enquanto uma garota mais nova, que Holly nunca vira antes, trabalhava como garonete. Ela devia ter pouco mais de 20 anos, e seus cabelos escuros e curtos lhe davam uma aparncia de fada. Seus olhos castanhos e profundos lembravam os de Jocelyn. Quando olhou de Lisa para a garota, Holly percebeu outras semelhanas e imaginou que aquela devia ser Patti, a filha de Lisa, sobrinha-neta de Jocelyn. Pelo que Jocelyn lhe contara, Patti estudava literatura na universidade. Seu ano sabtico acabara se transformando em trs anos viajando pela Europa, mas a garota finalmente resolvera se dedicar aos estudos. Patti era a primeira da famlia a frequentar uma universidade, e tanto Jocelyn quanto Lisa estavam muito orgulhosas dela.

- O que posso lhes servir? - perguntou Patti, com um sorriso animado.

- Dois chs com pezinhos e creme, eu acho - disse Holly, olhando para Tom para ver se ele concordava. Ele assentiu. - Jocelyn no est? Estava com esperana de encontr-la aqui hoje - continuou Holly, ansiosa.

- Ela est fora, visitando o filho. S volta daqui a algumas semanas. Voc no  Holly, ? - perguntou a garota, com um tom de reconhecimento na voz.

O corao de Holly afundou no peito enquanto ela assentia educadamente.

- Ela no deixou nada para mim, no ? - perguntou Holly, ainda com alguma esperana.

- Desculpe,  verdade, tia Joss lhe deixou uma mensagem. Ela pediu desculpas porque no ter a oportunidade de se encontrar com Tim, mas se encontrar com voc quando voltar.

- Ah, ento voc deve ser Patti - retrucou Holly, ignorando a confuso que a garota fizera com o nome de Tom. - Como est indo na faculdade?

-  uma longa histria, mas eu meio que joguei a toalha. Devo voltar para meu ltimo ano, mas no tenho certeza de que esse  o caminho que quero seguir. Estou tentando convencer minha me de que eu poderia trabalhar aqui e escrever em meu tempo livre, fazer carreira como escritora por conta prpria, em vez de estudar como uma escrava para receber um pedao de papel que no vai me garantir emprego nenhum no final das contas.

- Voc no deveria desistir - interrompeu Tom.

- Desculpe, esse  meu marido, Tim, quero dizer, Tom - Holly sorriu. Tom encarou a esposa com alguma severidade, e o rosto de Patti ficou muito vermelho.

- Sou jornalista, e o mundo l fora no  fcil. Um diploma pode abrir portas, mesmo que no lhe garanta um emprego. Vai se arrepender se desistir agora, ainda mais se est to perto de se formar. Prometo que, se voc conseguir o tal pedao de papel e estiver procurando por um emprego, posso ajudar com alguns contatos.

Patti ficou boquiaberta com as credenciais de Tom e se agarrou com entusiasmo a cada palavra que ele dizia. Quando voltou para o balco para fazer o pedido deles, Holly a observou pelo canto dos olhos. Me e filha conversavam concentradas.

- Que homem prestativo! - disse Holly.

- Gosto de ajudar carreiras que esto desabrochando sempre que posso - comentou Tom, com orgulho.

- Espero que no saia por a oferecendo seus servios a todas as garotas bonitas que encontra em suas viagens.

- S tenho olhos para voc - falou Tom, e a certeza em seu olhar levou conforto a Holly.

- Eu sei, estou s implicando. Confio em voc de alma e corao, no importa a que distncia esteja de mim. - Ela esticou a mo e puxou um minsculo cacho de cabelo na nuca dele. - E no importa quo elegante e atraente eles tentem deix-lo.

Tom segurou a mo da esposa entre as suas.

- Soa muito ridculo se eu disser que sinto falta dos meus cachos?

- Tambm sinto falta deles. - Holly acalmou-o. - Mas voc precisa que o pblico desmaie por voc se quiser se tornar ncora. - Ela fez uma pausa, com um brilho travesso nos olhos. - Quero dizer, ao menos o pblico feminino.

Tom tentou sorrir, mas os lbios no esticaram at o fim do caminho.

- Eu estava feliz na minha zona de conforto... Estou feliz na minha zona de conforto - tentou explicar. -  que essa nova persona que a emissora est tentando criar me faz sentir... - Pela primeira vez, Tom parecia no encontrar as palavras certas.

- Desconfortvel? - Holly tentou ajudar.

- Deus,  como tentar me espremer dentro de um terno que no cabe direito em mim.

- Apertado demais nos ombros?

- Apertado demais no saco - retrucou Tom, bem no momento em que Patti voltava com os chs. Se ela ouviu o ltimo comentrio, no demonstrou.

- Esses so por conta da casa - disse a garota a eles. - Mame insiste.

- Voc vai voltar para a universidade? - perguntou Holly, animada, sabendo quanto Jocelyn e Lisa ficariam felizes com a notcia.

- Hmmm, ainda no decidi exatamente, mas concordei em sentar e conversar direito sobre isso com mame. E, se eu realmente der uma nova chance para a faculdade, vou voltar procurando por aqueles contatos - disse ela a Tom.

- Palavra dada - concordou ele.

Quando Patti se afastou, Tom suspirou.

- Ah, como  bom ser jovem e cheio de esperana...

- Bem, voltando a voc. Quando vou ver sua nova imagem em ao? - perguntou Holly. O material que Tom preparara sobre as areias betuminosas do Canad estava em edio e ainda no havia ido ao ar.

- Na prxima semana. Na vspera da minha prxima viagem, na verdade.

-  melhor eu espalhar a notcia. Sua me e seu pai esto loucos para ver tambm. Agora coma, ainda tenho que passar no consultrio mdico, lembra?

- Sim, mame - retrucou Tom, antes de colocar um bolinho recheado de creme na boca.

NO PARECEU A HOLLY que ela tenha precisado esperar muito para ver as matrias de Tom na TV, pois os dias passaram em uma velocidade alarmante. Na noite em que a primeira matria foi ao ar, Tom e Holly estavam aconchegados no sof, prontos para assistir ao telejornal com uma garrafa de vinho e uma travessa de pipoca. Holly estava aliviada por Tom ainda estar em casa. As noites de vero eram deliciosas enquanto agosto se aproximava de setembro e, mesmo sentada na relativa segurana de sua sala de estar, Holly sabia que a lua cheia estava projetando sua luz emprestada sobre o relgio lunar. Mas, nessa noite, a seduo da lua no era preo para a segurana dos braos de Tom - o seu Tom, esse que no tivera o corao partido pela morte da esposa.

Era uma experincia estranha, ficar sentada no sof, assistindo a um Tom mais elegante, muito profissional, na tela, enquanto o Tom da vida real comentava o que acontecera nos bastidores. E era ainda mais estranho porque a imagem na tela no combinava com o homem sentado ao lado dela, que, apesar do cabelo mais curto, ainda era o velho e desmazelado Tom que ela conhecia e amava. Holly no sabia se gostava da verso arrumada e elegante da tela. Era refinado e distante demais para o seu gosto. Tom estava entrevistando o porta-voz de uma companhia de petrleo e parecia diferente, mais duro.

- Ento, o que achou? - perguntou Tom, hesitante, assim que o programa terminou.

- Voc parecia... - Holly comeou a dizer, mas no conseguiu achar as palavras certas. - Parecia muito profissional.

- Voc no gostou, no ? - perguntou ele; havia uma nota de desapontamento na voz de Tom que fez o corao de Holly se apertar.

-  diferente - tentou explicar. -  como se no fosse exatamente voc.

Tom suspirou.

- Eu sei, voc est certa. Estou fazendo o melhor que posso para me adaptar. Todos na emissora esto me enchendo de elogios, mas ainda no tenho a sensao de que est bom.  estranho como as pessoas reagem de maneira diferente quando voc est usando um terno e tem aquela aparncia engomadinha. Os polticos e os profissionais de imprensa experientes que entrevisto ainda me olham de cima, mas algumas pessoas fora desses crculos... acho que as intimido.

- E  isso mesmo que a emissora quer de voc? Que saia por a intimidando as pessoas? - perguntou Holly. Ela procurou manter um tom de voz leve, mas realmente no gostava de ver Tom forado a se comportar diferentemente do reprter afvel que costumava ser.

- Ainda no assumi o cargo de ncora. Talvez quando isso acontecer, eu possa relaxar um pouco esse estilo. Pelo menos eles no esto insistindo para que eu use terno no Haiti.

- Vou sentir tanta saudade sua... - gemeu Holly.

- Eu ainda no parti. E logo estarei de volta. Todo esse sofrimento vai valer a pena se pensarmos no que significar para ns o prximo ano. No ano que vem eu poderei ter um bebezinho que vai me amar no importa o tipo de terno idiota que eu tenha que usar. E agora, que voc recebeu carta branca do mdico, no h nada que nos detenha.

- Eu sei - respondeu Holly, tentando esconder sua frustrao. Ela mencionara a batida na cabea, esperando que o mdico a mandasse fazer uma ressonncia magntica e que, desse modo, talvez descobrissem o aneurisma e pudessem trat-lo. Assim ela teria Libby, livre de qualquer risco. Mas ele s pedira os exames de sade bsicos, portanto o risco permanecia. Ao que parecia, a nica coisa que Holly podia fazer para evitar morrer no parto era evitar conceber Libby. - Desde que consigamos passar o resto de nossas vidas juntos.

- Voc no vai se livrar de mim to fcil - falou Tom, beijando o topo da cabea de Holly.

- Voc tambm no vai se livrar de mim to fcil. S no v sair por a bancando a celebridade, para acabar fugindo com a primeira cabea de vento que aparecer.

- Voc sabe que eu no faria isso - assegurou Tom.

- Sim, sei que voc no faria - respondeu Holly. O relgio lunar ao menos lhe dera essa certeza.

- De qualquer modo, tenho uma longa viagem amanh - disse Tom, erguendo os braos e bocejando alto. - Voc se incomoda de ir deitar cedo?

- Posso levar minha pipoca? - provocou Holly.

- Desde que mastigue em silncio, meu sono agradece - avisou Tom, ainda bocejando com vontade.

- Ah, no vai ser a pipoca que o deixar acordado - retrucou Holly. Ela ergueu as sobrancelhas sugestivamente, um truque que aprendera com Billy.

- Senhora Corrigan, no sei o que quer dizer.

- Ento deixe que eu explique melhor - disse Holly, subindo no colo do marido. - No acho que precisemos ir mais cedo para a cama.

Quando finalmente Tom e Holly chegaram no quarto, a luz da lua que brilhara atravs da janela j se havia desvanecido e apagado. Os ps de Holly estavam firmes no presente.






CAPTULO 7

Jocelyn chegou s 11 horas em ponto, com uma cesta de vime cheia de tesouros escondidos.

- Achei que poderamos aproveitar ao mximo este fim de vero e fazer um piquenique, est disposta? - props ela.

- Se estou disposta? O que a deixou nesse bom humor? - perguntou Holly, realmente surpresa.

- Bem, acho que devo agradecer ao seu Tom por persuadir Patti a voltar para a universidade.

- Ela decidiu voltar? Jocelyn, que notcia fantstica! Mas, por favor, no d todo o crdito a Tom. Tenho certeza de que Patti acabaria chegando sozinha  mesma concluso - assegurou Holly.

Fazia pouco tempo que Jocelyn voltara da visita ao filho, e essa era a primeira chance que as duas tinham de colocar a conversa em dia. Holly passara todo esse tempo impaciente para descobrir o possvel sobre o relgio lunar, mas, chegada a hora, de repente sentia-se nervosa demais para levantar o assunto. E sabia que Jocelyn compartilhava de sua relutncia.

Holly conseguira dar trgua a todos os pensamentos e teorias que a vinham atormentando desde que cruzara com o relgio lunar. No conseguira descobrir todas as respostas, nem fizera todas as perguntas, mas ainda tinha esperana de que as respostas estavam ao seu alcance e, mais importante, que talvez conseguisse arrumar um modo de assegurar tambm o futuro de Libby. Ainda no estava pronta para simplesmente desistir da filha.

Mas, por mais positiva que tentasse ser, ela no conseguia afastar todos os seus medos. As experincias que tivera com o relgio lunar a haviam levado a extremos de amargor e doura. Para cada gota de esperana que revelara, parecia haver um quilo de dor. Jocelyn dissera que havia um preo a pagar por mudar o futuro, e Holly no tinha certeza de que estivesse preparada para ouvir os segredos que a amiga prometera revelar.

- Espero que tenha pensado em algo melhor do que fazer o nosso piquenique no jardim - disse Holly, fazendo uma careta. Embora ela tentasse manter o jardim sob controle, para que o trabalho duro de Tom no se perdesse completamente com o crescimento da vegetao em mais um vero, esse no era nem a sombra do cenrio exuberante que o jardim poderia ser. Por isso, Holly ainda sentia uma pontada de culpa toda vez que Jocelyn a visitava.

- Estava pensando em fazermos um passeio at as runas de Hardmonton Hall.

-  mesmo? No sabia que podamos subir at l de carro - comentou Holly. Ela se envergonhava por nunca ter ido ver as runas mais de perto. At ali s vira o que sobrara dos muros que delimitavam os antigos limites da propriedade e que levavam direto  casa da guarda, onde ela morava. Mesmo na poca do incndio, a extenso da propriedade j no era to grande quanto no passado, pois a maior parte das terras j havia sido vendida, urbanizada ou tomada por fazendeiros. Apenas a rea imediatamente ao redor das runas permanecera intocada.

- No podemos subir at l de carro - disse Jocelyn, em tom de repreenso. - Essas crianas de hoje querem ir de carro a toda parte. Minhas juntas esto bem lubrificadas hoje, e, se voc conseguir fazer a caminhada, eu com certeza consigo.

- Voc quer me mostrar onde o relgio lunar ficava originalmente, no ? - perguntou Holly, sentindo um frio na boca do estmago s por dizer o nome em voz alta.

- Parece o lugar ideal para debatermos os prs e os contras de viajar no tempo - brincou Jocelyn, mas Holly percebeu o falso tom de coragem na voz da amiga.

- Bem, o que devo levar? - perguntou Holly, em pnico. Ela comeou a abrir a esmo os armrios da cozinha. - J preparei um bule de ch. H uma garrafa trmica aqui em algum lugar. Voc trouxe comida? Tenho algumas coisas na geladeira. E precisamos de talheres. Voc trouxe talheres? - Ela ofegava ao final de cada frase, conforme o pnico se instalava.

- Eu trouxe uma garrafa trmica - acalmou-a Jocelyn - e comida suficiente para alimentar um exrcito. - Holly estava prestes a dizer mais alguma coisa, mas Jocelyn a deteve. - Tambm trouxe um lenol e todos os utenslios de que podemos precisar.

- Tem certeza? - perguntou Holly, dcil.

Jocelyn tomou as mos trmulas de Holly nas suas para acalm-la.

- No estamos prestes a fazer uma cirurgia cerebral - disse ela. - Vamos apenas conversar, s isso. Apenas o tanto que ns duas conseguirmos aguentar.

- Talvez eu devesse mudar de roupa - sugeriu Holly.

Jocelyn suspirou.

- Voc est tima do jeito que est.

- Guarda-chuva?

Jocelyn ergueu uma sobrancelha, silenciando qualquer outra tentativa de atras-las.

- Vamos jogar a cautela ao vento, certo? A vida  feita para correr riscos - disse ela a Holly.

HOLLY E JOCELYN COMEARAM a caminhada em silncio, conforme seguiam a trilha cheia de mato que no passado fora um caminho imponente at a manso. A trilha abandonada estava escondida por anos de decadncia e negligncia. O silncio apenas era interrompido pelo estalo ocasional de um galho quebrado sob os ps delas ou o canto doce de um pssaro que animava a manh, apesar da tenso crescente entre as duas mulheres.

As rvores antigas que protegiam a vista de Hardmonton Hall erguiam-se acima delas, ficando cada vez mais densas conforme as duas continuavam sua peregrinao. O sol de setembro brilhava de vez em quando atravs da copa das rvores, seus raios iluminavam o caminho  frente de Holly e Jocelyn. Holly tentou apreciar a mistura de luz e sombra e o contraste entre a vegetao em decomposio sob os ps dela e o verde cintilante acima. As folhas ainda no exibiam as cores do outono, mas, quando a brisa soprou mais forte, Holly ouviu o farfalhar seco que sugeria a nova estao.

- Ento, como foi sua visita a Paul? - perguntou Holly, ansiosa para quebrar o silncio.

- To boa quanto se podia esperar.

- Isso no parece muito bom - comentou Holly.

Jocelyn suspirou.

- Paul me deixou fora de sua vida por muito tempo. Na verdade, desde que o pai morreu - confessou Jocelyn. - Ele era adolescente quando deixei Harry e nunca soube o que tive que passar... E certamente nunca soube o que eu vira do futuro. Eu o protegi o mximo que pude da crueldade de Harry e, de um modo perverso, Harry acabou fazendo o mesmo. Meu marido era um homem incapaz de amar, mas fingia muito bem. Ele achava divertido alimentar a afeio de Paul e usava isso contra mim. Portanto, quando decidi abandon-lo, Paul nunca entendeu o motivo.

- Ele culpa voc pelo suicdio de Harry? - perguntou Holly, embora a resposta estivesse clara.

Jocelyn riu.

- Ah, Holly, sim. Sim, ele me culpa, e tem todo o direito de fazer isso.

- Mas voc sabe que no  verdade. Harry teria levado voc ao suicdio. Ele se matou em vez de voc. Como pode sequer pensar em se sentir culpada a esse respeito?

O olhar de Jocelyn se perdeu na distncia, onde a copa das rvores comeava a rarear e a luz do dia podia ser vista em toda a sua glria, marcando a chegada delas s runas.

- Ah, a luz no fim do tnel - disse ela a Holly, evitando responder  pergunta.

- Ou um trem se aproximando - suspirou Holly.

Jocelyn apertou a mo da amiga para tranquiliz-la.

- Estou aqui para ajudar. Vai ficar tudo bem - assegurou Jocelyn. Mas a tristeza em seus olhos contava outra histria.

As runas faziam jus a esse nome. A manso no passava de uma srie de paredes solitrias, semidemolidas, cobertas por hera e lquen. Holly quase conseguia acreditar que estava caminhando sobre um cemitrio gigantesco, com lpides imensas.

- Voc se lembra de como era Hardmonton Hall em seu auge? - perguntou ela a Jocelyn.

- Lorde Hardmonton... Isto , o antigo lorde Hardmonton, costumava organizar uma festa por ano nos jardins, e toda a cidade era convidada. Eram ocasies magnficas, pelas quais passvamos o ano inteiro esperando. Depois da morte do velho lorde, seu filho, Edward, aquele que morreu no incndio, continuou com a tradio, mas eu era casada nessa poca e nunca vim s festas.

- Por causa de Harry? - perguntou Holly.

Jocelyn simplesmente assentiu.

- E por que o incndio aconteceu, afinal de contas? Tom estava certo, mesmo sem saber o motivo. Se eles tinham o relgio lunar e podiam ver o futuro, por que no viram o que estava prestes a acontecer? Edward Hardmonton no usava o relgio? - Holly sabia que Jocelyn a estava conduzindo lentamente em direo s revelaes enquanto ela prpria queria alcanar o mais rpido possvel a linha de chegada. Precisava saber de tudo, e as perguntas no paravam de surgir em sua mente.

- Ah, mas Edward Hardmonton usou o relgio - disse Jocelyn, sem dar mais explicaes. - Venha. Pelo que me lembro, o lugar onde ficava o relgio lunar  bem ali.

Holly mordeu o lbio para evitar fazer mais perguntas e deixou que Jocelyn a guiasse na direo do que um dia teriam sido os jardins ornamentais. Os jardins ainda eram magnficos, apesar da negligncia. A relva e os arbustos exticos haviam lutado por supremacia sobre a arquitetura abandonada e parcialmente demolida e conseguiram uma gloriosa vitria. Os vrios tons de vermelho, laranja e amarelo do outono haviam chegado cedo ali, e a vista era de tirar o flego. Holly desejou ter visto aqueles jardins mais cedo, no vero, no auge das flores da estao.

Ela reconheceu o lugar onde ficava o relgio lunar por causa dos projetos arquitetnicos que j vira. A borda externa do crculo era feita de pedra cinza, embora sua maior parte estivesse escondida pelos arbustos circundantes. No projeto, em cada um dos quatro segmentos que saam do crculo principal fora plantada com uma variedade diferente de folhagens e arbustos, provavelmente escolhidos para representar as quatro estaes. Ao longo dos anos, os espcimes mais delicados haviam sido consumidos por seus companheiros dominantes, ou simplesmente tinham secado e morrido. Diferentemente de outras partes do jardim, o terreno ali parecia lgubre.

- O que  isso? - perguntou Holly, pisando em um dos quatro caminhos que levavam ao crculo central de pedra, onde antes ficara o relgio lunar. Ela afastou grossas camadas de musgo sob os ps e descobriu a inscrio que havia sido gravada na pedra.

- H inscries em cada um dos quatro caminhos - disse Jocelyn. - Um poema com quatro estrofes. Foi por isso que eu quis trazer voc aqui. Os versos explicam como o relgio lunar funciona, e, se me lembro bem, o primeiro est aqui.

Quando atravessaram o centro do crculo, Holly colocou no cho a cesta de vime que trazia consigo.

- Espere, preciso de uma coisa que est a - falou Jocelyn. Ela procurou na cesta e pegou uma escova metlica.

Holly limpou o cho com cuidado e revelou os versos do primeiro caminho.

Por uma hora, ainda que seja,

Debaixo do mais pleno luar,

O reflexo do sol  a chave

Que desperta o relgio lunar.

- Bem, isso no  nada que eu no pudesse ter descoberto sozinha - disse Holly, amuada, incapaz de esconder seu desapontamento pelo fato de o verso no revelar nenhum segredo oculto. - J tinha percebido que a viso dura cerca de uma hora, e tambm notei que  preciso que a lua esteja cheia. Tentei usar o relgio uma vez quando no era lua cheia e a esfera mal piscou.

- Vamos ler a prxima estrofe - sugeriu Jocelyn.

No havia musgo sobre o caminho seguinte, portanto foi relativamente fcil para Holly ler a segunda parte do poema.

Com este relgio inigualvel,

Veredas se abriro ao luar,

E a sua sombra projetada

Um dia vindouro ir tocar.

A referncia ao relgio despertou uma lembrana em Holly. Dessa vez, ela realmente tinha uma pergunta:

- O luar refletido no centro da esfera de vidro criou o que pareciam ser ponteiros de um relgio que ficavam girando, e eu pude ouvir tambm um tiquetaquear. Mas, se  um relgio, como funciona? Como determina a distncia a que seu reflexo chegar no futuro?

- Acho que isso sempre ser um mistrio. O dirio mostra como o mecanismo de metal foi projetado, mas o relgio era um instrumento para contar as horas, no determinava onde o reflexo levaria. Est claro pelas anotaes que  o prprio mostrador de pedra que faz a escolha. Como isso acontece eu sinceramente no sei, mas ele parece escolher um ponto crtico na vida do viajante do tempo.

- Ou na morte - acrescentou Holly, falando devagar. - Voc trouxe o dirio?

- No se preocupe, est na cesta. Assim que terminarmos nosso piquenique, voc poder ficar com ele. De qualquer modo, no o quero mais.

- Afinal, como voc conseguiu esse dirio?

- O senhor Andrews, antigo jardineiro da manso, veio me visitar pouco depois de Harry comprar o relgio lunar. Embora ele mesmo nunca tivesse usado o relgio, havia sido confidente de Edward Hardmonton. Eu vou lhe contar mais sobre isso daqui a pouco, mas acho que voc precisa ler todo o poema primeiro. Pronta para a prxima estrofe? - insistiu Jocelyn.

O prximo caminho tambm estava praticamente limpo, com belas pencas de lquen nas beiradas, mas estas no chegavam a esconder a gravao.

Como um toque no espelho dgua,

Nenhuma marca  deixada,

Como a gota de chuva na vidraa

Nem sempre escolhe a jornada.

Holly observou as palavras, buscando sentido nelas. Um arrepio passou por seu corpo quando ela se lembrou das pegadas na neve e do p sobre o console da lareira durante sua ltima viso. Ento ela percebeu que os dois primeiros versos se encaixavam perfeitamente em sua prpria experincia. Visitara o futuro, mas no deixara nenhum rastro; qualquer marca que fazia desaparecia exatamente como dizia o poema, como uma mo passando sobre a gua. O significado dos versos seguintes, no entanto, estava lhe escapando, ou talvez ela no estivesse querendo v-lo.

- Nem sempre escolhe a jornada? O que isso significa? Quer dizer que no tenho livre escolha ou seria outra coisa? Voc disse que havia um preo a pagar.

- Um pouco de ambas as coisas, eu acho. A melhor maneira de explicar  imaginar as gotas de chuva na vidraa de uma janela, como diz o poema.

Holly no estava convencida de que imaginar uma vidraa resolveria sua confuso, mas acatou a sugesto e deixou que Jocelyn guiasse a imagem que se formava em sua mente.

- J tentou seguir uma gota em particular quando ela desce pelo vidro?

Holly assentiu, concordando. Quando era criana, passava horas observando a chuva se derramar como lgrimas contra a janela de seu quarto.

- Quando a chuva atinge a janela - continuou Jocelyn -, voc poderia imaginar que cada gota est traando sua prpria jornada. Mas, em determinado ponto, uma gota cruza o caminho de outra. Voc pode no ser capaz de ver esse caminho e pode achar que ele nem sequer est l, mas ento, de repente, sua gota de chuva vira em uma nova direo. Est seguindo a que veio antes, no est mais em sua prpria jornada, mas em uma que j fora traada.

Holly no percebeu, mas havia fechado os olhos enquanto acompanhava a gota imaginria escorrendo pela janela de seu antigo quarto de menina. Quando abriu os olhos, Jocelyn a estava observando, o olhar cheio de tristeza.

- Ao que parece, a vida exige certo equilbrio. Mesmo quando voc acha que est escolhendo um novo caminho, ele s vezes pode acabar levando-a ao mesmo lugar.

- Ah, meu Deus - Holly disse em um arquejo. - No importa quantos exames de sade eu faa, se ficar grvida de Libby, no vou conseguir evitar minha morte no parto.  isso que est tentando me dizer, no ?

- Sinto muito, Holly. Gostaria de poder dizer que a ltima estrofe lhe dar alguma esperana, mas no posso. As regras do relgio lunar so cruis, no h como suavizar a pancada. Lembre-se apenas de que o relgio est lhe dando uma chance de salvar sua vida. Tente no perder isso de vista. Tente ver como um presente. - A voz de Jocelyn soava como os murmrios ao fundo de um velrio.

- Um presente? Como esse horror a que estou sendo forada pode ser chamado de presente? - questionou Holly, sentindo a raiva queimar no fundo de sua garganta.

- Se isso a mantiver em segurana, e sei que o far, ento, sim,  um presente. Vamos, venha ler a ltima estrofe - falou Jocelyn, o tom ainda suave e enervantemente simptico.

O ltimo caminho estava coberto por uma grossa camada de musgo, e, quando Holly escovou a pedra, sentiu o corao afundar no peito.

E, se da morte tentar escapar,

O saldo no se altera jamais.

Vida por vida: o preo a pagar,

Nunca a menos e nunca a mais.

- Vida por vida - repetiu Holly. - O que significa o saldo no se altera jamais?

Ela fez a pergunta, mas Jocelyn no respondeu, simplesmente ficou encarando Holly e esperou que a amiga interpretasse por si mesma o poema.

- Minha vida pela de Libby? Tenho que apagar a vida da minha filha linda para salvar a minha? Por favor, Jocelyn, por favor, diga-me que estou interpretando errado.

O silncio continuado de Jocelyn confirmou a resposta que Holly no queria ouvir, e ela caiu de joelhos como se houvesse recebido um soco no estmago que a deixara sem ar.

- Ah, Jocelyn, acho que no consigo mais suportar isso! - gritou ela. Ento fez algo que nunca antes se permitira enquanto adulta: chorou sem restries. Em questo de segundos se entregou a lgrimas e soluos guardados havia muito tempo.

JOCELYN ARRUMOU O PIQUENIQUE no jardim das rosas. Ela escolheu aquele lugar porque dali no se via o antigo crculo do relgio lunar. A comida permaneceu intocada, mas Jocelyn insistiu para que Holly bebesse um pouco de ch, que estava, como sempre, doce e quente.

Holly havia controlado as lgrimas e, apesar do choque, queria ouvir mais sobre o relgio. Precisava entender como ele fora usado no passado. Precisava ter certeza de que no tinha outra opo antes de desistir completamente de Libby.

- Conte-me o que aconteceu com voc, Jocelyn - pediu ela. - Voc me contou como seria levada a cometer o suicdio, mas como as regras se aplicaram no seu caso?

Jocelyn estava brincando com a xcara de ch, girando o lquido como se pudesse encontrar ali um caminho de volta para o passado.

- Acho que preciso comear do princpio. Pode ser? - perguntou ela, os olhos j brilhando com lgrimas no derramadas.

- Leve o tempo que precisar. Tambm estou aqui para apoi-la - ofereceu Holly, inclinando-se para apertar a mo da amiga.

- O Senhor Andrews no mencionou a viagem no tempo na primeira vez em que me visitou na casa da guarda. Ele simplesmente apareceu para me entregar a caixa de madeira e o dirio... E fez isso com certa relutncia, devo dizer. Acho que ficou dividido entre deixar o segredo do relgio lunar morrer com os Hardmonton ou deixar que os novos donos decidissem a respeito. Ele me recomendou ler o dirio primeiro e no ressuscitar o relgio lunar a menos que estivesse preparada para aceitar as consequncias. Quando o Senhor Andrews voltou a aparecer na casa da guarda, alguns meses depois, eu no apenas tinha lido o dirio como tambm j havia experimentado em primeira mo o poder do relgio lunar.

- O relgio escolheu lev-la para aquele ponto no tempo em que voc cometeria suicdio.

Jocelyn assentiu.

- Vivi o mesmo pesadelo que voc provavelmente viveu, questionando minha prpria sanidade. O dirio parecia confirmar tudo o que eu experimentara, mas, mesmo assim, eu estava disposta a encarar o que acontecera como uma fantasia. Quando o Senhor Andrews percebeu que eu vira meu futuro, ele me ajudou a aceitar que aquilo realmente poderia acontecer. Fizemos essa mesma caminhada juntos at a manso e o crculo de pedra, onde ele me ajudou a interpretar o poema, exatamente como eu fiz com voc.

- A gota de chuva na vidraa - confirmou Holly.

- Quando percebi que a regra vida por vida significava que outra pessoa teria que morrer em meu lugar, simplesmente me resignei  minha sorte e por dois anos no fiz nada. - Jocelyn apenas deu de ombros, como se no fosse necessria mais nenhuma explicao.

- Mas a voc usou novamente o relgio e viu o que Harry faria com Paul. Foi por isso que mudou seu destino. Mas e a regra de uma vida por outra? - perguntou Holly, mas deu-se conta da resposta assim que as palavras saram de sua boca. - Ah, entendo. Foi Harry. Ele acabou se suicidando.  por isso que voc se sente to culpada, no ?

- Isso no  nem metade do problema - confessou Jocelyn. - Quando voc evita a morte, a vida que ser sacrificada no  necessariamente uma escolha sua. A vida escolhida  sempre a de um membro prximo da famlia, no precisa ser de um parente de sangue, mas algum dentro do crculo familiar. Voc no pode simplesmente sair e matar um estranho aleatoriamente e esperar com isso acertar as contas.

- Voc disse que as regras do relgio lunar eram cruis, Jocelyn, mas cruel  muito pouco para descrever isso!

As duas mulheres estavam olhando na direo do lugar onde costumava ficar o relgio, incapazes de fitar o olhar assombrado uma da outra. A manh deslizou silenciosamente em direo  tarde e, embora o sol firme de setembro lutasse para abrir caminho atravs das nuvens que se acumulavam, ainda havia calor o bastante para aquecer a brisa suave. Mesmo assim, Holly estremeceu.

- Eu no poderia evitar a morte sem colocar em risco a vida de outro membro da minha famlia. O relgio lunar exige uma vida, e meu maior medo era de que fosse a vida de Paul que eu estivesse colocando em risco. Foi por isso que no fiz nada por dois anos, at ver o que aconteceria com Paul se eu no tentasse mudar o futuro.

- Por favor, no me diga que voc matou Harry - arquejou Holly, meio de brincadeira, mas com medo de que ainda houvesse surpresas desagradveis a serem reveladas entre as runas da manso.

Jocelyn sorriu, mas estreitou os olhos quando uma lgrima comeou sua viagem solene pelo rosto abaixo.

- Praticamente - confessou ela. - Eu vi o que ele faria a Paul e senti uma fria imensa crescendo dentro de mim. Uma fria que talvez apenas uma me consiga sentir. Nunca me rebelara contra os abusos de Harry. No poderia ter sido mais submissa mesmo se tentasse. Mas, quando vi a crueldade de Harry sendo dirigida a Paul, destruindo meu filho como certamente me destrura, aquela fria me consumiu, e acho que eu teria sido, sim, capaz de assassinar, se as coisas tivessem chegado a esse ponto.

Holly fez o melhor que podia para se concentrar nas experincias de Jocelyn. Embora estivesse se esforando para no pensar em como todas aquelas informaes ditariam seu prprio caminho, podia sentir as costumeiras inseguranas em relao  maternidade voltando para assombr-la mais uma vez. Holly achou que estivesse aprendendo a ser me, mas agora se perguntava se conseguiria imaginar a fria que a amiga descrevera.

Jocelyn estava tremendo enquanto ressuscitava os espectros de seu passado, e parecia ter chegado a um ponto de onde no conseguiria mais continuar. Holly, por sua vez, precisava ouvir mais para conseguir entender.

- Se voc no o matou, como se certificou de que a vida a ser tirada seria a de Harry? - perguntou Holly em voz baixa.

- Eu comecei a reagir a ele - sussurrou Jocelyn, como se tivesse medo de acordar os fantasmas que pareciam estar se aglomerando ao redor delas. - Harry sem querer me deu as armas para combat-lo.  claro que, ao contrrio de mim, Harry no era nem um pouco submisso, portanto, quando comecei a provoc-lo, sua reao foi explosiva. Os abusos e a crueldade que ele me infligia se tornaram piores, e as agresses fsicas, mais frequentes, mais intensas.

- Ah, Jocelyn, nunca imaginei que tivesse sido to terrvel - comentou Holly, genuinamente chocada com os horrores que a amiga enfrentara na casa que agora era o seu lar.

- Acho que o ditado  o que no mata fortalece com certeza se aplica a mim. E, durante todo esse tempo, Harry ainda conseguiu que todos os abusos e agresses fossem mantidos longe da vista de Paul. Minha vergonha teria permanecido secreta se eu no tivesse percebido que poderia usar isso em minha vantagem. Certifiquei-me de que outras pessoas soubessem. Aos poucos, mas sem trgua, Harry comeou a perder trabalho, porque as pessoas passaram a se recusar a fazer negcios com ele. Os moradores da cidade se transformaram em aliados silenciosos, e, com a ajuda da minha irm, Harry acabou caindo no ostracismo. Ele estava perto de um colapso, ento comecei a me perguntar se eu no teria ido longe demais, se no acabaria morrendo pelas mos de Harry em vez de pelas minhas prprias. Foi a interveno de um amigo querido, meu cavaleiro de armadura brilhante, que pesou a balana novamente a meu favor e colocou meu futuro em um novo caminho.

- E quem era esse cavaleiro de armadura brilhante?

- Algum que voc j conhece - respondeu Jocelyn, de um jeito misterioso. - Ele ainda visita a casa da guarda com regularidade.

- Billy? - arquejou Holly.

Jocelyn assentiu.

- Billy era um rapaz na poca. Ele apareceu na casa da guarda para cobrar um dinheiro que Harry estava lhe devendo. Era por volta do meio-dia, e Paul estava na escola, portanto Harry estava aproveitando o mximo de tempo que tnhamos sozinhos para me bater. Em um instante, eu estava encolhida em um canto, e, no instante seguinte, Billy estava l. No final do dia, era Harry quem estava cheio de hematomas e costelas quebradas.

- Muito bom, Billy! - Holly estava sorrindo e sentindo uma admirao renovada pelo contramestre.

- O mais difcil para Harry suportar no foi a surra, mas a humilhao. E eu fiz questo de reforar a vergonha por que ele passara a cada oportunidade que tinha. Quebrei o esprito dele, e, quando Harry estava no fundo do poo, soube que era a hora de abandon-lo.

- E foi ento que o relgio lunar lhe mostrou que isso levaria Harry ao suicdio? - perguntou Holly, incrdula. Ela sempre soubera que Jocelyn era muito, muito mais forte do que seu frgil corpo sugeria, mas ainda assim era difcil imaginar a amiga usando a crueldade do marido em proveito prprio.

- Havia apenas uma coisa que eu precisava fazer primeiro. O relgio lunar precisa de um evento especfico como catalisador, para mudar de uma viso de futuro para outra, e, para mim, esse evento foi sentar e escrever uma carta para Harry, dizendo a ele que eu o estava abandonando. Na carta, eu disse que ele falhara em tudo, e que o mundo seria um lugar melhor sem ele, embora eu ache que talvez no tenha colocado a questo de forma to sutil. Com a carta escrita e as malas prontas, usei o relgio lunar uma ltima vez. A viso do futuro daquela vez confirmou que todos que eu amava ficariam a salvo, que seria Harry, e no eu, quem cometeria suicdio e que era seguro para mim partir. - Jocelyn ergueu a cabea e olhou diretamente para Holly. - Portanto, voltando  sua pergunta original, sim, de certo modo eu realmente matei Harry.

- E voc nunca contou a Paul.

- No - disse Jocelyn. - Eu no poderia contar a ele antes que Harry morresse porque tinha medo de que isso pudesse alterar o futuro, e, depois da morte de Harry, fiquei arrasada pela culpa. No conseguia justificar o que havia feito nem para mim, quanto mais para Paul.

- Voc deixou Paul acreditar que o pai era inocente. - Holly balanou a cabea e tentou reprimir a raiva que sentia.

- Quando retiraram as coisas de Harry da casa da guarda, Paul encontrou a carta que eu escrevera para o pai dele. Nessa altura, eu estava oficialmente divorciada e no tinha direito nenhum  propriedade, Paul herdou tudo. Quando tinha idade suficiente, meu filho me deixou e partiu da cidade. Ele se alistou no exrcito e viajou o mundo, aceitando qualquer misso que o levasse o mais longe possvel de mim.

- Deve ter sido difcil para vocs dois. Mas, e agora, vocs esto bem?

Jocelyn balanou a cabea, e mais uma lgrima escorreu por seu rosto.

- Eu tentei. Por anos tentei entrar em contato com Paul, mas ele estava determinado a me varrer de sua vida... como se eu mesma tivesse morrido. Cada carta ou carto que eu mandava para ele voltava sem ter sido aberta. No consegui falar com meu filho por anos, at o ms passado.

- Eu presumi que voc visitasse Paul com regularidade. Mas voc realmente esteve com ele, no ? Ficou fora por mais de uma semana - perguntou Holly, somando a confuso a tantas outras emoes que ferviam em seu peito.

- Voc me deu o empurro de que eu precisava para tentar uma ltima vez. Eu o rastreei por meio de um amigo do exrcito que tambm  de Fincross. Praticamente acampei na porta de Paul at que ele no pudesse mais me ignorar.

- O que voc disse a ele?

- No contei a ele sobre o relgio lunar, se  a isso que voc est se referindo. Acho que teria sido um passo grande demais. Mas contei que o pai dele havia me levado  beira do suicdio. Contei que deixara Harry para proteger tanto a ele quanto a mim.

- E ele a ouviu?

Jocelyn sorriu, e as rugas de cansao em seu rosto se suavizaram.

- Acho que ouviu o bastante. No acertamos todas as nossas diferenas, mas pelo menos acertamos algumas.

Jocelyn sorriu enquanto as lgrimas secavam, mas o fantasma dessas lgrimas permanecia, e Holly sabia que a amiga no seria capaz de se livrar da culpa que carregava havia 30 anos.

As nuvens agora dominavam o cu, e a brisa quente tinha adquirido um toque cortante. Os jardins gloriosamente desmazelados que as cercavam haviam perdido o lustro, e Holly no hesitou quando Jocelyn sugeriu que voltassem para casa.

- Acho que esse piquenique no foi uma boa ideia, no ? - suspirou Jocelyn. - Ns acabamos perdendo o apetite, e, detesto dizer, minhas juntas esto me matando. No sei nem se conseguirei me levantar.

Holly sorriu enquanto se levantava e estendia os braos para ajudar a amiga a se levantar tambm.

- Bem, no posso deixar voc aqui e no consigo encarar tudo isso sem voc.

Esse foi o jeito de Holly pedir ajuda, e Jocelyn encontrou determinao suficiente para se colocar de p e abraar a amiga.

- Eu no deixaria voc encarar tudo isso sozinha - assegurou-lhe Jocelyn.

A volta para casa foi mais lenta, e o caminho estava bem mais escuro. Os matizes coloridos que outrora haviam iluminado o caminho delas at Hardmonton Hall haviam dado lugar a uma nebulosidade fria. A jornada de Holly at as runas havia sido marcada por uma mistura de medo e esperana, mas no retorno ela trazia apenas o medo, alm de uma sensao de vazio que se infiltrara em seu corpo quando todas as lgrimas haviam secado.

- E se houver uma exceo  regra? - perguntou ela a Jocelyn, conforme se aproximavam da casa da guarda. Era a primeira vez, na volta desoladora para casa, que se falavam, a no ser pelos xingamentos ocasionais que Jocelyn deixava escapar quando suas juntas doam demais.

- No h como barganhar com o relgio lunar - alertou Jocelyn. Ela parou e se virou para Holly. Era difcil dizer se a careta no rosto da velha senhora era de dor ou de preocupao com Holly assumir algum risco em relao ao prprio futuro.

- Ento, por que us-lo? - explodiu Holly, sem estar certa se sua raiva era dirigida a Jocelyn ou ao relgio lunar. - Por que voc no o destruiu ou ao menos destruiu o mecanismo que o faz funcionar? Por que o deixou de lado para que alguma tola como eu aparecesse e o colocasse para funcionar de novo?

Uma nova onda de culpa pareceu puxar os ombros de Jocelyn para baixo, e subitamente ela pareceu muito velha e frgil.

- No sei por qu, Holly, realmente no sei. Assim como o Senhor Andrews, no achei que tivesse o direito de destruir o relgio lunar. Eu escondi a caixa em uma das paredes da oficina de Harry e pensei que estaria segura ali. Com certeza, seria o ltimo lugar em que Harry olharia. E guardei o dirio comigo, lembra? Pensei que ningum mais descobriria por conta prpria como juntar o mecanismo ao relgio.

Quando Holly viu a expresso de sofrimento no rosto de Jocelyn, imediatamente se arrependeu da exploso, e sua raiva desapareceu to rpido quanto surgira. Ela sabia que estava sendo injusta e, alm do mais, no podia ignorar o fato de que o relgio seria til para evitar que ela morresse de parto.

- Desculpe, Jocelyn. Eu no devia ter dito isso. Voc  to vtima do relgio quanto eu. - Ela passou o brao pelo da amiga, e comearam a caminhar mais uma vez em direo  casa da guarda. - Conte-me tudo o que sabe sobre o dirio, ento - falou Holly, procurando afastar a conversa de suas acusaes impensadas.

- Foi escrito por Edward Hardmonton e descreve em dolorosos detalhes como ele ressuscitou o relgio e as decises que foi forado a tomar. Ele sabia que a tragdia se aproximava, mas no havia muito o que pudesse fazer para mudar os eventos futuros.

- Como a gota de chuva na vidraa, que nem sempre escolhe a jornada - recitou Holly.

- Voc se lembrou perfeitamente do poema.

- No  algo que eu deva esquecer - suspirou Holly. -  a nica coisa que tenho para me ajudar a superar esse pesadelo.

- No  a nica coisa. Tambm estou aqui para ajudar... A menos que esteja preparada para conversar com Tom a respeito disso.

Foi a vez de Holly se sentir culpada. Acabara de perceber que estava prestes a tomar decises que poderiam mudar a vida deles, e Tom tinha o direito de estar envolvido.

- Primeiro preciso ter tudo muito claro em minha mente. Um dia contarei a ele.

- Mas no hoje - sugeriu Jocelyn.

- Ou amanh - acrescentou Holly. - Talvez no at tudo isso estar terminado e no haver mais decises a serem tomadas.

As rvores comearam a rarear, e Holly percebeu o alvio de Jocelyn quando a casa da guarda surgiu mais adiante.

- Vou lev-la de carro para a sua casa - insistiu Holly.

- J lhe avisei que no vou deixar essas juntas me vencerem - falou Jocelyn com um olhar severo.

- Ento me deixe ao menos acompanh-la at em casa. Sem discusso.

- Quem est discutindo? - perguntou Jocelyn, com um sorriso carregado de dor.

EMBORA JOCELYN TIVESSE FICADO ALIVIADA quando pararam em frente  casa de ch, ela no parecia muito ansiosa para se despedir de Holly. No queria deixar a amiga sozinha para lidar com o futuro. Ambas sabiam que s havia um caminho que Holly poderia tomar se quisesse sobreviver, e isso significava um futuro sem Libby. A filha ainda no existia no presente, talvez jamais viesse a existir, mas Jocelyn podia ver a dor da perda nos olhos de Holly.

- Eu poderia colocar algumas coisas na mala e ficar com voc at Tom voltar - ofereceu Jocelyn. Ela tirara o dirio da cesta, mas parecia relutante em entreg-lo a Holly.

- Vou ficar bem, no se preocupe - assegurou Holly, pegando o dirio das mos hesitantes de Jocelyn. - Tenho esse dirio para ler e ainda tenho muitas outras coisas para me manter ocupada. O mrmore para a escultura da Senhora Bronson deve ser entregue na prxima semana, e Billy prometeu voltar para terminar o jardim de inverno. Alm do mais, voc tambm tem coisas a fazer.

- Sim, a cidade sempre fica cheia na poca da colheita, mas estou certa de que poderia passar muito bem sem mim. - Jocelyn ainda no fizera meno de entrar na casa de ch.

- Jocelyn, vou ter que arrast-la pelas escadas at seu apartamento? - perguntou Holly, fingindo severidade, mas com um sorriso travesso. Mesmo que a amiga fosse a nica pessoa com quem pudesse conversar sobre o relgio lunar, Holly precisava desesperadamente de um tempo para ficar sozinha.

QUANDO HOLLY VOLTOU PARA CASA, o lugar parecia vazio e rido. Ela tivera um relance de como seria a maternidade, vira o rosto da criana que conceberia com Tom e se deixara encantar pela possibilidade de ter aquilo tudo. Presumira que o relgio lunar, em sua mstica benevolncia, havia lhe mostrado os perigos que a aguardavam para que ela pudesse evit-los, para que pudesse sobreviver - para que todos pudessem sobreviver.

Holly colocou o dirio sobre a mesa da cozinha e ficou olhando para ele. Estava encadernado em couro marrom-escuro, com o monograma E.H. impresso no canto superior esquerdo. Uma faixa de couro estava presa ao redor dele, para manter no lugar os pedaos de papel que haviam sido enfiados entre as pginas desmazeladas. Holly sentiu-se tentada a deixar o dirio fechado, ainda mais agora que Jocelyn havia descrito que seu contedo era doloroso... J ouvira histrias dolorosas o bastante nesse dia. Mas o dirio exigia sua ateno, e ela sabia que no descansaria at sua tortura estar completa.






CAPTULO 8

Edward Hardmonton sentira-se intrigado pelo relgio lunar desde que era bem pequeno. Para o resto da famlia, o relgio no era nada alm de uma curiosidade nos jardins de Hardmonton Hall, meio esquecido por quase um sculo. Mas o jovem Edward sentira-se irresistivelmente atrado pelo crculo de pedra que se erguia orgulhoso, cintilando ao sol. O garoto passava interminveis tardes de vero brincando l. Ele conhecia cada centmetro da superfcie gravada do relgio e cada palavra do poema que o circundava, mas, sem o mecanismo para liberar o poder, o relgio lunar mantivera seus segredos s para si.

Quando Edward partiu para a universidade, estava empolgado demais com o mundo que o aguardava para pensar no que estava deixando para trs, e logo se esqueceu do relgio lunar. Depois de receber seu diploma em agronomia, Edward viajou pelo mundo para fazer o que muitos de seus colegas estavam fazendo nos anos 1960: autodescobrir-se. Ele sabia que tinha sorte, no apenas porque possua os meios financeiros para ir e vir conforme sua vontade, mas tambm porque seu pai apoiava sinceramente seu desejo de viajar. Ambos sabiam que Edward, como filho nico, um dia assumiria o papel de seu pai na administrao da propriedade, e, embora tivesse conscincia de seu dever e o aceitasse, enquanto a hora no chegava, Edward pretendia aproveitar sua liberdade, com a bno do pai.

A busca de Edward pelo autoconhecimento chegou ao fim quando seu pai morreu subitamente de um ataque cardaco. Edward viajava pela Itlia na poca, e a notcia foi devastadora para ele. Ele lamentou profundamente no estar ao lado do pai e, mesmo sem haver dvidas de que retornaria para casa em Hardmonton Hall, essa foi uma deciso mais difcil de ser tomada do que imaginara. Edward havia conhecido uma pessoa. Era uma jovem de uma pequena cidade rural da Itlia, mais bonita do que qualquer outra mulher que ele j tivesse conhecido, com a pele cor de oliva e os olhos castanhos muito escuros. Edward a conhecia havia um ms apenas, mas j sabia que Isabella era a mulher de sua vida. No conseguiu suportar a ideia de deix-la para trs, por isso arriscou-se a pedi-la em casamento na vspera de seu retorno  Inglaterra. Eles jamais voltariam a se separar.

Apenas cinco anos mais tarde, por uma reviravolta do destino, a ateno de Edward seria novamente atrada para o relgio. Nessa poca, Edward e Isabella tinham um filho de dois anos, Lucas, e, com o futuro da famlia garantido pela nova gerao, Edward voltou seus pensamentos para o passado. Pesquisando nos arquivos da famlia, ele se deparou com uma coleo de escritos e rabiscos do oitavo lorde Hardmonton. Os registros documentavam as exploraes do trisav de Edward por terras ancestrais, e ele finalmente foi capaz de recompor a histria do relgio e entender sua ligao com a abominvel pedra da lua.

Com o interesse renovado pelo relgio, Edward comeou um dirio para registrar suas descobertas. Alm de suas prprias notas, Edward incluiu parte dos arquivos originais. A pesquisa dele provou, entre outras coisas, que os rumores sobre seu predecessor estavam corretos. Quando Charles Hardmonton foi relegado ao ostracismo pela comunidade cientfica sob a suspeita de ter roubado um precioso artefato, as evidncias que Edward descobriu mostravam que sua punio fora merecida.

O item desaparecido era a pedra da lua, um altar sagrado que fora a pea central de um templo asteca em honra  deusa da lua, Coyolxauhqui. Naquele tempo, Charles j havia tornado pblica sua desaprovao ao saque sistemtico de antiguidades, e a pedra da lua provou ser a gota dgua. Charles secretamente retirara a pedra da lua do navio cargueiro - o mesmo que colocaria em dvida a reputao dele - e a transferira para outro navio.

Depois de toda uma vida dedicada s descobertas cientficas, Charles se dispusera a sacrificar tudo pelo que trabalhara pela posse de um nico tesouro. Por qu? Porque durante sua ltima expedio ele no apenas descobrira a lenda do relgio, mas tambm viera a acreditar em seu poder.

Foi Charles Hardmonton quem transformou a pedra da lua no relgio. Ao que parece, o projeto do mecanismo que canalizaria o poder da lua cheia e acordaria o relgio levara vrios anos: os esboos encontrados nos arquivos mostravam vrios projetos diferentes das engrenagens, das garras de metal e da esfera no centro. Depois que o mecanismo fora aperfeioado e o poder da pedra da lua, canalizado, Charles usou-o para ver seu prprio futuro e, com a disciplina de um cientista experiente, coletou evidncias para estabelecer a extenso do poder do relgio lunar, bem como suas limitaes. Ele usara seu conhecimento para escrever o poema que seria gravado nos caminhos que cercavam o relgio.

O poema fora o modo que Charles encontrara de fornecer um manual de instrues do relgio lunar para as futuras geraes, que ficaria  mostra para que todos vissem. Seus registros, no entanto, no davam nenhuma pista de por que Charles teria deixado instrues para que a esfera que criara para o centro do relgio fosse enterrada consigo. A localizao do restante do mecanismo nunca foi documentada, e, assim, o relgio acabou abandonado.

A primeira tarefa de Edward, portanto, era localizar o mecanismo e encontrar um substituto adequado para a esfera. O mecanismo fora relativamente fcil de localizar, uma vez que Edward sabia o que estava procurando. A caixa de madeira que continha o conjunto de engrenagens e suportes fora guardada junto a uma coleo de relgios, que estavam acumulando poeira no amplo sto da manso. Apesar de seus antepassados terem inferido que aquela era apenas uma caixa de peas de reposio, as gravuras entalhadas na superfcie da madeira atraram a ateno imediata de Edward.

Encontrar um substituto para a esfera provou ser um pouco mais difcil, j que Edward rejeitava a ideia de profanar o tmulo de Charles Hardmonton. Sua primeira tentativa foi usar a tampa de uma garrafa de cristal, adaptada para se encaixar nas garras do mostrador do relgio. De certo modo, a tentativa funcionou, mas a viso revelada a Edward era apenas uma impresso fantasmagrica do mundo ao redor, um mundo sombrio, com feies que ele mal podia reconhecer. A tentativa deu a Edward provas substanciais de que a lenda do relgio era verdadeira, mas ele percebeu que precisaria de uma pea mais poderosa para substituir a esfera.

Edward, ento, desenvolveu a ideia de um prisma e encomendou uma esfera feita a partir de seu projeto. Enquanto esperava que a esfera ficasse pronta, sua empolgao aumentava. Mas toda a animao se transformou em profundo desespero quando ele testou a nova esfera no mecanismo pela primeira vez. Agora, em uma viso clara, a esfera revelou por que na viso anterior o mundo ao redor lhe parecera to desolado. A manso fora completamente destruda pelo fogo, fazendo desaparecer sculos de histria da famlia. Toda a propriedade parecia ter sido abandonada  prpria sorte, embora, para horror de Edward, houvesse uma rea em particular que parecia ainda ser cuidada com carinho. O cemitrio da famlia fora limpo e l havia um novo tmulo. A lpide continha o nome da esposa e do filho dele, a data da morte era a mesma: havia menos de um ano.

Durante os meses que se seguiram, Edward se viu dominado pelo medo e tentou desesperadamente descobrir como o fogo comeara. Seus esforos iniciais foram frustrados, j que o relgio lunar o levava sempre de volta ao terreno abandonado, sem vida, e no lhe dava nenhuma pista que o ajudasse a evitar a tragdia. Edward percebeu que precisaria de ajuda, de algum que estivesse no futuro, esperando por ele no lugar onde ficava o relgio lunar, para lhe garantir a informao crucial que ligasse o presente ao futuro. Obviamente, ele mesmo sobrevivera ao fogo e poderia estar l para conduzi-lo, mas Edward no poderia e no iria encarar a si prprio no futuro. Em vez disso, ele escolheu como confidente o Sr. Andrews, o jardineiro cuja famlia trabalhava na propriedade havia geraes. O Sr. Andrews conseguiu encontrar Edward - ou ao menos o reflexo de Edward revelado pelos raios do luar - em sua visita seguinte ao futuro. O Sr. Andrews sobrevivera  tragdia e pde explicar a Edward que o fogo fora causado por um problema na fiao eltrica, j muito antiga, da manso.

A essa altura, Edward j estava bem familiarizado com as regras do relgio lunar. Ele sabia que seria difcil mudar o destino de sua famlia, mas ainda assim estava disposto a tentar. Edward tomou todas as precaues possveis para prevenir o fogo: renovou as instalaes eltricas da manso e at instalou alarmes de incndio e pulverizadores de gua. Ele financiou as reformas com o dinheiro que ganhou com apostas em corridas de cavalos - mais uma vez, usando informaes fornecidas pelo Sr. Andrews, que continuava a se encontrar com ele por meio do relgio lunar, armado com todas as informaes que julgava teis para tentar salvar os Hardmonton.

Cada visita ao futuro confirmava que todas as suas precaues eram vs. As interferncias de Edward haviam provocado mudanas sutis nas runas, que, quela altura, j haviam se tornado um cenrio familiar em suas vises do relgio lunar, mostrando que a origem do fogo tinha sido alterada, embora as runas continuassem a existir. Para piorar as coisas, a fortuna que Edward acumulara para financiar as reformas fora drenada por um imposto inesperado. As tentativas seguintes que ele fez para levantar mais dinheiro tambm acabaram frustradas por alguma calamidade inesperada. O relgio lunar no permitiria que aqueles que o utilizavam alterassem seus destinos com facilidade, e isso inclua as finanas. Havia um caminho a ser seguido, e o relgio no permitiria nenhum desvio de seu curso.

Edward se recusava a aceitar a derrota, e comeou a planejar uma fuga com a famlia; pretendia escapar para outro pas. A manso estava destinada a se transformar em cinzas, e Edward deixaria que queimasse, mas ele e sua famlia no precisavam estar ali quando acontecesse. Mais uma vez, as tentativas de Edward de salvar sua famlia pareciam destinadas ao fracasso. Cada vez que voltava ao relgio lunar, o Sr. Andrews aparecia em sua viso para lhe dizer que alguma nova tragdia havia se abatido sobre sua amada esposa e seu filho.

As regras do relgio eram rgidas e assombravam Edward. Uma vida por outra vida estava provando ser a mais cruel das regras. O destino estava prestes a lhe roubar duas vidas, sendo que Edward tinha apenas uma para dar em troca. Jamais seria capaz de salvar ambos - a mulher e o filho.

A raiva crescente de Edward era dirigida ao relgio lunar por lev-lo aos limites da insanidade. Ele estava determinado a destruir o mecanismo, faz-lo em pedaos, mas, apesar de sua repugnncia pelo relgio, Edward no conseguiu fazer o que pretendia. Em vez disso, confiou ao Sr. Andrews a tarefa de decidir o destino do relgio lunar. Enquanto isso, Edward se apegava desesperadamente  esperana de que a viso fosse falsa.

Apenas em seu ltimo registro, na vspera do incndio, ele finalmente aceitou seu destino:

Eu me perguntei com frequncia por que meu trisav permitiu que o relgio pelo qual sacrificou sua carreira e sua reputao fosse arruinado. Agora sei o que Charles Hardmonton tambm devia saber em seu leito de morte. No devemos alterar o destino.  um fardo pesado demais para qualquer homem o poder de ver o futuro e ento aceitar que aquele caminho que tomamos no  o de nossa escolha. Como uma gota de chuva que escorre pela vidraa de uma janela, o futuro que vemos deixar uma marca  qual os destinos que reescrevermos voltaro inevitavelmente. Charles desejou que o segredo do relgio lunar fosse enterrado consigo, e meu ltimo desejo  que agora ele morra comigo.

Arrependo-me do dia em que ressuscitei o relgio, mas tenho que aceitar que meu tormento trar alguma consequncia boa, meu filho Lucas ser testemunha disso.

Meu nico alvio  que meu fardo agora foi compartilhado, um ato egosta, mas tambm um mal necessrio. Isabella estava atormentada e parte meu corao v-la sofrer, mas o tempo est correndo. Eu precisava prepar-la para o que nos aguarda e tambm precisava da ajuda dela para garantir que nosso lindo Lucas ficar so e salvo.

Eu deveria ter imaginado que Isabella seria a mais forte de ns dois. Assim que soube, compartilhou de minha convico de que nossa sorte est selada, e no se debateu no sofrimento. Isabella tem apenas um propsito em mente, que  providenciar todo o possvel para Lucas. Ao fazer isso, ela tranquiliza minha culpa, meus medos. Sou abenoado e amado. E, mais, estou preparado para encarar o amanh e descansar nos braos da mulher por quem eu teria dado a minha vida de bom grado, se j no a houvesse prometido ao nosso amado Lucas.

Holly fechou o dirio cuidadosamente, quase com reverncia, e voltou a amarrar a fita de couro ao redor das pginas soltas. Sentia-se completamente drenada. A histria de Edward Hardmonton exaurira as poucas reservas de fora que lhe restavam, o pouco de esperana que ainda tinha. Ela no se levantara da mesa da cozinha por duas horas e, quando finalmente o fez, suas juntas pareceram gritar em reclamao. A dor era quase um alvio para o torpor que dominara seu corpo e sua mente.

Holly saiu da cozinha quase em transe, mas uma nova sensao comeava a surgir dentro dela. Uma raiva profunda comeou a crescer em seu peito, e, quando ela entrou na sala de estar, o lugar onde compartilhara momentos preciosos com Libby, deixou escapar o primeiro grito de fria. Ela olhou para alm do espao vazio no cho e viu Libby, deitada sobre o trocador, chutando as perninhas. Olhou para alm do espao vazio no sof e viu Tom alimentando a filha. Em todo lugar para onde se virava, via o fantasma da filha que ainda no havia nascido.

- No pode fazer isso comigo! - gritou ela. - No pode me fazer escolher entre a minha vida e a de Libby!

Ela examinou a sala, procurando respostas para as perguntas que inundavam sua mente. Ento viu o gato de porcelana sorrindo para ela na estante. Ele sobrevivera em um futuro onde Holly no sobrevivera, e sobreviveria em um futuro onde Libby no sobreviveria. E continuava a sorrir.

- Se Libby no pode viver, ento por que voc deveria? - gritou para o sorriso do gato. Em um ataque de fria cega, Holly agarrou o gato e o arremessou para o outro lado da sala. Ela ouviu o estouro da cabea se partindo juntamente com o corpo quando o bibel bateu na parede e caiu atrs do sof, fora da vista.

Holly ficou parada no meio da sala, tentando respirar em meio  fria. Sua mente ainda parecia girar enquanto tentava dar sentido a tudo, mas havia um nico pensamento que seguia chamando sua ateno. Era um verso do poema, e ela recitou as palavras em voz alta: Vida por vida: o preo a pagar, nunca a menos e nunca a mais. Se no fosse a vida dela a ser sacrificada, seria a de outra pessoa, um membro da famlia, algum que ela amava. Holly fechou os olhos enquanto as palavras ecoavam em sua mente. Sua vida pela de Libby... realmente no havia outra escolha.

No fim, a fria de Holly foi se apagando e lhe restou apenas um refgio.

- Al. Voc est ocupado? - perguntou Holly.

- No, estava apenas mexendo em alguns papis. Qual  o problema, Hol? - A voz de Tom demonstrava preocupao. Era incio da noite para Holly, mas no Haiti era meio-dia, e Tom no esperava falar com ela at mais tarde.

Holly adiara a ligao o mais que pde, mas, enquanto permanecia sentada  mesa da cozinha, observando o sol se pr, parecia que a luz desvanecente levava consigo no apenas os sonhos e esperanas de Holly, mas tambm os de Tom - se ao menos ele soubesse...

- No h nada errado, s quis lhe fazer uma surpresa - mentiu Holly. - Se estiver ocupado, pode dizer, eu desligo e ligo mais tarde. Queria apenas ouvir sua voz, e agora j ouvi. Precisava saber se voc estava bem, e agora j sei.

- No, no desligue. Estava precisando de uma distrao agradvel neste momento. Pensava em tirar uma soneca agora que terminei de fazer minhas anotaes sobre as entrevistas desta manh, mas sei que acabaria ficando acordado, pensando no que tenho para resolver.

- Achei que fazer anotaes ajudasse voc a esvaziar a mente - disse Holly, encarando o dirio.

- Bem, at agora isso no est funcionando - disse Tom. - Estou amando e odiando este emprego ao mesmo tempo. Estar aqui realmente est abrindo meus olhos para outro mundo. Gostaria que voc conhecesse algumas das pessoas que eu conheci. Algumas das histrias que elas tm para contar iriam deix-la boquiaberta, mas no consigo evitar me sentir culpado. Estou cercado por milhares e milhares de sem-teto, de pessoas desesperadas, e sei que posso voltar a qualquer momento para a minha linda casa e para a minha linda esposa. Tenho o tipo de segurana na vida com a qual eles no podem nem sonhar. No passarei fome, terei o atendimento mdico de que precisar, sempre que precisar. Quando tiver filhos, no terei que me preocupar com a possibilidade de eles precisarem lutar para sobreviver dia aps dia. Creio que nunca mais vou enxergar minha vida do mesmo jeito, como se essas coisas fossem garantidas.

Houve um longo silncio enquanto Holly se perguntava como responder a Tom. Ela imaginou os planos e esperanas que Edward Hardmonton tivera para o seu futuro antes de o relgio lunar selar seu destino.

- Voc est certo. No deveramos assumir nada como garantido. Devemos apreciar o que temos agora. Sei que temos um plano de cinco anos, mas estou comeando a perceber o quanto isso  arrogante. Deveramos passar mais tempo aproveitando as coisas que temos, saboreando o que conquistamos, em vez de ficar procurando sempre por mais.

Holly sabia que estava plantando a semente de uma deciso - adiar a ideia de terem filhos em um futuro prximo -, mas parou antes de diz-la. Se dissesse isso em voz alta, poderia mudar o futuro e apagar Libby para sempre... Isso era algo que Holly ainda no tinha foras para encarar.

- Estamos ficando dois velhos muito filosficos - observou Tom. - Sei que no aprecio o que tenho, no o bastante. No aprecio voc o bastante. Veja, estou do outro lado do mundo, pedindo para que voc deixe sua vida em suspenso. No mereo voc.

- Quero que voc seja feliz, mais do que qualquer coisa no mundo. Sei que no posso lhe dar tudo o que quer. - Holly fez uma pausa, tentando sufocar a onda de emoo que ameaava domin-la. - Mas o trabalho que voc est fazendo  importante e o colocar no caminho certo pelo resto de sua carreira.

- Ele me colocar sentado atrs de uma mesa e diante de uma cmera por toda a minha vida,  isso o que quer dizer?

- Sentado atrs de uma mesa escrevendo seu livro soa melhor para mim - sugeriu Holly, j perfeitamente consciente da resistncia do marido a se tornar ncora de telejornal.

A voz de Tom logo ficou animada quando ele comeou a falar sobre o tipo de livro que pretendia escrever, e a empolgao dele trouxe vida de volta ao corao congelado de Holly. Valera a pena ligar para Tom. Ouvi-lo fez com que ela se lembrasse de que ainda havia muitas coisas na vida que ambos queriam conquistar, coisas que no estavam presas s regras do relgio lunar. Houve uma longa pausa no telefone, e Holly percebeu que havia perdido o fio da conversa.

- Estou entediando voc? - perguntou Tom.

- Desculpe - respondeu ela. - E no, voc no est me entediando, est me fazendo perceber que ainda h muito por que ansiar, principalmente o fato de que voltar para casa em poucas semanas. Estou com saudades.

- Tambm estou com saudades - sussurrou Tom. - Amo voc, Senhora Corrigan.

- Tambm amo voc. Volte a salvo para casa.

Holly desligou o telefone e olhou atravs da janela da cozinha para o relgio lunar, que cintilava ao crepsculo.

- Voc no vai me derrotar - disse ela. - No pode apagar tudo. - Ela chegara a pensar que no havia mais esperanas, mas Tom a lembrou de que ainda tinham um futuro. Havia esperana, tinha que haver, e ela no deixaria que o relgio lunar lhe tirasse isso, ao menos no completamente.






CAPTULO 9

O ateli estava em um frenesi de atividade, e Holly estava imersa em muito trabalho, envolta por calor, p e um barulho ensurdecedor. A pea de mrmore que escolhera para a base da escultura da Sra. Bronson era linda, mesmo antes de comear a ser trabalhada. Era quase uma pena lapidar os veios multicoloridos que emprestavam vida  pedra negra. Mas Holly fez o que era preciso. Trs dias haviam se passado desde sua caminhada fatdica at as runas com Jocelyn. Holly comeara a aceitar que deveria renunciar aos seus sonhos de segurar Libby nos braos, de v-la crescer e completar a famlia que Tom desejava to desesperadamente - que ela desejava to desesperadamente. Mas a dor da perda, a pontada de culpa por tomar aquela deciso sem Tom, a vergonha de sacrificar a vida da filha para manter a sua prpria; essas eram emoes que ela no estava certa de que conseguiria aceitar.

O p voava ao redor de Holly, obscurecendo sua viso, enquanto ela usava uma motosserra para esculpir a pedra. Lenta mas precisamente, a espiral foi tomando forma, tornando-se uma base dramtica para as imagens da me e do filho que emergiriam acima. Apesar do progresso que vinha conseguindo, Holly no encontrava alegria no trabalho. Tinha uma encomenda a ser entregue, s isso.

Holly sentia-se o pior tipo de hipcrita. No houvera lao nenhum entre ela e sua prpria me, nenhuma base sobre a qual construir um futuro, e agora no haveria Libby para quem construir um futuro. Estivera certa em duvidar de si mesma o tempo todo. Jamais seria uma boa me. Estava disposta a trocar a vida da filha pela prpria vida. Holly lera e relera o poema vezes sem conta. Examinara cada pgina do dirio atentamente, na esperana de descobrir algum segredo que a ajudasse a burlar a regra de uma vida pela outra, mas seus esforos eram em vo e ela sabia disso. Se houvesse alguma maneira de evitar o sacrifcio que deveria ser feito, Edward Hardmonton sem dvida teria descoberto.

Enquanto descartava grandes pedaos de pedra, Holly brincava com a ideia de voltar a usar o relgio lunar. O relgio talvez houvesse transformado a vida dela em um caos, mas acabara dando a Holly um modo de passar algum tempo com a filha que estaria sacrificando. Talvez Jocelyn estivesse certa. Talvez fosse um presente, e Holly no deveria recus-lo to rapidamente.

Nem tudo o que aprendera sobre o relgio era desagradvel. Holly agora sabia que a presena dela ficaria mais forte sob a luz direta da lua. Ela se lembrou de ter folheado os papis de Tom no escritrio, com a lua cheia cintilando atravs da janela. Por isso achara to mais fcil mover as coisas naquele cmodo. Talvez pudesse encontrar um modo de finalmente pegar Libby no colo. Cada nervo do seu corpo parecia implorar para segurar a filha nos braos. Mas ento seus pensamentos se voltaram para Tom. Ela teria que encarar o sofrimento dele, o olhar do marido passando atravs dela, sem v-la. E no se achava capaz de suportar isso.

Tambm havia outros receios. No tinha como saber se a deciso que tomara - a deciso de no ter Libby - j reescrevera seu futuro. Se fosse esse o caso, Holly no estava preparada para enfrentar o que o relgio lunar poderia revelar. No, no usaria o relgio, ainda no. No entanto, mesmo relutante, ela sabia que ainda havia algo a saber sobre seu futuro. Ainda havia uma pergunta que precisaria ser respondida em seu devido tempo. Se o relgio mantinha as contas empatadas, ento Holly estaria sacrificando apenas a vida de Libby, ou tambm suas chances de algum dia vir a ser me?

A pergunta nesse momento era quase irrelevante. Holly no achava que merecia ser me, e sentia-se tentada a destruir o relgio lunar do mesmo modo como agora despedaava o mrmore  sua frente.

- J pensou em trabalhar no ramo da construo? - Billy estava parado  porta do ateli, e teve que gritar para se fazer ouvir acima do zumbido da serra de Holly.

- J est na hora do almoo? - perguntou ela. Holly estava acostumada a ser arrancada do trabalho para alimentar a horda de operrios famintos que estavam dando os retoques finais no jardim de inverno.

- Almoo? Est quase na hora de ir para casa! So trs e meia.

- Desculpe, Billy, acho que acabei perdendo a noo do tempo.

- Foi o que pensamos, mas no se preocupe. Trabalhamos direto, sem intervalo, e vamos sair mais cedo, se no se incomodar. Est um dia lindo l fora, talvez o ltimo dia bonito do ano. Voc deveria sair, pegar um pouco de sol de vez em quando.

- Bem, se voc no tivesse desaparecido por semanas e me deixado com um jardim de inverno inacabado, eu poderia estar pegando sol l - disse Holly, fingindo severidade. Billy subira muito no seu conceito desde que ouvira a histria de Jocelyn, mas ela no iria deixar que ele soubesse disso.

- A espera vai valer a pena - declarou ele, orgulhoso.

- Ento, quando voc vai termin-lo?

- Mais alguns dias e estar pronto. Mas voc no vai ficar livre de mim. Ainda estou terminando o projeto para o jardim.

- Ento Tom vai contrat-lo para arrumar o jardim! - exclamou Holly.

Billy deu com a palma da mo na testa, em desespero, e seu rosto ficou vermelho de constrangimento.

- O que eu fiz? O segredo j no  mais segredo... Seu marido vai ficar to irritado comigo...

- Bem, quem tinha a obrigao de fazer o trabalho era ele. Mas suponho que, se ele est fazendo fortuna viajando o mundo, o mnimo que podemos fazer  gastar o dinheiro para ele. - Holly suspirou.

- Quando aquele seu marido volta para casa? J cansei de dizer que ele no deveria deix-la sozinha por tanto tempo. Precisa de algum que cuide de voc, no importa se voc concorda ou no.

- Tom estar de volta em duas semanas, mas no por muito tempo. Ele j tem planos de voar para algum lugar na Amrica do Sul logo em seguida.

Billy balanou a cabea lentamente, desaprovando a ideia.

- Voc nunca pensou em ir com ele nessas viagens?

- No pense que no me senti tentada - retrucou Holly. E seu corpo se encolheu com uma nova onda de culpa. Ela remexeu os dedos dos ps, buscando a firmeza do cho para ancor-la, mas acabou pisando sobre os estilhaos de pedra cortante descartados sob seus ps.

Holly ansiava por Tom mais do que nunca. Billy estava certo, ela precisava que tomassem conta dela, e ningum fazia isso melhor do que Tom. Mas queria poupar Tom do tormento pelo qual estava passando. Sua deciso de apagar Libby do futuro seria um problema para a conscincia dela, no para a dele. No contaria nada ao marido at o ano seguinte, quando ele voltaria para casa em definitivo, e ento a data prevista para a concepo de Libby j teria passado.

- Bem, se precisar de companhia, sabe onde estou - disse Billy, arrancando-a de seus pensamentos. - Se no se importa que eu diga, voc est diferente. Deveria sair mais. No  bom para ningum ficar trancada assim.

- Vou sempre at a cidade, tenho os pais de Tom, e estou sempre com Jocelyn - retrucou Holly. - Alm do mais, falo com Tom todos os dias.

- Voc pode estar em uma sala lotada de pessoas e ainda assim estar s - respondeu Billy.

- Sbias palavras - concordou Holly, ligeiramente abalada pela seriedade do comentrio de Billy. - Terei isso em mente.

- E, na prxima vez que falar com aquele seu marido, diga a ele que o jardim de inverno que encomendou estar pronto para a grande inaugurao assim que ele voltar.

- Devo dizer a ele que o jardim tambm estar pronto?

- Hmm... - Billy pousou nela um olhar severo, que logo se transformou em um sorriso presunoso. - Quanto menos comentar a respeito, melhor.

EMBORA A CASA DE CH no recebesse tantos clientes nessa poca do ano, Jocelyn estava mais atarefada do que nunca. Quando no estava fazendo o trabalho do dia, tinha atividades extras mais que suficientes para mant-la ocupada. Ela parecia participar de quase todos os comits e grupos de voluntrios da regio. Com a poca da colheita, a agenda dela estava to lotada que Jocelyn no conseguiu se afastar da casa de ch para seu costumeiro brunch de domingo na casa da guarda, mas, como no pretendia deixar Holly fora de suas vistas com tanta facilidade, convidou-a para tomar o caf da manh na casa de ch dessa vez. Holly desconfiava de que Billy houvesse compartilhado suas preocupaes sobre seu estado de esprito com Jocelyn, e simplesmente no havia maneira de recusar o convite.

A atmosfera na cidade estava fresca com o ar do final de setembro, um forte contraste com a atmosfera empoeirada do ateli, e Holly se sentiu revigorada enquanto caminhava at a casa de ch. S desejava que Tom estivesse em casa, para acompanh-la.

Ele voltaria para casa dentro de uma semana, e, embora Holly soubesse, graas ao relgio lunar, que o marido retornaria so e salvo, ainda assim se preocupava. Cada vez que se falavam ao telefone, Tom parecia mais perdido. Ele era apaixonado pelo trabalho e se lanara ao desafio de fazer matrias sobre questes ambientais e polticas do mundo, mas no se havia se preparado para a tragdia humanitria que vinha testemunhando no Haiti. Tom estava cada vez mais frustrado com sua prpria incapacidade de mudar alguma coisa.

Estava claro para Holly que a atual viagem seria mais do que um trabalho qualquer. O tempo no Haiti estava mudando a perspectiva que Tom tinha da vida, e isso sem dvida afetaria a carreira dele. Apesar do relance que tivera do futuro de Tom, Holly no conseguira ver alm do sofrimento do marido para entender o que estaria ou no acontecendo na vida profissional dele. Tom obviamente assumira a funo de ncora do telejornal, a julgar pela papelada que ela vira no escritrio dele, mas Holly tambm vira as anotaes furiosas em seus roteiros sugerindo que aquele no era um emprego de que ele gostava, e agora ela compreendia o motivo.

Quando chegou  casa de ch, Holly colocou de lado seus medos por Tom. Ele no era o nico que lhe causava preocupao.

- Estamos preocupados com voc - disse-lhe Jocelyn.

Elas estavam sentadas a uma das mesas da casa de ch. A loja estava em um momento de rara calmaria, entre a loucura do caf da manh e a correria da hora do almoo. Lisa cozinhava nos fundos, e os nicos outros clientes estavam bem servidos de bebida e comida. A casa de ch recendia aos aromas acolhedores de croissant recm-assado.

- Por acaso, a outra pessoa seria Billy?

- Se algum to socialmente inapto quanto Billy pode sentir que h alguma coisa errada, ento devo mesmo me preocupar - retrucou Jocelyn.

- Bem, ambas sabemos exatamente o que tenho para me preocupar. - Holly estava beliscando migalhas dos pes doces que Jocelyn a estava forando a comer.

- Voc j decidiu o que vai fazer nos prximos meses? - Foi a vez de Jocelyn parecer preocupada.

- Tenho que evitar a concepo de Libby, sei disso e no vai ser difcil. Tomo injees contraceptivas a cada trs meses e a prxima est marcada para novembro. O que eu e Tom combinamos foi que eu pararia de tomar as injees e comearamos a tentar um beb no final deste ano. Agora, graas ao relgio lunar, tenho que manter as injees, certo?

- O relgio lunar abre uma janela para que veja o futuro, mas cabe a voc tomar as decises que mudaro a sua vida - comentou Jocelyn. -  uma grande responsabilidade, sei disso, e estarei aqui sempre que precisar de mim, mas no posso tomar as decises por voc. No farei isso, no quando a sua vida est em jogo.

Holly sabia que Jocelyn era a nica pessoa capaz de entender a tortura por que estava passando. Para Holly, as opes eram de certo modo mais fceis de serem colocadas em prtica do que havia sido no caso de Jocelyn, mas o peso da deciso ainda era enorme.

- Voc teve que decidir sozinha? O jardineiro era a nica pessoa que sabia?

- Nem mesmo o Senhor Andrews sabia de tudo. Eu me sentia envergonhada demais para contar a ele exatamente o que vi. Por muito tempo, guardei para mim mesma o segredo do meu futuro, mas acabei contando para a minha irm, Beatrice. Ela me ajudou e me influenciou at onde podia, mas coube a mim fazer meu prprio caminho. O fardo era meu, s meu.

- Eu compreendo, e tambm no deixaria que voc assumisse o meu fardo. Voc no iria querer a vida de outra pessoa pesando em sua conscincia - concluiu Holly, mas ento ruborizou quando percebeu como seu comentrio fora infeliz, dadas as circunstncias.

- No quero a morte de mais ningum pesando na minha conscincia. Uma  o bastante.

- Passei a ltima semana tentando encontrar um modo de me livrar desse negcio com o relgio lunar. No fique to preocupada - acrescentou Holly, vendo a expresso alarmada no rosto da amiga. - Sei que no posso tentar manter a vida de Libby sem arriscar a vida de outra pessoa. No estaria arriscando apenas a minha vida. Sei que poderia muito bem estar colocando Tom em risco.

-  por isso que no vou lhe dizer o que fazer. Sinto muito, Holly, voc tem que fazer suas prprias escolhas e viver com as consequncias. Mas no brinque com o relgio, e no baixe sua guarda. Por favor, Holly, no quando est jogando com a vida de outras pessoas.

- Preferia jamais ter descoberto aquela coisa maldita.

- Se sua vida for salva por causa do relgio, ento ele  um presente, no uma maldio, mas tenha cuidado. No esquea que nem sempre escolhemos a jornada. Lembre-se daquela gota escorrendo na vidraa - alertou Jocelyn.

- Voc acha que vai precisar mais que de uma simples consulta mdica para evitar que eu conceba Libby? - Holly agora tinha o cenho to franzido quanto o de Jocelyn.

- s vezes, voc muda as circunstncias ao redor dos eventos, mas ainda assim eles acontecem. Lembra-se do que aconteceu com Hardmonton Hall? Edward tomou vrias atitudes para impedir o fogo, mas tudo o que conseguiu foi mudar a causa do incndio.

- Voc no est conseguindo me tranquilizar, Joss! - Holly riu, mas a risada era vazia e tinha um toque de medo.

Jocelyn suspirou em silenciosa submisso  vontade do relgio lunar.

- Apenas acredito que h um equilbrio universal e sei, sem sombra de dvida, que mudar o futuro no  fcil. Se o relgio lunar me ensinou alguma coisa, foi que h menos caos no mundo do que podemos imaginar. As pessoas passam tanto tempo pensando se devem virar  esquerda ou  direita, e no percebem que de qualquer modo vo acabar chegando ao mesmo lugar.

- Mas o futuro pode ser mudado - argumentou Holly, com uma sensao familiar de pnico crescendo em seu peito.

- Sim, e  por isso que h um preo a pagar.

- Estou assustada, Jocelyn - confessou Holly. - Estou assustada com a possibilidade de passar o resto da minha vida pagando esse preo. Estou assustada com a possibilidade de o relgio lunar tomar de mim no apenas Libby, mas qualquer outro filho que eu pudesse vir a ter. Que tipo de vida vou levar se jamais puder ter filhos? Ser que Tom ainda vai me amar?

- Posso ter encontrado seu marido apenas uma vez, mas aquele homem sempre vai am-la, disso eu tenho certeza - respondeu Jocelyn com firmeza.

Antes que Holly tivesse a chance de insistir em seus medos, o sino acima da porta da casa de ch tilintou, anunciando novos clientes. Lisa estava no outro extremo da pequena cozinha, ainda ocupada picando legumes.

- O dever me chama - falou Jocelyn com um suspiro, colocando-se de p. Ela fez uma careta de dor e acrescentou: - Acho que ainda estou me recuperando daquela nossa caminhada. Eu no deveria mais me arriscar com distncias to grandes. - Embora j estivesse com mais de 80 anos, Jocelyn trabalhava to duro quanto qualquer pessoa com metade da sua idade e, apesar de suas juntas enferrujadas, a casa de ch parecia recarregar suas energias, em vez de consumi-las.

- Voc deveria arrumar mais pessoas para ajudar aqui - sugeriu Holly.

- Se isso  uma oferta, ento eu aceito - respondeu Jocelyn com um ar de triunfo. Holly abriu a boca para falar, mas acabou parecendo um peixe preso no anzol, com a boca aberta  procura de ar, enquanto tentava pensar na melhor maneira de sair da armadilha que Jocelyn lhe arrumara.

- Se eu no a conhecesse, Jocelyn, diria que acabo de cair em uma armadilha.

- Se no me conhecesse, diria no e voltaria para casa, para chafurdar em sua tristeza.

Holly estreitou os olhos enquanto avaliava a oferta e tentava ao mximo ignorar os gemidos exagerados de Jocelyn, que arrastava os ps enquanto deixava a mesa.

- Ainda preciso das minhas manhs livres para trabalhar no ateli. E voc tem alguma ideia do quanto sou inexperiente na cozinha? - advertiu Holly.

- Mais uma razo para comear a ganhar prtica - retorquiu Jocelyn.

- Gostaria que eu comeasse agora? - ofereceu Holly.

- No, amanh  tarde estar timo.

Holly sentia-se relutante em partir. Ela olhou de relance para a jovem famlia que se acomodava a uma das mesas e examinava o cardpio.

- Ento, preciso apenas sobreviver  lua cheia desta noite - falou Holly, por fim.

Jocelyn voltou a se sentar com um baque surdo.

- Como eu sou idiota! Desculpe, Holly, no percebi que estava to perto. Voc vai usar o relgio?

- No, de jeito nenhum. J vi o bastante do meu futuro para o resto da vida. - Embora conseguisse dar um sorriso corajoso, o corao de Holly estava apertado e o estmago, pesado. - J joguei um lenol por cima do relgio. No que me diz respeito, ele pode ficar fora da vista at um futuro a perder de vista.

Ambas riram do trocadilho fajuto de Holly.

- Tem certeza de que vai ficar bem? - perguntou Jocelyn.

Holly se levantou.

-  claro que sim. Vejo voc amanh.

Jocelyn se levantou da mesa uma segunda vez e deu um abrao apertado em Holly.

- Voc vai ficar bem.  uma mulher forte. Mais forte do que eu jamais fui.

- Duvido. Ficaria feliz em ter metade da sua fora - falou Holly. - Voc  uma mulher muito especial.

- No seja tola - retrucou Jocelyn, empurrando Holly para fora da loja, com o rosto vermelho de embarao. - E no ache que paparicar a chefe vai tornar as coisas mais fceis para voc. Quero que esteja aqui amanh, s treze horas em ponto!

Quando Holly saiu da casa de ch, ficou surpresa ao perceber que seu passo estava leve. A volta para casa foi um passeio agradvel, e ela se sentia no controle da prpria vida como no acontecia havia muito tempo. Tinha sido forte uma vez e poderia ser de novo. No baixaria a guarda e superaria essa situao pelo seu prprio bem e pelo de Tom.

Naquela noite, Holly venceu sua primeira batalha contra o relgio lunar e ignorou a atrao persistente que ele exercia sob seu manto improvisado.

HOLLY AGITAVA PANELAS e frigideiras enquanto corria ao redor da cozinha, fazendo malabarismos para evitar que os legumes cozinhassem demais ou as batatas assadas queimassem. Ela insistira em convidar os pais de Tom e Jocelyn para o almoo de domingo, em comemorao  volta de Tom, mas estava comeando a se arrepender seriamente de sua deciso. E provavelmente tambm no fora uma boa ideia abrir uma garrafa de vinho para ganhar coragem.

- Tem certeza de que no precisa de ajuda? - perguntou Diane, espiando da porta da cozinha e fazendo o melhor que podia para no demonstrar nenhum sinal de horror diante da baguna em processo de criao.

- No, est tudo bem - insistiu Holly, jogando um pano de prato sobre a marca de queimado na mesa da cozinha. Ela j havia confessado o que fizera  sogra, que levara na esportiva.

Diane olhou para o pano de prato, e estava prestes a dizer alguma coisa, mas desistiu. Holly no dava mostras de querer consolo.

- Se tem certeza... - falou Diane, mais como uma pergunta do que como uma declarao.

- Tenho certeza - retrucou Holly entredentes e com um leve toque de histeria na voz. - V ficar com Tom. Estou certa de que vocs tm muitos assuntos para colocar em dia.

- Est certo, ento - falou Diane, com um sorriso no muito convincente. Ela no parecia ansiosa por sair dali, mas nesse momento a campainha tocou.

- Deve ser Jocelyn - arquejou Holly, olhando ao redor em pnico e imaginando por quanto tempo poderia deixar o fogo sozinho sem que toda a cozinha explodisse. Jocelyn ainda no conhecera os pais de Tom, e mal conhecia o prprio Tom. Holly seria uma anfitri terrvel se no fizesse as apresentaes. Ela fez uma estranha dana no meio da cozinha, enquanto ia de um lado para o outro.

- Est tudo bem? Posso tomar conta da comida enquanto voc atende a porta - sugeriu Diane, entusiasmada.

Por um instante, Holly sentiu-se realmente tentada a escapar da cozinha com sua garrafa de vinho e deixar o almoo em mos mais capazes. Devia haver algo que Diane pudesse salvar em meio ao caos, se bem que ela teria um trabalho difcil para recriar as couves-de-bruxelas a partir daquele pur verde borbulhante na panela escondida na parte de trs do fogo.

- No, fui eu que fiz essa confuso e sou eu que vou cozinhar at sair dela. Voc poderia atender Jocelyn para mim?

- Se voc prefere - concordou Diane, com certa relutncia. Ela saiu da cozinha sem se virar, como se estivesse com medo de dar as costas quele caos borbulhante.

Dois minutos mais tarde, Jocelyn enfiou a cabea pela porta.

- Diane disse que voc est determinada a fazer tudo sozinha, mas... - Jocelyn lanou um olhar preocupado ao redor da cozinha. - Tem certeza de que no quer ajuda?

- Estou bem - retrucou Holly com um sorriso fixo que j estava comeando a doer nas bochechas. J seria difcil o bastante no perder de vista os pequenos desastres que surgiam a cada minuto se no precisasse batalhar constantemente para manter as boas samaritanas longe. - Desculpe no poder sair daqui para apresent-los devidamente.

- Ah, no se preocupe conosco. Diane e Jack so encantadores, e estou recuperando o tempo perdido com o seu lindo marido. Voc no devia me deixar sozinha com ele...

- Confio em voc - disse Holly, sorrindo. - Agora, se no se importa, tenho que ressuscitar um jantar.

- Voc sabe onde estou, se precisar - disse Jocelyn, enquanto tambm saa da cozinha sem dar as costas. - Talvez devesse checar o forno. Acho que estou sentindo cheiro de queimado - gritou ela antes de sumir da vista da amiga.

Holly abriu a porta do forno e uma nuvem de fumaa a acertou bem nos olhos. Ela estava ocupada abanando a fumaa com porta da cozinha quando Tom apareceu.

- Como esto indo as coisas? - perguntou ele.

Holly estava a ponto de gritar para que o marido sasse da cozinha, mas ele pegou a garrafa de vinho e tornou a encher o copo dela.

- Eu no deveria - falou Holly -, mas mais um copo no vai fazer nenhum mal. Acho que tudo o que poderia dar errado j deu.

- O cheiro est delicioso - falou Tom alegremente. Ele estava evitando fazer contato visual com Holly ou olhar na direo da fumaa que ondulava para fora do forno.

- Voc  um tremendo mentiroso, mas amo voc por dizer isso. Esto todos bem l dentro?

- Sim, d pra dizer que a festa est pegando fogo. Desculpe, sem trocadilhos... - Holly o acertou com o pano de prato antes de deix-lo continuar. - Jocelyn e minha me esto conversando como se fossem amigas de infncia.

Holly entornou seu copo de vinho e o ergueu, pedindo mais.

Tom ergueu a garrafa para mostrar que estava vazia.

- Tem muito mais de onde veio essa - retrucou ela, inclinando a cabea na direo da geladeira.

- Daqui a quanto tempo sair o almoo? - perguntou Tom, hesitante. Ele provavelmente estava se perguntando se ela conseguiria servir a comida antes de estar completamente bbada.

- Acho que ele estava pronto meia hora atrs. Agora est passado do ponto ou queimado.

- Pelo menos no teremos que abrir espao aqui, podemos comer no jardim de inverno - comentou Tom. Ele arriscou um olhar para mesa da cozinha, que no tinha o mnimo espao livre.

Holly respirou fundo para clarear a cabea.

- Ah, eu desisto - falou ela. - D-me uma mo para servir isto. Voc acha que eu deveria colocar uma pizza no forno, s para garantir?

- Seria timo - assegurou Tom.

O cheiro de tinta fresca no jardim de inverno deu lugar ao aroma de legumes cozidos, com um leve cheiro de queimado. Era incio da tarde, mas o dia j comeava a escurecer. Ao menos a luz suave fazia a comida parecer mais apetitosa, pensou Holly. Eles haviam pedido emprestado  casa de ch uma mesa grande e cadeiras, para que todos pudessem se sentar.

- Est maravilhoso - comentou Jocelyn, sorrindo e levando  boca a primeira poro do assado preparado pela amiga. Holly ouviu claramente o barulho crocante de uma batata dura demais sendo mordida.

- Delicioso - confirmou Diane, carinhosa.

- Parece at a comida de Diane - disse Jack. A esposa ergueu a sobrancelha para ele. - Nos primeiros tempos, quero dizer - esclareceu ele.

- Voc est querendo dizer que a mame tambm no sabia cozinhar quando vocs se casaram? - Tom estava rindo, mas bastou um olhar de Holly para silenci-lo.

- Est terrvel, no est? - admitiu Holly. Ela deu um longo gole no vinho, para tentar tirar o gosto amargo da frustrao.

Houve um coro de negativas e elogios, e todos fizeram um esforo notvel para encher a boca de comida.

-  bom comer uma comida caseira. Vocs no sabem o quanto eu senti saudade de casa - disse Tom a todos eles.

- E ns sentimos saudade de voc - falou Holly. Ela estava com a ateno voltada para o marido, mas pelo canto dos olhos enxergava alm dele, no jardim. Podia ver a forma plida do relgio lunar, o lenol que o cobria cintilando na noite como um fantasma onipresente.

Holly bebericava o vinho, ouvindo atentamente enquanto Tom descrevia o tempo que passara no Haiti. A experincia deixara marcas, e levaria um longo tempo at que ele se recuperasse de tudo o que vira, se  que isso aconteceria algum dia. Holly tinha mais certeza do que nunca de que fizera a coisa certa por ter adiado a deciso de contar a Tom sobre o relgio lunar.

-  to assustador ver vidas e comunidades inteiras varridas por um nico evento - dizia ele a Jocelyn.

- No podemos dar a vida por certa - concordou Holly, com uma expresso de tristeza.

Jocelyn encarou a amiga com um olhar cauteloso, mas no disse nada.

- Estou certo de que esse frango, por exemplo, no teve noo do que o esperava - disse Jack, rindo de sua prpria piada, at a esposa lhe dar um cutuco.

-  um jardim de inverno adorvel - disse Diane, tentando levar a conversa para um terreno seguro.

- Sim, Billy fez um belo trabalho - concordou Jocelyn.

- Ns fizemos o projeto juntos - comentou Tom, orgulhoso. - A maior parte foi Billy quem projetou, tenho que admitir. E ento,  claro, houve a interferncia da minha esposa. As portas deveriam ficar na lateral, mas Holly mudou os planos no ltimo minuto.

- Sim - acrescentou Holly -, sempre se pode mudar os planos, ou eles podem ser mudados  sua revelia. Fico imaginando por que me preocupo com eles.

Uma confuso se formava na cabea de Holly, uma mistura de muito vinho com a crescente percepo de que realmente no tinha controle sobre o seu futuro. Lgrimas se acumulavam em seus olhos, e ela subitamente percebeu que os outros haviam se calado e a olhavam com preocupao. Ela no chorava desde o fatdico passeio a Hardmonton Hall e esperava conseguir conter as lgrimas mais uma vez, mas elas pareciam transbordar. - Se me do licena, acho que preciso de um copo dgua - falou Holly, levantando-se rapidamente e saindo em direo  cozinha.

Ela tomou um copo cheio de gua enquanto tentava clarear as brumas em sua mente.

- Hol, qual  o problema? - Tom a seguira e agora estava atrs dela, passando os braos ao redor da cintura da esposa e descansando a cabea no ombro dela.

- S acho que no gosto mais de fazer planos. Acabamos presumindo que podemos ter tudo o que quisermos. A vida no funciona assim.

- Isso tem a ver com o plano de cinco anos? Voc mudou de ideia? - perguntou Tom. Ele manteve a voz suave, mas seu corpo estava tenso.

Holly no respondeu. Precisava estar sbria para ter aquela conversa em particular e, de preferncia, no no meio de um almoo com convidados.

- Por favor, diga-me que ainda quer ter um beb - insistiu Tom. Ele estava acostumado  relutncia de Holly, mas deduzira que todas as dvidas da esposa haviam se dissipado, agora que os planos deles tinham sido colocados no papel.

Holly se virou para encar-lo, uma onda de raiva apertava sua garganta enquanto se sentia colocada contra a parede.

- Quero ser me, sim. De todo o corao. Mas por que sempre temos que querer mais? Por que no podemos apenas aproveitar o que temos agora? - disse ela em um sussurro, tentando manter a voz o mais baixa possvel.

- Voc acha que no sei disso? Depois de tudo o que vi? - argumentou Tom.

- Ento voc deve saber que no pode contar que as pessoas que voc ama estaro por aqui amanh.

Eles ficaram se olhando aborrecidos por um longo tempo. Holly foi a primeira a quebrar o silncio.

- Desculpe - disse ela -, podemos deixar isso para depois?

Tom suspirou e beijou carinhosamente a testa da esposa.

- Voc vai na frente - disse ele com um floreio de mo, apontando para o caminho que levava de volta aos convidados.

Havia risos ao redor da mesa, mas Tom e Holly trouxeram o silncio constrangedor consigo para o jardim de inverno.

- Voc est bem, Holly? - perguntou Diane.

- Acho que bebi vinho demais - admitiu Holly. Ela ergueu o copo de gua e tentou deixar de lado a raiva e o medo, mas o manto fantasmagrico no jardim chamou novamente sua ateno. Se ao menos o relgio lunar lhe desse uma trgua...

- Imagino que v levar um tempo para se acostumar com esse estranho esguio e elegante que acaba de aparecer em sua porta - comentou Diane.

- Ei, no sou um estranho - reclamou Tom.

- No mais que de costume - acrescentou Holly. Os olhos deles se encontraram pela primeira vez desde que haviam voltado para a companhia dos convidados. Um pedido de desculpas mudo pairou entre eles e, quando todos riram de uma piada, Holly percebeu que a tenso havia relaxado.

Diane voltou a comentar sobre a aparncia do filho.

- Voc perdeu bastante peso nessa viagem, mas pelo menos seu cabelo est voltando a crescer. Nunca pensei que diria isso, mas, depois de anos implicando com voc por causa dos seus cabelos embaraados e cheios de ns, acho que sinto saudade do Tom de cabelos compridos.

- Eu tambm. - Holly sorriu. - Mas qualquer verso do Tom  melhor do que nenhuma.

- Ei, ei - disse Jocelyn, erguendo o copo. - Ele me parece bastante saboroso.

- Sem dvida mais saboroso do que este almoo - resmungou Holly. - Mas vocs ficaro felizes em saber que foi Jocelyn quem providenciou a sobremesa. Algum com fome?

A tarde terminou sem mais surpresas. Tom e Holly se despediram dos convidados quando os ltimos raios de sol cediam lugar para a noite.

- Fale com sinceridade - pediu Tom quando j fechavam a porta da frente. - Voc est tendo dvidas sobre o nosso relacionamento? Foi isso o que quis dizer sobre no estar aqui amanh? Porque, se for, saiba que no vou desistir de voc sem lutar. Amo voc, Holly, e, se o fato de eu passar tanto tempo longe est abrindo um abismo entre ns, ento prefiro parar. No quero perd-la.

- Sei que no quer - retrucou Holly, sendo sincera de um modo que Tom no poderia entender, ainda no, e com sorte jamais viria a entender. - Acho apenas que passamos tempo demais olhando para o futuro, procurando o que ainda falta, em vez de apreciarmos o que temos agora. No quero que voc um dia olhe para trs e pense: Ei, eu era feliz e no sabia, tinha minha esposa, meus sonhos e isso era o bastante.

Tom olhou para Holly com uma intensidade to grande que a deixou desconfortvel, como se ele perscrutasse a sua alma e estivesse prestes a descobrir os segredos que ela escondia dele. Tom parecia estar lutando para encontrar as palavras certas, e ento apenas passou os braos ao redor dela e a abraou com fora.

- Neste momento, Holly, voc est certa. Isto  o bastante.  mais que o suficiente.






CAPTULO 10

- Afaste a mo s um pouquinho. Aaah, assim est bom. Agora s um pouco mais - disse Holly, com uma empolgao crescente. - No, no, no tanto. Agora chegue um pouco para a esquerda. V devagar, est quase l. Assim, assim. No se mexa!

- Estou ficando cansado - gemeu Tom.

- Pare de reclamar, s estamos comeando.

- No era exatamente assim que eu imaginava passar meu tempo em casa. Seminu, sim. Experimentando vrias posies, tambm. Mas parado no meio do seu ateli segurando uma boneca de plstico? Isso no estava nos planos.

- J desperdiamos todo um fim de semana na cama - lembrou-lhe Holly.

- Desperdiamos?

Holly sorriu e teve conscincia de todos os msculos doloridos em seu corpo saciado.

- Est certo, no desperdiamos. O problema  que eu posso at tirar uma folga do trabalho na casa de ch enquanto voc est aqui, mas no posso me dar ao luxo de atrasar a encomenda da Senhora Bronson. Amo voc, adoro voc, e, no mnimo, isso me d mais tempo para olhar para seu belo, mesmo que levemente desnutrido, corpo.

Holly havia praticamente terminado a base. Uma espiral escura e nebulosa emergia do grande bloco de pedra, e, ao contrrio do prottipo, a verso final tinha detalhes mais refinados. Havia uma sugesto misteriosa de figuras que formavam as curvas da base, representando as geraes pregressas que sustentavam o futuro.

A parte superior seria um desafio maior, e Holly queria fazer alguns esboos adicionais antes de comear a construir os esqueletos de arame que dariam forma s imagens da me e do filho, que, por sua vez, seriam moldadas em argila. Ela persuadira Tom a ficar nu da cintura para cima e a enrolar um lenol ao redor do corpo, enquanto segurava uma boneca-beb nos braos. Tom no era exatamente a figura de me que Holly tinha em mente, mas sem dvida estava menos parecido com o homem de quem ela havia se despedido.

- Bem, se voc tivesse visto como  l, tambm teria voltado para casa semidesnutrida. No que no fssemos bem tratados, ns ramos. Mas eu no conseguia me desligar do que estava acontecendo ao redor. Nenhum de ns conseguia - contou Tom a Holly.

Quando ele estava de partida para o Haiti, era um aspirante a ncora elegante e bem-arrumado, com o cabelo curto e o terno alinhado, mas sua transformao havia deixado Holly chocada. Ele aparecera na tela da TV fazendo reportagens sobre o Haiti e, cada vez que Holly o assistira, percebera o marido menos arrumado, um pouco menos elegante. De certo modo, Holly ficara feliz por ele voltar a ser o antigo e desarrumado Tom - mas ele acabara indo alm do desmazelado, parecia abatido, ou mesmo torturado. Era mais do que evidente que as mudanas no haviam sido apenas fsicas.

- Bem, voc est em casa agora. Sei que no vai conseguir esquecer o que viu, mas no pode consertar aquela situao, no tudo, no sozinho. Voc est fazendo a diferena, Tom.  um trabalho desgastante, mas  o trabalho com que sempre sonhou, e quem sabe aonde ir lev-lo?

- De volta para o estdio de gravao,  para l que vai me levar. Lembre-se que o que estou fazendo agora  apenas um trabalho temporrio. Que diferena serei capaz de fazer quando estiver dentro do estdio?

- Voc far alguma diferena - falou Holly, em uma tentativa de tranquiliz-lo. - Agora pare de se mexer e mantenha o brao reto.

- Sei que no deveria reclamar, porque no fim tudo isso vai valer a pena. Mal posso esperar para ser pai - falou ele com uma empolgao crescente, enquanto aninhava a boneca nos braos.

- Vamos ver - sussurrou Holly, tentando desesperadamente se concentrar em seu esboo e no retomar a discusso que fora evitada por pouco durante o desastroso almoo de domingo.

- O que aconteceu, Holly? Da ltima vez em que estive em casa voc estava to ansiosa para comearmos uma famlia. Agora, toda vez que toco nesse assunto, voc me corta. - Tom continuava a manter a pose em que Holly o colocara, portanto no estava olhando para ela, mas, ainda assim, ele percebeu a tristeza que ameaava domin-la.

- E se no pudermos ter filhos?

-  claro que poderemos ter filhos. Olho s para o meu fsico de fazedor de bebs. - Tom flexionou msculos inexistentes em seu brao quase esqueltico, para provar seu ponto de vista.

- Nosso relacionamento sobreviveria se no pudssemos ter filhos? - A voz de Holly ecoou atravs do ateli. As fotos que estavam penduradas ao redor balanaram melancolicamente sob uma brisa invisvel, seus sorrisos esperanosos pareciam zombar de Holly. Ela desejava saber com absoluta certeza a resposta para a pergunta que ainda a assombrava. Seria possvel que o relgio lunar algum dia lhe mostrasse que ela poderia ser me e sobreviver para ver seu filho crescer? Holly visualizou gotas de chuva escorrendo pela vidraa de uma janela. Cada gota representava um filho ainda no nascido, e, na mente dela, cada um deles escorria rumo ao mesmo caminho. No haveria meios de no precisar pagar o preo do relgio lunar para o resto de sua vida?

Tom finalmente saiu da pose e olhou para Holly.

- Ns sobreviveremos a qualquer coisa, Hol, eu prometo. Mas no vamos chegar a isso. Desde que ainda seja o que voc quer. Voc ainda quer ter filhos, no quer?

- Quero. Voc no acreditaria no quanto eu quero agora, mas... - Holly estava balbuciando quando a porta do ateli se abriu de repente, trazendo para dentro uma rajada de ar frio.

- Ops... estou interrompendo? - Billy estava parado na porta do ateli, cobrindo os olhos com receio de ver o que achava que tinha visto.

- Est tudo bem, Billy, pode olhar - disse Holly, limpando o canto dos olhos casualmente, para que nenhum deles percebesse as lgrimas que haviam acabado de brotar.

- Espero que ele no esteja nu sob esse lenol - advertiu Billy.

- Poderia ser pior, ele poderia estar parado ali sem o lenol! - Holly riu da expresso de terror no rosto do contramestre.

- Ei! Objeo, Meritssimo! - reclamou Tom, que agora tentava flexionar os msculos e segurar a boneca ao mesmo tempo.

Holly e Billy ficaram parados observando a postura nada masculina de Tom.

- Acho que deveria escolher seus modelos com mais cuidado da prxima vez - sugeriu Billy.

- Achei que ns, homens, deveramos ser mais unidos - retrucou Tom, indignado.

Holly teve a sensao de que essa brincadeira infantil poderia durar a manh toda.

- Escutem, meninos, tenho trabalho a fazer. Billy, voc est distraindo meu modelo. O que podemos fazer por voc?

- Estava s dando uma passadinha para dizer oi - respondeu Billy, envergonhado.

- Ento o que  isso enrolado debaixo do seu brao? - quis saber Holly.

- Isso...? Ah, apenas um projeto para um trabalho que estou fazendo. No  nada demais.

- D isso aqui. - Holly assumiu o tom de uma me repreendendo o filho, e a ironia da situao no lhe escapou.

Billy olhou suplicante na direo de Tom, mas ele estava igualmente desconfortvel.

-  o projeto para o jardim, no ? - perguntou Holly, mas nenhum dos homens se moveu.

- Pode ser... mas tambm pode no ser - murmurou Billy, olhando mais uma vez para Tom, em busca de ajuda.

- Acabei de lembrar que preciso ligar para o trabalho - falou Tom, deixando o lenol cair no cho e colocando a pobre boneca sobre a bancada, a alguns metros de distncia.

Vestindo apenas uma cueca samba-cano, Tom foi em direo  porta. Billy tentou segui-lo, mas Holly o segurou pelo ombro.

- Nada disso - falou Holly. - Voc espantou meu modelo e agora ter que ficar no lugar dele.

- Eu? - balbuciou Billy.

- Sinto muito, Bill - falou Tom, pegando o projeto das mos dele e desaparecendo pela porta.

- Voc no sabia que sempre estive atrs do seu corpo? - Holly deu uma piscada travessa para Billy.

DUAS SEMANAS JUNTOS era tudo o que tinham, e, por esse breve perodo, Holly se esforou para no pensar no futuro. Viviam a vida no tempo presente. A viagem seguinte de Tom seria a ltima: ele iria para a Amrica do Sul gravar uma reportagem sobre as crianas que ganhavam seu sustento catando lixo nos aterros sanitrios. O assunto prometia ser to angustiante quanto o que ele vira no Haiti, e Holly se preocupava com os efeitos que a nova matria poderia ter sobre o marido. Tambm se perguntava se ele estaria em condies fsicas e psicolgicas para lidar com a notcia que ela teria que lhe dar quando voltasse. Parte dela procurava desculpas para adiar sua confisso, mas Holly sabia que logo chegaria o dia em que teria que contar a Tom sobre o relgio lunar.

Tom levara os 15 dias que passara em casa para voltar a se parecer com seu antigo eu. A ansiedade e a depresso que antes marcavam seus lindos olhos verdes foram gradualmente cedendo, depois de muitas doses de descanso, tranquilidade e comida caseira, apesar da culinria desastrosa de Holly.

- Fico feliz por seu cabelo estar voltando a crescer - disse Holly enquanto observava o marido correr os dedos pelos cabelos ainda midos do banho. O dia acabara de nascer, e o txi j estava a caminho para busc-lo. Holly estava deitada na cama observando Tom colocar as ltimas coisas na mala, que no chegara a ser totalmente desfeita.

- Voc sabe que a emissora vai me fazer cort-lo de novo assim que eu voltar da Amrica do Sul - avisou Tom. - Quando estvamos no Haiti, eles subornaram um membro da equipe para cort-lo enquanto eu dormia.

- E por que no fizeram isso?

- Porque eu paguei mais. Voc ver um gasto bem grande no free shop em nossa prxima fatura de carto de crdito.

- Bem, espero que a equipe tambm tome conta de voc nessa viagem.

- Eles faro isso. Ns tomamos conta uns dos outros, no se preocupe.

Tom se sentou na cama para calar as meias, e Holly se acocorou atrs dele, passando os braos ao redor do marido.

- Mas eu me preocupo - falou ela, beijando o topo da cabea de Tom.

Ele a puxou para si, de modo que Holly ficasse sentada sobre seus joelhos.

- Vou sentir saudade de voc.

- Voc vai voltar logo. No  para sempre. - Quando passou os braos ao redor do pescoo dele e sentiu seu corao batendo contra o peito do marido, Holly ficou triste. Ela precisou lembrar a si mesma que a deciso que estava prestes a tomar era no apenas para o bem dele, mas de ambos, e tentou desesperadamente no pensar na nica pessoa que tornava aquela deciso to sofrida.

- Poderamos simplesmente ficar aqui - sugeriu Tom, puxando Holly para a cama e beijando-a lenta e sensualmente.

- No - gemeu Holly. - Eu jamais deixarei que v embora se disser isso.

- Amo voc, Holly.

- Tambm amo voc - falou Holly, tentando conter as lgrimas.

- O txi vai chegar logo... Ah, como eu gostaria de ter mais tempo - disse Tom, afastando-se da esposa e levantando da cama com relutncia.

- Teremos mais tempo. Um dia, muito em breve, teremos o resto de nossas vidas para passar juntos - prometeu Holly, apertando os olhos com fora para tentar afastar a viso dos lindos olhos verdes de Libby encarando-a.

Ela ficou deitada onde Tom a deixara, observando-o em silncio enquanto ele se vestia rapidamente e terminava de arrumar a bagagem que faltava. Uma batida solene na porta anunciou a chegada do txi. Tom se inclinou e beijou a cabea de Holly.

- A propsito... - falou ele, beijando Holly carinhosamente nos lbios.

- O qu? - perguntou ela, olhando dentro dos olhos verdes dele.

- Voc est com bafo. - Tom deu seu tpico sorriso lindo e travesso.

- Ora, e voc tem uma meleca pendurada no nariz - contra-atacou Holly.

- E, com essas lindas e ternas palavras, vou deix-la em paz. Volte a dormir.

Holly passou os braos ao redor do marido e o abraou com fora. Houve outra batida na porta, mais forte dessa vez, mas Tom no se afastou, foi Holly que teve que deix-lo ir.

Uma familiar sensao de solido se instalou no peito de Holly antes mesmo que ela ouvisse a porta da frente bater e o txi dar a partida.

HOLLY TINHA FEITO POUCO progresso na escultura da Sra. Bronson enquanto Tom estivera em casa, mas no podia simplesmente culpar o marido. Sabia que estivera postergando o trabalho de propsito. A imagem do beb que estava prestes a criar seria baseada na lembrana que tinha de Libby, e no no filho da Sra. Bronson, cujas fotografias quela altura estavam perdidas no fundo de alguma gaveta. Holly sentia-se dividida entre o desejo de criar a imagem de Libby e o medo de ver o rosto lindo e confiante da filha encarando-a de volta. Mas Libby no era seu nico motivo para procrastinar. Holly j estava receosa em relao ao conceito da escultura bem antes que seus instintos maternais, ainda em estgio embrionrio, fossem minados pelo relgio lunar e suas regras cruis. Ela no conseguiria trabalhar a srio at acreditar de verdade no projeto. Precisava de uma segunda opinio.

- Simplesmente no sei o que est faltando - falou ela, observando a escultura. Estivera trabalhando na imagem da me e do filho com tela de galinheiro e canos de metal enfiados na base de mrmore. O resultado era um reflexo fiel da verso em tamanho menor que a Sra. Bronson havia aprovado.

- A base  simplesmente linda. - Jocelyn estava parada bem ao lado de Holly em uma das extremidades do ateli, o mais longe da escultura que conseguiam chegar. O vento frio de outubro fazia que, do lado de fora, os galhos das rvores prximas batessem nas janelas.

- O que significa que voc no gostou da metade de cima - falou Holly, sem rodeios.

- Sinceramente,  difcil ter uma opinio formada vendo apenas uma pilha de tela de galinheiro - reclamou Jocelyn. Ela voltou sua ateno para o prottipo e passou os dedos pelas imagens da me e do beb. -  lindo, e sei que voc far jus ao projeto em sua verso final. Essa  Libby?

Holly assentiu, incapaz de confiar em si mesma para falar sem que a voz fosse dominada pela emoo.

- Ela  linda.

- E eu sou uma pssima me - acrescentou Holly, verbalizando sua culpa.

- Voc no tem escolha, ambas sabemos disso.

- Eu sei. S no sei como vou conseguir viver sem ela. Sei que recebi a oportunidade de salvar a minha vida, e  maravilhoso que eu tenha podido ao menos conhec-la, mas isso parte meu corao.

- Vamos falar sobre a escultura, ento - disse Jocelyn, mudando deliberadamente de assunto. - Ela pretende representar as vrias geraes, cada filha se tornando a me que vir a seguir?

- Sim - respondeu Holly com um suspiro. - O que estou tentando fazer com a base  mostrar que h uma ligao entre cada gerao e a seguinte. E, acredite em mim, senti-me tentada a incluir um elo quebrado em algum lugar por aqui.

- Para refletir sua relao com sua prpria me, por acaso? - perguntou Jocelyn, que sabia o bastante do passado de Holly para entender por que a amiga tinha sofrido tanto com esse detalhe da escultura.

- A nica base que minha me me legou foi a dvida.

- Libby lhe mostrou como  ser me e, s por isso, ela sempre ser uma bno em sua vida, mesmo que no possa compartilhar essa vida com voc.

- Eu sei. Por isso  mais importante do que nunca fazer essa escultura direito. Sou a primeira a admitir que no me empenhei nesse projeto a princpio, mas agora essa  praticamente a nica coisa em toda essa confuso sobre a qual ainda tenho algum controle. No consigo me livrar da sensao de que alguma coisa no est funcionando na escultura. Acho que  a pose que est errada...

- Explique melhor. Como ela faz voc se sentir?

Holly se concentrou no prottipo. Andou ao redor dele, seguindo a espiral na base, a sequncia de figuras humanas que se projetava at chegar, ento,  parte superior, onde a me dava continuidade  espiral para cima.

- As figuras conectadas no representam apenas as ligaes entre me e filho, elas tambm mostram como cada gerao forma a base para a seguinte. A espiral acrescenta dinmica  pea. Sempre h uma extremidade para virar, em direo ao desconhecido. - Holly fez uma pausa e riu. - Vendo desse modo, parece bastante irnico, no acha?

- Nem todos tm a chance de ver o que os aguarda mais adiante - comentou Jocelyn, sempre defendendo o relgio lunar.

- De qualquer modo, a me e o beb representam a gerao atual.

Jocelyn tamborilou os dedos no queixo, concentrada.

- Ento por que a me est segurando o beb e olhando para baixo?  porque esto no presente?

Holly congelou onde estava. Ento deu outra volta rpida em torno da escultura. Por fim, correu at Jocelyn e abraou a amiga.

- Voc  brilhante!  isso! Por isso no est funcionando! - Holly soltou Jocelyn to rapidamente quanto a abraara e correu at a bancada de trabalho para pegar seu bloco de esboos.

Enquanto desenhava, ela explicava para Jocelyn o que estava fazendo.

- Dei ateno demais  necessidade da Senhora Bronson de ser o centro das atenes e acabei no levando o conceito da obra at o fim.

- Ainda no estou conseguindo entender - falou Jocelyn.

- A base  uma representao perfeita do conceito: a espiral, os elos, uma gerao garantindo base para a seguinte. A metade superior, no entanto, a me e o filho, foi apenas minha interpretao ingnua do relacionamento entre os dois. A me est virada de um modo que continua a espiral, mas a forma como est segurando o beb est toda errada. Protetora, sim, mas ela o est segurando como se ele fosse propriedade dela. A me precisa levantar o beb, sustentando-o em sua jornada em direo ao futuro, dando continuidade  ideia de uma gerao ser a base para a seguinte.

- Voc pode mudar o projeto agora? A Senhora Bronson j no tinha aprovado este? - alertou Jocelyn.

- Para o diabo com a Senhora Bronson. O trabalho  meu, e estou lutando para acertar esta pea desde o incio. No consegui criar um vnculo real com ela porque sabia que havia alguma coisa errada. Ponho uma parte de mim em cada pea que crio, mas nessa escultura estou colocando uma parte enorme do meu corao e toda a minha alma. Agora que sei o que est errado, tenho que mudar.

Jocelyn olhou para Holly e sorriu.

- J faz algum tempo que no vejo esse brilho nos seus olhos.

Holly sorriu de volta para a amiga. Jocelyn estava certa. Nos ltimos meses, Holly encarara cada dia como uma batalha contra suas prprias emoes, e trabalhar na escultura era sempre um desafio. Uma pea do quebra-cabea agora havia se encaixado, e Holly estava ansiosa para destruir a estrutura feita de tela de galinheiro e comear de novo, sob uma nova perspectiva.

Jocelyn disse a Holly que precisava ir embora, mas demorou-se na porta do ateli, relutante em se despedir.

- H mais alguma coisa? - perguntou Holly, percebendo que a amiga ainda tinha alguma coisa a dizer.

- Hoje  noite de lua cheia - respondeu Jocelyn, com um sorriso ansioso.

- Eu sei, e no se preocupe, o relgio ainda est escondido debaixo do lenol.

- Voc no vai us-lo de novo?

- No, ao menos por enquanto. Talvez um dia, no sei. Tenho medo do que o futuro me reserva desta vez - confessou Holly.

- Seu futuro  voc junto com Tom - assegurou Jocelyn. - Est fazendo a coisa certa.

Jocelyn finalmente partiu, acreditando, assim como a amiga, que a determinao de Holly era forte o suficiente para resistir  atrao do relgio lunar, e que ela no precisava da ajuda de Jocelyn.

Agora sozinha, Holly se dedicou ao trabalho. Mas, se tinha esperana de que a nova onda de criatividade a ajudaria a se distrair, no podia estar mais errada. Tinha esboos do rosto de Libby espalhados pelo ateli e todos pareciam encar-la, chamando sua ateno. Ela sabia que havia uma chance de que o futuro ainda no tivesse sido reescrito. Ainda no havia feito nada para impedir a concepo de Libby. Sua prxima consulta para tomar a injeo contraceptiva estava marcada apenas para o ms seguinte. Isso sim seria o estopim das mudanas que apagariam Libby do futuro, mas nesse momento, enquanto a lua cheia se aproximava, Holly sentia que ainda estava caminhando para o mesmo destino de sua ltima viso.

Ela olhou ao redor, seus olhos passando de uma imagem da filha para outra. Ento examinou os novos esboos que desenhara da me erguendo a criana. Seu corpo se encheu de energia e empolgao quando ela se lembrou do que Jocelyn dissera sobre o reflexo ser mais forte sob a luz do luar. Aquela noite poderia ser a nica chance que teria de segurar Libby nos braos.

Holly quase no se aguentava de tanta ansiedade e, pela primeira vez desde que o relgio lunar entrara em sua vida, ela esperava para ver no cu a face redonda e benevolente da lua.


Os fracos raios do sol de outono no cu sem nuvens aqueceram o dia, mas a lua, que agora assomava ao cu, no guardava calor prprio, e o seu halo trazia a promessa de que o frio chegaria cedo. As rvores no pomar se agitavam sob o vento triste, perdiam suas folhas, em luto pelo vero que se fora. O pano branco que cobria o relgio flutuou no ar como um fantasma quando Holly o ergueu.

O relgio praticamente cintilou sob a luz do luar, e as garras de metal pareciam se estender suplicantes, prontas para agarrar a esfera de vidro que Holly segurava em suas mos trmulas. Ela colocou a esfera no lugar e esperou pela chuva de raios de luar que a envolveria, enquanto isso se concentrou no pomar. Haviam se passado trs meses desde que usara o relgio lunar pela ltima vez, e ele a levara a uma fria noite de janeiro. Se o relgio continuasse a abrir uma janela 18 meses  frente, ento aquele cenrio de outono passaria a ser de primavera, e o pomar seria o primeiro sinal de esperana de que o futuro que ela vira ainda permanecia intacto, que a filha de sete meses estaria l, esperando por ela. Se a aparncia do pomar fosse outra, Holly sabia que estaria abrindo uma janela para um mundo que ainda no estava preparada para ver.

- Por favor, no a tire de mim, ainda no. Voc no pode ser assim to cruel - sussurrou ela enquanto era forada a fechar os olhos diante da chuva de raios de luar que inundavam o mostrador do relgio e o mundo ao redor.

Quando o espetculo de luz cessou, Holly piscou vrias vezes, louca para ver logo os primeiros relances dos arredores. O caos do jardim dera lugar a um gramado limpo e bem tratado, mas Holly prendeu a respirao quando olhou alm do jardim, na direo do pomar. Atravs da escurido da noite ela reparou que a florao das mas estava apenas comeando a despontar, mas isso era o bastante para lhe dar esperana.

Holly abriu a porta dos fundos com facilidade, sua determinao de ver a filha agora conferia fora  sua presena como no tivera das outras vezes. A casa estava s escuras, e Holly atravessou furtivamente a cozinha e entrou no corredor, ansiosa para chegar a Libby. Apenas quando percebeu que a casa estava em completo silncio foi que se forou a parar, recuperar o flego e organizar as ideias. Os moradores deviam estar dormindo ou simplesmente no estavam em casa. Uma onda de medo pegou Holly de surpresa. Ela no conseguiria se convencer a subir as escadas a menos que tivesse certeza de que Libby no fora apagada de seu futuro. Holly respirou fundo e reuniu coragem para entrar na sala de estar, onde talvez encontrasse as evidncias que confirmariam se sua interferncia j teria lhe roubado a filha.

Na escurido misteriosa da sala, Holly percebeu algumas silhuetas familiares: os sofs, o mvel da TV, a lareira e at a sombra do gato de porcelana na estante. Ela sabia que ele estava sorrindo presunoso, mesmo no podendo v-lo. Holly se perguntou como o gato ainda estaria ali se ela j o havia quebrado, mas no podia se permitir nenhuma distrao, precisava continuar sua busca desesperada de alguma coisa que confirmasse que Libby estava a salvo. Ela prosseguiu na escurido e esbarrou sem querer em algo que caiu e rolou pelo cho. Holly pegou o que cara e sorriu ao ver o chocalho de beb em sua mo.

- Obrigada - sussurrou ela.

Antes de partir em busca de Libby, a curiosidade de Holly levou-a a se esgueirar at a estante, onde encontrou o gato de porcelana orgulhosamente sentado  sua frente. Sob a luz mortia, ele parecia em perfeitas condies, mas, quando Holly passou o dedo pela curva de seu corpo, sentiu a rachadura no pescoo. As partes quebradas que ela abandonara atrs do sof em algum momento haviam sido resgatadas e coladas.

Holly subiu a escada de dois em dois degraus. Agora sabia que Libby ainda existia, mas no tinha certeza se estaria em casa. Tom talvez tivesse sado com a filha, poderia ter ido  casa dos pais. A casa da guarda tinha apenas dois quartos, e Holly ignorou a primeira porta, que levava  sute principal, mesmo sentindo o corao palpitar de vontade de ver Tom. Mas sabia que, se o marido estivesse no quarto, ela no seria capaz de lhe oferecer conforto e achava que no seria mais capaz de suportar v-lo sofrer. Alm do mais, no precisava disso, pois se certificaria de que Tom jamais viesse a se afundar no luto pela morte dela.

A porta do segundo quarto estava encostada, e a luz fraca de um abajur escapava pela fresta. Holly soube intuitivamente que Libby estava l e precisou parar um instante para se recompor antes de entrar no quarto. Seu corpo tremia de emoo e expectativa, seu corao saltava no peito. Ela usara o relgio lunar com esse nico propsito, mas, quando parou sob o batente da porta, a coragem lhe faltou, e ela teve que reprimir a vontade de se virar e sair correndo. Holly tinha que encarar a filha e no facilitaria as coisas para si mesma. Precisava dizer a Libby que sentia muito pelo que estava sendo forada a fazer, por ter que escolher quem iria viver e quem jamais chegaria a nascer.

O quarto em que entrou no estava mais desocupado e cheio de entulho. Agora o cmodo era um lindo quarto de beb, e Holly sentiu como se estivesse entrando no pas das maravilhas. Era decorado exatamente como ela gostava, em tons pastel, mas com um toque moderno. As paredes haviam sido pintadas em um tom delicado de amarelo, mas os acessrios tinham cores mais fortes e contrastantes. Uma linda tapearia com uma cena de conto de fadas pendia da parede.

Um bero decorado estava posicionado contra a parede mais ao fundo, e havia um mbile colorido pendurado acima de Libby, que ressonava suavemente no bero. Holly se inclinou sobre a menina e sentiu o cheiro de beb que ela exalava. Examinou cada detalhe das feies da filha - feies que tentara desesperadamente gravar na memria desde a sua ltima visita. O rosto de Libby tinha o formato de corao com aquelas bochechas gorduchas perfeitas de que Holly se lembrava. Os lbios tinham o formato de botes de rosa e eram vermelho-rubi contra a pele luminosa. Os cabelos eram um halo de cachos louros e macios.

Quando Holly estendeu o dedo trmulo para acariciar o rosto do beb adormecido, as plpebras de Libby se abriram, e Holly arquejou.

- Ol, meu amor, acordei voc? - disse ela baixinho.

A alegria deu lugar ao pnico quando os lbios de Libby tremeram, e Holly achou que a menina estivesse prestes a chorar. Ela no considerara a possibilidade de que o beb pudesse sentir medo ao v-la. Os instintos maternais de Holly eram frgeis, e ela no achava que conseguiria acalmar o choro de uma criana, nem mesmo de Libby.

Por sorte, Holly no precisou testar suas habilidades, j que a face de Libby se suavizou e seu olhar de medo foi substitudo por um sorriso. A menina rolou, ficou de bruos e comeou a impulsionar o corpinho na direo de Holly.

- Nossa, voc cresceu - comentou Holly encantada, embora sua confiana ainda estivesse abalada e ela no soubesse muito bem o que fazer.

A essa altura, Libby estava ajoelhada contra as barras do bero, mas logo se inclinou para trs, para pegar uma boneca de pano que estava ao seu lado. Ela levantou os olhos ansiosos para Holly, aguardando ser pega no colo.

- Mmm, nnn - balbuciou, animada.

Ainda em pnico e agora preocupada que Libby pudesse acordar Tom, Holly se virou para a janela, lutando para abrir as persianas. Quando a luz do luar entrou pela janela aberta, a tarefa finalmente se tornou mais fcil, e a face reluzente da lua foi revelada, cercada por 1 milho de estrelas cintilantes. Libby ainda balbuciava impaciente atrs dela.

- Bem, o plano est dando certo at aqui - sussurrou Holly, com a voz trmula. Ela ficou aliviada ao ver os raios de luar iluminando o quarto de beb e torceu muito para que a luz da lua fortalecesse sua presena o bastante para que ela conseguisse realizar o que no conseguira nas visitas anteriores.

Holly se virou para Libby e respirou fundo. A ansiedade em seu peito era quase demais para suportar. Vinha desejando abraar Libby quase obsessivamente, e esse podia ser o momento em que seu sonho viraria realidade, o momento em que sentiria a filha nos braos pela primeira e ltima vez.

Quando Holly estendeu os braos na direo de Libby, o beb ergueu os bracinhos na direo da me, as mos pequeninas abrindo e fechando de empolgao. Holly sentiu a maciez do pijama que a filha usava, sentiu o calor de seu corpo enquanto colocava as mos cuidadosamente sob os pequenos braos. Ento Holly parou, preparando-se para a alegria de erguer Libby, ou para a frustrao de elevar apenas seu desespero. Libby olhou dentro dos olhos de sua me, esperando, e a frgil ligao que havia se formado entre as duas renovou-se com uma fora que Holly acreditou que jamais poderia ser rompida, jamais deveria ser rompida. O corao de Holly pareceu se erguer s alturas  medida que Libby era erguida em seus braos.

- Ah, minha doce, doce Libby - disse Holly, emocionada, abraando a filha contra o corao disparado. Ela beijou a cabea da filha, e seu rosto, seu nariz, seu pescoo. Libby se agitou animada e agarrou os cabelos de Holly.

- Mmmmm, mmm - disse ela, batendo no rosto de Holly com a boneca de pano.

- O que  isso? - perguntou Holly, tentando tirar o brinquedo macio das mos da filha. Mas a menina segurou a boneca com fora e resmungou para a me.

- Est certo, voc segura - desculpou-se Holly. Ela podia sentir a lua cheia olhando por cima de seus ombros e sorrindo para ela. Nesse momento, ao menos, Holly ficou grata por ter recebido esse presente do relgio. E desejou que pudesse durar para sempre.

Holly mal teve conscincia de que estava ninando Libby de um lado para o outro, mas logo viu a filha bocejar e descansar a cabea em seu ombro. Lenta e suavemente, Libby caa no sono, e seus olhos comearam a se fechar, enquanto os dedinhos ainda brincavam com a boneca de pano. Era um brinquedo estranho, pensou Holly. Tinha uma cabea macia em forma de bola, com um chapu flexvel, e um pedao quadrado de pano pendurado de seu pescoo formava o corpo da boneca. Ela provavelmente j fora cor de creme, mas agora parecia desbotada de cinza.

Holly continuou a ninar a filha por um longo tempo depois de ela ter adormecido. Essa seria a ltima vez que seguraria Libby no colo, e, embora houvesse pensado no que diria a ela, quando o momento chegou, Holly teve dificuldade para encontrar as palavras. S havia uma coisa que queria dizer.

- Eu amo voc, Libby - disse Holly  filha, inclinando-se para pousar os lbios sobre a testa suada da menina. Ela no queria continuar a falar, e sentiu-se tentada a deixar os lbios descansando sobre a pele da filha, silenciando a confisso que parecia queimar seu corao, mas precisava dizer as palavras em voz alta, nem que fosse apenas para se punir.

- Desculpe - comeou a dizer, deixando escapar um soluo triste. - No havia percebido antes quanto eu poderia amar voc, e gostaria que tivssemos mais tempo juntas. Gostaria de poder ser sua me de verdade. Gostaria que a vida fosse justa. Voc no sabe como essa deciso  difcil para mim. - Holly mordeu os lbios para abafar os soluos que estavam dolorosamente presos em sua garganta. - Eu queria ser uma boa me, mas no sou. Sinto muito, Libby, sinto tanto. Voc merece uma me melhor do que eu, mas preciso fazer isso. Por mim, pelo seu pai.

Seus braos estavam comeando a doer, mas Holly estava determinada a segurar Libby no colo pelo mximo de tempo que pudesse. Foi apenas quando ouviu um soluo abafado no quarto ao lado que os pensamentos de Holly se desviaram. O som da voz de Tom no quarto ao lado era demais para conseguir ignorar, e seu corao se apertou enquanto ela, relutante, devolvia Libby para o bero. Holly sabia que precisava ver Tom para lembrar a si mesma por que estava disposta a apagar Libby do mundo. Holly acariciou o rosto da filha uma ltima vez.

- Eu sempre, sempre amarei voc - prometeu ela, finalmente deixando as lgrimas correrem por seu rosto. Libby suspirou e ressonou em uma ignorncia abenoada.

O quarto de Tom estava imerso na mais completa escurido, e os olhos de Holly demoraram algum tempo para se ajustar. Ela pde ouvi-lo antes de v-lo. Tom estava gemendo e chamando por ela, os lenis se agitavam na escurido como folhas mortas no cho de um cemitrio. Em um acesso de raiva, Tom afastou o edredom e sentou-se na cama. Holly s conseguia enxergar sua silhueta quando ele sentou na beira da cama e apoiou a cabea nas mos.

- Holly - sussurrou ele, esticando a mo para acender o abajur.

A luz amarelada revelou um quarto que pareceu estranho a Holly, um quarto que se parecia muito pouco com aquele que ela deixara para trs, ao sair em busca da lua cheia. A nica parte do quarto que parecia ter escapado do caos era a penteadeira dela, que, exceto por uma grossa camada de poeira, parecia idntica  que ela conhecia.

No foi o quarto que chamou a ateno de Holly, mas Tom. Ele pegara um bloco de anotaes na mesa de cabeceira e agora escrevia furiosamente. Holly aproximou-se at sentar-se ao lado dele e todo o seu corpo estremeceu ao perceber que o marido estava lhe escrevendo uma carta.

Minha linda Holly,

No posso mais suportar isso. Sinto saudades demais de voc, mas preciso saber por que isso est acontecendo. Preciso saber por que voc no ficou comigo. Por que no aguentou um pouco mais? Voc nem sequer pegou Libby nos braos. Se a houvesse segurado, uma vez que fosse, voc no teria partido. No teria desistido de ns.

Tom fez uma pausa, a caneta pressionando as pginas do bloco. A caneta parecia tremer sob a presso de uma fria reprimida. Holly estava chocada. Ela jamais o vira daquele jeito, consumido por tamanha raiva, ainda mais dirigida a ela. Holly observou, com medo, enquanto Tom voltava a escrever.

 minha culpa, fui eu que quis filhos, no voc. Voc no queria ser me, e eu a pressionei. No acreditei quando voc disse que no conseguiria. Eu a forcei e a matei. Eu matei voc.

O corpo inteiro de Tom tremia agora. Os soluos que escapavam de seu peito pareciam prestes a parti-lo ao meio. Holly se levantou para ir embora. Sabia que no poderia toc-lo, que no poderia dizer a ele que ficaria tudo bem, mas tambm no aguentava mais ficar ali, testemunhando a fria e a frustrao que o estavam consumindo. Uma fria que nesse momento era dirigida contra ele mesmo. Era demais para aguentar, mas, mesmo quando fez meno de se virar, Holly continuou com os olhos grudados no bloco, que agora revelava a enormidade do desespero de Tom.

Achei que tinha tudo planejado. Achei que poderia ser o perfeito pai de famlia, aceitei um emprego que odeio s para podermos ficar todos juntos, e veja o que aconteceu. Perdi tudo. Sento diante da cmera, e o terno parece uma camisa de fora - e deveria ser mesmo, porque no sei mais quem sou. Coloco essa maldita mscara no trabalho e ento chego em casa e coloco outra mscara.

Por que no posso voltar no tempo agora e mudar tudo? Sinto tanta saudade de voc, Holly! E essa maldita saudade me di tanto que acho que no consigo viver com essa dor.

Quando Tom parou de escrever, parecia completamente perdido. Holly no poderia ir embora. Tom precisava dela e, no importava se ele sentiria sua presena ou no, ela tinha que tentar. Holly virou-se, estava determinada a se ajoelhar diante dele e tom-lo nos braos. Ela precisava dizer a ele que tudo ficaria bem, quer ele ouvisse, quer no, quer ele pudesse senti-la, quer no.

Quando Holly estava prestes a dar um passo na direo dele, ouviu Libby chorar, exigindo ateno. Holly estava tomando o caminho para o quarto do beb quando, logo atrs de si, ouviu Tom chamar o nome de Libby e dizer  filha que j estava indo. Ele se levantou e, enquanto Holly permanecia congelada no mesmo lugar, Tom passou diretamente atravs dela.

Holly ofegou, surpresa, e Tom fez o mesmo.

- Holly? - perguntou ele, tambm paralisado, como se estivesse em choque. Mas ento o choro de Libby, agora mais intenso, tirou-o do transe, e ele saiu cambaleando do quarto.

O corpo de Holly tremia incontrolavelmente. No instante em que Tom passara atravs de seu corpo, ela sentira a dor crua que o devastava, sua raiva e seu desespero. Holly sentiu medo por Tom e tambm por Libby. No sabia como Tom conseguiria sobreviver a tanto sofrimento. Ela respirou fundo vrias vezes e fez o melhor que pde para acalmar seus tremores. Alm do som de seu prprio corao disparado ecoando em seus ouvidos, alm do choro do beb, que comeava lentamente a ceder, Holly ouviu outro som. O tiquetaquear do relgio fazendo a contagem regressiva dos ltimos instantes de sua viso.

Holly andou rpido, seguiu Tom e chegou ao quarto de Libby a tempo de v-lo parado, de costas para ela, olhando pela janela e aconchegando a filha no colo. Holly constatou que, emocionalmente, ele podia estar um caco, mas ainda assim era um timo pai.

- Papai est aqui - dizia a Libby em um sussurro suave e carinhoso. A fria que o consumira fora desaparecendo e agora no restava mais nada. A voz dele parecia desprovida de fora, ou mesmo de vida. - Simplesmente no consigo fazer isso - disse.

Pelo reflexo da janela, Holly viu a expresso assombrada no rosto de Tom. Ele estava com os olhos erguidos para o cu, mas logo seu olhar se concentrou em um ponto bem  sua frente, um ponto no vidro da janela, onde o rosto de Holly, iluminado pelos raios de luar, estava refletido contra a escurido da noite. Os olhares deles se encontraram, e Holly viu o marido arregalar os olhos em choque.

Enquanto a dana dos raios de luar apagava tudo o que a cercava, Holly mais sentiu do que viu Tom se virar em sua direo. Mas ento ela se foi, e Libby estava perdida para sempre.






CAPTULO 11

Levou dias para que Holly se recuperasse da viso. No apenas vira Tom na mais abjeta infelicidade como literalmente sentira seu sofrimento no momento em que ele transpassara o corpo dela. Um corpo que agora doa de pura agonia quando ela relembrava aquele momento. Holly poderia facilmente ter passado a semana seguinte na cama, mas acabaria no descansando, e no ousava se dar muito mais tempo para pensar. Para sua sorte, ainda havia muito trabalho a fazer.

Quando Holly apareceu para trabalhar na casa de ch, Jocelyn ficou chocada ao saber que ela usara o relgio lunar. Ficou ansiosa para que a amiga lhe contasse tudo, mas, como estavam em um lugar pblico, Holly no entrou em descries detalhadas e ateve-se aos fatos bsicos. Ainda no estava totalmente preparada para falar sobre o assunto, havia coisas demais para assimilar. No curto espao de uma hora, Holly tivera a mais maravilhosa das sensaes e a mais terrvel experincia de toda a sua vida. Seu corao saltava no peito cada vez que ela lembrava da sensao de segurar Libby nos braos, mas havia tambm a lembrana de Tom. Felizmente, Jocelyn no a pressionou nesse dia, mas, quando o fim de semana chegou e elas se encontraram para o brunch de domingo, Jocelyn estava mais do que pronta para uma conversa franca e profunda, e foi rpida em fazer a pergunta que Holly sabia que a estava consumindo de curiosidade.

- Voc no mudou de ideia, mudou? - perguntou Jocelyn. Ela estava com o cenho franzido, o que ressaltava o labirinto de rugas em seu rosto, e mexia o ch em sua xcara. Seu olhar estava perdido nas profundezas do ch, como se fosse encontrar a resposta para a sua pergunta ali. As duas estavam sentadas na cozinha de Holly, cercadas pelo aroma tranquilizante dos bolinhos recm-assados que Jocelyn trouxera.

Holly esfregou a nuca, ainda tentando se curar da sonolncia preguiosa daquela manh. Domingo era o nico dia da semana em que ela se permitia dormir at mais tarde, e se levantava apenas perto da hora de se arrumar e preparar o primeiro bule de ch, antes da chegada de Jocelyn. Apesar da noite mais longa de sono, Holly estava to cansada quanto estivera durante toda a semana. Ela vinha dormindo pessimamente desde seu ltimo encontro com o relgio lunar.

- No, eu no mudei de ideia - assegurou Holly.

-  que, quando voc fala de Libby, parece que ainda no est pronta para desistir.

Holly suspirou.

- Acho que, se eu tivesse ficado no quarto de Libby e no tivesse visto Tom, talvez pudesse mesmo ter mudado de ideia. Voc est certa, ainda no me sinto preparada para desistir dela, mas tenho que lembrar do que vi e sei o que preciso fazer. No apenas vi Tom devastado pelo sofrimento como na verdade tambm senti o que ele estava sentindo. No posso faz-lo passar por isso. No tenho escolha, preciso desistir de Libby. Sei disso.

- Voc j marcou a consulta com o mdico? - perguntou Jocelyn.

- Sim, para daqui a duas semanas - falou Holly. - Eu estava quase esperando que me dissesse que j havia feito isso por mim.

Jocelyn deu um sorriso triste.

- Sei como o relgio lunar funciona, s isso. Tenho medo de que no seja fcil para voc evitar conceber Libby.

- Vou tomar a injeo, prometo. E, depois disso, no haver mais Libby. No terei mais chances de v-la crescer. Ah, como eu queria que voc pudesse v-la, Jocelyn... Ela j havia crescido tanto. J conseguia se sentar sozinha e estava balbuciando, acho que iria comear a falar logo. - As palavras saam como um jorro da boca de Holly, a voz cheia de emoo. Ento ela paralisou quando percebeu o que dissera. Jocelyn estendeu a mo sobre a mesa para dar um aperto carinhoso na mo da amiga.

- Depois... - continuou Holly, lutando para encontrar as palavras certas. - Depois que Libby se for, voc acha que ser o ponto-final? Libby  o nico preo que tenho que pagar? Acha que poderei ter outros filhos? - Holly j havia deixado aquela questo de lado por tempo demais, no sabia se conseguiria seguir em frente sem saber a resposta.

Jocelyn ainda segurava a mo dela e apertou-a com mais fora.

- Eu gostaria de poder lhe dar essa resposta, mas no posso. Ao menos no com certeza - disse por fim, com relutncia.

- No com certeza, mas voc tem algum palpite? - pressionou Holly.

Jocelyn ficou em silncio por algum tempo, sem saber como ou se deveria continuar.

- Se minha teoria sobre o equilbrio universal estiver certa, ento, odeio dizer, voc s estava destinada a ter um filho.

- Portanto, jamais serei me. Tom jamais ser pai, ao menos no se continuar comigo - disse Holly, sem rodeios. - Estou cheia da tal perfeita ordem do mundo.  demais pedir que haja um futuro em que ns trs possamos ficar juntos? Eu, Tom e Libby, uma famlia de verdade?

- Eu disse que  preciso haver equilbrio, e no que  justo. Porque no . De jeito nenhum. Mas, por favor, no assuma o que eu disse como verdade absoluta.  apenas a minha teoria. Quando chegar a hora certa voc vai precisar usar novamente o relgio lunar, ao menos mais uma vez. Para descobrir a resposta por si mesma.

Holly balanou a cabea.

- No quero nem pensar a respeito disso. Detesto a ideia de viver a minha vida baseada no que o relgio lunar me mostra. Fico completamente apavorada quando penso no que o futuro reservar para mim depois que eu tiver desistido de Libby s para salvar essa minha porcaria de vida.

Holly j estava com a mo dormente, porque Jocelyn continuava a segur-la com fora.

- Por favor, no corra nenhum risco - disse Jocelyn com firmeza.

Holly sentiu as lgrimas escorrendo por seu rosto antes que conseguisse det-las, cada lgrima seguindo invariavelmente o caminho da primeira, no importava quanto ela secasse o rosto molhado.

A VIDA SEGUIU EM SEU RITMO NORMAL ou ao menos to normal quanto poderia ser a vida de Holly naqueles dias. Ela continuou a ajudar na casa de ch, mas passava a maior parte do tempo no ateli, trabalhando na escultura da Sra. Bronson. Holly agora tinha sua prpria experincia de ser me para se basear, e era sua linda e preciosa Libby que inspirava seu trabalho. Embora no fosse possvel que ela desse vida  filha, poderia ao menos imortaliz-la na escultura.

Holly comeou a usar o mesmo casaco que vestia quando segurara Libby no colo, s para poder sentir aquela ligao com a filha enquanto trabalhava. Ela se convenceu de que ainda conseguia sentir um leve cheiro de beb no lugar onde Libby descansara a cabea sobre seu ombro e adormecera.

Holly passara muitas noites insone at ter certeza de que manteria a promessa que fizera para Jocelyn e para si mesma. Precisara continuamente relembrar que no estava sacrificando a vida da filha apenas por si, mas tambm por Tom. Ainda assim, o lao que fora criado entre a filha e ela a assombrava e parecia ficar mais forte conforme a criana na escultura tomava forma. E, se o lao ficava mais forte, a culpa que ela sentia ficava maior. Em seus piores momentos, no meio da noite, quando se sentia sozinha e isolada, Holly no economizava na autorrecriminao e se acusava de destruir a vida da filha em proveito prprio. Ela se perguntava como conseguira segurar aquele beb precioso nos braos sabendo que no era muito melhor que uma assassina. A nica fuga para esses pensamentos destrutivos surgia quando os raios de sol entravam pela janela do quarto para exilar as sombras da noite. Holly ento se lembrava dos olhos assustados de Tom encarando o reflexo dela na janela e sua deciso se fortalecia. Faria o que precisava fazer, mas Libby sempre seria uma parte dela, no importava o que acontecesse.

- EST COM SAUDADE DE MIM? - perguntou Tom. - Porque eu estou com saudade de voc.

- Sim, estou com saudade de voc,  claro que estou, embora ache que talvez Billy esteja sentindo mais do que eu - implicou Holly.

- Ele j comeou a trabalhar no jardim? - perguntou Tom.

- No,  claro que no. Pode estar quente e ensolarado a onde voc est, mas aqui est um frio terrvel e o solo est congelado. Billy diz que no poder comear a trabalhar at a primavera. Mas a essa altura voc j estar em casa e poder ajud-lo.

- Hmm... Falando em estar em casa... - falou Tom, e Holly no gostou do que percebeu em sua voz. Ela sabia que ele estava prestes a dar ms notcias.

- Voc no vai estar em casa na primavera? - perguntou ela, indignada.

Tom riu.

- No, meu Deus, no  assim to mal.  s que o trabalho aqui pode demorar um pouco mais do que espervamos.

- Quanto tempo mais? - quis saber Holly. Estava previsto que Tom voltasse para casa no incio de dezembro e ela j comeara a contar os dias.

- Apenas mais duas semanas, mas estarei em casa antes do Natal. E acho que voc ter que se contentar com um presente do free shop - confessou Tom.

Holly queria ficar zangada com ele, mas ento se lembrou do que seu marido enlutado dissera sobre detestar o trabalho de ncora que Tom deveria assumir no ano seguinte. Ela no iria pression-lo para desistir to rapidamente do trabalho de que ele gostava tanto.

-  bom que venha em um vidro bem grande, ento - disse Holly, por fim. - E estou falando de perfume, no de bebida.

- Voc  fantstica, sabia disso?

Holly franziu o cenho; sabia que no merecia o elogio.

- E por qu o atraso? O que est acontecendo? - perguntou ela.

- Alguns caras da equipe so freelancers e foram remanejados para cobrir um acontecimento de ltima hora. Houve um desastre em uma mina no sul, e eles vo cobrir a operao de resgate. Isso significa mais trabalho para os pobres idiotas que foram deixados aqui, e por isso vai levar um pouco mais de tempo do que planejamos.

- Voc no sentiu vontade de poder ir com eles? - perguntou Holly. Ela estava com a inteno de ter uma longa conversa com Tom a respeito da carreira dele quando o marido estivesse em casa, mas no faria mal nenhum j plantar algumas ideias. O relgio lunar podia at ter suas prprias regras, mas, j que Holly no poderia ter Libby, ento nada a impediria de ajudar Tom a tomar algumas decises importantes sobre sua carreira.

- Estou preso ao meu contrato, mesmo estando terceirizado. No posso me indispor com a emissora agora, no ? - disse Tom, submisso. Estava claro que ele no tinha ideia de onde a esposa estava tentando lev-lo.

- No posso acreditar que eles vejam o que voc vem fazendo nos ltimos seis meses e continuem a achar uma boa ideia prend-lo dentro de um estdio pelo resto de sua vida.

Tom deixou escapar uma risada nervosa.

- Do jeito que voc diz, parece que vou ser mandado para a priso.

- No  assim que voc v o trabalho de ncora? Sei que acha que est cumprindo seu dever e que  a coisa certa a fazer por ns, mas vejo o quanto ama o que est fazendo agora, mesmo tendo que lidar com situaes difceis e tristes. E sei que voc mesmo no dir isso, por isso eu direi. Voc no foi feito para ser ncora, e sei que vai detestar o trabalho.

- Uau, Holly, de onde veio tudo isso? - interrompeu-a Tom. Ele parecia chocado, mas Holly percebeu que o marido no estava discordando.

- Sei que abandonamos a ideia de voc trabalhar como freelancer. Voc se sentiu impelido a aceitar o trabalho como ncora, mas as coisas mudam. Graas a Sam, da galeria de arte, estou me esforando para produzir o suficiente para dar conta da demanda... A est a nossa segurana. Sei que voc ficar longe de casa  duro para ns dois, mas e se voc passasse seis meses em campo, fazendo as matrias, e outros seis meses escrevendo e pesquisando? No lhe parece melhor do que se enfiar em um terno e maquiar um sorriso no rosto para ficar na frente de uma cmera todo dia?

Quando Holly finalmente fez uma pausa para respirar, Tom ficou em silncio do outro lado da linha.

- Desculpe - acrescentou ela. - Estava apenas pensando a respeito, e no iria lhe dizer nada at que voltasse para casa, mas, como pode ver, no consigo manter a boca fechada.

- Ou parar de fazer planos - disse Tom, em voz baixa.

- Estou sendo intrometida? - gemeu ela. - Desculpe-me...

- No, no se desculpe, jamais se desculpe. Amo voc porque me conhece por dentro e por fora.

- De uma forma que voc no acreditaria - sussurrou Holly.

- Sei que est certa. O novo trabalho faz com que eu me sinta como se estivesse tentando encaixar um pino quadrado em um buraco redondo, mas e quanto aos nossos outros planos? E quanto a formarmos uma famlia?

Holly sabia que essa pergunta acabaria surgindo.

- Quero que voc seja feliz, Tom - falou ela. - Se estivermos destinados a ter filhos, ento teremos filhos.

Holly estava bastante orgulhosa da resposta que dera. E no dissera mentira alguma.

- NO  NADA DE MAIS - argumentou Holly.

- Nada de mais? Nada de mais? - sussurrou Jocelyn, alto o bastante para que os clientes habituais da casa de ch erguessem a cabea de suas tigelas de sopa com um olhar curioso para as duas.

- A enfermeira disse que esto esperando uma nova entrega. Ela vai me ligar na prxima semana, assim que chegar. - Holly estava tentando parecer despreocupada, mas a verdade  que ficara um pouco assustada quando a enfermeira lhe dissera que no poderia tomar a injeo contraceptiva na data marcada. Os medos de Jocelyn eram fundamentados. O caminho de Holly ainda apontava para uma morte prematura, a batalha com o relgio lunar ainda no estava terminada.

- No acredito que no esteja levando isso mais a srio. No h outro mdico a que possa ir? - quis saber Jocelyn.

- Se for necessrio, posso ir  mesma clnica aonde costumava ir em Londres. At farei uma consulta particular se for o caso. E, no pior cenrio, simplesmente no farei sexo com Tom - disse Holly com tranquilidade.

Algum pigarreou. Holly e Jocelyn se viraram para encarar um senhor que estava tomando sopa de forma barulhenta. Holly ficou ruborizada. O senhor tambm.

- Desculpe incomodar - disse ele. - Poderia me servir mais um pozinho?

- Aqui est - disse Jocelyn rispidamente, colocando um pozinho sobre o balco. Ela no estava a fim de ser perturbada pelos clientes.

O velho voltou satisfeito a sua mesa, e Jocelyn voltou sua ateno novamente para Holly.

- Eu lhe disse que no seria fcil. Holly, voc precisa ser muito cuidadosa.

- Eu sei. Sinceramente, Jocelyn. Eu sei. Entendo que uma coisa  viver com a culpa de escolher no ter Libby, mas, se acabasse concebendo-a, no sei o que faria. No conseguiria fazer um aborto, no depois de t-la segurado em meus braos. E aonde isso me levaria? Sei o quanto  importante tomar essa injeo - assegurou Holly.

Jocelyn concordou.

- H outro problema que essa confuso com a minha injeo causou - admitiu Holly, mordendo o lbio, nervosa.

Jocelyn olhou para ela e sua expresso ficou confusa at que a ficha casse.

-  lua cheia, e voc ainda poderia ver Libby.

Holly assentiu e mordeu o lbio com mais fora. A dor fez seus olhos se encherem de lgrimas.

- No sei o que farei - disse ela, j respondendo  pergunta que sabia que estava na ponta da lngua de Jocelyn. - Acho que preciso que voc me convena a no visitar Libby de novo. Se eu a vir mais uma vez, juro que talvez no consiga seguir adiante com essa histria.

- Ento voc tem duas escolhas. Ou me d a esfera de vidro, ou me deixa ficar com voc. Ou faz ambas as coisas.

Holly subitamente percebeu que no conseguiria entregar a ningum a caixa com o mecanismo do relgio. A sensao de posse que a dominou foi to grande que a surpreendeu.

- Tecnicamente foram trs opes - argumentou Holly.

Jocelyn apenas ergueu uma sobrancelha em resposta, mas no disse nada.

- No tenho cama de hspedes.

- Podemos dormir as duas na sua cama - falou Jocelyn, mostrando que sua determinao no seria facilmente vencida.

Atrs delas, o senhor voltou a pigarrear. Holly ficou ruborizada novamente.

- O que quer desta vez? - perguntou Jocelyn, irritada.

- S quero pagar a conta - retrucou ele docilmente, entregando o dinheiro certo a ela.

Jocelyn abaixou os olhos para as moedas.

- O qu, sem gorjeta?

Ela no estava com humor para discusses. Portanto, conseguiu a gorjeta que queria e tambm o convite para passar a noite de lua cheia na casa de Holly.

ERA FIM DE NOVEMBRO, e a noite de lua cheia estava muito fria, o cu, muito limpo. No havia uma nica nuvem para aplacar a fora do olhar da lua, que Holly sentia estar encarando-a mesmo depois de ter fechado todas as cortinas e persianas da casa, e mesmo depois de ter acendido as luzes de todos os cmodos para ofuscar os raios de luar. Ainda assim, Holly sentia a lua procurando-a, sua luz entrando em cada fresta da fortaleza que ela mesma construra.

Jocelyn viera preparada para a viglia do relgio lunar com sacolas cheias com o que seria esperado levar para uma noite de reunio com amigas. Elas passaram uma noite agradvel comendo pipoca e chocolates e assistindo a um DVD. Jocelyn escolhera uma comdia em vez de um drama lacrimoso. O riso era o melhor remdio, disse ela a Holly.

J passava da meia-noite quando as duas resolveram encerrar a noite e ir para a cama. Era estranho ter Jocelyn ali para passar a noite, e Holly sentiu-se um pouco constrangida quando se deitou ao lado da amiga. Vivera sozinha a maior parte da vida e, com as viagens de Tom, se adaptara a dormir sozinha de novo. No conseguiu evitar a sensao de que Jocelyn era sua carcereira, mesmo tendo sido ela, Holly, quem pedira para ser mantida em priso domiciliar.

- Voc se incomoda se eu deixar a luz acesa? - perguntou Holly. Ela estava olhando na direo da janela e imaginando os tentculos da lua passando atravs do vidro, das dobras da cortina, at alcan-la.

-  claro que no. Voc acha que est pronta para dormir? - perguntou Jocelyn.

Holly deu de ombros.

- Vou tentar, mas j posso sentir o relgio lunar me chamando - confessou Holly. - Minhas pernas esto trmulas, por isso j peo desculpas se eu lhe chutar durante a noite.

- Eu j lhe disse que tenho a couraa de um rinoceronte. Duvido que eu v sequer sentir o toque de suas pernas magrelas - falou Jocelyn. Ela se inclinou e ajeitou o edredom ao redor dos ombros de Holly. - Antes que perceba, j ser de manh.

- Espero que esteja certa. Quero tanto que essa histria termine, mas tenho medo de que isso nunca v acontecer - suspirou Holly. As duas mulheres estavam deitadas lado a lado, ambas olhando para o teto. - Como vou viver com a culpa que guardarei?

- Simplesmente viver - retrucou Jocelyn. Ela se virou para Holly. - Mas no compare o que est fazendo com o que eu fiz. Sim, sinto-me culpada, mas porque mereo me sentir. Posso no ter encostado um revlver na cabea de Harry e puxado o gatilho, mas fiz o equivalente a carregar a arma de balas. Eu fiz com que ele sofresse at chegar a um ponto em que no conseguiu mais aguentar.

- Mas voc estava apenas dando a ele o troco. Se fosse o contrrio, Harry se sentiria culpado?

- Ele era quem era, mas ele nunca tramou contra minha vida. Eu, por outro lado, sabia o que estava fazendo e aonde aquilo iria levar. Mas  diferente para voc. No pode se torturar acreditando que est tirando a vida de Libby. Est tirando uma vida em potencial, sim, mas no uma vida ainda. No  a mesma coisa - insistiu Jocelyn.

- A sensao  a mesma. Depois de ter visto Libby, de t-la segurado no colo. A sensao  a mesma.

As duas mulheres ficaram em silncio por algum tempo, e Holly achou que talvez Jocelyn estivesse adormecendo, mas a amiga parecia determinada a manter a mente de Holly ocupada.

- Paul me convidou para passar o Natal com ele - comentou Jocelyn com alegria. - Vou viajar alguns dias antes do Natal e ficar com ele por uma semana. Ainda  cedo para dizer, mas acho que superamos uma fase.

- Voc vai ficar na casa dele?  um grande passo.

- Vou ficar em um hotel prximo. Como eu disse, ainda  cedo.

Holly sentiu a raiva crescer em seu peito, mas mordeu a lngua. Sabia muito pouco sobre Paul e, de certo modo, ele tambm fora uma vtima do relgio lunar. Mas ento ela olhou para Jocelyn. Se ao menos Paul tivesse ideia do que estava perdendo todos esses anos em que manteve a me fora de sua vida...

- Conte-me mais sobre essa tal Senhora Bronson. - Jocelyn voltou a falar quando o silncio entre as duas parecia gritar para ser preenchido. - Voc j est pronta para entregar sua escultura a ela?

- A pea est praticamente terminada. No tenho um forno tnel aqui, por isso tive que mandar a parte de cima para ser queimada em outro lugar. Estar de volta em uns dois dias, e ento s terei que juntar as duas partes, dar os retoques finais e estar pronta.

- Mal posso esperar para ver. Sei que vai ficar linda.

- Estou bem satisfeita com ela, se me permite dizer. H uma parte de mim naquela escultura que nunca imaginei que pudesse existir.

- E voc acha que a Senhora Bronson vai gostar mesmo no sendo o que ela esperava?

Holly deu de ombros sob as cobertas.

- No me importo nem um pouco. Gosto da escultura e estou orgulhosa dela.

- Voc no quer entreg-la, no ?

Holly sorriu, melanclica. Como Jocelyn conseguia conhec-la to bem?

- No, no quero. Especialmente para a Senhora Bronson. Agora, se fosse para algum como voc, eu entregaria.

Jocelyn riu para esconder seu embarao.

- No meu apartamento no caberia nem a verso em menor escala, quanto mais a pea final.

- Voc sabe o que quis dizer - falou Holly com carinho.

O rosto de Jocelyn ficou vermelho.

- Sim, eu sei. Agora vamos dormir um pouco, est ficando tarde.

- Sim, Jocelyn - respondeu Holly, como uma criana obediente.

HOLLY CONSEGUIU ADORMECER, mas o relgio lunar no estava disposto a deixar sua mente em paz com tanta facilidade. Enquanto dormia, teve os sonhos mais ntidos de sua vida. Sonhou que estava correndo por um campo e que as cores ao seu redor eram incrveis. O azul lmpido do cu e o verde vvido da relva sob seus ps eram to intensos que faziam seus olhos arderem. Holly se sentia alegre e leve enquanto corria porque ia na direo de uma garotinha com lindos olhos verdes e cachos louros macios emoldurando seu rosto. Era Libby, mas uma Libby um pouco mais velha, com cerca de quatro ou cinco anos. Holly a pegou nos braos e girou com ela pelo campo. Podia ouvir as risadas de prazer da filha enquanto o sol cintilava no cu. Mas ento o sol foi ficando mais plido e mais frio, e o cu azul deu lugar  escurido. Em segundos assustadores, o sol se transformou na lua, que encarou Holly do alto enquanto o peso doce de Libby desaparecia no ter. Holly perdeu o equilbrio e seus braos seguravam o vazio. Ela caiu no cho com um baque. Ento acordou ofegante, enquanto o choque da queda ecoava por de seu corpo.

Passava um pouco das seis horas, e, quando Holly se esgueirou para fora da cama, tomando cuidado para no acordar Jocelyn, que roncava baixinho, ela sabia que o nascer do sol ainda demoraria cerca de uma hora. A necessidade de ver Libby a consumia, e ela no conseguia pensar em mais nada enquanto descia furtivamente as escadas, de pijama. Holly pegou a caixa de madeira e cambaleou atravs da escurido, em direo ao relgio lunar, ignorando a relva alta que arranhava e cortava seus ps nus.

A esfera chacoalhava dentro da caixa, Holly a pegou com as mos trmulas de pnico para coloc-la nas garras de metal. Mal conseguia ver a esfera quando ela se acomodou, mas esperou pacientemente que a primeira fagulha de vida despertasse em seu interior. Enquanto esperava, Holly sentia a respirao spera por causa do frio, e era como se estivesse se afogando na escurido ao seu redor.

Quando a noite negra se fechou em torno dela, Holly olhou em desespero para o cu e s ento percebeu por que estava to escuro. A lua cheia no esperara por ela e se fora, levando Libby consigo.

Todos os msculos do corpo de Holly tremiam em agonia e ela se jogou sobre o relgio lunar, socando a superfcie fria. Enquanto chorava e soluava, mal teve conscincia da luz acesa na janela da cozinha, ou da manta que foi passada ao redor de seus ombros, assim como um par de braos firmes.

- Est tudo bem - acalmou-a Jocelyn. - Venha para casa. Vai ficar tudo bem.

- Ele venceu - disse Holly aos prantos. - O relgio lunar venceu.

- Antes isso fosse verdade, mas ainda no est terminado, Holly. Voc ainda tem que encarar a batalha mais difcil - comentou Jocelyn. - Agora vamos.

Enquanto deixava Jocelyn lev-la para dentro de casa, Holly pensava no que a amiga havia dito. Pela primeira vez, Holly percebeu que a batalha que estava enfrentando no era de forma nenhuma contra o relgio, mas contra si mesma. Ainda havia escolhas a serem feitas.

DUAS SEMANAS ANTES DO NATAL, Holly convidou a Sra. Bronson para ir at a casa da guarda para receber oficialmente a pea, antes que comeasse a organizar o processo delicado de organizar a instalao da escultura na manso da cliente. Holly imaginara que seria um encontro difcil, por isso tambm pediu a Sam Peterson para estar presente. Tinha a sensao de que precisaria de algum para ajud-la a defender seu terreno.

Holly tivera razo em se preocupar com a visita, principalmente porque ela mesma no estava no melhor dos humores para lidar com aquele arremedo mimado de me. Alm do mais, tinha outras coisas em mente. Seu sonho com Libby vinha atormentando-a desde a noite de lua cheia, e ela estava profundamente arrependida por ter deixado escapar a ltima chance de ver a filha.

A determinao de Holly de salvar a prpria vida ficara seriamente abalada desde ento, e a ideia de dar esse ltimo passo para apagar Libby do futuro definitivamente a deixava nauseada. A tal ponto que ela no marcara outra consulta para tomar a injeo contraceptiva. Precisava acreditar que Libby ainda estava ali, no futuro, em algum lugar, ao menos por enquanto. Sabia que estava assumindo um risco enorme, mas no conseguia se conter. Queria manter aquela conexo aberta, principalmente agora que estava abrindo mo de sua nica ligao fsica com a filha: a escultura que fizera  sua imagem. O tempo estava correndo e, no final do ms, Libby teria partido da vida de Holly, assim como a escultura. Seu nico conforto era saber que Tom estava voltando para casa e,  claro, a esperana secreta de que a Sra. Bronson se recusasse a aceitar a escultura.

- ELA DISSE O QU? - perguntou Tom, abismado. Holly no podia ver o rosto do marido, mas sabia que ele estava boquiaberto do outro lado do telefone.

- A Senhora Bronson disse que vai me processar para ter de volta cada centavo que me pagou - respondeu Holly, irritada. Ela estava sentada  mesa da cozinha diante de um copo de vinho que j havia enchido uma segunda vez. Era fim de tarde, mas o sol fraco de dezembro j fora derrotado pela noite de inverno, que chegava apressada.

- Ela pode fazer isso? O que diz o contrato?

- Ah, ela pode me processar, sim - confirmou Holly. - Sam a acompanhou at a estao de trem e tenho esperana de que ele v usar seu poder de negociao para me tirar dessa enrascada.

- O que ela pode fazer exatamente?

- Bem, no pior dos cenrios, terei que devolver todo o dinheiro que ela me pagou at agora e mais alguma coisa a ttulo de compensao. No sei quanto.

- Se esse  o pior cenrio, quais so as outras opes? - perguntou Tom, esperanoso.

- Acho que ela pode exigir que eu refaa a escultura como supostamente deveria ter feito - resmungou Holly, como uma criana reclamando do trabalho escolar. Essa era uma opo que Holly no queria de modo nenhum levar em considerao. Recusava-se terminantemente a criar alguma coisa em que no acreditava. E com certeza no iria desmantelar o trabalho que j fizera, no quando inclua a imagem de Libby.

Tom riu.

- No consigo acreditar que ela no tenha se apaixonado pela escultura.  verdade que no era o que ela estava esperando. Voc mudou o conceito, s que para melhor. O que h na pea para algum no gostar?

Holly havia mandado para Tom uma fotografia da escultura finalizada, e, embora soubesse que a opinio do marido era suspeita, realmente no havia nenhuma razo para que qualquer pessoa normal no adorasse a pea.

- Acho que a Senhora Bronson no gostou de o foco estar na criana e no na me. Alm do mais, ela disse que a me parecia ter um corpo de homem.

Tom riu com mais vontade, apesar das ms notcias.

- Ento ela no ficou impressionada com os meus msculos?

- Seus msculos? - disse Holly. - Voc nem suspeitou que aqueles msculos pertencem a Billy? - Holly estava tentando ver o lado engraado da situao, mas esse seria um golpe duro nas finanas deles. - O que vou fazer, Tom?

- Prometo que trabalharei dia e noite para pagar a essa mulher horrorosa. No quero que comprometa sua arte, no por pessoas como a Senhora Bronson.

- Sam vai ter que fazer milagre para me tirar dessa. Mas, afinal, no h nada que se possa fazer.

- Bem, de certa forma isso torna mais fcil contar as minhas novidades - falou Tom.

- O que quer dizer? - Foi como se um alarme soasse na cabea de Holly, embora ela estivesse achando difcil se concentrar com a nebulosidade que havia sido despejada da garrafa de vinho direto para sua mente.

- Voc se lembra que me disse para pensar no rumo da minha carreira e considerar outras opes? Pois bem, ainda no estou pronto para desistir de um emprego seguro, no com toda a insegurana e a competio que existe por a, mas...

- Mas? - perguntou Holly. Era bvio que as dvidas que plantara na cabea dele sobre a carreira no apenas haviam criado razes como tambm brotado e ganhado vida prpria.

- Estive fazendo um pouco de presso na emissora. Est previsto que eu comece no novo cargo apenas em meados de janeiro, e essas matrias especiais tm ido realmente bem. Seria loucura desistir agora.

- Quando e onde? - perguntou Holly, sabendo que ele estava falando de mais uma viagem a trabalho.

Ela ouviu em silncio enquanto Tom explicava que a nova misso era um documentrio sobre as consequncias dos deslizamentos de terra que haviam devastado a China. O governo chins havia oferecido  emissora uma rara oportunidade para que entrasse no pas. O problema era que essa oportunidade iria solapar seus planos de folga por trs semanas ao redor do Natal. Tom iria direto de um lugar para o outro, parando apenas alguns dias em Cingapura.

- Ento o Natal est cancelado - disse Holly, emburrada.

- No, no exatamente. Voc poderia voar para Cingapura, e ainda poderamos passar o Natal juntos, mas eu teria que partir para a China logo no dia seguinte. Sei que  chato. Mas  realmente uma oportunidade incrvel, e vou ganhar bastante dinheiro, o que vai ajudar com o seu probleminha.

- Suponho que sim - disse Holly, sem saber muito bem como essa mudana de planos afetaria no apenas o Natal, mas o resto da vida deles e o acordo pendente que ela tinha com o relgio lunar.

- Pode at ser divertido passar o Natal fora. Posso conseguir um voo para voc na primeira hora do dia 21 de dezembro - falou Tom.

Holly pousou o copo de vinho na mesa e desejou estar com as ideias mais claras. O dia 21 j era uma data simblica na mente dela porque seria a prxima lua cheia. A lua cheia abrira a porta para um mundo que mantinha a filha dela cativa, e Holly tinha a sensao de que na prxima vez em que a lua sasse das sombras aquela porta estaria firmemente fechada e Libby estaria perdida para sempre.

A data, ao que parecia, agora tambm seria simblica por outros motivos. Holly tinha pensado que a consulta mdica para tomar a injeo contraceptiva seria o ponto de virada para o seu futuro. Tom mudava tudo isso, sem querer, ao lhe dar uma escolha: juntar-se a ele em Cingapura e correr o risco de ficar grvida ou ficar em casa e assegurar seu futuro sacrificando a prpria filha.

- Holly? - perguntou Tom, quando o silncio entre eles se estendeu.

- Desculpe, eu estava apenas pensando - explicou ela. - Talvez seja complicado eu me afastar daqui.

- O qu? Por que seria? - balbuciou Tom, com uma mistura de surpresa e desapontamento.

- Tambm tenho compromissos. Jocelyn vai viajar, e eu vou ficar trabalhando na casa de ch. - Holly se odiou assim que as palavras saram de sua boca. No queria tomar essa deciso. No estava pronta.

- Voc est certa.  uma ideia estpida e egosta - Tom comeou a dizer.

- No diga isso. No  uma ideia estpida. Adoro que voc tenha outra chance de fazer o trabalho que ama, e voc no est sendo egosta, eu  que estou.

- Mas  uma viagem longa demais e nos s ficaremos juntos por poucos dias.

- No, no  uma viagem longa demais. Tom, eu viajaria at o outro lado do mundo para ver voc, viajaria at atravs do tempo.

- Ento voc vem?

Antes que Holly tivesse a chance de responder, ouviu uma batida na porta.

- Deve ser Sam,  melhor eu ir atender - disse Holly.

- Diga-me que voc vem - implorou Tom.

- Eu irei - respondeu Holly, nervosa.

Os avisos de Jocelyn tinham razo de ser. Holly percebeu que o caminho que asseguraria seu futuro estava se tornando irremediavelmente entrelaado com o de Libby.

SAM PARECIA EXAUSTO e ansioso por um drinque quando se sentou  mesa da cozinha.

- Voc conseguiria um desses para mim? - perguntou ele, apontando para o copo meio vazio de Holly.

Holly colocou um copo diante dele e o encheu com vinho antes de perguntar como haviam sido as coisas com a Sra. Bronson.

- Bem, ela no est exatamente feliz - disse ele.

Holly se encolheu, como se pedisse desculpas.

- Ela est muito zangada?

Sam ergueu uma sobrancelha.

- No vou nem repetir as coisas que ela disse a seu respeito.

- E? - perguntou Holly, impaciente. Ela no se importava com a Sra. Bronson, nem mesmo com o dinheiro que sem dvida perderia no negcio. O que realmente lhe importava era a escultura, e estava louca para saber o que iria acontecer com a pea.

- Acho que consegui persuadi-la a ficar com a obra - disse Sam, embora fosse evidente que ele no estava lhe dizendo tudo.

O corao de Holly afundou no peito.

-  mesmo? - perguntou ela, triste.

Sam quase se engasgou com o gole de vinho que acabava de tomar.

- Holly! s vezes voc  inacreditvel. Sei que no queria aceitar essa encomenda desde o incio, mas parece que voc se esforou para garantir que a Senhora Bronson no ficasse com a escultura. Portanto, fique tranquila, ela no quer a pea grotesca, o lixo que voc criou. Palavras dela, no minhas. Na verdade, ela no usou lixo, estou sendo educado.

- Bem, no vou fazer outra escultura para ela - insistiu Holly. Girava o prprio copo na mo, mas no estava bebendo. Tinha muitas coisas em que pensar, embora a Sra. Bronson mal aparecesse na lista.

- No se preocupe, eu no faria isso com voc. Ela aceitar a verso em escala menor, se voc refin-la um pouco e deix-la pronta antes do Natal.

- Bom trabalho, Sam! - Holly sorriu.

- No comece a comemorar ainda. Voc no entregou a pea que ela encomendou, por isso ter que devolver o adiantamento, e a Senhora Bronson no pagar pelo que voc vai lhe entregar. Resumindo, ela ter seu trabalho de graa. Voc poder ficar com a escultura em tamanho natural, mas precisar assinar um documento comprometendo-se a no vend-la. Pode ficar com ela ou do-la. Acho que os pagos que vivem por aqui vo gostar da escultura... Eles podem fazer aquelas danas da fertilidade ao redor dela.

- A vida no campo realmente o assusta, no? - observou Holly.

- De jeito nenhum - mentiu Sam. - Na verdade, o motorista de txi local acabou de me dizer que h uma nevasca a caminho, e que se eu acabar preso aqui ele ficar feliz em enfrentar a neve e me mostrar os arredores. Aposto que ele sabe chamar cada ovelha pelo nome.

- Voc  um homem mau, Sam Peterson - repreendeu-o Holly, mas no pde deixar de rir.

- Sim, sou um homem mau - confirmou Sam e, dessa vez, parecia um pouco culpado. Ele pegou a pasta e tirou uma linda embalagem de presente. - Um acordo de paz - explicou.

Holly o encarou sem entender.

- O que voc acha que fez para precisar me recompensar? Sou eu que causei todo esse problema. - Enquanto falava, ela abria cuidadosamente o presente.  primeira vista, parecia uma pea de tecido muito macia, de cor creme, mas, quando a desdobrou, o corao de Holly saltou no peito. Era uma boneca de pano. Exatamente a mesma boneca que Libby estava segurando em sua ltima viso. Holly a encostou no rosto do mesmo modo que vira a filha fazer.

Sam pigarreou, nervoso, embaraado com a reao de Holly.

- Ao que parece, a me costuma carregar esse tipo de boneca junto ao corpo por um tempo, para transferir seu cheiro para o tecido, ento o beb se sente seguro dormindo com a boneca quando a me no est por perto - explicou Sam. Ele sorriu com carinho para Holly. - Na ltima vez em que esteve na galeria, acho que fui um pouco rude com voc, quando zombei do seu interesse corajoso pela maternidade.  claro que voc ser uma boa me, posso ver isso na escultura. Vai surpreender a todos, principalmente a voc mesma.

Holly tentou sorrir, mas s conseguiu fazer o lbio inferior tremer.

- Vamos ver - disse ela.






CAPTULO 12

- Sei que no quer ouvir isso agora, mas talvez seja uma bno disfarada - disse Jocelyn a Holly.

Holly ficara muito abalada depois do ltimo telefonema de Tom e, embora ainda seguisse normalmente com suas tarefas dirias, havia parado de trabalhar na casa de ch. Ela dissera a Jocelyn que precisava passar mais tempo finalizando a escultura em menor escala para a Sra. Bronson, mas isso era s meia-verdade. Holly sabia que a amiga a faria encarar o futuro de frente e ainda no se sentia preparada para isso. Foi s quando Jocelyn apareceu para o brunch de domingo, menos de uma semana antes da data em que Holly viajaria para encontrar Tom, que ela parou de viver em negao.

Holly sempre soubera que chegaria o dia em que teria que escolher o caminho que excluiria Libby do seu futuro. Ela reconhecia que estava jogando um jogo perigoso no voltando ao mdico para tomar a injeo contraceptiva e assumia que estava sendo teimosa. Mas no permitiria que a apressassem a tomar a deciso que essencialmente poria um fim  vida da filha antes que ela comeasse. Mas agora parecia que os novos planos de viagem de Tom estavam fazendo exatamente isso. Havia duas opes bem claras: ir para Cingapura e se arriscar a ficar grvida ou ficar em casa e garantir que a vida de Libby seria apagada de uma vez por todas. Holly sabia qual opo Jocelyn estava sugerindo que escolhesse. A amiga j havia lhe dito que ela, Holly, e apenas ela, deveria fazer as prprias escolhas, mas estava ficando claro que Jocelyn no descansaria at que Holly escolhesse corretamente.

- Voc est certa - concordou Holly. - No quero ouvir isso agora. - Ela estava sentada diante da mesa da cozinha com o casaco enrolado ao redor do corpo. Quando olhou atravs da janela, a neve caa, e o jardim parecia estar coberto por um manto branco e estril. O relgio lunar estava irreconhecvel, escondido sob uma grossa camada de neve que neutralizara qualquer poder que ele pudesse ter sobre Holly.

- Voc deve pegar o avio para Cingapura na tera-feira - continuou Jocelyn, sem se deixar abalar pela relutncia da amiga de conversar sobre o futuro. - Ainda no foi ao mdico tomar a injeo contraceptiva, portanto ns duas sabemos que, se voc for para Cingapura, pode apostar sua vida que voltar grvida. E, sim, o jogo de palavras foi intencional.

Holly continuou a olhar pela janela, quase como se no tivesse ouvido.

- Trs vezes. Consegui ver Libby trs vezes e s a peguei no colo uma vez. - Os olhos dela estavam marejados. - No acredito que passei a minha vida toda sem sequer pensar na possibilidade de ter filhos e agora daria tudo para segurar Libby nos braos s mais uma vez.

- Mesmo se no puder ter outros filhos, talvez apaream outras oportunidades. - Jocelyn tentou acalm-la. - Tom testemunhou tanta pobreza e infelicidade nas viagens dele. H tantas crianas neste mundo que precisam de ajuda. Talvez vocs possam adotar.

Holly balanou a cabea.

- No acho que isso seja uma opo. Tom no ficaria feliz salvando uma nica criana, ele iria querer salvar uma vila inteira.

Holly j investigara a opinio do marido sobre adoo, e fora isso que ele lhe dissera. Embora esse ponto de vista estivesse influenciado pela firme convico de que teriam seus prprios filhos um dia, Holly estava certa de que Tom no mudaria de opinio.

- Alm do mais - continuou Holly -, no  esse o ponto. No estou nem pensando em outros filhos. S estou pensando em Libby.  ela que vejo cada vez que fecho os olhos.  Libby que meus braos anseiam por abraar.  o cheiro de Libby que tento relembrar. Eu a perdi para sempre, e o que torna tudo ainda pior  que Tom nem sequer chegou a conhec-la. Eu sei o que sacrificamos, mas ele nunca saber, no de verdade. No estou apenas traindo Libby, de certo modo, tambm estou traindo Tom. Como nosso relacionamento sobreviver a isso?

- Vocs se amam, e voc sobreviver a isso - insistiu Jocelyn.

Holly deu um sorriso que partiu o corao de Jocelyn e abalou sua determinao.

- Sim, vou sobreviver a isso.  o meu castigo.

- Voc no vai para Cingapura? Por favor, Holly, diga isso em voz alta. Diga-me que no vai para Cingapura - implorou Jocelyn.

- Eu no vou para Cingapura - repetiu Holly, to triste que um soluo escapou sem que percebesse. - Oh, Jocelyn, eu a perdi para sempre, e acho que no serei capaz de me perdoar por isso. - O peito dela estava apertado com o peso da deciso que tomara, mas no se permitiria chorar, no achava que merecia o alvio que uma boa crise de choro poderia trazer.

Jocelyn sufocou as prprias lgrimas.

- Ento vou passar o Natal aqui na cidade. Voc no vai enfrentar isso sozinha.

- Mas e quanto ao Paul? Ele est esperando por voc - perguntou Holly.

- Ele me convidou para a manh de Natal... at agora foi s. Eu passaria o resto do tempo enfiada em um quarto de hotel, esperando e torcendo para que ele me convidasse a aparecer de novo. No queria contar a ningum porque me sinto envergonhada. Suponho que esse seja o meu castigo.

- Castigo? Paul deveria ter orgulho da me que tem! E, se alguma vez eu o encontrar, juro por Deus que vou lhe dar um soco!

Jocelyn riu, apesar de tudo, mas a tristeza permaneceu em seus olhos.

- Eu no mereo ser me dele, e no apenas pelo que fiz com Harry. Estava pronta para tirar a minha prpria vida e deix-lo  merc de um pai perverso e violento. O relgio lunar me deu a vida, mas no me deu meu filho. No fui totalmente perdoada.

- Voc  uma boa pessoa, Jocelyn, e no quero ouvir nem mais uma palavra sobre precisar ser perdoada. Mas, se Paul no consegue reconhecer isso, ento o que ele perde eu ganho.

- Bem, ficarei aqui, est decidido. Vou telefonar para Paul e cancelar a visita. Acho que ele provavelmente ficar aliviado.

- Acho que eu tambm tenho que dar um telefonema - suspirou Holly. - Mas no vou contar a Tom at o ltimo instante. No conseguiria aguentar dias de discusses e tentativas de me persuadir. O Natal j est bastante arruinado do jeito que est.

- Mas ao menos haver outros Natais - lembrou Jocelyn a ela.

Holly deu um sorriso corajoso para a amiga, mas seu rosto era uma mscara - uma mscara com a qual teria que aprender a viver por muito tempo. Libby plantara sementes de amor maternal no corao de Holly, que ficara impressionada consigo mesma ao perceber a rapidez com que havia nutrido e protegido esse amor. Com a prtica nascida da experincia, Holly fechou-se para todas as esperanas e sonhos de maternidade, e, com o tempo, as sementes plantadas pela filha secariam e morreriam.

HOLLY TRABALHOU NA ESCULTURA da Sra. Bronson com um senso de urgncia. No entanto, a urgncia no tinha nada a ver com o prazo ou com o alvio iminente de se livrar da Sra. Bronson. Era a culpa que sentia por estar falhando com a filha que a deixava ansiosa para terminar o projeto. Quando a escultura foi despachada um dia antes da data em que Holly supostamente viajaria para Cingapura, ela fechou o ateli. A escultura em tamanho real ainda estava l, envolvida em um pano para ocultar os rostos das geraes de mes que, Holly sentia, deviam estar observando-a e julgando-a.

A barreira emocional que ela construra foi suficiente para sustent-la durante o dia, mas, na noite anterior ao voo, Holly no conseguiu dormir. Ela vagou pela casa vazia enrolada em uma manta, tentando encontrar um canto onde pudesse se encolher e torcer para que o tempo jamais a encontrasse. Toda vez que pensava no telefonema que teria que dar a Tom, seu estmago se revolvia. De manh bem cedo ela diria ao marido que no viajaria.

Com a aurora ainda distante, Holly vagou pelo quarto vazio que nunca se tornaria o quarto de Libby. Estava frio, nu e vazio, exatamente como o seu corao. Ela se encolheu no espao entre uma pilha de caixas e uma mala - a mala que deveria estar pronta para sua viagem. Holly puxou os joelhos para junto do peito e agarrou-os com fora, para ter alguma coisa em que se segurar e tambm como uma tentativa de ocupar os braos, que pareciam dolorosamente vazios.

A mala parecia fria quando Holly apoiou a cabea sobre ela. Era feita de couro marrom-escuro, mas despertou em Holly a memria de uma mala xadrez que fizera parte de sua infncia. A mesma que a me escondera atrs do sof no dia em que partira. Holly observara horrorizada enquanto sua me ficava parada na porta da frente de casa, esperando o marido voltar. Ela barrou a entrada dele e lhe disse que queria o divrcio, gritando que o culpava por tudo e que era para ele dizer adeus  filha e sair da vida delas. Holly ficara aterrorizada com a ideia de ser deixada sozinha com a me, e uma centelha de esperana se acendeu quando o pai comeou a discutir. Ele entrou em casa  fora e disse  esposa que no pretendia ir a lugar nenhum, que, se ela queria o divrcio, teria que ser ela mesma a ir embora. Holly no pensou nem por um minuto que os dois estivessem brigando por causa dela, era da casa que se recusavam a abrir mo. Holly prendeu a respirao enquanto o pai e a me se encaravam em um silncio tempestuoso, nenhum dos dois se movendo, at que um sorriso comeou a se esboar no rosto da me dela. Com uma expresso alegre, ela deu de ombros e deixou o marido boquiaberto quando pegou a mala que estava na sala de estar e se encaminhou para a porta. A me sequer olhou para Holly quando passou por ela. No houve nenhum pedido de desculpas ou remorso quando a me deixou a casa, ela nem sequer disse adeus. Suas palavras de despedida foram para o pai de Holly: Finalmente tenho minha vida de volta, rosnou para ele. Holly afastou essa lembrana, mas outra logo tomou seu lugar. Ela se viu parada no quarto em que estava agora, segurando Libby no colo. Dissera  filha que a amava, que sentia muito, mas isso realmente fazia dela uma me melhor? Em vez de responder  prpria pergunta, Holly agarrou os joelhos com mais fora at mal conseguir respirar. Ela olhou para alm do espao onde ficara parada com Libby e na direo da janela. A persiana estava completamente aberta, e a escurido que se via atravs do vidro parecia penetrar em seu corao. Ela se lembrou do reflexo assombrado de Tom encarando-a, lembrou-se de como ele dissera que no estava conseguindo mais aguentar. Foi a essa lembrana que Holly se agarrou, s isso a impedia de pegar a mala e viajar para Cingapura, para encontrar Tom. Foi o rosto de Tom que ela manteve na mente quando finalmente encontrou algo que j havia perdido a esperana de encontrar. Sono.

FOI O TOQUE INSISTENTE DO TELEFONE que acordou Holly. Ela se desvencilhou da manta, e seu corpo pareceu gritar de dor conforme ela esticou os msculos tensos para se erguer e chegar at o telefone em seu quarto.

- Al? - atendeu ela. Sua voz estava rouca, e a garganta apertada.

- Holly?  voc? - Era Tom.

O estmago de Holly doeu, e ela sentiu uma onda de nusea quando se lembrou da deciso que estava prestes a tomar.

- Sim, sou eu - disse ela, rouca. Holly olhou de relance para o relgio. Eram 6h30, e ela deveria partir para o aeroporto em menos de uma hora.

- Voc est bem? Est parecendo estranha. Est doente? Vai conseguir pegar o voo? - Havia um pnico crescente na voz de Tom.

Pronto, pensou Holly. Chegou o momento de dizer adeus a Libby.

- Tom! - A voz dela saiu como um soluo. - No posso fazer isso.

- Cristo, Holly, qual  o problema? Voc est me assustando.

Holly se esforou para se controlar e respirou fundo. Precisava lembrar a si mesma que estava fazendo isso por Tom.

- No posso ir - disse ela. Sua voz ainda estava rouca, mas agora tambm soava completamente sem emoo.

Holly tivera a inteno de dizer a Tom que o clima ruim a impediria de viajar. A rea rural ficara praticamente paralisada pela ltima nevasca, e no seria necessrio muito esforo para convencer Tom de que aquilo tornaria sua viagem impossvel, mesmo que o solo j estivesse degelando. Mas, assim que ela atendeu ao telefone, o marido presumiu que ela estivesse doente, por isso Holly deu continuidade a essa ideia. A culpa por estar mentindo mal foi registrada... Ela j tinha fardos bem mais pesados em sua conscincia. Holly estava sacrificando a vida de sua filha para manter sua prpria e quase conseguia ouvir o arranhar distante de uma caneta sobre o papel enquanto seu futuro era reescrito.

Tom no sabia nada sobre a traio dela e estava apenas preocupado com a sade da esposa. Ele disfarou bem a decepo e fez Holly prometer que ficaria na cama e pediria ajuda a Jocelyn se precisasse de alguma coisa. Ele disse que haveria outros Natais juntos, e Holly no pde deixar de pensar nesses Natais futuros que havia garantido para si mesma. Ainda estariam juntos?

Ela esperou sentir algum alvio quando desligou o telefone. A deciso que a atormentara por meses enfim fora tomada. Mas no sentiu alvio nenhum. No se permitiria sentir nada alm do vazio que a engolfou.

FORA UM POUCO MAIS DIFCIL para Holly convencer Jocelyn de que estava tudo bem. Ambas sabiam que a noite seguinte seria de lua cheia, e Jocelyn precisou de muito empenho at ser persuadida de que Holly no precisava que algum a vigiasse. Holly insistiu que a troca estava feita, a vida dela estava tomando uma nova rota, e Jocelyn deixou escapar um suspiro de alvio - na verdade, foi mais um suspiro de resignao -, mas ela acabou concordando em deixar Holly sozinha para se acertar com seu novo caminho.

E Holly sabia exatamente onde seu novo caminho a estava levando, ou ao menos onde a levaria naquela noite. Com a lua cheia no cu, ela se encaminhou direto para o relgio lunar. Precisava afastar os ltimos fantasmas, e, caso se deparasse com um futuro que concretizasse seus piores medos, ento esse certamente seria o castigo pela deciso que acabara de tomar.

A NOITE ESTAVA FRIA E TEMPESTUOSA. As nuvens esparsas que cintilavam com a luz de fundo da lua se deslocavam pelo cu e revelavam estrelas que pareciam piscar com um senso de inferioridade, afinal era o brilho intenso da lua que dominava a noite. O corao de Holly batia acelerado no peito quando ela parou em frente ao relgio lunar. Ela perguntou a si mesma o que estava fazendo, brincando novamente com o futuro, e foram as batidas de seu corao que a lembraram de que devia a sua prpria vida ao relgio. Agora precisava saber que tipo de vida a aguardava. O sacrifcio teria valido a pena?

O degelo havia exposto a relva alta e descuidada e ervas daninhas que despontavam sobre o tapete gelado de neve. A temperatura havia subido acima do ponto de congelamento, mas ainda estava terrivelmente frio, e Holly fechou o zper de seu casaco de inverno at o queixo. Ela ergueu a esfera de vidro na mo, mas ainda no tinha reunido coragem para encaix-la nas ansiosas garras de metal do relgio lunar. Holly deixou a esfera rolar em suas mos enluvadas, e ela brilhou alegremente sob o luar. Holly parecia hipnotizada enquanto a virava de um lado para o outro na palma da mo, mas ento a esfera vacilou e caiu, encaixando-se exatamente onde o destino dizia que pertencia: no centro do relgio.

Tudo aconteceu to rpido que a chuva de raios de luar que se seguiu pegou Holly desprevenida. Os olhos dela se arregalaram de medo quando as garras se fecharam com fora ao redor da esfera, deixando Holly temporariamente cega. Holly precisou contar com os outros sentidos para perceber o ambiente que agora a cercava, e a primeira coisa que notou foi a temperatura. A noite subitamente se tornara quente, e o perfume do vero enchia o ar. Holly no se moveu a no ser para tirar as luvas e abrir o zper do casaco. Ela estendeu a mo e tocou a superfcie do relgio lunar. Parecia quente e familiar.

Holly piscou vrias vezes, e, quando abriu lentamente os olhos, teve uma noo mais clara do jardim. Estava iluminado tanto pela lua cheia, que a acompanhava em sua jornada ao desconhecido, quanto pela luz artificial que vinha da cozinha. O corao dela ainda batia com fora, mas pareceu falhar uma batida quando Holly pensou no que a aguardava adiante. Por um breve momento, ela considerou a possibilidade de ficar onde estava. Nos ltimos meses, ela j tinha ido ao inferno e voltado, e poderia muito bem estar prestes a embarcar em outro pesadelo. Na verdade, no queria ver de novo seu futuro - principalmente seu futuro reescrito -, mas acabara de desistir da filha e precisava saber o que lhe renderia esse sacrifcio. Holly percebeu que, mais do que nunca, precisava saber se estava destinada a ser me no mundo que o relgio lunar lhe mostraria.

Holly caminhou lentamente pelo gramado em direo  porta dos fundos. Como seu pescoo estava suado, ela deixou o casaco cair no cho e continuou a caminhar. Holly se concentrou em sua respirao para tentar se acalmar conforme abria a porta dos fundos e entrava em seu futuro. Com a respirao presa na garganta, ela olhou ao redor. A cozinha estava cheia de esperana na forma de mamadeiras e de uma cadeira alta colocada diante da mesa.

Com as mos trmulas, Holly procurou por um jornal, mas teve que se contentar com a conta de gs. A data era junho de 2012. O relgio lunar continuava a lev-la 18 meses adiante no tempo. Holly ficou paralisada observando a data e logo voltou a olhar para a cadeira alta de beb. Uma revoada de milhares de borboletas dominou o seu estmago, cada uma carregando uma pergunta. Mas apenas uma dessas perguntas lhe importava, a nica para a qual Holly exigia uma resposta. Ela no queria saber se haveria outros bebs, no precisava nem saber se sobreviveria ao parto. S precisava saber se a criana que usava aquela cadeira alta diante dela era Libby. Holly caminhou em direo  porta do corredor, pronta para sair em disparada, mas ento as luzes piscaram e se apagaram. A cozinha ficou escura, e Holly sentiu um arrepio na nuca. Antes que seus olhos pudessem se ajustar, antes que ela pudesse ver alguma outra coisa alm do brilho suave da lua entrando pela janela, as luzes voltaram a se acender. Holly estremeceu, mas afastou a sensao de mau pressgio trazida pela escurido. Ela se concentrou no lampejo de esperana que crescia em seu peito.

Quando entrou no corredor, Holly ouviu a voz de Tom no escritrio. Ela avanou em passos leves at a porta e reparou que Tom estava conversando. S era possvel ouvir um dos lados da conversa, portanto Tom estava ao telefone. Ele agora soava como o Tom que ela conhecia, no como o homem devastado que encontrara em suas outras vises. Ouvir o riso dele deixava o corao de Holly mais leve. Ele estava falando sobre trabalho, planejando uma entrevista com algum. Parecia feliz, animado e vivo. O que Holly ouviu a seguir fez seu corao se encher de alegria.

- Desculpe, Peter, mas realmente tenho que ir. Estava prestes a colocar Libby para dormir. Ela est esperando pela mamadeira e no  o tipo de dama que gosta de esperar.

Holly mal registrou as palavras, pois j estava se virando e subindo as escadas, dois degraus de cada vez. Tinha a inteno de parar na porta do quarto de Libby e espiar com cuidado, mas estava andando to rpido que no conseguiu parar e, antes que percebesse, j estava no meio do quarto. O cmodo estava iluminado por um nico abajur, mas praticamente cintilava.

- Ol, meu amor - disse Holly, ofegante e empolgada.

Libby estava de p no bero, segurando nas grades com fora e tambm agarrada  boneca de pano - ainda mais encardida do que na ltima vez em que Holly a vira. Libby sorriu e pulou, compartilhando a empolgao da me. A menina pulou tanto que acabou perdendo o equilbrio e caindo sobre o traseiro com um baque. Ela fez beicinho e estendeu os braos para Holly.

- Mama! - disse.

As lgrimas faziam arder os olhos de Holly. Ela correu at a janela e ergueu a persiana para deixar entrar o luar, apenas o bastante para permitir que fizesse o que achara que nunca mais teria a chance de fazer. Ela estendeu os braos por sobre o bero e pegou a filha.

Ento, com Libby no colo, Holly fechou os olhos e deixou que seus outros sentidos a dominassem. Ela respirou fundo para se acalmar, enquanto sentia o perfume de Libby, que era uma mistura inebriante de sabonete, suor, e mais alguma coisa que pertencia apenas a Libby. Holly sentiu o peso slido da filha nos braos, mais pesada, mais forte do que da ltima vez em que a segurara. Libby agora estava com nove meses e havia mudado de outras formas tambm. Os cachos louros e desalinhados fizeram ccegas no nariz de Holly.

- No faz ideia de quanta saudade senti de voc! - disse  filha. - No consigo acreditar que estou aqui. No consigo acreditar que voc est aqui.

Holly nem sequer tentou entender o que estava acontecendo ou por qu. Talvez as aes que tomara ainda no houvessem mudado o futuro, talvez fosse apenas no momento exato em que Libby deveria ser concebida que tudo mudasse. Holly estremeceu e empurrou esses pensamentos para o fundo da mente. No queria pensar nisso agora. Depois de um longo tempo, Holly abriu os olhos e sorriu para Libby.

- Amo voc e no quero ficar sem voc jamais.

Libby sorriu de volta.

- Papa - disse ela, esticando os bracinhos na direo da porta.

Holly se virou e ouviu Tom subindo as escadas.

- Preciso coloc-la de volta no bero - sussurrou Holly, sem vontade de soltar a filha, mas sabendo que era o que precisava fazer. Se Holly ainda estivesse segurando Libby quando Tom entrasse no quarto, ento seria como o choque de dois mundos e ela sabia que no conseguiria encarar isso. Queria que tudo fosse perfeito, calmo e certo.

Quando Tom entrou no quarto de Libby, ele girava uma mamadeira nas mos.

- Hora de dormir, pequena dama - disse Tom  filha, que estava de p no bero novamente, pulando animada. Ele desviou os olhos para a persiana aberta, confuso, e no viu Holly parada, encarando-o, diante da janela. A presena dela no era mais do que um toque sobre a gua, no era isso que o poema dizia? Tom fechou a persiana e voltou toda a sua ateno para Libby.

Holly observou atentamente os dois. Tom parecia bem. Na verdade, tinha sua habitual aparncia desmazelada. Mas de um jeito bom, e no apenas porque parecia bem de sade, fsica e mental, mas tambm porque no parecia arrumado demais. Ele no se tornara ncora do telejornal, Holly estava certa disso.

Tom pegou Libby no colo, deu a mamadeira  filha e depois um abrao bem apertado. Ele sorriu quando ela deixou cair a boneca de pano e pegou a mamadeira entre as mozinhas. Enquanto mamava, Libby no tirava os olhos do pai.

Tom sorriu para a filha.

- Ol, belezinha - disse ele, cobrindo o topo da cabea dela de beijos. Libby piscou vrias vezes, animada, quando o cabelo do pai fez ccegas no seu rosto. - Ah, Libby, amo tanto voc. Mais do que eu podia imaginar que conseguiria amar algum novamente.  assim que a amo.

Tom embalou Libby de um lado para o outro, e Holly no conseguiu resistir  vontade de tocar em ambos. Ela acariciou a cabea da filha e depois deixou os dedos correrem carinhosamente pelos cabelos do marido, que estavam longos e desalinhados como sempre, de um modo reconfortante e familiar. Ela o sentiu estremecer.

- Sua me uma vez me disse que eu deveria olhar para o que tenho no presente, e no ficar sempre procurando mais - sussurrou Tom. - Sei que no posso desejar o impossvel. Tenho voc, Libby, e neste exato momento  o bastante.

Libby parou de tomar a mamadeira e, imitando a me, segurou os cabelos de Tom. Quando a filha puxou sua cabea para baixo, ele descansou a testa sobre a dela e franziu o cenho, fechando os olhos com fora.

- Ah, mas ainda sinto saudades da sua me - sussurrou ele. - Sempre sentirei.

Em resposta, Libby se remexeu nos braos dele e deixou escapar um arroto.

- Uau! - disse Tom. - Voc herdou o mesmo hlito fedorento da sua me!

Tom riu, e Libby tambm, enquanto ele a colocava no bero para terminar a mamadeira. Os dois estavam se olhando intensamente.

- Ento, que histria gostaria de ouvir esta noite? - perguntou ele.

Libby afastou os olhos de Tom e olhou para Holly.

- Mama - disse ela.

- Ah, ento voc quer ouvir uma histria sobre a sua me, no ? - perguntou Tom. Ele se sentou no pufe perto do bero e descansou a cabea sobre as barras, observando a filha com a mais pura adorao. - Bem, por onde devo comear? Era uma vez uma linda princesa. O nome dela era Holly. O rei e a rainha malvados a mantinham presa em uma torre e lhe diziam que ela jamais seria amada.

Enquanto Tom contava a histria de como a princesa fora salva por um prncipe jovem e corajoso, Holly se esgueirou para perto do bero e se sentou na extremidade oposta ao marido. Ela tambm descansou a cabea sobre as barras e acabou to hipnotizada pela histria quanto Libby. Tom tinha lgrimas nos olhos, mas estava sorrindo enquanto contava  filha como o prncipe e a princesa haviam capturado uma estrela para fazerem seu prprio beb, mas desse modo haviam deixado um buraco no cu que precisava ser preenchido. Por isso, a princesa precisara ir para o cu para preencher o vazio deixado pela estrela. Holly sentiu os olhos marejados, mas as lgrimas congelaram em seu rosto quando a luz voltou a piscar. A imagem de Tom e Libby tambm piscou, e a escurido atravessou a viso de Holly, como se ela estivesse vendo a cena em uma televiso quebrada.

Tom e Libby tambm pareceram perceber o que acontecera. Libby deixou a mamadeira cair e se sentou. Quando a menina comeou a chorar, ergueu os braos para Holly e seus dedos encontraram apenas o ar. O corao de Holly batia com fora no peito ao ouvir o choro da filha, cada vez mais assustada. Tom e Holly se levantaram ao mesmo tempo quando a luz que piscava passou a ficar mais apagada do que acesa.

- Libby? - disse Tom em um arquejo, inclinando-se para pegar a filha no colo e proteg-la. Mas Holly jamais viu ele alcan-la. Em algum lugar a distncia, acima dos gritos assustados de Libby e do bater do seu prprio corao, Holly ouviu um relgio tiquetaquear.

O brilho suave e quente da noite se transformou em um azul congelante enquanto a lua espreitava atravs da janela e projetava sombras na direo de Holly. Quando o som do relgio parou, foi substitudo por um silncio vago, interrompido apenas pela respirao entrecortada de Holly. Dessa vez ela teve tempo para ajustar sua viso. Ainda estava no mesmo quarto, mas ele agora estava vazio, desprovido de vida. Era apenas o quarto de depsito que Holly conhecia to bem. No havia nenhum trao de Libby ali, nem mesmo o cheiro doce de beb, nada alm dos gritos assustados ainda ecoando em sua mente.

Holly olhou ao redor sem acreditar. Se sua viso do futuro houvesse terminado, ento ela deveria ter retornado para o lugar de costume, em frente ao relgio lunar. Holly tremeu com um medo crescente de que ainda pudesse estar no futuro. Quando olhou atravs da janela, no encontrou consolo. As rvores no estavam cobertas de neve, mas sim repletas de folhagem de vero. O quarto sem vida continha uma mistura bem conhecida de caixas e quinquilharias, mas havia mais caixas, mais baguna. E, perto da mala contra a qual ela dormira na noite anterior, havia outra mala. De Tom. No havia dvidas. Essa era uma nova viso do futuro sendo revelada.

- No, no, no - ofegou Holly. - Isso no pode estar acontecendo. No estou pronta. Libby precisa de mim. No tive a chance de me despedir. Tenho que dizer adeus.

As lgrimas escorriam por seus olhos, e Holly ficou grata por nublarem sua viso e suavizarem a imagem de um futuro em que a vida de Libby fora apagada.

- Sinto muito, Libby, sinto tanto! - disse Holly, desesperada, afastando-se de costas para sair do quarto. Quando chegou ao patamar da escada, ela se virou e saiu correndo na escurido. Enquanto descia as escadas cambaleando, as luzes voltaram a piscar e ela tropeou no ltimo degrau, caindo de joelhos. A casa mudara de uma viso do futuro para outra, de um lugar escuro e sem vida para um cheio de luz. No quarto do andar de cima, Holly pde ouvir Libby soluando e a voz de Tom tentando acalm-la, mas ele mesmo parecia assustado. Holly ouviu Libby gritar Mama!, e ento o silncio e a escurido se abateram com tal fora que todo o ar escapou do peito de Holly.

Ela levantou cambaleante, possuda por uma necessidade desesperada de sair correndo. Conseguiu chegar  cozinha, mas ento se viu forada a parar e avaliar, se obrigou a ver a vida que recebera em troca da de Libby. A cozinha, como o resto da casa, estava escura e sem vida. Na penumbra, Holly viu que o cmodo estava limpo e arrumado. At o cheiro no ar parecia estril.

- Estril e vazio, assim como ser a minha vida - disse a si mesma.

Holly se obrigou a seguir em frente e correu pelo jardim, s parou quando estava novamente diante do relgio lunar.

- J vi o bastante, leve-me para casa - exigiu ela.

O relgio piscou ameaadoramente sob o luar, mas tinha regras a seguir e demorou-se o tempo que precisava, contando os minutos que delimitavam o fim do pesadelo de Holly e o ponto onde comeava o resto de sua vida.

A VISO DE FUTURO DE HOLLY a deixara vazia e sem esperana, mas, quando os raios de luar a envolveram, mandando-a de volta ao presente, o sentimento que a dominava era uma fria to intensa que sacudia todo o seu corpo. A raiva era dirigida ao relgio lunar.

- No! - gritou ela. - Por que est fazendo isso comigo?

Suas palavras soaram como o rugido de um animal selvagem, apenas para serem varridas com desdm pelas rajadas de vento cruis que formavam uma tempestade ao seu redor. Somente seus soluos de dor ficaram a ecoar perdidos na noite. Holly no conseguia se afastar do relgio porque estava agarrando-o com tanta fora e encarando-o com tanta intensidade que poderia ter transformado a pedra em p. Queria infligir ao relgio o mesmo tipo de devastao que este causara  vida dela.

- Sei quem eu sou. Sei que sou a filha da minha me. Sempre soube que iria falhar com Libby. - Holly ofegava entre as frases, sua voz agora soava mais como um sussurro do que um rugido. - Deveria ter confiado no que dizia meu instinto desde o princpio e dito a Tom que no queria ter filhos. No mereo ter filhos.

Outro soluo escapou de seus lbios, mas Holly reprimiu as lgrimas, pois ainda no havia terminado de descarregar sua fria no relgio.

- Eu sabia como estava sendo egosta. Sabia que estava pronta para entregar a vida de Libby em troca da minha. Por que me deixou v-la? Por que me deixou segur-la no colo e am-la? Por que me deixou fazer tudo isso e ento a apagou bem diante dos meus olhos? Acha que est me provando alguma coisa?

Holly respirou fundo e ignorou o calafrio que percorreu seu corpo. Ela soltou o relgio, mas agora seus punhos socavam a superfcie de pedra.

- Voc no precisava me mostrar a dimenso do meu fracasso, como eu me coloquei  frente da minha filha, exatamente como fez a minha me. No precisava ter me mostrado. No precisava ter deixado eu ouvir Libby me chamando. O que me deu no foi um presente. Voc no salvou a minha vida. O que fez foi me garantir um modo de manter meu corpo vivo, porque levou embora a minha alma.

Os tremores que agitavam o corpo de Holly eram um combustvel para a raiva que ela sentia, mas, conforme os minutos passavam, o calor da raiva j no conseguia mais competir com o frio intenso da noite de inverno. Holly sentiu o frio penetrando seus ossos, mas no sabia o que deveria fazer. No adiantava ficar discutindo com o relgio feito uma louca. O que ela precisava desesperadamente era de algo para ancor-la.

Holly sentiu como se estivesse se afogando na dor de perder Libby, e esse sofrimento continha tambm uma imensa carga de culpa. Sacrificar Libby fora uma escolha dela, e agora a filha estava perdida para sempre. Mesmo assim, Holly no conseguia soltar o relgio lunar. Estava prestes a dar o primeiro passo no caminho que fora colocado  sua frente - caminho que lhe custara um preo absurdamente cruel. Essa ideia a aterrorizava, porque ela no achava que sua sanidade conseguiria suportar aquela vida.

Holly fechou os olhos com fora e tentou desesperadamente relembrar cada detalhe do rosto de Libby, seu cheiro, o som da sua voz, a sensao da respirao dela contra sua pele, quando Libby deitara a cabea em seu pescoo. Cercada pela escurido da noite, Holly se agarrou s lembranas de Libby enquanto mais arrepios subiam por sua espinha. Ela se concentrou apenas nos momentos sagrados que compartilhara com a filha e lutou contra o desespero. Holly respirou fundo o ar congelante, e isso deu o choque de que seu corpo precisava para soltar o relgio.

Era o final da madrugada, e o nascer do sol ainda demoraria. A luz acolhedora vinda da cozinha projetava sombras no jardim, mas no foi para a cozinha que Holly voltou. Ela cambaleou e logo comeou a correr na direo do ateli.

As luzes do ateli se acenderam, machucando os olhos de Holly. As fotografias penduradas no teto danavam com a brisa que entrava pela porta aberta, seus rostos sorridentes zombavam dela, ameaadores, como palhaos de um parque de diverses.Holly teve a sensao de que caoavam dela, mostrando-lhe um relance da felicidade que perdera para sempre. Ela apagou todas as luzes, at que todas as fotografias voltassem s sombras.

Ignorando os rostos sorridentes que a observavam, Holly foi atrada para o centro do ateli, na direo de uma imagem indistinta. Era a escultura da me com o filho coberta por um lenol. Sentindo-se cada vez mais culpada, Holly foi at a pea e descobriu-a. Os incontveis rostos na base espiralada olhavam para cima, para o beb que era erguido pela me, e Holly acompanhou seus olhares. Ela caiu de joelhos quando suas ltimas foras, que a haviam levado at a escultura, foram arrancadas de seu corao.

Holly ficou ajoelhada diante da escultura, sem conseguir tirar os olhos da imagem do beb, enquanto se agarrava  base como uma criana perdida. Ela no sabia se seu corpo conseguiria suportar a dor fsica de seu sofrimento. No imaginava como conseguiria suportar aquela dor pelo resto da vida - e sabia que seria pelo resto da vida. S agora havia se dado conta de que carregaria esse fardo sozinha. Tom teria que encarar seu prprio torvelinho de emoes quando Holly finalmente lhe contasse tudo, mas jamais se sentiria como ela estava se sentindo nesse momento. O fardo da culpa seria dela e s dela. Holly no estava certa de que o relacionamento deles sobreviveria ao abismo que inevitavelmente surgiria entre os dois. Talvez fosse isso o que a assustara tanto quando cambaleara pela casa vazia, durante a sua viso. Seria s a filha que iria faltar em suas vidas, ou tambm um ao outro?

Esses pensamentos e muitos outros se acumulavam na mente de Holly, e ela ansiava para que Tom a pegasse nos braos e lhe dissesse que tudo ficaria bem. Holly sentia-se dominada por uma solido que no experimentava desde que era criana. Era como se houvesse uma imensa rachadura no fundo de seu peito, e ela quase conseguia acreditar que seu corao estava fisicamente se partindo, sendo esmagado por todas as muralhas que construra para represar suas emoes. O primeiro soluo saiu como um uivo, e as lgrimas que o seguiram eram como uma inundao. Quando a luz fraca da aurora penetrou timidamente pela claraboia do ateli, com as lgrimas ainda rolando pelo rosto, Holly caiu em um sono profundo. Por mais que desejasse ver Libby de novo, a filha se perdera at mesmo para os seus sonhos. Em vez disso, Holly sonhou com o tempo passando. Uma centena de relgios a espreitava, os ponteiros compridos e finos girando e virando e rodando, rodando.

HOLLY ACORDOU COM O TAMBORILAR DA CHUVA no teto do ateli, que parecia acompanhar as batidas do seu corao. Uma sensao crescente de pnico a dominava, e ela no sabia o motivo. Em busca de uma resposta, ela ergueu os olhos para a escultura. A figura da me erguia o beb para o alto, levantando-a em direo a uma vida futura. Holly fora aquela me por um breve perodo - um momento que ficaria congelado no tempo pela arte dela. Mas ento Holly escolheu um caminho diferente e sacrificou sua linda garotinha, que sorrira para ela e a chamara de Mama.

Holly se levantou e deixou os dedos acompanharem a espiral da escultura at em cima, esperando que a qualquer momento aparecesse uma rachadura no lugar onde ela rompera o elo entre uma gerao e outra. Com uma clareza nauseante, Holly percebeu que havia feito a escolha errada, e a onda de enjoo foi rapidamente seguida por uma avalanche de culpa e arrependimento. Nesse instante, ela deveria estar desembarcando do avio em Cingapura e encontrando Tom. Ento, em algum momento no futuro prximo, eles fariam um beb do seu amor, um amor que seria perpetuado pelas geraes futuras. Aquela era a deciso que deveria ter tomado, aquele era o caminho certo. Holly desejou desesperadamente voltar no tempo, desejou ter a oportunidade de tomar uma deciso diferente, mas o tempo havia se esgotado. Sua pulsao acelerou quando ela percebeu o quanto amava Libby e quanto estava disposta a sacrificar. Era uma boa me, mas percebeu isso tarde demais.

O corpo de Holly pareceu congelar enquanto esses ltimos pensamentos ainda giravam em sua cabea. Ela estaria apenas desembarcando do avio nesse momento, mas o instante em que Libby seria ou no concebida ainda estava no futuro. Ainda no havia alcanado o ponto em que os dois caminhos divergiam. Sua viso lhe mostrara duas realidades ainda vacilantes, mas o futuro ainda no fora reescrito, e poderia nunca vir a ser. O corao de Holly pareceu falhar quando ela percebeu que ainda tinha o tempo de que precisava.

- VOC VAI FAZER O QU? - Foi a vez de Jocelyn parecer chocada.

Assim que Holly voltara correndo para casa e comeara a dar telefonemas desesperados, Jocelyn chegara. Ela viera sob o pretexto de que precisava deixar l alguns ingredientes para prepararem o almoo de Natal - que seria na casa de Holly, mas feito por Jocelyn. Na realidade, Jocelyn estava procurando por uma desculpa para ver se Holly estava bem, e logo ficou claro que suas preocupaes eram justificadas.

- Eu vou para Cingapura - retrucou Holly com firmeza. Ela sabia que seria difcil explicar sua deciso para Jocelyn, e tivera a esperana de poder adiar esse momento at ter tomado todas as providncias necessrias. Infelizmente, conseguir um voo de ltima hora para Cingapura, ou mesmo rastrear a localizao de Tom, havia se mostrado impossvel at ali. Mas Holly ainda no estava disposta a desistir.

- No compreendo - balbuciou Jocelyn. A cor havia desaparecido completamente de seu rosto. - Voc no pode ir, no pode correr o risco de ficar grvida.

- No, Joss,  exatamente por isso que tenho que ir. Tenho que fazer isso por Libby. Sou a me dela, e meu dever  proteg-la. Acima de tudo, at da necessidade de salvar a minha prpria vida, ou de proteger Tom, meu dever  manter Libby a salvo. Minha filha vem em primeiro lugar, agora sei disso. S levei tempo demais para perceber. - Holly sentiu seu corao se aquecer quando disse as palavras em voz alta: - Vou ficar grvida e vou dar  luz Libby.

Jocelyn afundara em uma cadeira, e estava encarando a amiga, boquiaberta.

- Voc sabe o que est dizendo, Holly? Est falando sobre morrer. O relgio lunar deveria salv-la. Ele  um presente que foi dado a voc para salvar a sua vida, Holly. No pode desistir. No pode! - A voz de Jocelyn vinha entrecortada.

- Sim,  um presente, agora vejo isso. Que no apenas me deu a chance de sentir o que  ser me como me deu a oportunidade de ser a melhor me possvel, provando assim que a histria no se repete. Posso ser uma me melhor do que a minha me foi para mim. Ela no sacrificou nada, absolutamente nada. Estou pronta para sacrificar tudo.  isso o que eu quero, mais do que qualquer coisa. Voc precisa me ajudar.

Jocelyn agarrou a mo de Holly e comeou a argumentar.

- Mas voc ainda no sabe o que o futuro reserva. Viu uma casa vazia, isso no significa nada.

Holly sorriu como se isso fosse o bastante para provar  amiga que no enlouquecera de vez.

- Voc no entende. No tem nada a ver com o que o futuro reserva. No sei o que o futuro reserva para mim e no me importo mais. Realmente no me importo. Libby  minha filha, minha filha viva, que respira. Talvez no agora, mas eu a vi e a tive em meus braos. Conheo o cheirinho doce de beb e cada cacho na cabecinha dela. E sei que faria qualquer coisa para proteg-la. Qualquer coisa, Jocelyn.

Jocelyn balanou a cabea.

- Mas  tarde demais. Voc no vai conseguir chegar l, vai?

- Sinceramente, no sei, mas no vou desistir, ainda no. Voc mesma disse como  difcil mudar o destino. Eu estava destinada a ter Libby, e tenho que acreditar que isso ainda pode acontecer, que ainda h tempo.

A dor e o desespero haviam desaparecido do corao de Holly quando ela percebeu que o momento da concepo de Libby ainda no havia chegado. Foi s naquele momento, quando viu a expresso de horror no rosto de Jocelyn, que se lembrou do preo que pagaria se levasse seu plano adiante. Era sua prpria vida que estaria sacrificando, mas Tom, Jocelyn, os pais de Tom; todos tambm seriam afetados. Eles ainda teriam que sofrer a devastao que a morte de Holly traria s suas vidas, a sensao de perda que ela testemunhara em suas viagens ao futuro. Ento Holly se lembrou do modo como se sentira algumas horas antes. No havia mais dvidas em sua mente. A dor que sua prpria morte causaria no era nada se comparada  dor de perder Libby, e ela faria qualquer coisa para impedir que isso acontecesse.

- Holly, escute-me - disse Jocelyn, aproximando-se mais e apertando as mos de Holly com tanta fora que chegavam a doer. - Pense no que est fazendo, no que est fazendo s pessoas que amam voc. E quanto a mim? No quero perd-la. - As lgrimas comeavam a rolar pelo rosto dela.

Tentculos gelados de medo envolveram o corao de Holly.

- Se no puder salvar Libby, ento estou perdida, de qualquer modo. Se eu sobreviver, e Libby no, ento minha vida tambm estar terminada.

AS HORAS PASSAVAM inclementes, e a esperana a que Holly se apegara no incio da manh estava escorrendo por seus dedos. Em uma atitude otimista, ela fizera as malas e se vestira, enquanto Jocelyn vigiava os dois telefones que estavam usando para tentar conseguir uma passagem de avio. Holly usara cada favor que poderia cobrar, cada contato de que pudera se lembrar, e havia vrios agentes de viagem fazendo o melhor possvel para encontrar um lugar para ela no prximo voo. At ali, seus esforos haviam sido em vo.

Holly tambm ainda no conseguira entrar em contato com Tom. Ela deixara vrias mensagens no hotel em que ele estava hospedado, mas o marido no retornara suas ligaes. Os colegas dele na emissora, em Londres, no foram de grande ajuda - embora todos fizessem promessas vagas de tentar ajudar, estavam atarefados demais s vsperas do Natal para ajudar Holly a chegar a Cingapura.

Os ouvidos dela estavam vermelhos e inchados por passarem horas colados ao telefone.

- No vou desistir, tenho que acertar as coisas - no parava de dizer a Jocelyn. Holly chegou a recuperar as peas quebradas e empoeiradas do gato de porcelana que estavam debaixo do sof e as colou de novo.

- Voc acha que eu deveria ligar para Billy e pedir para que viesse at aqui e mudasse as portas do jardim de inverno para a posio em que deveriam estar? - perguntou a Jocelyn, desesperada.

- Voc no pode consertar tudo. Talvez agora seja o momento de comear a aceitar que h coisas que no pode mudar.

Holly balanou a cabea, mas, quando olhou para fora, pela janela, viu que a luz do dia comeava a ceder, junto com a esperana dela. Estava sentada com Jocelyn  mesa da cozinha, ambas segurando xcaras quentes de ch entre as mos. Conforme Holly ficava cada vez mais deprimida, Jocelyn fazia o possvel para esconder seu alvio.

- Voc tentou o melhor que pde, Holly. Sei que vai ser difcil e que no vai querer se perdoar, mas ao menos agora voc sabe que estava preparada para desistir de tudo por Libby.

- Eu estava to certa de que ainda tinha tempo - sussurrou Holly. Ela apoiou a xcara na mesa e se levantou, espiando a escurido do lado de fora, na direo do relgio lunar. - Passei tanto tempo lutando contra isso, e agora, que estou pronta para ceder, essa maldita coisa me decepciona.

- Voc vai superar. Vai encontrar um novo caminho.

Holly foi at a porta da cozinha e precisou lutar contra a urgncia que sentiu de sair na chuva e sacudir o relgio lunar at que ele voltasse  vida. Em vez disso, olhou pelo painel de vidro da porta e observou as gotas de chuva baterem na vidraa e escorrerem.

- Eu tinha tanta certeza de que conseguiria voltar ao caminho antigo, ao que me levava para Libby. - Holly traou com os dedos uma nica gota que escorria pela janela e que seguia o mesmo caminho da gota de chuva que cara antes dela. - Desculpe, Libby - sussurrou ela. Um estremecimento percorreu sua espinha e chegou  ponta de seu dedo, que ainda tocava o vidro. Do lado de fora, na escurido, outro dedo surgiu para tocar o vidro exatamente de encontro  ponta do dedo de Holly. Ela arquejou, mas no retirou a mo. Em vez disso, olhou alm do dedo, para uma mo, uma mo forte que poderia segurar a dela e nunca mais soltar. Alm da mo havia um brao, um de dois que a abraariam e a fariam se sentir protegida de tudo. Alm dos braos, Holly olhou encantada para o peito, o pescoo, o rosto do homem que amava e que a deixava sem flego.

- Vai me deixar entrar? - gritou Tom, tremendo na chuva.

Holly abriu a porta e se jogou nos braos dele. Ela lutou para controlar as lgrimas apenas pelo tempo que levou para cobrir de beijos o rosto do marido.

- Ei, voc est pingando - disse ele.

- No, no estou pingando. Estou chorando - retrucou Holly, com um sorriso triunfante, antes de inclinar o corpo para trs e dar um beijo longo e delicioso em Tom.

- Voc ainda tem o hlito fedido - disse ele, com um sorriso travesso.

- Eu? Voc  que est fedendo como se no tomasse banho h quinze dias.

- Ora, o que voc espera de algum que passou os ltimos dois dias tentando chegar em casa para ver a pobre esposa doente? - falou Tom.

Holly abraou o marido com fora, enquanto a chuva caa sobre eles. Tom estava um pouco mais ansioso para entrar, por isso ergueu a esposa nos braos e a carregou para dentro de casa. Holly olhou por sobre o ombro dele para o relgio lunar e, pela primeira vez, lhe dirigiu um sorriso.

- Bem, parece que recebi meu presente de Natal adiantado - falou Holly, virando-se na direo de Jocelyn. Mas a amiga havia partido.

- Voc acha que eu deveria levar Jocelyn para a casa dela? - perguntou Tom.

Holly deixou escapar um suspiro de tristeza.

- Ela vai ficar bem.

Tom parecia cansado, alm de encharcado e tremendo, parado no meio da cozinha, ainda com a esposa nos braos.

- Ento, h alguma coisa que eu possa fazer por voc? - perguntou ele, com um sorriso malicioso.

- Ah, eu tenho planos, no se preocupe - disse ela.






CAPTULO 13

O Natal foi perfeito, e Holly no poderia ter desejado nada melhor. Ela passou a data cercada pela famlia - leia-se como famlia: Tom, os pais dele, Jocelyn e sua famlia estendida, que inclua Lisa e a filha dela, Patti, que viera da faculdade passar as festas em casa e aproveitou a oportunidade para cobrar de Tom a ajuda que ele lhe prometera.

Jocelyn se esforou para parecer bem, mas Holly sabia que o corao da amiga estava partido, e procurou garantir que as duas passariam bastante tempo juntas. Depois da ceia de Natal, Holly insistiu para acompanhar Jocelyn at em casa e aceitou o convite para tomar uma rpida xcara de ch.

Holly nunca estivera no apartamento de Jocelyn e se surpreendeu com o quanto era pequeno e abarrotado de coisas. Havia duas poltronas diante de uma televiso porttil, mas Jocelyn e Holly escolheram se sentar  mesinha de bistr, que obviamente j pertencera  casa de ch. A mesa ficava em frente  nica janela, que suspendia uma jardineira onde os amores-perfeitos oscilavam sob o vento frio do inverno. Alm da jardineira, via-se a igreja, e a cor no rosto de Jocelyn combinava com o cinza da fachada de pedra. Essa era a primeira oportunidade que as duas tinham para conversarem sobre o futuro, e Holly aproveitou para dar a Jocelyn um presente de Natal extra: o dirio e a caixa de madeira contendo a esfera de vidro e o mecanismo desmontado do relgio lunar.

- No posso usar isso de novo - explicou Holly. - No posso correr nenhum risco, no estando grvida. Alm do mais, no preciso visitar Libby, afinal tenho ela comigo todos os dias. - Holly deu uma batidinha carinhosa na barriga muito lisa. - Preciso que voc tome conta dessas coisas agora porque no quero que o relgio lunar caia em mos erradas. Tom nunca deve saber sobre o relgio e o que ele pode fazer. A sombra daquele relgio j se abateu sobre ns por tempo demais.

- Se eu soubesse o que voc acabaria fazendo, teria tirado essa caixa das suas mos mais cedo.

- Sei que  difcil para voc, mas preciso mais do que nunca da sua ajuda - insistiu Holly. - Durante os ltimos oito meses, minhas emoes estavam um caos absoluto, e isso estava afetando no apenas a mim, mas tambm meu relacionamento com Tom. Tudo estava se tornando to tenso, havia uma distncia enorme entre ns... E no estou falando apenas em quilmetros. Neste momento, sinto-me to em paz comigo mesma, com Tom... a sensao  maravilhosa. Minha nica dor  sentir o corao quase explodindo de amor pelo meu marido e pelo meu beb. - A voz de Holly ficou entrecortada pela emoo, e ela estava desesperada para que Jocelyn tambm ficasse em paz.

A xcara de Jocelyn tremia em sua mo, e ela tomou um gole do ch antes de conseguir falar.

- O que est feito est feito. Vou me recuperar e vou ajudar voc e Tom e, quando a hora chegar, tambm vou ajudar Libby. Eu falhei com voc, mas prometo que no vou falhar com ela.

- Voc no falhou comigo, jamais pense assim. Voc deixou que eu tomasse minhas prprias decises e que escolhesse meu caminho. Essa  uma deciso que minha conscincia deve assumir, no a sua, e foi a deciso certa, voc no conseguir me convencer do contrrio. - Agora foi a vez de Holly comear a tremer, e sua voz falhou.

Jocelyn apenas assentiu educadamente, e Holly sabia que ela jamais concordaria com isso, ao menos no at que visse Libby.

- Vou deixar tudo planejado e pronto para a chegada de Libby e para o futuro de Tom sem mim, mas vou precisar que voc lembre a Tom de meus planos quando eu me for. - Holly ficou surpresa ao ver a facilidade com que as palavras saram de sua boca. Ela ainda no estava pronta para morrer, mas nove meses era tempo o bastante para deixar tudo preparado. - O trabalho de Tom  o nico problema no momento. Ele ainda est decidido a assumir o cargo de ncora, e quando descobrir que estou grvida vai ser ainda mais difcil convenc-lo a rever suas opes. A emissora est furiosa por ele no ter ido para Cingapura e transformar sua vida em um inferno... como se j no estivesse ruim o bastante. Quero convenc-lo a trabalhar como freelancer. Tom fez alguns bons contatos no ltimo ano e pode us-los. Acho que as viagens dele pelo mundo esto terminadas, mas j que ele est prestes a ser pai, isso no  necessariamente uma coisa ruim. H um trabalho melhor esperando por ele em algum lugar, e tudo o que tenho que fazer  gui-lo na direo certa.

Jocelyn segurou o rosto da amiga entre as mos.

- Respire, Holly. Como voc disse, h tempo o bastante para fazer planos.

Holly sorriu, e uma lgrima escorreu por seu rosto.

- Eu sei. E sei que vou fazer as pessoas sofrerem. S quero atenuar o golpe.

- Voc no pode fazer isso, mas eu farei o que estiver ao meu alcance - disse Jocelyn, com um sorriso dbil.

Holly franziu o cenho, sem saber muito bem aonde a ideia seguinte a levaria.

- Patti parece uma garota adorvel e muito sensata para a idade dela. Voc acha que ela poderia ajudar? Quando Libby nascer, Patti j ter se formado. Talvez ela pudesse ajudar Tom, fazer pesquisas para ele ou at mesmo tomar conta de Libby...

Jocelyn ergueu uma sobrancelha.

- Voc no est procurando uma substituta para voc, est?

Holly deixou escapar uma risada nervosa.

- Santo Deus, no. Quero que Tom seja feliz, mas neste momento ele  meu e no quero nem pensar na possibilidade de outra mulher na vida dele. No entanto... - Ela no conseguiu terminar a frase, deixou as palavras no ar.

- No entanto...? - pressionou Jocelyn.

Holly olhou pela janela e franziu mais o cenho.

- Quando for a hora certa, diga a Tom que eu quero que ele seja feliz. Diga a ele para seguir em frente. - Ela se virou para encarar Jocelyn com um sorriso travesso. - S se certifique de que, seja quem for, ela seja boa, mas no melhor do que eu.

- No acredito que isso seja possvel. Voc  nica, Holly Corrigan.

A NOITE DE ANO-NOVO foi um momento agridoce para Holly, mas no houve tempo para cismar sobre o quanto a vida era injusta. Tinha o bastante e estava feliz - feliz porque finalmente aceitara o presente que o relgio lunar lhe dera. O relgio oferecera a ela a chance de ser me e de conhecer a prpria filha antes de morrer. Sem ele, Holly jamais teria tido a chance de segurar a filha no colo.

- Agora seria um bom momento para eu lhe dizer que acho que estou grvida? - perguntou Holly, quase em um sussurro.

Eles haviam preferido ficar em casa e estavam na cozinha enquanto o momento da contagem regressiva para o ano-novo se aproximava. Tom estava abrindo uma garrafa de champanhe, mas seus dedos ficaram paralisados ao ouvir a novidade.

-  mesmo? Voc saberia assim to rpido? - perguntou, cauteloso.

Holly assentiu.

- Acredite em mim, tenho certeza - disse ela, sorrindo.

Tom continuou paralisado no meio da cozinha, parecendo confuso. Ento, um enorme sorriso comeou a se esboar em seu rosto, e ele mal registrou as comemoraes que explodiam na TV da sala de estar quando um ano deu lugar a outro. Ele deixou a garrafa de champanhe sobre a mesa e correu para Holly. A rolha estourou, e o champanhe comeou a jorrar, mas Tom nem percebeu.

-  mesmo? - repetiu ele.

- Feliz ano-novo - disse Holly ao marido, seu sorriso um reflexo do dele.

- Feliz, sim, muito feliz - concordou ele. - Como eu pude duvidar? Afinal, est nos nossos planos.

O sorriso de Holly no vacilou exatamente, mas ela precisou de um esforo extra para afastar pensamentos desagradveis sobre o futuro.

- Sim, esse nosso plano... Acho que precisamos rev-lo.

Tom franziu o cenho, desconfiado, mas logo o sorriso dele reapareceu, duas vezes mais largo, e Holly soube que ele concordaria com quase qualquer coisa sem reclamar. Ele limpou obedientemente o champanhe que entornara, enquanto ela pegava o bloco de notas no balco da cozinha e o colocava com determinao sobre a mesa. Holly folheou o bloco at encontrar o plano de cinco anos que haviam feito juntos. Ela se sentou, e Tom a acompanhou, ambos encarando a pgina aberta.

- Se incomoda se tivermos um plano adicional? - perguntou ela.

- Um especialmente para mim, por acaso?

Holly se virou para ele, e foi sua vez de parecer desconfiada.

- Um que organize a minha carreira em mais detalhes? - continuou ele. - No parea to surpresa. Acha que no percebi suas insinuaes nada sutis sobre eu no pegar o trabalho de ncora?

- Sei que estou me metendo.  s que... - comeou ela.

- J basta. - Tom riu. - Sei o que voc pensa e penso exatamente do mesmo modo. No  o trabalho certo para mim, mas voc est prestes a ter nosso beb e quero fazer o melhor por vocs.

- Mas no h nada que voc no consiga prover a sua famlia sem precisar aceitar um emprego que vai odiar... E voc vai odiar, Tom, vai...

Tom pousou os dedos delicadamente sobre os lbios da esposa.

- Vou aceitar o emprego de ncora por seis meses e, enquanto isso, vou preparar o terreno para trabalhar como freelancer. Quando o beb nascer, terei um novo plano de carreira pronto. Posso at comear a escrever meu primeiro livro. Voc quer escrever tudo isso, ou quer que eu escreva?

Holly pegou os dedos que estavam em sua boca e beijou-os inocentemente.

-  o seu plano - disse ela com carinho.

- Fico feliz por voc pensar assim. Estava comeando a ter dvidas sobre isso. - O olhar acusador que ele lanou para Holly logo se transformou em um olhar de deslumbramento. - Um beb. Vamos ter um beb - sussurrou Tom.

QUANDO HOLLY NO ESTAVA se metendo nos planos de Tom, havia vrias outras coisas para mant-la ocupada. Sam Peterson se encarregava disso. Por sorte, a Sra. Bronson no armara mais confuso por causa do desastre com a escultura. Afinal, ela conseguira uma obra original de Holly Corrigan e no queria desvaloriz-la desacreditando a artista, principalmente porque a pea lhe sara de graa. Mas, apesar de ter conseguido manter sua reputao intacta, Holly se recusou terminantemente a aceitar qualquer outra encomenda. Ela ainda trabalhava em peas pequenas para a galeria, mas no com a mesma intensidade de antes. Agora, Holly queria passar o maior tempo possvel aproveitando a vida com Tom.

Quando se aventurava em seu ateli, Holly se pegava passando mais tempo apreciando a escultura de me e filho que trabalhando em outras peas. Um teste de gravidez dera a Tom a confirmao que ele achava que ambos precisavam, e havia pequenas mudanas no corpo de Holly que davam pistas da vida que estava crescendo dentro dela. Mas ainda era o beb que ela moldara em argila que tornava Libby real. Holly se sentia reconfortada pela presena da escultura, mas sabia que a pea merecia um lar mais relevante e permanente. Ela decidiu aceitar a sugesto de Sam e doar a escultura para a cidade. Escolheu o Primeiro de Maio - dia da celebrao da fertilidade - como a data perfeita para tornar a escultura pblica, no centro comunitrio da cidade, e Sam recebeu um convite que no poderia recusar. Seria uma noite muito emocionante, e Holly sabia que esse era apenas um dos legados que deixaria.


Tom e Holly estavam se preparando para a entrega oficial da escultura, e, como sempre, Tom levara dez minutos para tomar banho e se arrumar e passara o resto do tempo sentado na cama observando Holly. Ela estava correndo de um lado para o outro como uma louca, experimentando centenas de combinaes de roupa. Estava com quatro meses de gravidez e desabrochando... mas tambm no cabendo mais nas prprias roupas.

- Nada cabe - reclamou ela, tentando puxar um de seus vestidos preferidos por cima da barriguinha proeminente. Era um minivestido vintage, dos anos 1960, com uma estampa chamativa preta e laranja, mas a roupa esticou tanto sobre a barriga dela que ficou curta demais, at para a moda dos anos 1960.

- Est reclamando? - perguntou Tom. Ele mantinha um sorriso permanente no rosto desde que soubera que ela estava grvida.

Holly despiu o vestido e subiu na cama perto dele.

- No, com certeza no estou. - Ela o beijou suavemente e comeou a desabotoar a camisa dele.

A delicadeza do beijo da esposa atingiu Tom como um trem em disparada, e ele gemeu de prazer.

- No vamos sair, no... Vamos ficar aqui... - pediu ele.

- Sem chance - disse Holly, com um sorriso relutante. - Nossos convidados esto esperando e, alm do mais, sua me e seu pai esto l embaixo e podem reclamar do barulho.

Holly tirou a camisa de Tom e saiu da cama. Ento, vestiu a camisa do marido com um legging preto e um cinto, enquanto Tom procurava outra camisa.

Por fim, com a ajuda dos pais dele, Holly conseguiu arrastar um Tom relutante para fora de casa, embora fosse ela quem estivesse apreensiva com a ocasio. Diferentemente de Tom, Holly no estava acostumada aos holofotes e por isso usara a gravidez para convencer o marido a fazer o discurso cerimonial no lugar dela. Mesmo assim, Holly sabia que no conseguiria evitar ser o centro das atenes.

O centro comunitrio estava agradavelmente cheio de moradores da cidade, mais uns seletos convidados de fora. Jocelyn ajudara Tom a preparar as rifas e leiles para arrecadar dinheiro para o fundo comunitrio da cidade e, se isso no fosse o bastante, ela e Lisa tambm haviam preparado comida suficiente para alimentar 5 mil pessoas.

- Voc no deveria ter tido todo esse trabalho - exclamou Tom quando viu o buf montado ao longo de uma das paredes do salo.

- No foi trabalho algum - mentiu Jocelyn. Lisa fez uma careta por trs dela para deixar que todos soubessem que a tia estava mentindo. - Muito bem, admito que vou ficar feliz quando colocar meus ps para cima esta noite. Minhas pernas esto doendo tanto que voc nem acreditaria!

- Pois bem, v se sentar agora mesmo - ordenou Tom, pegando Jocelyn pelo brao e encontrando um assento para ela. - No quero v-la levantando nem mais um dedo esta noite. Se quiser alguma coisa, basta me pedir.

Os olhos de Jocelyn cintilaram de prazer. Era bvio que estava adorando ser paparicada por um homem jovem e bonito.

- Eu aceitaria um drinque, se no for lhe dar muito trabalho - arrulhou ela.

- Com licena, nem pense em fugir de suas obrigaes - interrompeu Holly com um sorriso tenso. - Vamos apresentar logo a escultura e ento poderemos festejar pelo resto da noite. Jocelyn pode muito bem cuidar de si mesma por mais algum tempo.

- Posso ajudar? - Sam havia entrado no salo sem que Holly percebesse.

- Bem na hora! - retrucou Holly, maliciosa. - Pessoal, esse  Sam Peterson, proprietrio de uma galeria de arte e especialista em negociaes. Sam, conhea a famlia - disse ela, animada, e fez rapidamente as apresentaes, deixando Jocelyn para o fim. - Essa  uma dama muito especial - explicou Holly. - E quero que voc tome conta dela. Acho que Jocelyn aceitaria uma bebida refrescante, se voc quiser ser gentil.

- Quem morreu e a fez rainha? - perguntou Sam.

- Ningum, ainda - respondeu Holly, e todos riram,  exceo de Jocelyn.

- Venha, Majestade, vamos ao trabalho. - Foi a vez de Tom tentar tirar Holly dali. - E voc no v a lugar nenhum, no me demorarei - acrescentou ele, piscando para Jocelyn.

No palco, diante da escultura, que ocupava um lugar de honra no salo, Tom divertiu os presentes com vrias piadas  custa de Holly. Foi apenas quando chegou a hora de oferecer a escultura  cidade que a voz dele se tornou sria.

- Sei que Holly no vai gostar que eu diga isso, mas, doze meses atrs, ela no acreditava na maternidade, ao menos no para si mesma. Holly achava que jamais conseguiria ser me, e, para ser honesto, eu mesmo comecei a ter dvidas.

Tom olhou cauteloso para a esposa, sem saber se ela se sentiria confortvel com essas confisses em pblico. Holly sorriu hesitante para ele. Ela seria a primeira a concordar que realmente fora uma jornada difcil.

- Pensei que era eu que estava fazendo uma incrvel jornada de descobertas, viajando pelo mundo, mas olho para a escultura que est atrs de mim e posso ver a incrvel jornada que Holly percorreu. Ela pensou que jamais experimentaria o amor de me, mas o amor est ali, esculpido na pedra para o mundo todo ver. No encontro palavras para dizer o quanto estou orgulhoso dela e mal posso esperar pelo dia em que a imagem que ela criou na pedra se transformar em carne e osso.

Tom olhou para a esposa mais uma vez. Os ltimos doze meses tambm haviam ensinado Holly a chorar, e ela agora chorava como um beb. Foi arrastada na direo do microfone e fungou ao longo de sua lista de agradecimentos. Holly agradeceu a todos pelo amor, pelo apoio e pela pacincia, principalmente a Tom, aos pais dele, a Jocelyn, e tambm a Billy. A lista de agradecimentos continuou at que ela tambm tivesse que agradecer a todos os presentes pela pacincia em ouvi-la. Apesar de suas reservas quanto a fazer um discurso, Holly estava comeando a se sentir confortvel diante do microfone, o que fez com que Tom comeasse a se arrepender de t-lo entregado a ela.

- Jamais poderia imaginar como seria transformadora a experincia de me mudar para o campo. Em muito pouco tempo, passei a ver Fincross como meu lar, o lugar onde fui capaz de criar razes, que espero que se tornem cada vez mais fortes nas geraes que viro. S lamento nunca ter tido a chance de ver Hardmonton Hall em toda a sua glria. Agora, espero que no me achem muito intrometida, mas estava com a esperana de que, talvez, o dinheiro que foi arrecadado nesta noite pudesse ser usado na restaurao dos jardins da manso.  um lugar to fantstico, seria uma pena deix-lo esquecido no passado.

O olhar de Holly pousou em Jocelyn, que a encarava sem compreender. Esse era outro legado que Holly pretendia deixar, para prestar homenagem a Edward e Isabella Hardmonton em particular. O mundo jamais viria a saber os sacrifcios que eles haviam feito, mas Holly sabia muito bem. Tambm havia outra razo para o que ela sugerira. O projeto ajudaria Jocelyn a olhar para o futuro, em vez de ficar to presa ao passado, e ainda satisfaria o seu amor pela jardinagem muito mais do que uma nica jardineira na janela de seu apartamento minsculo.

Como j mantivera a audincia cativa por tempo demais, Holly declarou o buf aberto - o que provocou suspiros de alvio ao redor -, mas avisou s pessoas para que no desaparecessem. Ainda havia vrias atividades para arrecadao de fundos sendo oferecidas. Ela no apenas esperava que todos enfiassem as mos bem fundo nos bolsos como tambm que danassem at o dia clarear.

Antes de se juntarem  multido, Holly se virou para Tom uma ltima vez.

- Obrigada.

- Acho que voc j disse isso. - Tom riu. - E, no caso de eu no haver dito vezes o bastante, obrigado, Holly. Obrigado por me fazer o homem mais feliz e mais sortudo do mundo.

Holly passou os braos pela cintura do marido e descansou a cabea no ombro dele, para que Tom no visse a expresso de tristeza em seus olhos.

- Ei, l est Billy - falou Tom, entusiasmado.

- O segundo amor da sua vida.  impressionante que eu ainda possa confiar em deixar vocs dois sozinhos.

- Voc? Confiar em mim? - disse Tom, incrdulo, quando pararam diante de Billy. - Foi voc que manteve o pobre homem refm no seu ateli por horas.

- Ol, Senhora C, Senhor C - disse Billy, com uma empolgao que rivalizava apenas com a de Tom, enquanto os dois homens trocavam um aperto de mo. - Gostaria de apresentar a vocs minha esposa, Edna. Edna, esses so Holly e Tom - falou ele, tropeando nas palavras.

A mulher parada ao lado de Billy tinha uma aparncia de matrona, com cabelos grisalhos presos em um coque severo e um rosto redondo que combinava com seu corpo igualmente redondo. Ela parecia ser capaz de manter Billy na linha com facilidade apenas com um olhar, mas o sorriso que dirigiu a Tom e Holly foi aberto e caloroso.

- Ah, que prazer finalmente conhec-los! Ouvi falar muito de vocs atravs de Billy e,  claro, vi voc na TV - disse ela para Tom.

- No aparecerei na TV por muito mais tempo, ao menos no no telejornal. Estou pedindo demisso - explicou Tom, com uma bvia sensao de alvio.

- Isso significa que vai parar o projeto do jardim? - perguntou Billy.

- Sem a menor chance. - Tom sorriu. - Vou trabalhar por conta prpria e j tenho alguns projetos engatilhados.

Billy ergueu uma sobrancelha, desconfiado.

- Espero que no v deixar sua esposa sozinha novamente - advertiu ele.

- No,  claro que no. Vou ficar quieto, no se preocupe, e ainda terei tempo para colocar em prtica o projeto para o jardim. Falando nisso, podemos dar uma palavrinha sobre a prxima semana? - perguntou Tom.

- Voc se incomoda, meu amor? - perguntou Billy timidamente, olhando para Edna e esperando a aprovao da esposa.

- Mas seja rpido - avisou ela.

Assim que os dois homens estavam fora de alcance, Holly no conseguiu mais reprimir uma gargalhada.

- Posso ver quem usa cala na sua casa. E Billy fica por a dando a impresso de que  o mandachuva das redondezas.

Edna acompanhou a gargalhada de Holly.

-  preciso ter mo firme com esse homem ou s Deus sabe o que ele aprontaria. Na verdade, fico feliz por poder falar com voc a ss - confessou Edna. - Billy vai insistir em decorar o quarto do beb para voc. Ele quer fazer isso em agradecimento a todo o trabalho que vocs vm lhe dando.

-  mesmo? Que gentil da parte dele - disse Holly, sinceramente emocionada com a generosidade de Billy.

- Mas voc no se incomoda? - perguntou Edna. -  que ele realmente tem uma queda pela casa da guarda e por seus moradores, e passaria o tempo todo l se vocs deixassem. Por favor, me avise se ele se tornar inconveniente, e eu lhe darei um sermo.

- Billy? Inconveniente? - perguntou Holly. Talvez ela houvesse pensado nele como um aborrecimento em algum momento, mas conhecia Billy melhor agora. - Ele tomava conta de mim quando Tom estava fora, e fico muito grata por isso.

- Nunca tivemos filhos, e juro que ele adotaria voc e Tom se pudesse.

- Ah, mas ele est preparado para ser av? - perguntou Holly, dando um tapinha carinhoso na barriga. As duas mulheres caram de novo na gargalhada e ainda estavam rindo quando os homens voltaram. Holly insistiu que Billy e Edna se juntassem  sua roda de convidados para que ela pudesse passar o resto da noite com sua famlia crescente.

A noite foi um enorme sucesso, e Holly nunca havia se sentido to viva. Ela s lamentava que Jocelyn houvesse partido logo aps o buf ser devorado. A velha senhora seria a ltima a admitir, mas os preparativos para a noite a haviam deixado exausta, por isso Holly no tentou convenc-la a ficar mais tempo.

Tom e Holly foram os ltimos a partir e, embora Jack e Diane houvessem lhes oferecido uma carona, os dois estavam determinados a fazer a noite durar o mximo possvel e disseram que voltariam a p para casa. A lua cheia parecia olhar por cima dos ombros deles e apontava o caminho, enquanto os dois passavam pelos campos. Centenas de narcisos pareciam balanar a cabea em aprovao sob a brisa suave, e Holly se permitiu um daqueles raros momentos em que se sentia triste e apenas um pouco assustada pelo que estava deixando para trs.

- No consigo mais continuar - reclamou Tom, e sentou-se na relva. - Dancei at me acabar, e meus ps esto me matando.

- Com licena, eu sou a grvida aqui. Era eu que deveria estar com os ps inchados.

Tom puxou-a para que se sentasse na grama com ele.

- Devem ser sintomas de gravidez simptica - concluiu ele.

- Sua nica simpatia foi pelo sofrimento de Sam. - Holly riu.

- Bem, algum tinha que danar com ele. O homem ficou arrasado quando percebeu que os moradores da cidade no iriam danar quadrilha.

- Hmmm, voc arrasou na pista de dana.

Apesar da estranha imagem que Sam tinha do que seria a vida em uma cidade rural, ele fez sucesso com os moradores, e Holly desconfiava que ele logo estaria de volta. Sam iria passar a noite em um dos pubs, e estava compenetrado em uma conversa com o proprietrio de l na ltima vez em que Holly o vira.

Tom e Holly deitaram na relva e olharam para a noite estrelada.

- Olhe para aquela lua. Voc jamais veria uma lua to brilhante em Londres.

- Nem tudo  o que parece ser - respondeu Holly. - O brilho da lua  s um reflexo da luz do sol. No tem nenhum poder prprio.

- Diga isso aos lobisomens e aos lunticos - disse Tom, em uma voz arrastada de preguia.

- Acho que ela tambm me deixou louca por um tempo, mas ento percebi que meu destino estava em minhas prprias mos.

Tom franziu o cenho e olhou para a esposa.

- Voc tambm bebeu?

- No - disse Holly, com um sorriso triste. - Mas voc com certeza bebeu.

- Amo voc, Senhora Corrigan - sussurrou ele.

Holly se lembrou do Tom do futuro, devastado pelo luto, que acreditava que no dissera vezes bastantes que a amava.

- Sei que voc me ama. Mesmo quando voc no diz, sei que me ama. Jamais pense que no me diz isso o bastante, porque no  verdade. Toda vez que voc olha para mim ou fala comigo, ou pensa em mim, sei que me ama. Lembre-se disso.

Tom sorriu para ela. Holly esperava que ele fosse capaz de lembrar daquilo depois que passasse o efeito do lcool, mas no podia impedir todo o sofrimento e toda a culpa que esperavam por Tom mais  frente. Ele logo teria que encarar a dor da perda dela, e Holly no tinha como evitar isso. Tudo o que podia fazer era se certificar de que ele teria boas lembranas suficientes para preencher o vazio que ela sabia que deixaria na vida dele.

Holly mordeu o lbio enquanto tentava conter as lgrimas. No queria abandonar Tom. Queria ficar com ele para sempre e queria ver Libby crescer. Mas ela sufocou as lgrimas, respirou fundo e sentiu um leve ondular na barriga. Holly prendeu a respirao, e seu corpo ficou tenso. Era como o bater suave das asas de uma borboleta.

Tom sentiu que havia alguma coisa acontecendo e se inclinou na direo da esposa.

- Voc est bem? - perguntou ele, parecendo mais sbrio do que estivera a noite toda.

- Acho que acabo de sentir o beb se mexer - disse ela em um arquejo.

Tom colocou a mo sobre a barriga da esposa, e ela guiou os dedos dele para o ponto onde acabara de sentir Libby se mover dentro dela pela primeira vez.

- No consigo sentir nada - disse Tom, mal-humorado.

- Voc ter o resto de sua vida para conhec-la, seja paciente. - Tom j estava se acostumando a ouvir Holly sempre se referir ao beb como menina, mas ainda tinha esperanas de que pudesse ser um menino.

Tom se inclinou e apoiou delicadamente a cabea sobre a barriga de Holly.

-  isso - disse ele.

-  isso o qu?

- Esse  o momento que voc me disse para procurar. O momento em que posso olhar para a minha vida e pensar:  o bastante. Sei exatamente o que tenho e estou feliz. Estou completo e feliz.

O corao de Holly falhou uma batida e uma lgrima escorreu por seu rosto.

- Sim,  isso - concordou ela. Ento Holly ergueu os olhos para a lua e percebeu que no precisava desejar mais nada. Tinha o marido e tinha Libby crescendo dentro dela, e teria ambos consigo at o dia em que morresse.






EPLOGO

O dia 29 de setembro de 2010 era um bom dia para morrer. O cu da manh estava limpo e cristalino, com um azul que lembrava o mar. Uma pequena aglomerao se reunira na frente da casa da guarda, todos prontos para desejar sorte aos futuros pais. Billy e seus homens estiveram trabalhando no jardim em etapas e haviam reaparecido naquela semana para completar o trabalho.

- Com alguma sorte, terminaremos o trabalho antes de vocs voltarem do hospital - disse Billy a Holly.

- No v desejar que ela tenha um longo trabalho de parto - brincou Tom. Ele estava sorrindo, animado, seu estado de esprito em contraste com o de Holly, que carregava um fardo muito mais pesado do que a filha que ainda no nascera.

- Voc vai ficar bem - acalmou-a Jocelyn, dando-lhe um abrao maternal.

- Estou assustada - disse Holly a ela em um sussurro, para que ningum mais pudesse ouvir. - No estou pronta para deix-los.

- Vai ficar tudo bem - insistiu Jocelyn, e Holly no discutiu, embora seus olhos dissessem  amiga que ela sabia que isso era mentira.

Jocelyn no precisara do telefonema urgente de Tom para lhe dizer que Holly estava em trabalho de parto. Ela j sabia a data em que Libby nasceria, e se preparara para esse momento com um plano to detalhado quanto o da prpria Holly.

Holly ficou paralisada de dor quando outra contrao atravessou seu ventre.

- Chega de conversa, precisamos levar voc para o hospital - insistiu Tom, afastando Holly de todos os que lhe desejavam boa sorte e levando-a na direo do carro.

- Amo voc como a me que eu nunca tive - disse Holly a Jocelyn, o pnico crescendo em sua voz. - No sei como comear a agradecer por tudo o que voc fez e por tudo o que vai fazer. No sei como teria conseguido passar por tudo isso sem voc.

- Ah, Holly, tambm amo voc. E fico muito feliz por voc ter me dado a chance de ser uma me decente de novo. - As duas mulheres estavam  beira das lgrimas, mas nenhuma delas queria ser a primeira a chorar.

- Ei, vocs duas, parece que nunca mais vo voltar a se ver. Vamos andando - disse Tom, apressando-as.

Holly continuou a olhar para trs enquanto seguia em seu passo cambaleante de grvida at entrar no carro. Jocelyn ficou observando-a partir, e foi s quando o carro sumiu de vista que ela permitiu que as lgrimas corressem. Mesmo assim, apenas por um breve instante. Havia muito a ser feito.

- Voc me faria um favor? - pediu Jocelyn a Billy, erguendo-se de modo a ficar o mais alta que seus ossos doloridos permitissem. - Tenho algumas coisas para fazer aqui, mas depois voc seria um amor e me daria uma carona para casa? Acho que hoje no vou conseguir fazer o caminho de volta a p.

- Voc vai querer uma carona? Acho que  a primeira vez, mas fico feliz em servi-la. - Billy sorriu antes que uma ruga de preocupao marcasse seu rosto. - Voc est bem, Joss?

- Vou ficar bem - assegurou Jocelyn, com uma piscadela.

- timo, no quero a minha garota favorita com rugas de preocupao.

- Acho que est um pouco tarde para isso - disse ela, antes de voltar sua ateno para a casa da guarda. - Esse lugar viu muita histria, no viu?

Ambos ergueram o rosto para a fachada imponente, que escondia seus anos e seus segredos por trs da madeira recm-pintada e de seus canteiros de madressilva.

Billy ergueu uma sobrancelha.

- Algumas coisas  melhor deixar no passado.

- Algumas pessoas tambm - acrescentou Jocelyn solenemente.

-  por isso que hoje  um dia to especial. Est na hora de riscar o passado e olhar para o futuro - falou ele com um brilho de empolgao nos olhos.

- Eu no poderia ter dito melhor, Billy. Agora chega de tagarelar, tenho trabalho a fazer, e voc tambm - disse Jocelyn, e o mandou correndo de volta para o jardim.

Holly dera um molho de chaves a Jocelyn e deixara instrues para que a amiga se certificasse de que estaria tudo pronto para quando Tom voltasse para casa com a filha recm-nascida. Holly estocara comida suficiente para alimentar um exrcito.

Jocelyn entrou p ante p na casa vazia, com medo de acordar os fantasmas de seu passado. Ela no conseguiu resistir  vontade de dar uma espiada no quarto do beb recm-decorado, mas suas juntas estalavam quase tanto quanto as escadas. Quando finalmente chegou ao topo, a dor surda em suas costas havia se transformado em uma dor excruciante, apesar dos analgsicos, e ela precisou parar para recuperar o flego antes de entrar no quarto. O bero vazio estava no centro do cmodo, esperando pela chegada de Libby. Quando chegou mais perto, Jocelyn viu que o bero no estava completamente vazio. Dentro dele estava a boneca de pano sobre a qual Holly lhe contara. Holly dormira com a boneca durante a ltima semana para que ela absorvesse seu cheiro - um ltimo presente, que criaria um vnculo tangvel entre me e filha.

Enquanto voltava a descer lentamente as escadas, Jocelyn tentava no relembrar a poca em que chamara aquela casa de lar. Ela at conseguia afastar os fantasmas, mas a culpa que a seguira porta afora no dia em que abandonara Harry provara ser um pouco mais difcil de se livrar. Apesar do perodo de luto que a aguardava mais  frente, Jocelyn sentiu que aquela culpa, que a atormentara por dcadas, finalmente comeava a ceder.

Foi na cozinha que se sentiu mais  vontade. Ali, onde colecionara boas lembranas nos ltimos 18 meses. Jocelyn deveria estar comeando a fazer um ensopado suculento para a volta de Tom, mas ela no teria tempo para cozinhar nesse dia, o tempo era vital. Jocelyn desembrulhou rapidamente uma variedade de tortas e bolos que pegara na despensa da casa de ch a caminho da casa da guarda, e se permitiu um breve olhar atravs da janela, para o relgio lunar. Os nicos itens restantes na sua sacola de compras eram um envelope branco, o dirio e a caixa de madeira.

Jocelyn pegou a sacola de compras e foi para o ateli de Holly, que tambm guardava seus prprios fantasmas. J fazia muito tempo desde que ali funcionara a oficina do marido dela. Mesmo assim, e apesar da reforma que Holly fizera, Jocelyn sentia a presena de Harry ali mais do que em qualquer outro lugar.

Jocelyn colocou a caixa de madeira e o dirio sobre a bancada de trabalho de Holly, onde seriam facilmente encontrados. Olhando pensativamente para a caixa, ela tamborilou na tampa com um dedo que j comeava a se tornar retorcido pela artrite.

- Estou pronta para fazer a barganha - disse ela ao mecanismo do relgio lunar.

Com cuidado, Jocelyn colocou o envelope em cima da caixa. A carta era o equivalente a fazer um pacto com o diabo mas, graas s maravilhas do relgio lunar, era o pacto que Jocelyn sabia que j havia sido selado com seu destino.

Ela trancou o ateli e a casa, antes de convocar Billy para lev-la de volta ao seu apartamento. A sensao de alvio que sentia era quase uma euforia, enquanto se afastava da casa da guarda, deixando para trs o restante de sua culpa. Agora no demoraria muito, pensou consigo mesma enquanto imaginava a cena que a aguardava em casa. A pequena mesa de bistr estava arrumada, esperando seu retorno. As plulas, a garrafa de vodca e as fotografias das pessoas que amava. Aqueles seriam os ltimos rostos que veria. A conta estava prestes a ser fechada.

Minha querida Holly,

Espero que neste momento voc esteja imaginando o que diabos est acontecendo, ou talvez seja mais provvel que esteja se perguntando por que a cidade est de luto pela morte de uma velha tola no lugar de uma jovem me.

O nascimento de um filho j  um choque para qualquer mulher, mas desconfio que voc v demorar um pouco mais a absorver esse impacto e se acomodar em sua nova vida. Voc sentir uma mistura de raiva e culpa. Vai pensar que roubou o direito de algum  vida. Gostaria de ter as palavras certas para impedir que se sinta assim, mas tudo o que posso realmente dizer : no pense assim! Perdi tempo demais da minha vida me sentindo culpada, e no quero isso para voc. Ambas sabemos que o relgio lunar exige uma vida pela outra, mas a vida a ser sacrificada no deveria ser a sua, a de Libby ou a de Tom. Ento, por que no a minha? Realmente quero passar meus ltimos anos acamada enquanto essas minhas juntas se travam? Para mim, isso parece um destino pior do que a morte.

Olho para a lua cheia, e ela me lembra minha prpria vida. A lua rouba sua luz do sol de ontem, e foi assim que me senti por muito tempo. Eu roubei a vida de algum, e minha penitncia foi ser deixada com uma vida que no brilhava o bastante, ao menos no at eu conhecer voc.

Seu destino vai ser diferente porque este  o meu presente para voc, e o estou dando de bom grado. E no deve ser nenhuma surpresa para voc que o relgio lunar tenha tido seu papel em minha barganha. Na verdade, estou sentada na mesa da sua cozinha enquanto escrevo esta carta.  a noite da entrega da escultura ao centro comunitrio, e voc e Tom sem dvida ainda esto se divertindo na festa. A lua cheia est brilhando atravs da janela, piscando para mim de vez em quando.

Gostaria que voc pudesse me ver, mas lhe asseguro que estou com o maior sorriso no rosto que voc puder imaginar. Esta noite usei o relgio lunar uma ltima vez e tambm vi o futuro como voc j o viu, com Tom sofrendo pela morte da esposa, mas apenas por um momento. Eu j sabia que estava preparada para sacrificar a minha vida pela sua, mas ambas sabemos que o relgio lunar tem suas regras. A vida a ser sacrificada tem que ser parte de um crculo familiar para que a conta feche. D outra olhada em sua escultura, Holly.  voc segurando Libby, mas a base esculpida no mrmore negro, o suporte materno que voc nunca teve quando criana, quero que seja eu. J lhe disse vrias vezes que voc  como uma filha para mim, e, felizmente, esta noite o relgio lunar tambm viu isso.

Assim que pousei os olhos em Libby, aquela criana to doce que perdera a me, fiquei ainda mais firme em minha deciso, e o relgio lunar aceitou a minha oferta. Minha vida por sua vida. Uma me sacrificando a prpria vida pela vida da filha. Isso lhe parece familiar? Assim que soube que poderia fazer a troca e que a faria, um novo futuro se descortinou diante de meus olhos, e pude ver o que ambas pensvamos ser um sonho impossvel. Ah, Holly, foi maravilhoso ver vocs trs juntos, e estavam to felizes!  claro que voc tentou me dissuadir de colocar meu plano em ao, mas sou uma velha teimosa. Suas palavras, no minhas.

A nica coisa em que concordamos  que h algumas informaes que voc deve saber para ajud-la a dar os primeiros passos nesse seu novo caminho com mais facilidade. Sei que vai ficar preocupada com os anos que viro - voc mesma j me disse isso. De certo modo, voc est certa em se preocupar com esse ato de equilbrio que o relgio exige. Gostaria de suavizar o golpe, mas as circunstncias no permitem. No haver outros filhos para voc e Tom. A Holly que encontrei queria que voc soubesse disso, nem que fosse para impedir que tivesse falsas esperanas. Voc vai aceitar esse fato, mas precisa dividir o fardo dessa informao, mais precisamente com Tom. No desperdice seus anos se preocupando com a possibilidade de ele ficar tentado a usar o relgio lunar, e que assim o relgio continue a atrapalhar sua vida. Tom no far isso. Ele ir apoi-la e ajud-la, principalmente na parte seguinte do que  evidentemente um plano que seu futuro estabeleceu.

Voc ainda vai levar adiante a restaurao dos jardins de Hardmonton Hall, e  l que Tom vai ajud-la a descobrir o paradeiro de Lucas Hardmonton. Lucas merece saber exatamente o que aconteceu com a famlia dele e o sacrifcio que fizeram. Voc no deve hesitar em dar a ele o dirio, e devolver o mecanismo do relgio lunar ao seu local original, e tambm no deve perder tempo debatendo consigo mesma se deve ou no destruir o mecanismo. Voc no vai destru-lo, nenhuma de ns poderia fazer isso, no ? Vai devolver o mecanismo do relgio aos Hardmonton, e essa ser a coisa certa a fazer, para voc e para Lucas. E lembre-se de manter Billy sempre atento, embora, pelas fotos que eu vi, Billy v mesmo fazer um excelente trabalho na restaurao do jardim. E, quando chegar a hora certa, diga a Billy que eu ficaria satisfeita com o resultado, mas no deixe que o elogio suba  cabea dele.

Bem, j disse o bastante. Recuso-me a dar mais informaes sobre o seu futuro. A vida  para viver, e voc deve comear a viver cada dia como se fosse uma pgina em branco, embora, de vez em quando, talvez perceba um brilho eventual do sol de ontem. Tudo o que eu lhe peo em retribuio  que seja gentil com Paul. Ele estava destinado a lamentar a morte da me, esse momento s chegou um pouco mais tarde do que o esperado, s isso.

Poderia ficar sentada aqui escrevendo para sempre, mas realmente preciso parar de divagar. No se preocupe; na noite do aniversrio de cinco anos de Libby, com a lua cheia nos observando, teremos nossa ltima despedida.

At l, ento!

Meu amor e gratido eternos,

Jocelyn






AGRADECIMENTOS

Foi por causa de Nathan Valentine que comecei a escrever. Ele  minha inspirao, e este livro  apenas uma pequena parte do seu legado. Fui abenoada por t-lo em minha vida, mas trs anos e dez meses no so nem de perto o bastante. Meu garotinho me ensinou mais do que eu jamais vou ensinar a ele, e foram algumas lies difceis de aprender. Primeiro e antes de tudo, ele me ensinou a agarrar a felicidade onde eu puder e a tentar mant-la comigo, a apreciar o que tenho quando tenho. Por isso espero que ele no se incomode por meu primeiro agradecimento ser para a minha filha, Jessica Valentine. Sem ela eu estaria perdida. Jessica est crescendo e se transformando em uma jovem linda, fantstica, e tem feito de mim uma me muito, muito orgulhosa.

Tenho tantas outras pessoas a agradecer, tantos amigos e familiares que me ajudaram e me apoiaram ao longo dos anos. No tenho como dar o nome de todos, mas, por favor, saibam que ainda estou de p por causa de vocs. Um agradecimento especial  minha me, Mary Hayes, por ser me dos meus filhos tanto quanto  minha me. Agradeo tambm a Chris Valentine e Jonathan Hayes, pelo encorajamento a que eu corresse atrs dos meus sonhos. E ainda a Lynn e Mick Jones - algumas pessoas so abenoadas por terem algum a quem podem chamar sua rocha, e eu tenho duas.

Um agradecimento imenso ao meu agente, Luigi Bonomi, pela viso, pelo encorajamento e, acima de tudo, pela coragem de desconstruir meu original e depois reconstru-lo. Outro grande agradecimento a todos da HarperCollins, por assumirem meu sonho e darem asas a ele, especialmente Sarah Ritherdon e Hana Osman, por me orientarem com tanto carinho e apoio atravs desse novo mundo das publicaes, onde me encontrei.

E, finalmente, obrigada a vocs, as Rainbow Mums, as mes do arco-ris (vocs sabem quem so), que aprenderam a ser corajosas por seus filhos e fortes para ajudarem umas s outras. Este livro  em memria de nossos pequenos heris: Conor, Connor, Jordan, James e Nathan.



ENTREVISTA COM A AUTORA 

A ESCOLHA DO CORAO  SEU PRIMEIRO ROMANCE. SEMPRE QUIS SER ESCRITORA?

Acho que o desejo de escrever sempre existiu, e eu simplesmente no acreditava em mim mesma o bastante para ir em frente e coloc-lo em prtica. Tinha vrias ideias de histrias e uma imaginao hiperativa, mas o tempo passou e eu cheguei a um ponto da minha vida em que achei que, se realmente quisesse ser escritora, j teria feito alguma coisa at ali. Perder meu filho, Nathan, mudou tudo. Assim que ele foi diagnosticado com leucemia, descobri que era muito difcil falar a respeito disso, no apenas porque eu no queria falar, mas tambm porque, fisicamente, as palavras no conseguiam sair, e foi ento que comecei a escrever. A poesia, em particular, se tornou um modo de expressar meus sentimentos, e eu tambm mantinha um dirio on-line.

Ento, quando ele morreu, no apenas continuei como passei a escrever mais. Antes de tudo, queria escrever sobre Nathan, e ento, quando estava certa de que havia preservado cada lembrana preciosa, percebi que no queria parar de escrever. Em algum momento ao longo do caminho, descobri o sonho de me tornar escritora e tenho que agradecer a Nathan por isso.

QUANDO FOI A PRIMEIRA VEZ QUE TEVE A IDEIA DO RELGIO LUNAR?

Quando estou escrevendo, adoro esses momentos inesperados de inspirao que aparecem do nada e ligam todos os pontos, como em um passe de mgica. O relgio lunar foi um desses casos. No tinha uma ideia exata de como seria a aparncia do relgio lunar ou de como ele funcionaria exatamente, mesmo quando o mencionei no primeiro captulo. Sabia que precisava de alguma coisa que detivesse um poder mstico e que pudesse transportar Holly para o futuro, e me pareceu certo deixar que as cenas de viagem no tempo acontecessem no meio da noite; portanto, a ligao com a lua cheia foi um passo natural. Foi s quando pensei no modo como a luz do Sol  refletida na lua, e consequentemente sobre a superfcie do relgio que eu estava tentando criar, que percebi que, se a luz podia ser refletida, por que o tempo tambm no poderia? Tudo se encaixou, e assim nasceu o relgio lunar.

Demorei muito mais para desenvolver as regras que governam o relgio. Quanto mais eu pensava sobre como Holly deveria ser capaz de influenciar o prprio futuro, mais eu percebia que estava dando oportunidades demais a ela de interferir nesse mesmo futuro. Criei as regras para evitar que a histria se transformasse em um caos, e a regra de uma vida s poder ser trocada por outra foi de especial importncia, porque garantiu que haveria apenas duas opes para Holly: a sua vida ou a de Libby.

AS IMAGENS CRIADAS AQUI SO MUITO VVIDAS. VOC SE BASEOU EM UM LUGAR REAL PARA CRIAR A CASA E A CIDADE?

A casa da guarda e a cidade so apenas produto da minha imaginao. A casa da guarda  baseada nas muitas casas espalhadas pela Inglaterra que acabaram, por algum motivo, separadas das grandes propriedades s quais um dia pertenceram. Quanto  cidade rural, acredito que sua inspirao venha dos vrios programas sobre casas e decorao a que assisto na TV.

No entanto, a sensao que passa a casa da guarda, ou ao menos seu potencial para ser uma casa perfeita para a famlia de Holly e Tom, foi baseada em um lugar real, a casa dos meus avs. Cresci em uma casa de condomnio em Liverpool, e, embora meus avs morassem perto de mim, a casa deles parecia outro mundo. Eles moravam em uma casa de dois andares tradicional que tinha algo que a minha casa no tinha: um quintal. Algumas das minhas lembranas de infncia favoritas tm aquele jardim como cenrio, e as tenho vividamente - entrar sorrateiramente no galpo do meu av, cheio de ferramentas de carpintaria, colher frutas para a minha av fazer geleias e tortas, e passar horas interminveis no balano que ficava pendurado em uma macieira que cresceu de uma semente que minha me plantou quando era criana. Era um lugar idlico que podia ter suas razes na cidade grande, mas poderia ser facilmente transportado para o campo.

ESCREVER UM LIVRO DEVE ENVOLVER MUITO PLANEJAMENTO E VRIAS VERSES DA HISTRIA. COMO SE ORGANIZOU PARA ESCREVER A ESCOLHA DO CORAO?

A premissa para o romance estava clara em minha mente desde o princpio. Eu estava determinada a costurar uma histria que levasse o leitor at o momento crucial em que Holly percebe que ir desistir de sua vida pela filha.  claro que, com a viagem no tempo envolvida, tive que planejar tudo com muito cuidado para conseguir manter presente e futuro sincronizados o tempo todo. Mas nem tudo foi planejado desde o incio. A personagem de Jocelyn, por exemplo, foi com certeza um aspecto da histria que ganhou vida depois que comecei a escrever, e outras ideias apareceram no meio do caminho. O plano que eu criei estabeleceu os principais pontos da histria, mas no fiquei escrava dele.

Recebi sugestes e ideias do meu agente e da minha editora quando comecei a reeditar o livro e acatei essas ideias, sabendo que cada vez que reescrevia a histria estava tornando-a mais forte, mais caprichada. No que reescrever seja um processo fcil; longe disso. A pior parte  descosturar tramas diferentes e ento torcer para conseguir reat-las novamente. Foi muito mais estressante do que eu poderia imaginar, e tenho medo de pensar como minha filha, Jess, conseguiu me aguentar durante esse perodo. Mas ento, quando a inspirao apareceu e eu consegui reorganizar a histria, senti que sem dvida estava valendo o sofrimento.

QUAL  A PRIMEIRA COISA QUE SE LEMBRA DE TER ESCRITO?

Como mencionei, no comecei a escrever, ao menos no criativamente, at que Nathan ficasse doente. Antes disso, meus escritos eram limitados a redigir polticas e procedimentos como parte do meu trabalho, ou escrever versinhos engraados sobre a famlia para colocarmos dentro de nossos biscoitos caseiros de Natal. Quando meu desejo de escrever um livro ganhou fora, depois da morte de Nathan, decidi fazer um curso de escrita criativa, pois queria ter certeza de que faria justia  histria que estava escrevendo sobre a vida dele. Quando terminei o dirio, comecei a escrever contos, para no perder a prtica. Minha primeira tentativa de um manuscrito mais longo de fico foi, na verdade, uma histria infantil, e era uma dessas ideias que eu mantivera guardadas por anos, mas nunca sentara para escrever. A histria deveria ter trs volumes, e eu estava trabalhando no segundo livro quando a ideia para A escolha do corao comeou a criar razes e eu tive que largar tudo e comear a escrev-la.

VOC SE IDENTIFICA COM ALGUM DOS PERSONAGENS? CASO A RESPOSTA SEJA POSITIVA, QUAL DELES E POR QU?

De vrias maneiras, acho que me identifico mais com Holly. Em particular, com o fato de ser ao mesmo tempo muito organizada, disciplinada e tambm criativa. Essas caractersticas muitas vezes competem entre si, mas, quando se tem um livro para escrever e um prazo para cumprir, isso pode funcionar a seu favor. Assim como Holly, tambm gosto de arte e, embora no seja nem de perto to boa quanto outros membros da famlia, desenho de vez em quando. Uma das ideias iniciais que Holly teve para a encomenda da Sra. Bronson foi baseada em algo que desenhei quando Nathan era beb, uma forma circular com trs figuras que representavam a mim e a meus dois filhos.

No entanto, ao contrrio de Holly, no sou de fazer planos e jamais teria a ideia de fazer um plano de cinco anos, no porque eu seja espontnea demais como Tom, mas porque no conto que as coisas vo acontecer at elas realmente terem acontecido, ao menos no as coisas boas... Ainda fico me beliscando para acreditar que consegui publicar meu primeiro romance.

VOC ACREDITA NO DESTINO E QUE TODOS NASCERAM COM O FUTURO TRAADO?

Como uma me que perdeu um filho, sei que h muitos e se, e poderia facilmente me torturar a respeito de cada deciso que tomei durante a doena de Nathan. Por isso, seria quase reconfortante acreditar, assim como Jocelyn, que o mundo  menos catico do que imaginamos, que no h decises certas ou erradas, apenas diferentes caminhos que levam ao mesmo lugar. Mas, na verdade, acho que a vida , sim, catica e com certeza no defenderia a tese de que se deve aceitar o destino e desistir sem lutar. Meu filho no desistiu.

VOC SEMPRE SOUBE COMO TERMINARIA A ESCOLHA DO CORAO?

Vou fazer uma confisso. Sim, mas esse final no foi o que acabei escrevendo. A escolha do corao comea quase no fim da histria, com Holly prestes a entrar em trabalho de parto, sabendo que vai morrer, e aqueles pargrafos de abertura no so muito diferentes do primeiro rascunho do livro. Era daquele jeito que eu pretendia terminar a histria quando comecei a escrever o primeiro captulo. O sacrifcio de Holly satisfazia minha prpria frustrao, e eu no tinha dvidas acerca de se ela conseguiria fazer o sacrifcio que pretendia. Foi s quando comecei a escrever mais sobre Jocelyn, quando a personagem comeou a tomar corpo e ganhou vida prpria, e ento, em um desses momentos mgicos de inspirao, eu percebi subitamente que havia criado um papel crucial para ela na histria. No acho que possa assumir qualquer crdito pela salvao de Holly. Sem dvida, quem fez isso foi Jocelyn.

